Esvaziada pela pandemia, 'Meca' da umbanda pede ajuda para não fechar

O Santuário Nacional da Umbanda, um patrimônio cultural imaterial e parque ecológico na cidade de Santo André, em São Paulo, fechou as portas completamente por sete meses. Agora reaberto, ainda espera pela volta dos fiéis.

Publicado 7 de jul. de 2021 07:00 BRT, Atualizado 7 de jul. de 2021 18:06 BRT
Ronaldo Linares, o Pai Ronaldo, posa em frente ao altar, ou congá, de sua tenda no ...

Ronaldo Linares, o Pai Ronaldo, posa em frente ao altar, ou congá, de sua tenda no Santuário Nacional da Umbanda. O congá de Pai Ronaldo, fundador do santuário e da Federação Umbandista do Grande ABC, contém duas imagens grandes de santos católicos identificados com orixás iorubanos e outras menores, que representam espíritos de indígenas, boiadeiros e ancestrais escravizados.

Foto de Gui Christ

Esta reportagem foi financiada pela National Geographic Society por meio da Bolsa Emergencial Covid-19 para Jornalistas.

Em um dos momentos mais tristes da nossa história recente, a religiosidade tem sido uma das principais formas de alento frente a tantas perdas e angustias. Não bastante as mais de 500 mil mortes causadas pelo coronavírus somente no Brasil, milhões foram afetados por impactos socioeconômicos decorrentes dessa grande crise sanitária.

Na Grande São Paulo, região que foi já considerada o epicentro da doença na América Latina, um dos mais tradicionais espaços religiosos do país corre riscos de fechar por dificuldades causadas pelo vírus. Desde o início da pandemia, o Santuário Nacional da Umbanda, localizado no município de Santo André, viu o número de visitantes cair em mais de 70% e suas receitas colapsarem. O parque ficou completamente fechado por sete meses, e, mesmo reaberto, tem presença limitada de público, que financia as atividades por meio de ingresso e aluguel de tendas.

Fundado em 1970 pelo sacerdote Ronaldo Linares – o Pai Ronaldo –, o santuário é chamado pelos seus frequentadores de a Meca umbandista – em alusão a cidade sagrada saudita para onde todos os muçulmanos devem peregrinar pelo menos uma vez na vida. Criado originalmente para proteger fiéis de ataques ou injúrias de cunho racista-religioso, o espaço recebe crentes de diversas religiões de matriz africana e indígena – além da umbanda, também o candomblé e a jurema, por exemplo.

Linares conta que já conhecia o local antes mesmo de iniciar seu projeto. Era ali que ia aos finais de semana realizar rituais de sua religião pregressa, o candomblé. Lá funcionava uma pedreira, desativada na década de 1960, que atraía fiéis de religiões afro-brasileiras. Para eles, pedreiras são fontes de emanação de poder e energia primordial da vida, e de onde Xangô, o orixá da justiça, tira suas forças.

Vista geral do pátio principal do Santuário Nacional da Umbanda, onde estão localizadas imagens de até oito metros de altura. Antes da pandemia, o local recebia  centenas de visitantes em um só dia.

Foto de Gui Christ
À esquerda: No alto:

O sacerdote juremeiro Amaro de Xangô posa em frente a estátua de Xangô  deidade iorubá da justiça. A influência do catolicismo popular aprocima o Xangô de São João Batista, representado na imagem sobre o pedestal.

À direita: Acima:

A umbandista Yara Vitoria Estanesco em frente a imagem de Iemanjá, deidade iorubá dos mares. Em alguns lugares da África, Iemanjá é cultuada como a deidade da fertilidade e associada aos deltas de rios.

Foto de Gui Christ

A trajetória religiosa de Pai Ronaldo começou no Rio de Janeiro, na década de 1950, quando foi apresentado ao primeiro homem que iria mudar a sua vida e iniciá-lo nas religiões de matriz africana, o lendário sacerdote candomblecista Joãozinho da Goméia. Chamado de Rei do Candomblé, Joãozinho popularizou a religião entre artistas e personalidades da época e cultivou uma estreita ligação com a imprensa, especialmente a revista O Cruzeiro, que o estampou na capa. Mas o sacerdote também ficou famoso por ajudar quem quer que batesse em sua porta, e um dos acolhidos foi Linares, que chegou ao pai-de-santo em um momento de dificuldade financeira. Logo foi iniciado nos ensinamentos dos orixás.

Alguns anos depois, de volta a São Paulo, em um dos rituais de candomblé que realizava na pedreira, Linares ficou observando os rituais dos umbandistas. “Ao ver aquelas pessoas tocando atabaques como os candomblés, usando imagens católicas e invocando espíritos como os kardecistas, fiquei intrigado, mas ninguém conseguia me dar uma resposta sobre o que de fato era aquilo”, contou Linares em entrevista à reportagem.

Até então, existia poucas informações organizadas sobre os ritos que os umbandistas realizavam. Linares então iniciou uma jornada para elucidar suas questões e, por acaso, novamente no Rio de Janeiro, encontrou com o segundo religioso que lhe daria um novo propósito. Zélio Fernandino de Moraes não apenas tirou as dúvidas de Linares, mas delegou a ele a missão de levar seu nome adiante e difundir a religião que ele buscava institucionalizar.

A umbanda é plural, cada grupo, tenda ou templo se guia por práticas às vezes muito distintas, geralmente misturando influências de religiões afro-brasileiras – como a macumba, cabula e calundu –, indígenas e europeias. Mas a história da incorporação do Caboclo das Sete Encruzilhadas por Zélio Fernandino de Moraes em 1908 é um marco fundador citado com frequência. Aos 17 anos, Moraes começou a apresentar problemas de saúde com sintomas de epilepsia e paralisia. Sem conseguir se curar com médicos, visitou uma sessão da Federação Espírita de Niterói, quando encarnou espíritos de índios e pretos escravos. Tidos como espíritos atrasados pelos kardecistas, o Caboclo anunciou então a fundação de uma nova igreja, a Tenda Nossa Senhora da Piedade, aberta a quaisquer entidades que quisessem se manifestar.

As instruções do Caboclo das Sete Encruzilhadas influenciaram a criação de muitas vertentes e ajudaram a popularizar a umbanda no Brasil. No último censo do IBGE, de 2010, 432 mil pessoas se declararam umbandistas – número subestimado, pois muitos se dizem cristãos por medo de sofrer perseguição ou preconceito. O nome vem do quimbundo, língua falada em Angola, e significa, entre outras coisas, ‘a arte de curar’.

À esquerda: No alto:

O templo Casa de Tupinambá realiza suas atividades no Santuário Nacional da Umbanda. Pelo custo reduzido e por estarem cercadas de vegetação nativa, muitos sacerdotes alugam as tendas do santuário em datas comemorativas, quando é preciso estar em contato com as energias regentes dos Orixás e espíritos guias.

À direita: Acima:

A sacerdotiza Carol Bandeira durante ritual do templo Casa de Tupinambá em uma das tendas do Santuário Nacional da Umbanda.

Foto de Gui Christ
À esquerda: No alto:

O templo Tenda Umbanda de Luz realiza ritual em uma das tendas alugadas no Santuário Nacional da Umbanda. O desenho ritualístico no chão, chamado ponto-riscado, concentra as energias de orixás e espíritos regentes. Práticas semelhantes são descritas no processo da Inquisição que condenou a sacerdotisa Luzia Pinto no século 18.

À direita: Acima:

Templo de Umbanda Mamãe Oxum e Maria Bonita do Cangaço realiza suas atividades no Santuário Nacional da Umbanda. A admnistração do santuário impõs a adoção de medidas para conter a disseminação do coronavírus – o público é limitado, é exigido o distanciamento e todos, inclusive os ogãs, os músicos, precisam usar máscara.

Foto de Gui Christ

Segundo Guilherme Watanabe, sacerdote umbandista e historiador que pesquisa a religião, pode-se atribuir a Zélio Fernandino a institucionalização da umbanda, mas outros nomes, como Pai Gavião, Luzia Pinto e Juca Rosa também precisam ser lembrados.

O espírito Pai Gavião aparece nos relatos de um correspondente do jornal Correio Paulistano enviado a São Roque (SP) para investigar uma insurreição de escravos em 1854. Segundo o repórter, Pai Gavião encarnava em José Cabinda, líder de um grupo de escravizados que pretendia se rebelar. Cabinda era o grão-mestre do que o jornal chamava “maçonaria negra” e realizava rituais – que reuniam “grande quantidade de escravos e livres” – nos quais dançava e cantava com uma “linguagem ininteligível”, enquanto assistentes tocavam um “instrumento feito de cabaças com cabo de pão e chocalhos”.

No Rio de Janeiro da década de 1870, o “feiticeiro” Juca Rosa, descrito como um “negro inteligente e retinto” em crônica do livro História da Polícia do Rio de Janeiro, de 1944, ficou famoso por receber mulheres da alta sociedade em cerimônias mágico-curativas, com influência das magias europeias, em que também dançava e incorporava espíritos.

Luzia Pinta era uma sacerdotisa tradicional no Brasil do século 18. Nascida na África Central, atual território da Angola, ela foi acusada de feitiçaria em 1739 e enviada para Portugal, onde foi julgada pela pelo Tribunal de Inquisição de Lisboa e enviada aos calabouços do Santo Ofício em 1742. Os textos do processo descrevem rituais – com uso de vegetais, fumos e riscos no chão que marcavam a presença de antepassados – semelhantes aos que ainda se praticam hoje em dia.

Nova religião

Motivado com a nova religião, Linares viu na antiga pedreira a oportunidade de seguir com o trabalho delegado por Zélio Fernandino. Em um local totalmente devastado por 40 anos de atividade mineradora, Linares funda, em 1970, o parque que viria a ser não apenas um espaço religioso, mas também um projeto ambiental que hoje faz parte da Reserva Ecológica da Serra do Mar.

Mais de 645 mil m2 de mata foram replantados, com cerca de 30 mil mudas de 500 espécies nativas diferentes. Hoje, o projeto é considerado um exemplo de recuperação ambiental e integração de práticas religiosas com o meio ambiente. Duas cachoeiras foram recuperadas e o antigo tanque de rejeitos foi transformado em lagoas de água cristalina com peixes e aves. Todo o entorno do parque também foi restaurado, com a criação de um laboratório botânico e mudário.

À esquerda: No alto:

O umbandista Denis Cassio da Silva toca atabaque em frente a uma das cachoeiras do Santuário Nacional da Umbanda. Para os fiéis, as cachoeiras são locais sagrados, onde habita a energia de Oxum, deidade iorubá do amor.

À direita: Acima:

A umbandista Layra Iglesias em frente a imagens de espíritos guardiões chamados exus e pombagira, no Santuário Nacional da Umbanda.  Muitas vezes por preconceito, estes espíritos são erroneamente associados a entidades malévolas e são alvos comuns de ataques por fiéis radicais de outras religiões.

Foto de Gui Christ

“Para essas religiões, estar em contato com a natureza é fundamental, pois cultuam divindades e espíritos que vivem nas matas, nas águas e em toda a natureza”, diz Linares. “Principalmente por esta ser uma região extremamente urbanizada, as pessoas têm aqui no Santuário a oportunidade de estar em contato com essência das forças que adoram em seus templos nas cidades.”

O santuário também é considerado uma espécie de berçário, onde sacerdotes iniciam seus trabalhos religiosos. Ainda na década de 1970, Linares criou um dos primeiros cursos de formação sacerdotal em umbanda no Brasil. Muitos dos alunos iniciaram suas vidas religiosas no parque, para ficarem perto do mentor. Entre os mais de 6 mil sacerdotes formados, há expoentes como Rubens Saraceni – criador de uma das vertentes de umbanda mais populares atualmente, a Umbanda Sagrada – e Engels de Xangô. “Pai Ronaldo sempre foi, além de uma grande inspiração como religioso, um mentor querido e próximo”, conta Engels de Xangô, presidente da Escola de Curimba e Arte Umbandista Aldeia de Caboclos. “Não apenas trabalhando arduamente pela nossa religião, mas criando uma grande família onde todos somos de alguma forma seus Filhos e Netos de Santo pelos ensinamentos que nos trouxe.”

O santuário dispõe de 100 tendas que são alugadas para diferentes templos – hoje, durante a pandemia, apenas 40 estão disponíveis. Pelo menos 20 desses templos realizam suas atividades exclusivamente no parque. “As novas casas podem iniciar suas atividades locando as tendas, com baixo custo. E o melhor: ao ar livre” diz Carol Bandeira, sacerdotisa do templo Casa de Tupinambá. “Em tempos de pandemia, poder estar ao ar livre é uma oportunidade de não parar as atividades.” Como ela, muitos sacerdotes ainda vem o local como uma opção segura e mais barata – visto o alto custo do metro quadrado em São Paulo – para iniciar seus trabalhos religiosos.

Em 2019, mais de 96 mil pessoas visitaram o santuário para orar ou fazer oferendas a divindades. Antes da pandemia, centenas de oferendas podiam ser vistas em um único dia no espaço que abriga estátuas de até oito metros de altura de deidades como Ogun, Oxossi e Yemanjá. Hoje, poucas dúzias são encontradas em dias de fim de semana, período mais movimentado. Poucos se arriscam a visitar até mesmo a imagem de Obaluae, orixá a quem se atribui a cura das enfermidades, para pedir pelos seus parentes enfermos, ou mesmo agradecer pelos que foram curados.

Vista geral de um dos lagos  do Santuario Nacional da Umbanda. Graças a um projeto de requalificação ambiental, os poços de rejeitos da antiga pedreira que ocupava a área do santuário, desativada na década de 1960, viraram lagos de águas cristalinas.

Foto de Gui Christ

Poços de rejeito da pedreira Montanhão em 1978. Mesmo antes de ser desativada na década de 1960, a pedreira Montanhão já atraía fiéis de religiões afro-brasileiras. Para eles, pedreiras são fontes de emanação do poder e energia primordial da vida.

Foto de Arquivo Federação Umbandista do Grande ABC

Os meses em que o santuário ficou totalmente fechado deixaram muita gente desamparada. “Pessoas que costumam vir ao Santuário fazer suas orações, obrigações, oferendas, tomar um passe ou falar com os guias, acabaram ficando sem atendimento”, conta Maria Aparecida Calamari, coordenadora de relações institucionais da Federação Umbandista do Grande ABC (FUGABC). “Muitos nos procuravam via fone ou e-mail porque estavam fazendo consultas on-line, pagando por trabalhos e sem resultados.”

A FUGABC foi fundada e ainda é presidida por Ronaldo Linares, e é mais um esforço para organizar e estruturar a umbanda. Linares também foi pioneiro em criar programas de rádio e de TV sobre religiões de matriz africana no Brasil. Em 2020, graças a atuação da fundação, o santuário foi registrado como Patrimônio Cultural Imaterial para as práticas religiosas das matrizes africanas pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo. A administração também pretende pleitear o tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e o reconhecimento de patrimônio da humanidade pela Unesco. O objetivo é ampliar as proteções legais contra os ainda persistentes ataques racistas-religiosos.

O Santuário Nacional da Umbanda nunca dependeu de doações. Agora, pela primeira vez, pede ajuda às centenas de milhares de pessoas que já frequentaram o local. Pai Ronaldo segue na luta para difundir os ensinamentos de seu mestre. “Tudo que me dediquei aqui”, diz Linares, “foi para levar o nome da umbanda à diante para não decepcionar o legado do Zélio.”

Oferenda de frutas e alimentos da terra feita a caboclos – como são chamados pela umbanda os espíritos de ancestrais indígenas que habitavam o Brasil – nas matas do Santuário Nacional da Umbanda.

Foto de Gui Christ
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