Conheça estas cegonhas gigantes maiores que um hominídeo

Há mais de 60 mil anos, a antiga ilha Flores, na Indonésia, era o lar de uma ave quase duas vezes mais alto do que pequenos hominídeos.

Por Riley Black
Publicado 21 de jul. de 2022 09:21 BRT
Liang_bua

Esta ilustração retrata Liang Bua, um sítio fóssil na ilha de Flores, como teria sido há mais de 60 mil anos. Uma cegonha gigante desafia um jovem dragão-de-komodo pelo acesso à carcaça de um stegodon, um parente extinto dos elefantes.

Arte de Gabriel Ugueto

Na antiga ilha Flores, ao leste da Indonésia, hominídeos do tamanho de “hobbits” compartilhavam a paisagem com uma ave imensa. Com mais de 1,5 metro de altura, a cegonha da Idade do Gelo Leptoptilos robustus teria superado o Homo floresiensis, de aproximadamente 90 centímetros, que viveu há mais de 60 mil anos.

Anteriormente, os paleontólogos pensavam que esta ave era uma espécie que não voava e que se adaptou para viver em um ecossistema insular isolado. Mas fósseis recém-analisados, entre eles os ossos de asas, apresentados na revista Royal Society Open Science, mudaram a história. Asas de mais de três metros teriam permitido que esses animais voassem, apesar do tamanho.

Essa nova informação levou os paleontólogos a revisar o que pensavam anteriormente sobre a anatomia e o comportamento de L. robustus. Em vez de um caçador de pequenas presas, o novo estudo sugere que a ave provavelmente era um necrófago como outras cegonhas voadoras pré-históricas, que são conhecidas por se alimentar de carcaças de herbívoros, assim como a cegonha marabu da África subsaariana. A preferência da cegonha de Flores por carcaças pode até explicar as razões de sua extinção.

Além de aves enormes, a ilha era o lar de uma espécie de Stegodon, um parente extinto dos elefantes, com uma altura de até um 1,2 metro. “A dieta das cegonhas gigantes dependia em grande parte desta espécie”, explica a paleontóloga da Universidade de Bergen, na Noruega, Hanneke Meijer, principal autora do novo estudo. Ela aponta que os ossos de stegodon foram encontrados ao lado de ossos de aves em uma caverna, onde as aves dificilmente se aventurariam sem um incentivo.

Meijer e seus colegas propõem que quando o stegodon desapareceu, o mesmo aconteceu com o L. robustus. Outros animais da ilha que dependiam dos mamíferos como fonte de alimento, como os dragões-de-komodo, conseguiram sobreviver em outros lugares. Mas a extinção de L. robustus coincidiu com grandes mudanças na ilha Flores, desencadeadas por um período de aquecimento próximo do final da Idade do Gelo. “Nossa hipótese é que, quando o stegodon foi extinto, todo o ecossistema entrou em colapso”, diz Meijer.

Os paleontólogos conseguiram criar essa nova visão da cegonha gigante de Flores graças a 21 ossos, entre eles partes da asa, encontrados na caverna de Liang Bua. Para alguns animais, como o stegodon, esse abrigo rochoso pode ter sido uma maneira de escapar do calor e se refrescar – mas os carnívoros podem ter aproveitado a situação para conseguir uma refeição fácil. Os restos de presas mortas por um dragão-de-komodo ou Homo floresiensis teriam sido um lanche tentador para as cegonhas necrófagas, que podem ter morrido dentro da caverna e enterradas lá, preservadas no registro fóssil até que os cientistas desenterraram os ossos dezenas de milhares de anos depois.

Como ocorre a evolução nas ilhas?

As ilhas podem ser intensos laboratórios naturais para a evolução. O relativo isolamento pode levar os organismos a se adaptarem de maneiras muito diferentes daqueles que habitam maiores extensões dos continentes da Terra. De acordo com um fenômeno chamado de regra da ilha, por exemplo, espécies grandes geralmente se tornam menores para subsistir com recursos mais limitados, enquanto animais que geralmente são pequenos – como roedores e lagartos – tendem a crescer até atingir tamanhos sem precedentes.

Quando foi descrita pela primeira vez em 2010, pensava-se que a cegonha de Flores fazia parte desse padrão. Originalmente, imaginava-se que a ave era um gigante que não voava e que se adaptou para caçar presas menores nas florestas da ilha. Ao revelar que essa ave podia voar, no entanto, o novo estudo sugere que provavelmente não era um caso de evolução incomum da ilha, mas parte de uma família de cegonhas gigantes que antigamente voavam sobre grande parte do mundo.

[Você pode se interessar por: Ave ameaçada de extinção se reproduz ‘sem fecundação’, feito inédito na espécie]

“Acho que minha percepção do L. robustus foi mudando conforme minha carreira”, relata Meijer, que estudou alguns dos primeiros exemplares dessa ave gigante. O conjunto original de ossos, ela diz, era grande e estranho, o que aparentemente coincidia com a ideia de que a vida na ilha altera as criaturas de maneiras inesperadas.

Mas a descoberta dos ossos das asas do animal revelou um panorama diferente.

Uma cegonha gigante no céu

A caverna Liang Bua conserva um tesouro de espécimes paleontológicos e arqueológicos, que incluem os restos do Homo floresiensis e Homo sapiens, ferramentas de pedra usadas por ambas as espécies e uma coleção de ossos de animais.

Os primeiros ossos de L. robustus foram descobertos em 2004, mas levou muitos anos para que os especialistas coletassem e catalogassem mais restos do animal. Só agora neste novo estudo, Meijer e seus colegas conseguiram juntar todas as peças para montar uma imagem mais completa do animal.

Se a cegonha de Flores não tivesse voado, os ossos de suas asas seriam menores e mostrariam sinais anatômicos de que já não eram usados ​​para voar. Os paleontólogos observaram isso uma e outra vez entre espécies extintas,  “aves do terror” carnívoras, emas e seus parentes, e vários outras aves terrestres que evoluíram após a extinção dos dinossauros há 66 milhões de anos.

Quando os ossos das asas da cegonha de Flores foram identificados na coleção da caverna Liang Bua, Meijer lembra que, “eles pareciam ossos de asas funcionais, muito diferentes aos ossos de espécies que não voam”. Essas descobertas inspiraram Meijer e colegas a repensar a vida da ave gigante.

“Pensamos em como elas se comportavam e interagiam com as outras espécies em Liang Bua”, diz ela, “quase como conhecer um animal em um nível pessoal”. Cada peça esquelética recuperada da caverna é outra parte do quebra-cabeça.

A nova análise “mostra que nossa compreensão do registro fóssil está melhorando constantemente e que nossas interpretações iniciais sobre a anatomia e o comportamento de um animal fóssil são hipóteses preliminares sujeitas a reavaliação”, acredita o paleontólogo Daniel Field, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, que não esteve envolvido no estudo. Essas revisões não só ajudam os paleontólogos a entender melhor como e por que as espécies evoluíram, mas também fornecem novas informações sobre a extinção de um organismo.

Ao pesquisar a distribuição de cegonhas gigantes na África pré-histórica e na Eurásia, por exemplo, o novo estudo também revelou que L. robustus foi provavelmente uma das últimas espécies sobreviventes dessas aves outrora abundantes. Segurados num refúgio entre os oceanos Índico e Pacífico, as aves gigantes acabaram desaparecendo, mas deixaram pistas de sua história na caverna de Liang Bua.

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