Conseguimos ver o fim da pandemia no Brasil, ou é uma miragem?

Restando 81% do público-alvo para vacinar com duas doses ou dose única, imunidade coletiva vai ser atingida apenas em 2022 se ritmo atual da vacinação se mantiver. Especialistas ouvidos pela reportagem indicam a saída para a pandemia.

Publicado 22 de jul. de 2021 12:39 BRT
Foliões no carnaval de rua do Rio de Janeiro em 2020, pouco antes da pandemia de ...

Foliões no carnaval de rua do Rio de Janeiro em 2020, pouco antes da pandemia de covid-19 obrigar o fechamento de comércios e barrar aglomerações. Para voltar aos tempos pré-coronavírus, especialistas dizem que o ritmo da vacinação precisa acelerar, no Brasil e no mundo.

Foto de Fernando Maia/Riotur

Seis meses atrás, em 17 de janeiro, a enfermeira Mônica Calazans recebia, em São Paulo, a primeira dose da CoronaVac, instantes depois de o imunizante ser liberado para uso emergencial pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No dia seguinte, o Ministério da Saúde iniciou oficialmente a imunização contra a covid-19.

O objetivo principal da campanha é vacinar 158 milhões (158.095.094) de pessoas acima de 18 anos. A cobertura vacinal nessa população-alvo está em 20,96% – ou 16,08% da população total do país. Até 18 de julho, quando completaram seis meses da campanha oficial, 123 milhões de doses haviam sido aplicadas, das 154,7 milhões distribuídas. Dos 89,2 milhões (42%) de pessoas que já iniciaram o esquema vacinal, 34 milhões estão completamente imunizados.

Já são 19,4 milhões de pessoas contaminadas e 544 mil óbitos no Brasil, mas as médias móveis de sete dias de casos e óbitos estão caindo. O último boletim InfoGripe, da Fiocruz, com base nos dados até 12 de julho, constatou que há “sinal de queda nas tendências de longo prazo” nas últimas seis semanas para diagnósticos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), a maioria decorrentes de infecções por covid-19. Apenas Amazonas e Amapá demonstravam tendência de alta na transmissão. “Embora os sinais de tendência sejam positivos, indicando poucos estados atualmente com sinal de crescimento nas tendências de longo ou curto prazo, os valores semanais continuam elevados, como apresentado pelo indicador de transmissão comunitária”, conclui a nota.

As maiores coberturas vacinais contra a covid-19 estão nas faixas dos 70 a 74 anos (91,62%), 75 a 79 (91,46%), 80 anos ou mais (89,79%), 65 a 69 (79,65%) e 60 a 64 (36,47%). Nesses grupos, os primeiros efeitos da vacinação já são perceptíveis. O Observatório Covid-19, da Fiocruz, analisou a efetividade das vacinas da CoronaVac e da AstraZeneca e confirmou a relação da imunização com a queda em internações e óbitos da faixa acima de 60 anos no Brasil.

“Observa-se valores de taxas de incidência bastante elevados no final de fevereiro e começo de março, quando se inicia um processo de diminuição do número de casos, sendo mais expressiva para faixas etárias 60-79 anos e 80+ anos de idade”, analisa o grupo. “Com os resultados de efetividade da vacinação aqui descritos e com a cobertura vacinal maior nestas faixas do que em outras no período, a vacinação foi um importante fator para a redução do número de casos graves e óbitos.”

“No total, ainda temos um número muito elevado de casos. Não conseguimos ver, a olhos nus, o impacto da vacinação”, disse Carla Domingues, epidemiologista que coordenou o Programa Nacional de Imunização de 2011 a 2019, em entrevista à reportagem. “Mas, quando olhamos em um grupo específico, como os idosos, já vemos o impacto. Se tivéssemos uma vacinação muito rápida nas outras faixas etárias, veríamos um impacto também na diminuição da transmissão da doença. É o que vimos em outros países.”

Primeira dose contra covid-19 foi aplicada no Reino Unido, em 8 de dezembro de 2020. No Brasil, campanha começou em 17 de janeiro de 2021.

Arte de Redação National Geographic

“Só podemos falar de acabar com a pandemia quando não tiver mais casos no mundo, ou se forem números irrisórios. ”

por Carla Domingues
Coordenadora do Programa Nacional de Imunização de 2011 a 2019

Domingues ressalta que a vacinação é complementar, e não substitui as demais medidas de restrição. Os países que conseguiram ter uma velocidade no controle da pandemia, observa a epidemiologista, foram os que implementaram todas as medidas necessárias – vacinação em massa e rápida, medidas de distanciamento social, uso de máscaras. As ações combinadas resultaram na diminuição drástica de internações e óbitos em países como os Estados Unidos, Israel e Reino Unido.

“Só podemos falar de acabar com a pandemia quando não tiver mais casos no mundo, ou se forem números irrisórios. Mas, pelo menos, [esses países] conseguiram controlar a situação”, reflete a epidemiologista. “Não podemos ter a vacinação como substitutiva dessas medidas, porque só poderemos fazer isso quando tiver uma diminuição muito drástica da circulação do vírus. E a vacinação só é capaz disso se realizada em um curto espaço de tempo e com elevada cobertura vacinal.”

Quantitativo e comunicação

A enfermeira e epidemiologista Francieli Fantinato assumiu a coordenação do Programa Nacional de Imunização em outubro de 2019. Quase um ano depois, teria o grande desafio de comandar o Plano Nacional de Vacinação contra a covid-19, com uma equipe que ampliou de 48 para 77 pessoas. Em agosto de 2020, Fantinato organizou a primeira reunião para elaborar a estratégia de vacinação. Em seguida, instituiu a Câmara Técnica Assessora em Imunizações e Doenças Transmissíveis, com membros de sociedades e instituições científicas, para apoiá-la na gestão da campanha.

“Por que o maior programa de vacinação do mundo teve dificuldades em executar o seu papel?”, indagou Fantinato, em seu depoimento à CPI da Pandemia, em 8 de julho. “Faltou para o PNI [...] quantitativo suficiente para a execução rápida de uma campanha e campanhas publicitárias, para a segurança dos gestores, profissionais de saúde e da população brasileira.”

“Há que se considerar que o PNI, estando sob qualquer coordenação, não consegue fazer uma campanha exitosa sem vacinas e sem comunicação, sem uma campanha publicitária efetiva”, prosseguiu Fantinato. “Para um programa de vacinação ter sucesso, é simples: é necessário ter vacinas, é necessário ter campanha publicitária efetiva. E, infelizmente, eu não tive nenhum dos dois.”

Fantinato foi exonerada do comando do PNI um dia antes do depoimento, a pedido dela mesma, que alegou razões pessoais e entraves na gestão da campanha. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, ainda aguarda aval da Casa Civil para nomear a nova coordenadora do PNI, a médica Ana Karolina Marinho, segundo a CNN Brasil.

Ritmo da vacinação

Em junho, também na CPI, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, prometeu que toda a população adulta será imunizada até o final de 2021. Mas o ritmo da vacinação ainda deixa o Brasil longe desse objetivo. Em 183 dias de campanha, o país tem em média 673,82 mil vacinas administradas diariamente. Os cerca de 38 mil postos de vacinação só conseguiram superar a marca de 1 milhão de doses aplicadas em 24 horas em 24 de março, 66 dias depois do início da campanha. Essa meta foi superada em outros 42 dias da campanha, com recorde em 7 de julho, quando 1,7 milhão foram vacinados. Em junho, 966,6 mil doses por dia foram administradas, a maior média para um mês até agora. Em 18 dias de julho, 919 mil doses foram aplicadas diariamente. O cálculo foi feito pela National Geographic a partir das informações da Rede Nacional de Dados em Saúde, do Ministério da Saúde.

“Cada grupo está sendo vacinado. Vacinamos idosos, pessoas com comorbidade, agora já passou para a população de 50, 60 anos. Agora, não é em massa o suficiente para interromper a cadeia de transmissão”, analisa Domingues. “Estamos fazendo uma lenta vacinação em massa.”

“Para um programa de vacinação ter sucesso, é simples: é necessário ter vacinas, é necessário ter campanha publicitária efetiva. E, infelizmente, eu não tive nenhum dos dois.”

por Francieli Fantinato
Coordenadora do Programa Nacional de Imunização de 2019 a julho 2021

O que falta para o Brasil acelerar a vacinação é ter os imunizantes, acredita Domingues. “Quando as vacinas chegam, rapidamente acabam. Já tivemos vários dias em que se vacinou mais de 1,5 milhão de pessoas, sem grandes aglomerações, sem grandes filas”, analisa. “A capilaridade do SUS é muito grande e os serviços estão preparados, inclusive com estratégias novas, com drive-thru, vacinações em ginásios. A população quer se vacinar, o SUS tem capacidade de fazer essa vacinação, mas falta vacina.”

Domingues considera correta a definição inicial do PNI sobre grupos prioritários, a exemplo dos idosos, pessoas com comorbidade, trabalhadores da saúde, povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas. Como a vacinação visa principalmente diminuir a gravidade e óbito da doença, é preciso priorizar esses grupos que estão mais vulneráveis ao agravamento da covid-19.

Entretanto, na opinião da ex-coordenadora do PNI, a entrada posterior de diversas categorias profissionais atrasou a vacinação. O Ministério da Saúde incluiu nos grupos prioritários trabalhadores portuários, de transporte aéreo, de educação do ensino básico e forças de segurança e salvamento e Forças Armadas. Para Domingues, as categorias profissionais que justificam a prioridade são professores, para permitir o retorno às aulas, agentes de segurança e trabalhadores da saúde. “Nas demais, é impossível dizer quem tem mais risco”, observa. “Vacinar por categoria profissional é complexo e tem muito pouca efetividade. Quando vimos que a acelerou a vacinação? Quando voltou para [o critério da] idade.”

Em 16 de julho, o Ministério Público Federal recomendou que a Saúde não incluísse bancários e funcionários dos Correios entre os grupos prioritários. O órgão orientou também a "não acrescentar novos grupos sem a manifestação favorável da Câmara Técnica Assessora em Imunização e Doenças Transmissíveis ou outro órgão que o substitua”. Estados e municípios, por sua vez, adicionaram por conta própria outras categorias. São Paulo imunizou metroviários e rodoviários, por exemplo. “No Brasil, cada lugar está adotando uma estratégia diferente. É difícil prever o que vai acontecer, especialmente em relação ao ritmo da vacinação”, diz Domingues.

Cobertura vacinal

O Brasil ainda precisa aplicar 207 milhões de doses para imunizar toda a população-alvo em 2021 (158 milhões), conforme um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade de São Paulo, publicado em 9 de julho. Já para alcançar a meta de 90% de cobertura da população vacinável serão necessárias cerca de 176 milhões de doses.

Até 8 de julho, 81% das pessoas elegíveis para vacinação (acima de 18 anos) ainda não estavam completamente imunizadas, das quais 78 milhões (49%) não haviam recebido nenhuma dose e 53 milhões (33%) ainda aguardam pela segunda, apontou o estudo feito por Guilherme Werneck, Ligia Bahia, Jéssica Moreira e Mário Scheffer. Entre as pessoas acima de 60 anos, 12 milhões não completaram o esquema vacinal, sendo que mais de 2,1 milhões não retornaram para a segunda dose no intervalo de tempo estabelecido.

Os cientistas constataram que houve aumento na velocidade da vacinação da primeira dose nas últimas semanas, enquanto a aceleração da cobertura no esquema vacinal completo (dose única ou duas doses) ainda é discreta.

No momento, o estudo conclui que a velocidade do aumento da cobertura vacinal ainda é insuficiente para alcançar pelo menos 90% da população completamente imunizada até 31 de dezembro de 2021. “Caso a oferta de vacinas e a velocidade da vacinação não aumentem substancialmente, a imunização completa de pelo menos 90% na população elegível (acima de 18 anos) só poderia ser alcançada no primeiro semestre de 2022.”

De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil deve receber 466,6 milhões de doses no segundo semestre deste ano. Em julho e agosto, espera-se a chegada de 103,7 milhões de doses – fornecidas por Fiocruz/Bio-Manguinhos, Instituto Butantan, Covax Facility e Pfizer. De setembro a dezembro, o governo prevê o recebimento de outras 362,8 milhões de doses das mesmas fornecedoras e também da Janssen (36,19 milhões). Os dados são do último balanço do ministério, divulgado em 21 de julho.

Atrasos na compra de vacinas

A vacinação contra a covid-19 no mundo teve início em 8 de dezembro, na Inglaterra. Desde então, 26,7% da população global recebeu ao menos uma das 3,7 bilhões de doses administradas, mas apenas 1,1% da população de países pobres iniciaram a imunização, segundo a plataforma Our World in Data. Chile (61,37%), Uruguai (59,60%), Reino Unido (53,18%), Espanha (52,07%) e Estados Unidos (48,28%) são alguns dos mais avançados em termos de população totalmente imunizada – muito além dos 16,24% do Brasil. Para Denise Garrett, médica epidemiologista e vice-presidente do Instituto Sabin Vaccine, dos Estados Unidos, o sucesso desses países foi uma consequência do investimento antecipado na compra das vacinas, seguido de uma estratégia de vacinação bem articulada.

“A percepção que o mundo tinha do Brasil, quando se trata de campanhas de imunização bem-sucedidas, era a melhor possível. Infelizmente, não é o caso agora com a campanha para covid.”

por Denise Garrett
Médica epidemiologista e vice-presidente do Instituto Sabin Vaccine

“Baseado na experiência que sei que nosso programa tem em implementar campanha, se tivéssemos tido quantitativos, com certeza estaríamos num lugar bem melhor do que estamos agora”, disse Garrett em entrevista à reportagem. “A percepção que o mundo tinha do Brasil, quando se trata de campanhas de imunização bem-sucedidas, era a melhor possível. Infelizmente, não é o caso agora com a campanha para covid.”

Nos Estados Unidos, Garrett observa que a aquisição de doses antecipadas facilitou a organização da campanha. “Aqui [nos EUA], não temos um PNI, mas um comitê de práticas de imunização. Houve uma coordenação a nível federal, com todos os estados”, conta. “Tem uma campanha muito grande em vencer a hesitação em determinados grupos; um esforço direcionado para identificar os gargalos na cobertura por raça, etnia e para reduzir as desigualdades na vacinação. Existe um plano, uma estratégia coordenada, com recursos para ser implementada.”

Quando se trata de campanhas de vacinação, o Brasil sempre serviu de modelo para a Organização Mundial da Saúde, a Organização Pan-americana da Saúde e várias países. O O Brasil foi pioneiro na erradicação da poliomielite e a estratégia e mobilização brasileiras foram adotadas em campanhas contra outras doenças no mundo inteiro. O plano de eliminação do sarampo, recorda Garrett, “envolvia todos os passos de uma boa campanha de vacinação”, com vigilância de eventos adversos, testes laboratoriais, treinamento em todas as áreas.

“No início da pandemia, existia uma esperança muito grande por parte das pessoas que trabalham na área e conheciam a excelência do Brasil em imunização de que, quando chegasse a hora da vacina, melhoraria o controle da pandemia no Brasil. Havia essa expectativa que, infelizmente, não se concretizou”, lamenta Garrett. Enquanto o Brasil a surpreendeu negativamente, o desempenho da campanha nos Estados Unidos impressionou a médica brasileira.

Em entrevista à reportagem, Ethel Maciel, epidemiologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo, reconhece que este é o maior e mais complexo programa de imunização realizado pelo Brasil, mas considera que a campanha está “lenta, desordenada e descoordenada”. Para Maciel, falta a “coordenação verticalizada” que cabe ao Programa Nacional de Imunização: O PNI define; estados e municípios cumprem.

“O principal erro foi não ter comprado as vacinas. Essa falta de planejamento e de coordenação acabou gerando uma desorganização da campanha. Uma campanha muito lenta, confusa. As pessoas não estão suficientemente informadas”, analisa Maciel. “Espero que no segundo semestre seja diferente, porque não podemos mais esperar tanto. Mas é tudo muito incerto. Esses acordos foram muito tardios no Brasil.”

A demora do governo federal em fechar contratos de compra de imunizantes refletiu no ritmo da campanha, como demonstrado por dois depoimentos em maio na CPI da Pandemia. Carlos Murillo, gerente-geral da Pfizer na América Latina, disse que, desde agosto de 2020, o governo federal rejeitou três vezes uma oferta de 70 milhões de doses da vacina da empresa americana em parceria com a alemã BioNTech – foi o primeiro imunizante a obter autorização para uso emergencial no mundo, em dezembro, no Reino Unido. Se o contrato fosse fechado no prazo, o Brasil receberia 4,5 milhões de doses até o primeiro trimestre, sendo que as primeiras doses já chegariam em dezembro de 2020. O acordo só foi firmado em março de 2021, pela compra de 100 milhões de doses. Em maio, o Ministério da Saúde e a Pfizer firmaram um segundo contrato de 100 milhões de doses. Os 200 milhões de vacinas serão entregues até o final do ano, a maior parte no último quadrimestre.

Já Dimas Covas, diretor-presidente do Instituto Butantan, informou que houve três recusas do governo federal à proposta de compra da CoronaVac, da farmacêutica chinesa Sinovac. Segundo Covas, o Brasil teria 49 milhões de doses a mais até o primeiro semestre deste ano (150 milhões), caso fosse aceita a primeira oferta, feita em julho de 2020. O contrato foi fechado em janeiro de 2021, para a compra de 100 milhões de doses.

O epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas, calculou que pelo menos 95 mil vidas teriam sido salvas caso o governo tivesse aceitado essas duas ofertas ofertas de imunizantes. Isso evitaria uma em cada cinco mortes por covid-19 no país até o fim de maio de 2021, quando o país registrava 496 mil óbitos. Hallal explicou sobre seu cálculo em seu depoimento na CPI da Covid. A estimativa levou em conta o quantitativo de doses ofertados pelo Butantan e pela Pfizer, além de variáveis como a eficácia das vacinas, o número de pessoas suscetíveis ao vírus e a taxa de letalidade.

Conscientização da população

Quando recebeu a primeira dose da vacina contra a covid-19, Ethel Maciel teve uma sensação diferente do que das outras vezes que se imunizou. Era uma quinta-feira de Corpus Christi, em um posto de vacinação instalado em um galpão de uma igreja, alugado pela prefeitura de Vitória, capital do Espírito Santo. A epidemiologista foi vacinada no grupo dos professores.

“Defino como uma felicidade triste”, diz Maciel. “Você está feliz, porque finalmente recebeu a vacina. Ao mesmo tempo, é uma tristeza por outras pessoas. Meus próprios filhos não têm acesso. Tantas pessoas que conheço, mais jovens que eu, tiveram covid grave e se internaram – felizmente, sobreviveram. Mas tantos morreram. É um misto de sensações, sabe? Você fica aliviado, mas é uma tristeza, porque tão poucas pessoas já tiveram acesso.”

Na ocasião, Maciel também notou um ponto falho da campanha: o nível de conscientização da população é “péssimo, não existe”. Quando foi vacinada, uma profissional de saúde coletou seus dados e os documentos de identidade e de comprovação de que era professora. Perguntou-lhe se tomava algum medicamento e orientou que poderia tomar o remédio a que estivesse habituada, caso tivesse alguma reação, como dor de cabeça.

“Precisamos comunicar para a população quais são os sinais de alerta”, defende Maciel. “Um, dois dias depois de tomar a vacina, é natural sentir dor no local, dor de cabeça, febre. Agora, se está com dor no peito, nas pernas, está vendo um inchaço anormal, uma visão embaçada, você precisa ir imediatamente no serviço de saúde. Não fique em casa. Se fizer intervenção medicamentosa, não vai evoluir para um quadro mais grave. É isso que está faltando.”

“O que fez com que nossas campanhas fossem exitosas, tivessem uma grande adesão e capilaridade?”, indaga Carla Domingues. “Primeiro, ter a vacina. Depois, a organização do SUS. E, por fim, um processo de comunicação muito forte, fazendo com que a população entendesse a importância da vacinação.”  

Domingues também considera a comunicação uma das grandes falhas atuais do PNI nesta campanha. E esse investimento é crucial diante dos fatores de complexidade da campanha contra a covid-19 – até o momento, são quatro vacinas e plataformas tecnológicas diferentes; a maioria com duas doses e intervalos distintos; restrição da vacina da AstraZeneca a gestantes, pela possibilidade de evento adverso.

“Nem governo federal, nem estados e municípios estão realizando uma mobilização da população. Está ficando para a imprensa fazer essa divulgação e orientações”, analisa Domingues. “É importante, mas o que realmente faz a população receber essa informação é a comunicação de massa na televisão aberta, na rádio, nas rádios comunitárias, nos transportes urbanos.”

Adesão e hesitação

Nos últimos anos, houve no Brasil uma queda na cobertura vacinal de imunizantes do calendário nacional que preocupa a comunidade científica e as autoridades de saúde. O país perdeu o certificado de eliminação do sarampo em 2019, depois da ocorrência de surtos, e está em alerta diante da baixa imunização de crianças contra poliomielite. Apesar desse cenário, Domingues sempre acreditou que a população aderiria à imunização contra a covid-19. Uma pesquisa do DataFolha deste mês constatou que 94% da população quer se vacinar contra a covid-19.

“Quando se tem uma epidemia como essa, a população está vendo que a vacina tem um benefício que sobrepõe ao risco do evento adverso”, analisa Domingues. “Não temos aqui o temor que outros países têm em relação aos antivacina, porque aqui se comportam como um grupo muito pequeno. Sempre acreditei que a população brasileira responderia ao chamado quando tivesse vacina.”

No entanto, há uma menor procura pela segunda dose. O ministro Queiroga disse, em 7 de julho, que 3,5 milhões de pessoas estão com o esquema vacinal atrasado. Segundo Domingues, a taxa de abandono é um fenômeno esperado para vacinas com mais de uma dose. “Como se reverte essa taxa de abandono? Com a comunicação, lembrando as pessoas de que precisam ser vacinadas com as duas doses e esclarecendo que, se não forem, não estarão protegidas”, explica.

Domingues atribui a menor procura pela segunda dose a três fatores. O primeiro é o “fenômeno do esquecimento”. Imunizantes tradicionais do calendário vacinal brasileiro são de dose única, como os contra febre amarela, sarampo e tétano. Portanto, muitas pessoas não sabem ou não entendem a importância da segunda dose.

O segundo fator é a questão do evento adverso. “Você pode ter tido uma febre alta, um mal-estar, uma dor local. Se não tiver um esclarecimento da informação, pode ficar com medo, achando que aquilo pode fazer mal a saúde, e não voltar para tomar a vacina”, observa Domingues.

O terceiro consiste no atraso da reposição de doses. Em março, o então ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, autorizou que estados e municípios utilizassem o estoque que tinham de segunda dose para aplicar a primeira, a fim de ampliar o número de pessoas com algum grau de proteção. Contudo, o atraso na importação do ingrediente farmacêutico ativo ou de doses prontas prejudicou o abastecimento das cidades. “Pessoas podem ter ido aos postos de saúde para completar o esquema vacinal, mas a segunda dose não estava disponível e desistiram”, observa Domingues. “Tem que fazer um recall para chamar essas pessoas de volta, uma busca ativa para que compareçam ao posto de saúde.” 

Vacinação em tempos de variante Delta

Ethel Maciel tomou a vacina da AstraZeneca. A princípio, receberia a segunda dose apenas depois de 12 semanas da primeira. Contudo, o governo do Espírito Santo decidiu encurtar o intervalo para oito semanas, diante da confirmação da transmissão comunitária da variante Delta no Brasil. Pernambuco, Acre, Ceará, Piauí, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Santa Catarina adotaram a mesma medida. O Ministério da Saúde decidiu manter o intervalo de três meses.

A Delta, que é mais transmissível, é uma variante identificada pela primeira vez na Índia e já foi notificada em 111 países, conforme a OMS. Segundo Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, é questão de tempo para a Delta se tornar a variante predominante no mundo. No Reino Unido, ela se espalhou rapidamente e, em cerca de um mês, se tornou dominante. Nos EUA, é responsável por 83% dos diagnósticos de covid-19. No Brasil, a transmissão comunitária da Delta foi confirmada em sete estados, com a maioria dos casos identificados no Rio de Janeiro.

Os primeiros estudos apontam que as vacinas continuam eficazes contra todas as variantes, principalmente contra agravamento da doença e mortes. No Reino Unido, a alta nos casos não resultou no aumento do número de mortes. Em 14 de julho, o governo britânico divulgou os resultados de uma análise: após as duas doses da Pfizer/BioNTech e de Oxford/AstraZeneca, as vacinas são, respectivamente, 96% e 92% eficazes contra hospitalização. Dos 14.019 casos positivos analisados, 166 precisaram se internar, entre 12 de abril e 4 de junho. As autoridades britânicas agora estudam o nível de proteção contra as mortes pela doença.

“Para quem tinha a primeira dose, tanto da AstraZeneca como Pfizer, a eficácia contra a variante Delta caiu para 30%. Foi um impacto grande, mesmo nessas vacinas que já têm uma eficácia alta de primeira dose”, observa Maciel. “Quando a pessoa tinha duas doses, a eficácia [global] continuou em 80%. Isso fez com que alguns países, como Portugal e Reino Unido, revissem o intervalo da segunda dose.”

“Se deixar as pessoas esperando muito tempo”, continua Maciel, “você dá a chance para entre uma dose e outra elas se infectarem. Encurtar o espaço de tempo entre as doses é uma estratégia inteligente. Como os resultados de 8 e 12 semanas são semelhantes, ou iguais, é possível diminuir esse intervalo sem prejuízo de eficácia.”

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