Dinossauro 'banguela' do Paraná destoa dos primos carnívoros

A alimentação do animal ainda é um mistério em discussão entre especialistas.

Publicado 3 de jan. de 2022 07:00 BRT
Berthasaura leopoldinae

O dinossauro sem dentes da espécie Berthasaura leopoldinae viveu entre 80 milhões e 70 milhões de anos atrás, quando a região do sul do Brasil onde foi encontrado era um ambiente desértico.

Foto de Illustration by Maurilio Oliveira

Uma área no estado do Paraná ganhou o nome de “Cemitério dos Pterossauros” devido a centenas de ossos fossilizados de pterossauros encontrados na antiga bacia. Por isso, quando paleontólogos que trabalhavam no local encontraram um novo fóssil de uma criatura com um bico rígido semelhante ao de um papagaio, presumiram que se tratava de mais um réptil voador.

Mas os pesquisadores ficaram surpresos ao saber que haviam encontrado uma nova espécie de dinossauro sem dentes. Ainda mais incomum, o animal pertence a um grupo denominado ceratosaurianos — formado quase que exclusivamente por carnívoros.

“A existência desse dinossauro desdentado nos obriga a repensar a perda evolutiva dos dentes em todos os dinossauros desse grupo”, afirma Alexander Kellner, paleontólogo da equipe que encontrou o fóssil e diretor do Museu Nacional do Brasil. “É uma descoberta que mudará nossa visão e nossos conhecimentos sobre esses animais.”

O esqueleto fossilizado, descrito no periódico Scientific Reports, pertence a uma nova espécie denominada Berthasaura leopoldinae que viveu entre 80 milhões e 70 milhões de anos atrás durante o período Cretáceo. O nome formal é uma homenagem a Bertha Lutz, célebre cientista brasileira que defendia o voto das mulheres, e Maria Leopoldina, austríaca que se tornou Imperatriz do Brasil e defensora das ciências naturais.

O nome científico torna o Berthasaura um dos raros dinossauros que homenageia as mulheres com um gênero novo.

“É uma mensagem importante que pode inspirar novas cientistas a ingressar nessa área de estudos, especialmente no campo dos dinossauros”, afirma Aline Ghilardi, paleontóloga da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que não integrou a equipe do estudo.

Ela também destaca como o esqueleto está quase completo e extremamente bem preservado. Entre 2011 e 2014, pesquisadores do Museu Nacional do Brasil e do Centro Paleontológico da Universidade do Contestado coletaram seções de seu crânio, mandíbula, coluna vertebral, ossos peitorais e pélvicos, membros anteriores e posteriores.

“É sempre ótimo para a paleontologia”, observa Ghilardi, “porque nos ajuda a entender melhor as relações entre as espécies”.

Laços familiares

Quando os pesquisadores que encontraram o Berthasaura leopoldinae, perceberam que o dinossauro diante deles não tinha dentes e imediatamente pensaram no Limusaurus inextricabilis, terópode desdentado descoberto no noroeste da China. O Limusaurus viveu entre 161 milhões e 156 milhões de anos atrás, durante o período Jurássico. Com base em fósseis de adultos e jovens da mesma espécie, os cientistas sabem que esse dinossauro ceratossauriano perdia os dentes na adolescência, que não voltavam a crescer.

O Berthasaura, por outro lado, nunca sequer possuiu dentes.

O esqueleto encontrado no Paraná é de um indivíduo jovem e “ficou claro que não havia dentes na arcada superior (da boca)”, conta Kellner. “Havia uma placa óssea onde se esperaria haver dentes. Mas nos perguntamos: haveria dentes na arcada inferior? Assim, foi isolada essa parte do material e utilizada tomografia computadorizada para confirmar que esse animal de fato nunca possuiu dentes”.

Fósseis cranianos permitiram aos cientistas reconstituir o crânio do indivíduo jovem de Berthasaura leopoldinae, o que revelou que o animal nunca teve dentes.

Foto de Graphic courtesy of Museu Nacional/UFRJ

A equipe quer descobrir o que fez a espécie evoluir dessa forma. Para Kellner, tudo se resume à dieta alimentar. Embora ainda não haja evidências concretas, ele acredita que o dinossauro pode ter sido um herbívoro — o que o diferencia de outros terópodes, que são quase todos carnívoros.

“Por que ele perderia os dentes se precisasse rasgar a carne?”, indaga ele. “É uma adaptação. Em algum momento no passado, seu ancestral tinha dentes e os perdeu.”

Mas nem todos — incluindo outros membros de sua equipe — concordam. Para Geovane Alves de Souza, outro pesquisador do Museu Nacional, é cedo para confirmar a alimentação do Berthasaura. Ele suspeita que pode ter sido um onívoro capaz de rasgar a carne com o bico, da mesma forma que as gralhas e corvos modernos fazem.

“A ausência de dentes não confirma hábitos alimentares”, comenta ele. Para determinar a dieta alimentar de um animal primitivo, os cientistas geralmente recorrem a algumas técnicas e ferramentas. Uma delas implica o exame de isótopos estáveis deixados por alimentos em dentes fossilizados — algo impossível no caso do Berthasaura. Outra delas é o desenvolvimento de um modelo 3D exato do crânio do animal para averiguar sua movimentação ao morder, rasgar ou mastigar possíveis alimentos. Contudo, como os ossos do Berthasaura foram encontrados desarticulados, isso também não é possível.

“É algo que precisa ser verificado, pois é inesperado”, conta Kellner. “É o primeiro dinossauro sem dentes da América Latina.”

Futuras escavações?

A equipe espera que o local onde o Berthasaura foi encontrado ofereça mais indícios.

A área, chamada Cemitério dos Pterossauros, era um deserto no período Cretáceo, e várias outras espécies — incluindo pterossauros, lagartos e outro terópode — já haviam sido encontradas no local, todas com esqueletos notavelmente intactos. Kellner atribui a excelente preservação dos ossos a um fenômeno natural provavelmente ocorrido por diversas vezes após suas mortes.

“Imaginamos que havia muitos pterossauros e alguns dinossauros — ainda mais raros — que morreram”, afirma ele. “Posteriormente ocorreram inundações repentinas, que podem ocorrer no deserto, que arrastaram tudo pelo caminho, inclusive animais mortos, e os levaram a uma bacia, onde ficaram depositados e preservados”.

Ele e o restante da equipe esperam obter mais informações sobre o Berthasaura ao encontrar mais membros da espécie na região. Por ora, entretanto, a pandemia e a falta de recursos impediram seu retorno ao local da escavação.

Por enquanto, eles se preparam para abrir um centro de visitantes no Rio de Janeiro enquanto o Museu Nacional, que sofreu um incêndio devastador em setembro de 2018, está em reconstrução. O esqueleto fossilizado e uma reprodução em 3D do Berthasaura, entre outros objetos, estarão em exposição para quem quiser observá-los de perto.

“Esse tipo de dinossauro demonstra, mais uma vez, como podemos levar ciência à população”, reitera Kellner. “Nosso país dispõe de muitos depósitos fósseis importantes. Não é apenas o sítio arqueológico desse dinossauro. O essencial neste momento é obter financiamento para voltar ao campo e continuar as pesquisas.”

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