Balé da Cidade de Kiev é 'voz da resistência' no exílio

A cultura também é vítima da invasão russa da Ucrânia, mas esta companhia de dança resiste na França.

Membros da companhia de Ballet da Cidade de Kiev performam a “Dança da Fada Açucarada” durante uma apresentação em 13 de março. Os dançarinos estão entre outros artistas deslocados após a invasão da Ucrânia pela Rússia. O conflito também foi destrutivo para o patrimônio cultural do país.

Foto de Monique Jaques, National Geographic
Por MADELEINE SCHWARTZ
fotografias de Monique Jaques
Publicado 24 de mar. de 2022 11:12 BRT

Paris, França | A arte do balé vem da concentração, disciplina e consistência: os mesmos movimentos, repetidos na barra e no chão; uma linguagem de pliés, relevés, jetés que permanece a mesma há centenas de anos.

Mas o ensaio do Balé da Cidade de Kiev em 16 de março foi incomum em quase todos os sentidos. Os bailarinos dançaram em uma pequena sala, cheia de repórteres tirando fotos e vídeos. Havia pouco espaço na barra para todos os dançarinos, então alguns usavam cadeiras ou a lateral de um piano para realizar os movimentos. Enquanto saltavam pelo chão em pequenos grupos, um dos dançarinos saltou para fora da porta, tão pequena era a sala. Outro caiu desajeitadamente de pé; parecia ter machucado o tornozelo.

Ekaterina Kozlova, que dirige a companhia com seu marido Ivan Kozlov, alternava entre supervisionar seus pupilos e observar os jornalistas, alguns dos quais incomodavam os dançarinos com suas perguntas.

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Julia Kuzmich e Volodymr Bukliev, solistas da companhia Kiev City Ballet, ensaiam com outros dançarinos antes do que deveria ter sido uma de suas apresentações finais na França. Eles deveriam ter voltado para a Ucrânia, mas a guerra os tornou refugiados junto a outros artistas. A partir da próxima semana, a companhia começará novamente a fazer turnês pela França.

Bailarinos do Kiev City Ballet são dirigidos por Ekaterina Kozlova durante um ensaio recente em Nantes, França.

Uma companhia de balé que vive em um teatro

“Tentamos ser especialmente gentis com os dançarinos agora, porque todos estão muito estressados, sob muita pressão”, diz Kozlova. “São ligações de casa, o fluxo constante de notícias. Por causa da tecnologia, estamos em muito mais contato. Nossos dançarinos sabem minuto a minuto o que está acontecendo. Eles estão sempre em seus telefones tentando se manter atualizados. E acho que muita gente está exausta.”

A trupe, que tem sede na capital da Ucrânia, Kiev, partiu para a França em 23 de fevereiro para uma turnê planejada de duas semanas, apresentando uma versão infantil de O Quebra-Nozes. Em 24 de fevereiro, o presidente russo Vladimir Putin iniciou a invasão do país natal da companhia. O conflito já matou milhares e deslocou quase três milhões de pessoas. Os bailarinos estão vivendo em Paris, no Théâtre du Châtelet, por um período cujo fim parece cada vez mais distante.

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Julia Kuzmich, uma solista que interpreta Clara em “O Quebra-Nozes”, assumiu o papel quando os principais dançarinos não puderam fazer a apresentação depois que o aeroporto de Kiev, na Ucrânia, foi fechado durante a invasão.

À esquerda: No alto:

Bailarinos se aquecem antes de uma apresentação de “O Quebra-Nozes”. A companhia Kiev City Ballet estava originalmente na França para apresentar uma versão infantil da peça. Mas a guerra mudou suas apresentações, até nas questões mais básicas de logística.

À direita: Acima:

Vladyslav Dopshinskyi aquece os pés enquanto Julia Kuzmich se alonga durante os minutos finais antes do início do show.

As bailarinas Aelita Shevchuk, à esquerda, e Diana Potapenko esperam sua vez de subir ao palco durante uma apresentação em Nantes, França.

“Estávamos totalmente despreparados para isso”, diz Kozlova. A empresa trouxe figurinos suficientes apenas para os shows que já estavam na programação. Além disso, diz Kozlova, “não trouxemos nada. Não temos música, vídeos, documentos – tudo o que temos foi deixado em Kiev... Basicamente, apenas nos despedimos psicologicamente de tudo o que temos.”

A cultura como alvo da invasão russa da Ucrânia

A agressão russa na Ucrânia foi particularmente destrutiva para a herança cultural do país.

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“A cultura é um alvo específico na estratégia de guerra russa”, diz Sebastian Majstorovic, que com dois colegas dirige o Salvando o Patrimônio Cultural Ucraniano Online (SUCHO, na sigla em inglês), um grupo de cerca de 1,2 mil profissionais do patrimônio cultural que busca proteger arquivos e dados digitais de instituições da Ucrânia. “Se você apagar tudo o que supostamente torna [a Ucrânia] única”, diz ele, “então você realmente cumpre a missão que Putin estabeleceu.”

Desde 2014, quando a Rússia ocupou e anexou a Crimeia, “oficiais russos removeram artefatos, demoliram túmulos e fecharam igrejas em Donbass e na Crimeia”, disse o Departamento de Estado dos Estados Unidos em comunicado. A guerra atual já destruiu ou danificou vários monumentos, incluindo o Museu Histórico e de História Local de Ivankiv e o antigo mosteiro de Svyatohirsk. “Este é um patrimônio cultural insubstituível e representa uma perda profunda para todos nós”, afirmou Majstorovic.

À esquerda: No alto:

Anna Hrechykha posa para um retrato no Théâtre du Châtelet. Hrechykha, que dança há 12 anos, é de Mariupol, na Ucrânia, e há duas semanas não consegue entrar em contato com sua família.

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Ksenia Lytvynenko, 19, morava no Quirguistão e se mudou para a Ucrânia para estudar dança. Após a invasão, ela chegou a Paris pela Polônia para se juntar à companhia.

fotografias de Monique Jaques

Mikola Varvaliyk de Kiev, Ucrânia, posa para um retrato. Ele dança desde os 4 anos de idade.

Como é a vida em Paris da companhia de ballet de Kiev

A maioria dos 38 bailarinos do Balé da Cidade de Kiev em Paris tem entre 18 e 22 anos. Formados em grande parte na mesma escola, muitos se conhecem desde a maior parte de suas vidas. Enquanto ensaiam, se alternam entre falar ucraniano e russo.

Eles também costumam falar inglês e usam o francês para o vocabulário específico de balé. A trupe completa tem cerca de 70 bailarinos e vários outros dançarinos estão atualmente na República Tcheca.

Ksenia Lytvynenko, 19, chegou a Paris há cerca de uma semana. Sua mãe e seu irmão ainda estão na Polônia. Ela não costuma fazer turnês com a companhia de balé, mas perguntou se poderia se juntar ao grupo, que inclui quatro de seus ex-colegas de Kiev. Através do balé, ela diz: “Posso me expressar e posso expressar às pessoas o que está acontecendo agora no meu país”.

Vladyslava Vasilieva, solista, se prepara para uma apresentação.

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Membros do Ballet da Cidade de Kiev descansam entre os aquecimentos enquanto outros esperam para subir ao palco para os ensaios.

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Ivan Koslov, que dirige a companhia de Ballet da Cidade de Kiev com sua esposa, instrui dançarinos dos assentos de um teatro em Nantes, França. O Ballet da Cidade de Kiev não é o único grupo de artistas ucranianos deslocados pela guerra.

Olga Posternak fala com Mykhaylo Shcherbakov antes da apresentação de “O Quebra-Nozes”.

Os dançarinos se esforçam para seguir com trabalho e as apresentações da melhor maneira possível. Um diz que o conflito está sempre em sua mente. Outra não tinha notícias de seus pais em Mariupol fazia duas semanas. “É muito difícil lidar com a logística de tudo isso”, diz Kozlova. Mas, ela observa, “somos muito sortudos por ter tanto apoio”.

As autoridades parisienses esperam fornecer não apenas moradia, mas também um local para os dançarinos trabalharem. Eles logo começarão a ter aulas na Ópera de Paris e costumam assistir a apresentações à noite. A companhia recebeu doações de collants e meias-calças de balé e, a partir da próxima semana, os dançarinos retomarão as turnês pela França.

Paris se prepara para receber mais artistas ucranianos

O Balé da Cidade de Kiev não é o único grupo de artistas ucranianos refugiados em Paris. O Teatro Monfort, no 15º arrondissement, ao sul de Paris, espera cerca de 15 artistas, alguns com suas famílias. Outros teatros também estão se preparando para receber artistas ucranianos, de acordo com Carine Rolland, que, como vice-prefeita responsável pela cultura, vem coordenando teatros em toda a cidade. Ela ainda não sabe quantas pessoas devem chegar, mas está empenhada em encontrar espaços para elas viverem e trabalharem.

“A cultura deve ser apoiada nestes momentos de grande dificuldade, e os artistas de países oprimidos também, em particular a Ucrânia, porque são a voz da resistência”, diz ela. “Os que podem falar devem fazê-lo onde quer que estejam.”

Lada Romanova durante a performance “Dança da Fada Açucarada” na França.

Taras Titarenko salta para sua chamada de cena ao final da performance de “O Quebra-Nozes”.

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