Nova vacina contra a malária traz esperança, mas medidas mais baratas ainda são úteis

Crianças no Quênia, Malawi e Gana recebem a primeira vacina contra a doença, mas é improvável que apenas a imunização consiga erradicá-la.

Sunday, May 3, 2020,
Por Jacob Kushner
Fotos de Lena Mucha
No Quênia, Malawi e Gana, bebês com menos de dois anos estão recebendo gratuitamente a primeira ...

No Quênia, Malawi e Gana, bebês com menos de dois anos estão recebendo gratuitamente a primeira vacina do mundo contra a malária na esperança de combater a doença mortal.

Foto de Lena Mucha

MALAVA, QUÊNIA Em uma manhã ensolarada, do lado de fora de um hospital no oeste do Quênia, cerca de 20 mães sentam-se em bancos de madeira com seus bebês nos braços. Embrulhados em cobertores coloridos e tecidos com estampa kitenge, um a um os bebês são vacinados. E, um a um, eles choram. Pole baby — “desculpe, bebê” — diz a enfermeira. Mas a picada vale a pena: esses bebês estão entre os primeiros a receber a primeira vacina contra a malária, uma das doenças mais mortais do mundo.

Milhares de crianças nas regiões afetadas pela malária do Quênia, Malawi e Gana estão recebendo a vacina RTS,S contra a doença, considerada pelos especialistas em saúde do Ocidente uma nova e interessante ferramenta na luta global contra a enfermidade. Mas, depois de 35 anos e milhões de dólares gastos no desenvolvimento, alguns profissionais de saúde africanos estão se perguntando: a vacina vale o custo?

Mulheres aguardam no Hospital Distrital de Iguhu, no oeste do Quênia, para que seus bebês possam receber a vacina contra a malária. Em 2016, na África, cerca de 285 mil crianças morreram antes de completar cinco anos.

A cada ano, a malária atinge cerca de 228 milhões de pessoas e mata 430 mil, a maior parte delas na África e a maioria crianças. Transmitida pela fêmea do mosquito Anopheles, os sintomas da malária são febre, letargia e calafrios. Pode deixar adultos acamados por semanas, tirar as crianças da escola e afetar as famílias com custos médicos altíssimos.

Esse foi o caso de Violet Wachiya, 24 anos. Nascida no oeste do Quênia em uma família que cultivava cana-de-açúcar e criava gado, aos 12 anos abandonou a escola após contrair malária e ficar hospitalizada. Ela apresentava fadiga, dores nas articulações e começou a perder a visão. “Eu não conseguia enxergar bem”, conta ela. A conta do hospital chegou a 34 mil xelins quenianos (cerca de US$ 320). Para pagá-la, sua família vendeu quatro de suas oito vacas e algumas de suas cabras.

Duas meninas apanham capim em um campo pantanoso no condado de Kakamega, no Quênia. A malária é transmitida pela fêmea do mosquito Anopheles, que se reproduz em água parada e se prolifera durante a estação chuvosa.

Wachiya diz que não quer que o mesmo aconteça com seu filho, Prince Jackson, de 10 meses, e é por isso que no mês passado ela o envolveu em uma blusa azul e branca e o levou para um hospital na zona rural de Kakamega para receber a segunda dose da nova vacina contra a malária. (As crianças recebem a primeira de quatro doses aos seis meses de idade e a última aos dois anos.) Agora, “mesmo que o bebê contraia malária, não será tão grave”, diz Wachiya.

Depois que Prince Jackson recebe a dose da vacina, Wachiya o leva para casa, em sua aldeia, cercada por canaviais. Dentro de sua pequena casa, é possível ouvir a música Luya tocando enquanto uma máquina de fliperama pisca luzes coloridas e toca, de tempos em tempos, Waka Waka da Shakira, música tema da Copa do Mundo de 2006 na África do Sul. Uma cadeira repousa em frente a um muro de concreto cinza, onde Wachiya penteia os cabelos das mulheres da vizinhança e onde seu marido, Vincent Olang’, que é pintor e barbeiro, corta o cabelo das crianças por 10 xelins (10 centavos de dólares) cada.

Prince Jackson, com dez meses de idade, dorme sob uma rede mosqueteira em sua casa no condado de Kakamega, no Quênia. Até o momento, ele recebeu duas das quatro doses da vacina contra a malária.

À noite, a família se retira para o quarto, entra debaixo de uma rede mosqueteira azul e dorme em um colchão no chão. A rede os protege do enxame audível de mosquitos que zumbem ao redor da latrina nos fundos.

“O zunido é tão forte que parecem abelhas”, diz Olang’. Ele atravessa o pequeno terreno de sua família para mostrar o pântano logo atrás da casa. “Depois que a água transborda do rio, a água fica estagnada — e isso traz mosquitos”, explica ele.

Em uma tentativa de drenar a água parada, o tio de Vincent, Benson Musotsi, cavou uma vala profunda no terreno, mas isso não resolveu o problema. Ele espera que a nova vacina contra a malária seja mais eficaz para proteger as pessoas do condado de Kakamega. “Depois de vacinado, você com certeza não contrairá malária”, diz Musotsi. “Quando o mosquito pica uma pessoa, ele não consegue transmitir a doença.”

Vincent Olang’ e Violet Wachiya buscam água em um pequeno rio perto da casa deles. Eles tentaram drenar a água estagnada para impedir a proliferação dos mosquitos, mas não tiveram muito sucesso.

Contudo Musotsi pode estar enganado. Nos ensaios clínicos, a vacina RTS,S diminuiu os casos de malária em 39% e os casos graves em 29%. Por outro lado, as vacinas para a maioria das outras doenças têm mais de 85 a 95% de eficácia. A nova vacina é ainda menos eficaz se as crianças não receberem as quatro doses, o que pode ser um desafio para muitas famílias que vivem em zonas rurais longe das unidades de saúde.

Nos últimos 20 anos, as iniciativas globais contra a malária evitaram mais de 663 milhões de casos, salvaram 6,8 milhões de vidas e reduziram os custos com saúde em quase um bilhão de dólares somente na África Subsaariana, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas nada disso foi proporcionado por uma vacina. Em vez disso, o crédito é da pulverização de inseticidas, das redes mosqueteiras nas camas e dos medicamentos antimaláricos.

Um estudo estimou que a vacina contra a malária será em média quase três vezes mais cara do que distribuir redes mosqueteiras e proporcionará as mesmas melhorias na saúde. Com pouco financiamento disponível, alguns profissionais de saúde no Quênia temem que o dinheiro esteja sendo gasto de maneira incorreta.

Um assistente de pesquisa oferece sua mão a um grupo de mosquitos fêmeas para que se alimentem de seu sangue no Instituto de Pesquisa Médica do Quênia, onde os cientistas estudam mosquitos resistentes aos inseticidas.

Sheila Musungu, de quatro anos, está deitada em uma maca, na enfermaria lotada de um hospital. Ela mal consegue se mexer, quase não acorda. Mosquitos zumbem ao seu redor. “Ela não está comendo”, diz a mãe. “Está vomitando. Está cansada.”

Sheila contraiu malária enquanto estava no hospital. Sua mãe a trouxe para cá em janeiro para receber uma transfusão de sangue, mas como ela não podia pagar a conta, Sheila foi forçada a ficar por meses — em uma cama sem rede mosqueteira. Se ela tivesse recebido uma, provavelmente não teria sido infectada pela malária. Nenhum dos outros 20 pacientes na enfermaria possui redes.

“Estou aqui há dois anos e desde que cheguei não temos redes”, diz a enfermeira de plantão, Petronilla Buyaki, 28 anos. As autoridades sanitárias do Quênia dizem que doadores internacionais prometeram distribuir as redes de graça, mas não as entregaram.

Sheila Musungu, de quatro anos, contraiu malária no Hospital de Referência e Ensino de Kakamega, onde havia recebido uma transfusão de sangue em janeiro.

As redes mosqueteiras custam cerca de US$ 5 no mercado local. Esse é o valor acrescido à conta médica de Sheila todos os dias. Sua família agora deve ao hospital mais de 27 mil xelins quenianos (cerca de US$ 250). Até que a conta seja paga, Sheila continuará deitada ali, sem proteção contra os mosquitos, dia após dia.

É certo que apenas as redes não serão suficientes para combater a malária. Ao contrário de Sheila, a maioria das pessoas não pode ficar sob elas o dia todo. Além disso, diz Desmond Chavasse, que trabalha para a ONG PSI, no Quênia, em atividades de controle da malária: “Já obtivemos a maioria dos benefícios que se pode esperar” com as redes. Isso se deve ao que muitos no desenvolvimento internacional chamam de problema “próximo ao ponto de destino” — a crescente dificuldade de proporcionar intervenções de saúde a pessoas em locais extremamente remotos. Ele diz que novos recursos, como uma vacina, são necessários para eliminar a lacuna existente.

Profissionais de saúde como Buyaki dizem que aceitam qualquer ajuda que conseguirem. “Aqui, quase todos os outros casos são casos de malária”, afirma Buyaki enquanto olha ao redor da enfermaria. Uma vacina seria bem-vinda, mas ela simplesmente queria ter acesso a alguns dispositivos de prevenção baratos e eficazes que já existem. “As redes são a nossa maior necessidade, por enquanto.”

Duas meninas em frente a uma casa no condado de Kakamega, no Quênia. As crianças correm maior risco de sofrer as consequências graves da malária porque a imunidade delas é mais baixa.

Em 1972, cientistas chineses descobriram a artemisinina, um medicamento atualmente utilizado em todo o mundo para tratar a malária e que já salvou milhões de vidas. Agora, alguns cientistas chineses acreditam que as terapias combinadas com artemisinina (ACTs) possam ser aproveitadas para um novo fim: prevenir a malária. Ao disponibilizar ACTs a uma comunidade inteira de uma só vez, processo conhecido como Administração de Medicamentos em Massa (MDA), os cientistas conseguem reduzir os níveis do parasita da malária no sangue humano de forma que os mosquitos não o contraiam e não o transmitam a outras pessoas.

“O ciclo de vida de um mosquito é de 30 dias”, explica Ethan Peng, gerente sênior no Quênia da empresa chinesa New South, que fabrica ACTs. “Então, com medicamentos em massa, conseguimos eliminar a fonte de contaminação de todos os humanos; (desta forma), os mosquitos não conseguem contrair o parasita da malária novamente” dentro do período de sua curta vida útil.

Os cientistas chineses já utilizaram o processo MDA para eliminar a malária em três das quatro ilhas que compõem a nação africana de Comores.

Clínicas privadas como o Cheldeb Medical Center, em Kakamega, Quênia, são responsáveis pela maior parte do tratamento antimalárico no país, embora a escassez de testes provavelmente atinja mais essas clínicas do que os hospitais públicos.

O conceito de “eliminação é bem recente”, explica Rebecca Kiptui, que trabalhou com a New South para desenvolver um estudo clínico com MDA no Quênia, em nome do Programa Nacional de Controle da Malária do país. “A questão é: será possível realizar a MDA em uma área onde a malária é endêmica? Esse modelo pode ser replicado em outro lugar?”

Kim Lindblade, do Programa Mundial contra a Malária da OMS, diz que é improvável replicar, no continente africano, o sucesso obtido em Comores. “Não temos esse cenário em nenhum outro lugar. Por quê? Porque se trata de uma ilha”, diz Lindblade. “Caso seja bem-sucedido em algum lugar, será lá.”

Os cientistas concordam que, a menos que desenvolvam novas maneiras de combater a doença, o progresso já conquistado contra a malária não será apenas retardado. Ele será revertido. Isso ocorre porque o parasita da malária está se tornando resistente aos medicamentos e inseticidas utilizados para tratá-lo. A resistência já contribuiu para um aumento da doença na África e na Ásia. Em 2018, o Quênia teve 11 milhões de casos de malária — um aumento em relação aos oito milhões do ano anterior.

“Algumas das mutações observadas no sudeste da Ásia foram também vistas no oeste do Quênia”, diz o Dr. Bernhards Ogutu, pesquisador do Instituto de Pesquisa Médica do Quênia que estuda a doença. “É uma questão de tempo, se ocorrer mais uma ou duas mutações...”, ele levanta as mãos em sinal de preocupação. “As pessoas não querem mudar a forma como fazem as coisas. Mas se continuarmos a fazer as coisas do mesmo jeito, em oito anos teremos até mesmo um aumento da doença.”

A corrida para erradicar a malária existe, diz Ogutu. “Não podemos mais esperar por pacientes doentes”, é preciso começar a agir para erradicar completamente a malária. Mas isso requer mais dinheiro. O objetivo da OMS é reduzir a malária em 90% em todo o mundo até 2030, mas de acordo com um estudo do periódico Lancet no ano passado, isso exigirá mais US$ 2 bilhões além dos US$ 4,3 bilhões já gastos anualmente.

Da parte de Mutosi e sua família, quando se trata de se proteger contra a malária, eles não apostam todas as fichas em apenas uma alternativa.

“No futuro, a disponibilidade da vacina começará a diminuir”, supõe Musotsi. “Então, a rede continuará sendo uma forma de proteção.”

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