Como os quilombos deram origem e protegeram a cultura afro-brasileira

No Dia da Consciência Negra, aniversário da morte do líder quilombola Zumbi dos Palmares, reportagem destaca a importância dos quilombos para a cultura brasileira.

Por Gui Christ
Publicado 19 de nov. de 2022 13:21 BRT
Mulheres do templo de candomblé Ilê Axé Omo Oya, na cidade de São Paulo, limpam os animais ...

Mulheres do templo de candomblé Ilê Axé Omo Oya, na cidade de São Paulo, limpam os animais sacrificados em um ritual de iniciação. Depois dos rituais, a carne dos animais viram refeição – ou para o próprio templo ou doada à comunidade local. 

Foto de Gui Christ

Em 20 de novembro de 1695, mais de dois anos depois de destruir o mocambo dos Macacos, capital do quilombo dos Palmares, uma tropa enviada pelo bandeirante paulista Domingos Jorge Velho encurralou e matou Zumbi, líder do maior quilombo brasileiro, e os cerca de 20 homens que o acompanhavam.

Esse dia, que marca a morte de Zumbi, aparece em uma troca de correspondências entre o governador-geral de Pernambuco e a Coroa Portuguesa revelada no livro O Quilombo dos Palmares, de 1947, do etnólogo brasileiro Edison Carneiro.

Em 1971, o grupo Palmares – fundado por ativistas negros em Porto Alegre (RS), entre eles o poeta e escritor Oliveira Silveira – celebrou, pela primeira vez, o Dia da Consciência Negra no clube Clube Social Negro “Marcílio Dias”, na capital gaúcha.

O objetivo dos ativistas era fazer um contraponto ao 13 de maio, o Dia da Abolição da Escravidão. Nos anos seguintes, outros grupos passaram a reconhecer a importância do dia do assassinato de Zumbi. A partir de 1978, o Movimento Negro Unificado começou a realizar manifestações importantes no 20 de novembro, e, em 1995, na comemoração de 300 anos da morte do líder quilombola, a Marcha Zumbi Contra o Racismo, pela Igualdade e a Vida reuniu 30 mil pessoas em Brasília.

Em 2002, a data entrou no calendário escolar oficial brasileiro e, finalmente, em 2011, foi instituído o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Mas ele ainda não é um feriado nacional, apenas leis estaduais e municipais estabelecem feriado em 20 de novembro. Há, no entanto, um projeto de lei relatado pelo senador Paulo Paim (PT-RS) – já aprovado em comissão especial do Senado e à espera de votação na Câmara dos Deputados – que faz do dia da morte de Zumbi um feriado em todo território brasileiro.

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Candomblecista dança em transe durante um ritual de iniciação no templo Ilê Axé Omo Oya, na cidade de São Paulo.

Foto de Gui Christ

Quem foi Zumbi dos Palmares

Francisco dos Palmares, o Zumbi, foi um dos últimos líderes do lendário quilombo homônimo, fundado em 1595 na Serra da Barriga, nos atuais estados de Alagoas e Pernambuco. Por quase 100 anos, Palmares foi uma comunidade livre, que compartilhava a terra e a produção agrícola. Era formada por 18 núcleos, que reuniam escravizados fugitivos, seus descendentes, indígenas e pessoas excluídas pela sociedade local. No seu auge, esses núcleos, os mocambos, reuniram mais de 20 mil habitantes.

Fazendeiros locais se sentiram ameaçados e exigiram uma resposta da Coroa Portuguesa. Palmares foi destruído, a mando do rei, por uma incursão militar constituída por milhares de soldados e liderada pelo bandeirante paulista Domingos Jorge Velho em 1694.  

As evidências históricas são raras e pouco se sabe sobre a vida de Zumbi. Mas os parcos registros o revelam como um líder combativo, que lutou pelos direitos de seu povo e que, por isso, inspirou os movimentos sociais negros. A luta sempre fez parte da história afro-diaspórica. Ainda que pouco difundido, o termo quilombo – da língua quimbundo, falada em regiões da atual Angola – significa “armada, resistência ou exército”. Por isso, para alguns historiadores, o termo Zumbi não se referia apenas à Francisco, mas a todos os líderes guerreiros, ou chefes, da comunidade de Palmares.

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Reis Malunguinho

Outro foco de resistência negra, que resultou em uma comunidade conhecida por seus diversos líderes de mesmo nome, os reis Malunguinho, foi o quilombo do Catucá. Com um amplo território, localizado nos atuais estados de Pernambuco e Paraíba, ele foi fundado, entre 1817 e 1818, por escravizados fugidos das fazendas de Recife e Olinda. Ao lado de Palmares, o quilombo do Catucá lutou contra os senhores de cana e algodão até 1830, quando seu último líder foi morto e o quilombo dado por extinto. A atuação combativa e liderança dos diversos reis Malunguinho foi tão marcante para a comunidade que, após suas mortes, eles foram divinizados. Hoje, os líderes do Catucá são cultuados em religiões como o Catimbó e celebrados anualmente em eventos na mata do antigo quilombo com o Kipupa Malunguinho, o maior evento de Jurema e Catimbó do país.

Por séculos, as religiões afro-brasileiras foram proibidas no Brasil. Seja pela perseguição da Inquisição Católica, pela proibição do estado ou pelos ataques de grupos intolerantes. Para muitos religiosos do candomblé e umbanda, a preservação da sua fé só foi possível devido a existência dos quilombos. Para o babalorixá Danilo de Ayra, sacerdote de um dos mais tradicionais templos da zona norte de São Paulo, o Ilê Asé Omo Oya, as casas de culto afro-brasileiras podem também ser considerados pequenos quilombos.

“Nossos terreiros são uma reconstrução das aldeias africanas”, diz Ayra em entrevista à reportagem. “Nossos rituais, nossa cultura e a forma como conduzimos nossas comunidades só puderam chegar a nós por terem sido preservadas nos quilombos.” Não à toa, é comum que templos afro-religiosos sejam chamados por seus membros de roça – uma alusão às áreas rurais dos antigos quilombos onde orixás e ancestrais eram cultuados.

Além do significado de resistência que carregam, os quilombos representam também a integração dos diversos povos africanos trazidos para o Brasil e os povos originários. Pela violência do processo colonial, ambas populações tiveram suas vidas e identidades culturais sequestradas repentinamente. E, por terem um opressor em comum, tiveram nos quilombos um local seguro para coexistirem e se integrarem. Muito do que entendemos hoje como cultura e religiosidade afro-brasileira nasceu devido às trocas nessas comunidades.

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Membros do templo de candomblé Ilê Ásé Omo Oya a ti Ayra fazem o ritual perfure em Franco da Rocha, interior de São Paulo.

Foto de Gui Christ

Tal fato pode ser visto no culto aos caboclos, personagens ancestrais indígenas, adorados em candomblés de tradição Angola. Segundo as tradições dos povos Bantu – nos atuais Moçambique, Congo e Angola –, seus rituais têm nos ancestrais uma figura de veneração. Eles se manifestam para aconselhar e celebrar com seus descendentes. Em solo Brasileiro, essas figuras não estavam mais presentes, pois seus corpos, e logo seus espíritos, ficaram na África. Assim, os indígenas passaram a ser reconhecidos como os ancestrais desta terra e cultuados em suas cerimônias. A tradição também segue presente em religiões de origem centro-africana, como a umbanda e almas de angola.

Esse encontro não apenas influenciou a cultura e religiosidade afro-diaspórica, como também a indígena. Em algumas regiões do Brasil, populações nativas adotaram imagens ou até mesmo divindades de origem afro-religiosa em seus rituais. Desse encontro, nasceram religiões como a jurema e a encantaria, onde encantados e deuses indígenas convivem com orixás, inquices e voduns.

Preservação do patrimônio

Hoje, os quilombos se tornaram não apenas um símbolo da herança africana no Brasil, mas locais de preservação de tradições culturais e do meio ambiente. Localizado na cidade de Valença, o Quilombo São José da Serra anualmente recebe em suas terras centenas de turistas para as suas famosas rodas de jongo, ritmo nascido em Angola e precursor do samba.

Lá, seus moradores celebram os ancestrais vindo do Congo dançando em rodas cercadas pela exuberante vegetação preservada em uma região antes deteriorada pelo plantio do café até o início do século 20. O legado de preservação de seus ancestrais não apenas possibilitou a manutenção das tradições e do meio ambiente, mas os ajuda com a renda proveniente do turismo étnico, cultural e ambiental.

Na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, no bairro de Madureira – que recebeu diversos ex-escravizados oriundos principalmente da Pequena África, lar histórico da comunidade afro-brasileira na zona portuária da capital carioca –, o Quilombo Cultural da Serrinha não apenas ensina os jovens da comunidade sobre os ritmos vindos de Angola, mas mantem viva a história de Vovó Maria Joana. A sacerdotisa foi uma das matriarcas da comunidade e responsável por apresentar o universo afro-religioso à cantora Clara Nunes, que, na década de 1980, o eternizou em suas músicas aos orixás.

A pajé akroá-gamella Maria Roxa posa para retrato em sua casa de rezas na terra indígena Taquaritiua, no Maranhão, cercada por imagens de Yemanjá, divindade yorubana dos mares, e São Jorge, santo católico sincretizado com Ogum, orixá do ferro.

Foto de Gui Christ

Muitas vezes associados com locais rurais e distantes, o Quilombo Cultural da Serrinha é um exemplo dos muitos quilombos espalhados nas zonas urbanas de grandes cidades. Outro é o quilombo da Liberdade, em São Luís do Maranhão, o maior do tipo urbano no Brasil. Reconhecido pela Fundação Palmares em 2019, o território abrange atualmente cinco bairros da capital maranhense. Ele teve seu início em 1907, quando os primeiros habitantes provenientes de diversos quilombos do interior do estado começaram a migrar para São Luís em busca de emprego. Por laços culturais e familiares, foram se agrupando na região, mas, nos anos 1970, disputas por terra no interior do estado fez a população crescer vertiginosamente – o quilombo tem hoje cerca de 160 mil moradores.

Na região central da cidade de São Paulo, moradores do Bexiga lutam para preservar a memória do antigo Quilombo Saracura, encontrado durante escavações arqueológicas no bairro. Localizado em uma área privilegiada da cidade, a área do quilombo foi repaginada após a proibição do uso da mão de obra escrava e à medida que a urbanização da cidade avançava. Aos poucos, imigrantes italianos foram substituindo os ex-escravizados, levando ao fim da comunidade em 1920.  

Pela longa presença e herança negra deixada no bairro, por décadas a região foi conhecida como a Pequena África de São Paulo. Por isso, o bairro é considerado, entre outros, o berço do samba paulista e de movimentos socioculturais afro-brasileiros. Passado quase 100 anos desde o fim do Saracura, achados arqueológicos decorrentes da construção de uma nova linha de metrô no bairro, o coletivo Mobiliza Saracura Vai-Vai reivindica a construção de um centro cultural na futura estação, e que esta tenha se refira ao quilombo em seu nome.

Para Luciana Araujo, uma das representantes do coletivo de moradores, a preservação das peças encontradas por arqueólogos é fundamental para a preservação do legado dos seus ancestrais. Elas darão materialidade a uma história que o racismo apagou. “Somos um bairro que nasceu da resistência à escravidão e acolheu trabalhadores italianos e depois nordestinos”, diz Araujo em entrevista à reportagem. “A musealização das peças encontradas vai mostrar uma perspectiva de vida organizada quilombola inovadora para a historiografia paulistana e brasileira.”

Feriado nacional

Desde a década de 1970, o 20 de novembro vem se tornando um momento importante de celebrar as conquistas dos movimentos negros que há séculos lutam pela liberdade e pelo fim das desigualdades raciais no Brasil.

Em seu relatório para a sessão da Comissão de Educação do Senado que aprovou a lei que proclama feriado nacional em 20 de novembro – mas ainda à espera de votação na Câmara dos Deputados –, o senador Paulo Paim enfatizou a importância da data para celebrar a luta do povo negro. “A efeméride é também um símbolo de luta e de emancipação das injustiças impostas por séculos contra a população negra”, diz o documento.

“Alguns resistem, mas a maioria [...] do nosso povo vai ficar muito feliz se nós tivermos a oportunidade de fazer um grande debate [no dia 20 de novembro], em todos os locais, sobre a importância da igualdade, da liberdade e da justiça”, disse Paim durante o discurso, em agosto de 2021. “E que ninguém mais seja julgado pela cor da pele, mas sim pela sua conduta.”

Gui Christ é fotógrafo e Explorador da National Geographic Society, siga-o no Instagram. Em seu último projeto, Gui busca revelar as causas e o impacto da intolerância religiosa sobre as religiões afro-brasileiras.

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