A década passada foi a mais quente já registrada

Os últimos 10 anos mostram que as mudanças climáticas já estão acontecendo, segundo novo relatório da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos.

Friday, January 17, 2020,
Por Alejandra Borunda
A fumaça da queima de carvão toma a atmosfera. Da reportagem da National Geographic de outubro ...
A fumaça da queima de carvão toma a atmosfera. Da reportagem da National Geographic de outubro de 2011, “Como seria se todo o gelo da Terra derretesse.”
Foto de Ira Block, Nat Geo Image Collection

Um relatório publicado pela NOAA e pela Nasa confirmou que a década de 2010 a 2019 foi a mais quente desde o início dos registros, há 140 anos. A análise também revelou que 2019 foi o segundo ano mais quente já registrado e que as temperaturas dos oceanos estão mais altas do que nunca. Os cientistas responsáveis pelo relatório indicam as emissões de dióxido de carbono e outras emissões de gases de efeito estufa como causas do aquecimento global incessante.

Essas temperaturas mais altas contribuem para o desencadeamento de uma série de desastres naturais em um momento em que o mundo finalmente é confrontado com a realidade das mudanças climáticas. A pesquisa é a mais recente a confirmar que as condições podem piorar, a menos que sejam tomadas medidas para reduzir as emissões.

Nesta década, muitas pessoas em todo o mundo despertaram para uma realidade sombria: as mudanças climáticas já chegaram, estão em curso neste momento e podem, com bastante facilidade, ficar muito piores.

Os últimos 10 anos foram marcados por uma série de fenômenos mortais, dramáticos e devastadores. Furacões como o Sandy, o Maria e o Harvey mudaram profundamente as comunidades as quais devastaram, deixando para trás feridas ainda não cicatrizadas. Ondas de calor cada vez mais intensas castigaram comunidades em todo o mundo. Incêndios florestais destruíram milhares de hectares instantaneamente.

Recordes climáticos foram quebrados por toda parte. O ano com a atmosfera do planeta mais quente da história? Recorde quebrado. O ano com os oceanos mais quentes da história? Recorde também quebrado. Dimensões insignificantes e minúsculas nunca antes observadas em fragmentos de gelo marinho no Ártico? Uma sucessão de recordes quebrados.

É indiscutível a força responsável pelas mudanças. O aumento incessante das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera, causado sobretudo pela queima de combustíveis fósseis pelo homem está aprisionando calor extra próximo à superfície da Terra. Com isso, a Terra é aquecida como um todo. O resultado é nítido — um planeta mais quente — e especialmente complexo, à medida que as mudanças se espalham pelos oceanos, atmosfera, solo, rochas, árvores e todos os seres vivos do planeta.

“Nossa, essa década foi terrível”, afirma Leah Stokes, especialista em políticas climáticas da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. “Vamos fazer com que a próxima seja menos terrível.”

Batemos todos os recordes

A última década foi a mais quente já registrada e soou o sinal de alerta para quem prestou atenção. Em média, as temperaturas anuais ao longo dos anos oscilavam pouco menos de 1oC e agora estão mais altas do que já estiveram entre 1950 e 1980; somente os últimos cinco anos foram os mais quentes já registrados. Até agora, tudo indica que 2019 será o segundo ano mais quente de todos os tempos, cerca de 0,94oC acima dessa média em longo prazo.

Pode não parecer muito, mas seus efeitos são imensos. Cada pequena mudança na média aumenta a probabilidade de fenômenos quentes extremos. E mudanças bem discretas na quantidade total de calor armazenada pelos oceanos, pela atmosfera e pela água podem ter efeitos colossais sobre o planeta.

Por exemplo, os cientistas acreditam que o planeta era apenas cerca de 6oC mais frio, em média, durante a última era do gelo há aproximadamente 20 mil anos. Contudo, naquela época, uma enorme camada de gelo recobria a América do Norte, estendendo-se até o sul de Long Island. O mundo tinha um aspecto bastante diferente e houve apenas uma mudança discreta na temperatura média.

As temperaturas máximas também estão em elevação — exatamente conforme previsto pelos cientistas. Com o aumento da média, aumenta também a propensão a ondas de calor extremo. É evidente que os “picos” de calor ficaram cada vez mais frequentes na última década e esse padrão só tende a se intensificar.

Há outro aspecto importante no aquecimento em geral, que é o fato de não ocorrer por igual ao longo do ano ou de períodosOs invernos estão aquecendo mais rápido do que os verões. A variação nas temperaturas mínimas entre 2009 e 2018 (os últimos dez anos em que temos registros; os registros de 2019 ainda não foram compilados) foi de cerca de 0,74oC. Com invernos mais amenos, ocorre uma infinidade de mudanças perturbadoras que reformulam completamente o ecossistema: primaveras precoces provocam uma diferença na época da floração e na presença de polinizadores. A maior quantidade de chuva associada a menos neve e a presença de neve derretida antes do previsto afetam a disponibilidade de água durante o verão e o outono. Lagos não congelamhá degelo no permafrost e água líquida onde deveria haver gelo.

Mudanças igualmente alarmantes e ainda mais notáveis ficaram evidentes nos oceanos. Apesar da variação anual nas temperaturas atmosféricas em resposta a grandes padrões como o El Niño (o fenômeno climático recorrente de aquecimento das águas do Pacífico), o oceano faz uma uniformização por meio da incorporação de todo o aquecimento acumulado nos últimos anos. O oceano responde de forma mais lenta e mais regular às mudanças ocorridas acima de sua superfície, e é evidente o que ele nos revela.

101 | Mudanças Climáticas
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O oceano absorveu mais de 90% de todo o calor extra retido pelas mudanças climáticas causadas pelo homem e esses sinais já são notados em suas temperaturas de superfície. Ondas de calor marinhas, assim como as ondas de calor que sentimos em terra, e mudanças maiores — aquelas que podem afetar os padrões climáticos em todo o planeta — podem chegar antes do esperado.

Sinais de apuro

O gelo da Terra serviu como o indicativo mais óbvio das mudanças na última década. O Ártico apresentou um aquecimento aproximado de 1oC apenas na década passada — comparado a pouco menos de 1oC no planeta inteiro nos últimos 50 anos. E seu gelo e suas paisagens congeladas estão reagindo de acordo com a vulnerabilidade prevista pelos cientistas.

Em 2012, quase toda a camada de gelo da Groenlândia se transformou em lama, lançando cascatas de gelo derretido em suas águas costeiras. Então, o degelo se repetiu mais vezes. O gelo do mar do Ártico também atingiu a menor extensão já registrada em 2012 e vem oscilando entre as mínimas históricas desde então, em uma distorção dos padrões climáticos “normais” que dependem do frio do Ártico.

As imponentes geleiras da Antártica Ocidental, lugar onde existe gelo suficiente para elevar o nível do mar em mais de três metros caso derreta, começaram a apresentar um recuo implacável. Atualmente, há uma redução em quase todas as geleiras em montanhas altas da Terra, remodelando a vida nessas zonas de elevada altitude. Também está afetando aqueles que vivem abaixo dessas altitudes, onde, há muito tempo, bilhões de pessoas dependem da água obtida a partir da neve e do gelo dos elevados picos acima.

O calor aprisionado pelo oceano e o derretimento do gelo contribuíram para recordes no nível do mar em grande parte do planeta. Um oceano mais quente sofre expansão, o que eleva seus níveis, e, ao mesmo tempo, o degelo na Groenlândia e na Antártida adicionaram cerca de 36 milímetros de água doce a mais aos oceanos do mundo nos últimos 10 anos, e a taxa vem aumentando a cada ano. A injeção de água doce altera a composição do oceano no extremo norte, o que, por sua vez, desacelera a corrente que circula na direção norte a sul que controla o clima do mundo, provocando efeitos desconhecidos — mas certamente não positivos.

Por trás de todas as mudanças, existe um fator claro: o dióxido de carbono atmosférico. Em 2009, as concentrações de COatmosférico oscilavam em torno de 390 partes por milhão. Em 2014, o número ultrapassou 400 partes por milhão. Hoje, apresentamos uma oscilação em torno de 410 ppm. O planeta não possui concentrações tão acentuadas desde pelo menos 2,6 milhões de anos atrás. Naquela época, não existia nenhuma camada de gelo nas regiões polares do norte, havia florestas na Antártica, o nível do mar provavelmente estava 12 metros mais alto do que hoje e o planeta como um todo apresentava uma dinâmica muito diferente.

“Esta última década tinha grande importância e foi péssima”, afirma Kate Marvel, cientista climática da Universidade de Colúmbia e do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Nasa. “Precisamos fazer com que a próxima década seja diferente.”

Como as pessoas mudaram de atitude?

Os padrões físicos das mudanças climáticas estão se tornando cada vez mais evidentes. Paralelamente a essas mudanças físicas, as atitudes também estão mudando.

Durante a década de 2000, explica Anthony Leiserowitz, diretor do Programa de Comunicação das Mudanças Climáticas de Yale, havia interesse entre os norte-americanos na questão das mudanças climáticas. Um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas de 2007 estimulou conversas sobre como resolver o problema, inclusive entre comunidades políticas. Os cientistas estavam se manifestando.

Mas até a mera convicção da existência das mudanças climáticas — sem nem sequer mencionar a busca de soluções — decaiu bastante nos EUA entre 2008 e 2010 por uma série de razões políticas e sociais. Leiserowitz afirma que a primeira parte da década foi desperdiçada na recuperação da atenção e do interesse pelas mudanças climáticas como uma questão importante.

Ao mesmo tempo, os cientistas desenvolveram novas técnicas para determinar exatamente em que medida um fenômeno — como um furacão, uma onda de calor, um incêndio — tem mais chance de ocorrer por causa das mudanças climáticas. Conseguiram associar padrões mais amplos de mudanças diretamente a fenômenos climáticos. Esse tipo de associação explícita está modificando a forma de pensar sobre a questão mais geral, diz ele.

As mudanças climáticas intensificaram o furacão Harvey, por exemplo, aumentando 20% a mais de chuva ao que poderia ser esperado. Mensagens claras que associam dados científicos aos impactos ajudam as pessoas a entender as causas de tais fenômenos.

Nos últimos anos, o interesse público e a preocupação com as mudanças climáticas aumentaram drasticamente. Em 2010, 59% dos adultos norte-americanos que participaram da pesquisa realizada pelo programa de Yale acreditavam que o aquecimento global já estava em andamento; neste ano, esse número avançou para 67%. Em 2009, 31% dos pesquisados acreditavam que o aquecimento global os afetaria pessoalmente; neste ano, esse número alcançou 42%.

E, no ano passado, houve uma explosão no ativismo entre os jovens. Jovens ativistas climáticos estão se mobilizando, aos milhões, para chamar a atenção a seus futuros roubados. As equipes científicas estão emitindo alertas cada vez mais graves. A atenção global ao problema e às possíveis soluções está crescendo. Mas, ao mesmo tempo, as medidas tomadas até agora estão longe de serem suficientes.

“Muitos estão começando a fazer associações”, afirma Leiserowitz. “Questionam: nossa, esse fenômeno foi provocado pelas mudanças climáticas? Uma parcela maior da população também está começando a enxergar e a se indagar: ‘por que todo fenômeno que ocorre quebra recorde após recorde? Será que existe uma correlação?’”

“Foi uma década muito ruim”, lamenta Stokes. “Diria que perdemos nove anos da década e que começamos de fato a progredir nos últimos 12 meses. Há uma nova energia e dinamismo”, o que pode sinalizar, espera ela, que a próxima década, em termos climáticos, possa ser diferente da última.

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