Ruas do mundo que levam o nome de Martin Luther King

Mais de mil ruas em todo o mundo levam o nome de Martin Luther King Jr. À medida que chegamos ao 50º aniversário do seu assassinato, como essas ruas refletem as lições do ícone dos direitos civis?quarta-feira, 4 de abril de 2018

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Um comerciante vende bebidas feitas a partir da farinha de grão-de-bico em uma rua residencial em Calcutá, Índia. Chamada anteriormente de Wood Street, a rua foi renomeada para Dr. Martin Luther King Sarani em 1986. O indiano Mahatma Gandhi liderou uma resistência pacífica contra o colonialismo britânico e foi a “a estrela guia para nossa técnica de mudança social não violenta” disse Martin Luther King, Jr. “A não violência não é uma passividade estéril” observou King durante o seu discurso de 1964 no qual aceitou o Prêmio Nobel da Paz, “mas uma força moral poderosa rumo à transformação social”.
Foto de Ian Teh
Esta reportagem é parte da edição especial da revista National Geographic que investiga como o conceito de raça define, separa e une todos nós. 

Três semanas após o assassinato do reverendo Martin Luther King Jr., em 1968, a Câmara municipal de Mainz, na Alemanha, batizou uma rua em homenagem ao líder dos direitos civis que fora assassinado – fazendo, em apenas alguns dias, o que a terra natal de Luther King, Atlanta, nos Estados Unidos, levou anos para realizar. Memphis, no Tennessee, o lugar em que ele foi morto, também batizou uma rua com o nome do ativista em favor da igualdade racial – mas depois de 40 anos da sua morte.

Um novo nome pode sinalizar um futuro brilhante, como quando Abrão, o “pai exaltado” do Antigo Testamento, foi divinamente rebatizado de Abraão, o “pai de muitas nações”. Quando se muda o nome de um lugar, há um sinal de poder e influência – revela quem manda e quem deixou marcas na cultura. Logo, em Schwerin, na Alemanha, a Martin Luther King Strasse faz companhia à Anne Frank Strasse. Em Saint-Martin-d’Hères, na França, a Rue Martin Luther King tange a Rue Rosa Lee Parks, em homenagem à mulher que provocou o boicote aos ônibus em Montgomery, no Alabama, em 1955. Em Porto Príncipe, Haiti, uma rua batizada com o nome do revolucionário do século 18 Toussaint L’Ouverture se mescla a outra rua em homenagem a Luther King.

Avenue Martin Luther King em Porto Príncipe, Haiti – Renomeada em 1968 Vendedores se reúnem na junção das ruas batizadas em homenagem a Luther King e ao revolucionário haitiano Toussaint L’Ouverture. Outras ruas da capital foram nomeadas em homenagem a defensores da liberdade, incluindo Hailé Selassié, etíope que lutou contra colonialistas italianos, na década de 1930; e Jean-Jacques Dessalines, o tenente que ajudou a derrotar os franceses para fazer do Haiti a primeira república negra livre do mundo, em 1804.
Foto de Philomène Joseph

Dois anos antes da sua morte, o índice de aprovação de Luther King nos Estados Unidos era de apenas 33%, provavelmente um reflexo do racismo e do desconforto de muitos americanos brancos com a sua pauta radical em prol da justiça econômica. Com o passar das décadas, o seu passe foi sendo valorizado – mesmo que a sua pauta pareça cada vez mais desfocada. Hoje, 50 anos após a sua morte, cerca de 90% dos americanos têm uma visão favorável do reverendo.

Pelo menos 955 ruas nos Estados Unidos levam o nome de Luther King. Muitas cortam áreas de baixa renda. Mas o estereótipo de que são todas vias escuras em bairros decadentes é um exagero. Um estudo do geógrafo Derek Alderman revelou pouca diferença nas atividades comerciais nessas e nas populares ruas do país com o nome de Main  Street. “Uma vez que você batiza uma rua em homenagem a alguém como Luther King, é melhor se assegurar de que vai manter a rua como um monumento a ele”, diz Daniel D’Oca, que deu um curso chamado “A via MLK: construindo as principais ruas da América negra”, para alunos de pós-graduação em design da Universidade Harvard, em 2015. O curso pedia aos alunos que visualizassem as ruas batizadas com o nome do reverendo que fizessem eco aos seus valores – racialmente integradas, prósperas e pacíficas, economicamente estáveis, com comércio que atenda às necessidades dos residentes próximos.

Dr. Martin Luther King Jr. Boulevard em Nova York, EUA – Renomeada em 1984 Dançarinos da performance 125th and Freedom, de Ebony Golden, seguem pela via. Meio protesto, meio desfile, a produção coreografada ao longo da rua – também chamada apenas de 125 – trabalha em cima da migração, da gentrificação e da emancipação em uma sociedade que, nas palavras de Luther King, coloca os lucros acima das pessoas. O Harlem há muito tempo é um centro de arte, vida e cultura negras.
Foto de Elias Williams

A conta global de ruas MLK é superior a mil, incluindo uma série de vias na Alemanha, país do qual herdou o seu nome. Luther King e o seu pai foram batizados Michael. Mas o King pai, ele também um pastor batista, ficou tão tomado com o reformador protestante Martinho Lutero durante uma viagem de 1934 a Berlim que mudou o seu nome e o do seu primogênito, então com 5 anos.

Martin Luther King Strasse em Bonn, Alemanha – Renomeada em 1968 Pais buscam os seus filhos na Escola Internacional de Bonn, que tem alunos de 76 nacionalidades. No final da década de 1960, os protestos sentados e pacíficos eram uma tática comum dos estudantes na Alemanha Ocidental. Nos anos 1970, cidadãos que protestavam contra uma usina nuclear perto de Hamburgo cantaram o hino dos direitos civis, We Shall Overcome. A viúva de Luther King, Coretta Scott King, discursou num comício contra armas nucleares em Bonn em 1981.
Foto de Martin Roemers

As vitórias na luta pelos direitos civis avançaram em direção ao sonho de Martin Luther King Jr. de acabar com a segregação sancionada pelo Estado. A sua morte acelerou a aprovação, pelo Congresso, da Lei de Moradia Justa. Para os negros americanos, as décadas após a morte dele foram de declínio da pobreza e aumento nas taxas de conclusão do ensino médio e casas próprias. Mas a proliferação de ruas MLK não significa um compromisso global para acabar com a pobreza.

Em Memphis, a cidade onde Luther King foi assassinado, as taxas locais de pobreza ultrapassaram as nacionais. Em 1971, fracassou uma tentativa em renomear uma rua em homenagem a ele. Em 2012, o plano foi ressuscitado pelo vereador Berlim Boyd e aprovado.

“O sangue dele escorre pelas ruas da cidade”, diz Boyd. Com cerca de 3 quilômetros de extensão, a Dr. M.L. King Jr. Avenue foi uma das últimas ruas por onde o líder marchou. A maior parte da sua paisagem é banal – inclui a visão dos fundos de uma arena da NBA e de uma faculdade. Em 28 de março de 1968, Luther King liderou milhares de manifestantes pela, então, Linden Avenue até a prefeitura para enfrentar o prefeito segregacionista e antissindicalista Henry Loeb, que se recusava a negociar com lixeiros negros e grevistas. A marcha ficou violenta. Para provar que poderia liderar uma manifestação pacífica, ele voltou no dia 3 de abril.

Naquela noite, ele fez o seu discurso “Eu estive no topo da montanha”. No dia seguinte, foi assassinado na varanda de um motel. Memphis tenta honrar o seu legado. No verão passado, a Câmara municipal aprovou o pagamento de indenizações aos 29 lixeiros grevistas que ainda sobrevivem para compensar as circunstâncias que diminuíram os seus fundos de garantia. Abatidos os impostos, os homens receberão 1 000 dólares por ano, desde a morte do reverendo. Para aqueles que ainda andam pendurados em caminhões de lixo, não é o suficiente para se aposentar.

Martin Luther King Street em Ermelo, África do Sul – Renomeada em torno de 2007 Em um discurso de dezembro de 1964, Luther King observou que “o problema da injustiça racial não se limita a uma única nação”. Ele previu que os boicotes econômicos acabariam com o sistema que encarcerou o líder negro Nelson Mandela. Ele estava certo. Após anos de sanções dos Estados Unidos e de outras nações, o apartheid veio abaixo, em 1994, mas os seus efeitos perduram. O Centro de Ermelo se integrou, mas este novo bairro é 99% negro.
Foto de Andrew Esiebo

Luther King é, muitas vezes, lembrado por falar de um objetivo simples: crianças negras e crianças brancas de mãos dadas, como irmãos. Já o ícone mais frequentemente esquecido pedia bem mais, exigindo “uma redistribuição radical de poder político e econômico”.

“Em todo o mundo”, disse ele um ano antes de ser assassinado, “o homem vem se revoltando contra velhos sistemas de exploração e opressão e, das feridas de um mundo frágil, estão nascendo novos sistemas de justiça e igualdade.”

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