Os dinossauros podiam nadar? Descoberta de fóssil revive debate antigo

Não há muitos dinossauros confirmados como semiaquáticos. Descoberta adiciona uma espécie parecida com um pato a esta estreita classificação.

Por Michael Greshko
Publicado 6 de dez. de 2022 10:39 BRT
Esta reconstrução mostra o natovenator polydontus, uma espécie recém-descoberta de dromeosaurídeo – o grupo de dinossauros ...

Esta reconstrução mostra o natovenator polydontus, uma espécie recém-descoberta de dromeosaurídeo – o grupo de dinossauros que contém o velociraptor – que possui adaptações que sugerem a capacidade de mergulhar debaixo d'água.

Foto de Yusik Choi

Durante décadas, os paleontólogos pensaram que os dinossauros eram animais terrestres, como outros grupos de répteis antigos que também mergulham na água. Porém, cada vez com maior frequência surgem novas evidências fósseis que reabrem a questão sobre se alguns dinossauros teriam prosperado de alguma maneira tanto na terra quanto na água, como hoje fazem muitas criaturas modernas. 

Saber se os dinossauros eram “semiaquáticos” é uma incógnita que continuou a incomodar os pesquisadores, já que existem poucos fósseis de dinossauros com características esqueléticas que mostrem inequivocamente a evolução do corpo esculpido para a água. Atualmente, um novo estudo oferece mais uma pista: um parente dentuço do velociraptor com mais de 68 milhões de anos, que mostra sinais da simplificação observada nas caixas torácicas de pássaros mergulhadores. Revelado na revista Communications Biology, o fóssil do sul da Mongólia – conhecido como natovenator polydontus em homenagem ao termo latim e grego para "caçador nadador com muitos dentes" – marca a primeira vez que essa característica foi vista em dinossauros.

Em muitas criaturas, as costelas se projetam da espinha dorsal em ângulos de aproximadamente 90°, mas em pássaros mergulhadores modernos, como pinguins e corvos-marinhos, as costelas se inclinam para baixo em direção às extremidades da cauda dos animais. Inclinar as costelas pode estreitar o torso dos animais, medindo das costas até a barriga. Acredita-se que essa característica ajude a agilizar os animais enquanto nadam pela água. E é esse tipo de adaptação que os cientistas veem no fóssil de natovenator, que inclui uma caixa torácica parcial bem preservada.

O crânio do natovenator preserva grandes órbitas oculares, muitos dentes pequenos e um focinho que em vida teria se eriçado com terminações nervosas sensíveis ao toque.

Foto de Sungjin Lee Yuong-Nam Lee

Muitos dos dinossauros vivos de hoje, que nós conhecemos como pássaros, prosperam na beira da água e além. Também o fizeram alguns de seus ancestrais, como as aves primitivas marinhas ichthyornis e hesperornis. No entanto, as aves são apenas um ramo da árvore genealógica dos dinossauros, e as evidências de dinossauros não aviários mergulhando em lagos e rios são escassas. Encontrar dinossauros como o natovenator, que têm esqueletos construídos para nadar, significa que os habitats e estilos de vida dos dinossauros eram mais diversos do que se pensava.

Nesse sentido, o natovenator lança luz sobre “a diversidade da posição ecológica dos dinossauros”, diz o coautor do estudo Yuong-Nam Lee, paleontólogo da Universidade Nacional de Seul, na Coreia do Sul.

De animais nadadores a aves limícolas

Na última década, os cientistas começaram a suspeitar que pelo menos um grupo de dinossauros estava ligado com a água: os espinossaurídeos. Esses predadores claramente eram mais aquáticos do que outros, com diversas evidências anatômicas e químicas, sugerindo que eles vigiavam as costas e iam atrás de peixes, pelo menos ocasionalmente.

Alguns estudos chegaram ao ponto de argumentar que o espinossauro, o maior membro dessa família, do tamanho de um ônibus escolar, era um “monstro do rio”, que passava grande parte do tempo na água. Essas alegações foram objetadas ao longo dos anos, e recentemente em um estudo publicado na revista eLife argumenta que o espinossauro era mais um predador que realizava emboscadas, ao invés de caçar os peixes nadando.  

Um estudo de 2017 descreveu outro nadador em potencial: halszkaraptor, um esqueleto excêntrico da Mongólia. Embora a criatura fosse um dromeosaurídeo – o subgrupo de dinossauros que inclui o velociraptor – ela tinha um pescoço longo, muito parecido com o ganso. Além do mais, seu focinho – crivado de buracos para os nervos – sugeria que ele tinha uma grande sensibilidade facial de toque, como os crocodilos modernos que podem detectar o movimento da presa na água.

Na época, a equipe que primeiro descreveu o fóssil propôs que suas características estranhas possivelmente o tornassem um nadador semiaquático, como um ganso ou pato modernos. Ao longo dos anos, porém, alguns cientistas questionaram se halszkaraptor era semiaquático, em parte porque a caixa torácica fossilizada não foi preservada o suficiente para determinar as características cruciais desse tipo de animal.

O novo estudo do natovenator ajuda a esclarecer a imagem de halszkaraptor, descobrindo que as duas criaturas eram parentes próximos. Como resultado, parece provável que a caixa torácica de halszkaraptor tenha sido simplificada de forma semelhante, o que fortalece a afirmação de que o estranho dinossauro realmente estava fortemente ligado à água.

Halszkaraptor “certamente parecia um raptor tentando ser um ganso ..., mas esse era uma amostra do tamanho de um exemplar”, diz o paleontólogo Tom Holtz, da Universidade de Maryland (EUA), que revisou o novo estudo do natovenator antes da publicação. 

Caçador dentuço de pescoço comprido

O natovenator veio à tona durante a Expedição Internacional de Dinossauros Coreana-Mongol de 2008. Uma equipe internacional de 27 pessoas encontrou quase 200 fósseis em toda a Mongólia. 

Em 26 de agosto daquele ano, Robin Sissons, membro da equipe, viu ossos saindo das rochas de Hermiin Tsav, um penhasco rico em fósseis no sul da Mongólia, com cerca de 68 milhões a 75 milhões de anos. Mesmo não sabendo o que era o esqueleto, ela o cobriu com gesso protetor para levá-lo ao laboratório.

A descoberta de Sissons junto com outros fósseis da expedição foram enviados para a Coreia do Sul para preparação, e posteriormente foram devolvidos à Mongólia. Enquanto os preparadores raspavam cuidadosamente o excesso de rocha do fóssil, começou a emergir um dinossauro maravilhosamente preservado: com um pescoço muito longo e um crânio cheio de dentes minúsculos. “Instantaneamente, percebemos que era algo importante”, lembra Lee.

O fóssil de natovenator foi uma das centenas que a equipe de Lee coletou na Mongólia ao longo dos anos. Portanto, a preparação levou muito tempo e foi intermitente. Logo, um grande anúncio ajudou a dar sentido ao fóssil que emergia lentamente: a revelação de 2017 do halszkaraptor.

Mergulhos mais profundos à frente

Se os debates enérgicos sobre o espinossauro servirem de precedente, é possível que o natovenator enfrente sua parcela de controvérsia. Mas a paleontóloga Kiersten Formoso, candidata a doutorado da Universidade do Sul da Califórnia (EUA), não tem muita certeza. Em sua opinião, o tamanho pequeno do natovenator torna suas características semiaquáticas mais fáceis de confirmar do que as vistas no gigantesco espinossauro. Por um lado, ela diz, “quando você é menor, não tem enormes pulmões cheios de ar para mergulhar”.

O anúncio do natovenator é apenas o começo do trabalho para colocá-lo no mundo dos dinossauros e aumentar nossa compreensão dos dinossauros nadadores. O paleontólogo Matteo Fabbri, pesquisador do Museu Field de História Natural, em Chicago (EUA), recomenda que estudos futuros analisem a densidade óssea do natovenator, já que sua caixa torácica se assemelha à de pássaros mergulhadores modernos, como pinguins e corvos-marinhos. 

Em um estudo realizado em março, uma equipe liderada por Fabbri mostrou que pinguins, hipopótamos e outros animais modernos que frequentemente se alimentam debaixo d'água tendem a ter ossos densos. Esse estudo também descobriu que o halszkaraptor tinha ossos ocos, ao contrário dos pinguins – e que o espinossauro e seu primo baryonyx tinham ossos densos e consistentes para resistir muito tempo na água.

Porém, já fica claro que, ao ganhar a vida na água, o natovenator seguiu um caminho evolutivo diferente de muitos de seus parentes. Para Holtz, o paleontólogo da Universidade de Maryland, o natovenator serve como um poderoso lembrete do fato que espécies próximas seguiram caminhos totalmente diferentes, assim como as hienas-malhadas de hoje, mastigadoras de ossos, são parentes próximos dos lobos-da-terra, que comem insetos. 

“Só porque você é um dromeosaurídeo não significa que você está comprometido em ser um predador do tipo velociraptor”, diz ele. “Eles fazem parte da mesma grande família, mas [perseguem] tendências adaptativas em linhas diferentes.”

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