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Por que a meia-idade parece diferente para os millennials?

Esta geração não está atingindo os padrões de referência de "vida adulta" que tinham os seus pais. Mas isso não é necessariamente uma coisa ruim.

A geração dos millennials está começando suas famílias mais tarde e tem mais dívidas que os impedem de comprar uma casa. No entanto, ao perder esses marcadores tradicionais da vida adulta, os millennials ganharam uma nova liberdade, diz um especialista.

Foto de KNSY, Picture Press, Redux
Por Alissa Greenberg
Publicado 14 de jun. de 2024, 17:00 BRT

Se você quiser ter uma ideia de como meia-idade mudou nos últimos anos, não precisa ir além do filme de comédia “O Pai da Noiva”, de 1991, na qual os atores Steve Martin e Diane Keaton interpretam pais com 40 e poucos anos. As conversas em torno de um post viral de 2022 que criticou essas representações do filme concordam em grande parte: seja qual for o ideal de meia-idade do filme, ele não se assemelha às pessoas de 40 anos de hoje.

Sim, a meia-idade parece diferente agora – tanto na moda, na atitude jovem em dados concretos. Eu, Alissa, na maioria dos meus dias, sem filhos, sem marido, sem ter que pagar hipoteca, não me considero uma adulta "de verdade" aos 37 anos, pelo menos não do calibre de “Keaton-Martin” representados no filme dos anos 1990.

 Claro, algumas pessoas da minha geração logo terão filhos com idade suficiente para se casar. Mas muitas ainda estão tendo seus primeiros filhos – a idade média das mães que dão à luz aumentou para 30 anos entre 1990 e 2019 – ou, como 1/5 dos adultosnão planejam ter filhos.

Quando a geração do milênio, os millennialschega à meia-idade, as difíceis realidades financeiras e culturais deixam muitos de nós com a mesma sensação de que não estamos vivendo de acordo com os padrões da vida adulta moderna. Mas a mudança de ideias sobre o envelhecimento também está moldando nosso comportamento na meia-idade de novas maneiras, criando mais espaço para realizações e aventuras.

A pressão financeira significa atrasos na formação de uma família e na aquisição da casa própria


Reescrever as regras de desenvolvimento não é novidade para a geração de millennials. Mesmo no início dos anos 2000, os cientistas sociais notaram que os millennials mais velhos (aqueles que nasceram por volta de 1981, embora o ano exato de corte ainda esteja em debate, alguns colocam essa turma ainda na “geração X”) não estavam atingindo os marcos típicos de conclusão dos estudos, obtenção de emprego, casamento e filhos, afirma Karen Fingerman, professora de desenvolvimento humano na UT Austin e diretora do Texas Aging and Longevity Consortium, nos Estados Unidos.

Depois de 24 anos, continuamos a adiar o casamento e a maternidade, diz Carolina Aragão, que estuda tendências sociais e demográficas no Pew Research Center. Sua pesquisa mostra que a porcentagem de adultos de 30 a 34 anos que são casados caiu mais de 10% nas últimas duas décadas

A idade média da primeira maternidade em 2021 também foi de 27,3 anos, a mais alta de todos os tempos, e outra pesquisa recente do Pew Research Center revelou que 44% dos adultos sem filhos com idade entre 18 e 49 anos planejavam continuar assim.

As pressões financeiras estão afetando o momento desses marcos. Um relatório de 2024 da National Association of Realtors dos Estados Unidos constatou que 1/3 dos millennials mais velhos deve mais de 40 mil dólares em empréstimos estudantis e que adiamos a compra de casas "principalmente" por causa dessa dívida e dos altos custos de aluguel, que nos impedem de economizar para dar uma entrada. E esses altos custos de vida são vistos em todo o mundo atualmente.

Entre hipotecas, assistência médicacuidados com idosos e com crianças, a meia-idade sempre foi cara, mas para a geração dos millennials ela está se mostrando especialmente esmagadora. De acordo com um artigo de pesquisadores do Center for Household Financial Stability, a poupança média da geração do milênio em 2016 foi de 23.200 dólares , 34% menor do que a renda esperada com base em tendências históricas.

Os millennials enfrentam as expectativas de uma era passada


A teoria de um fenômeno universal de "crise da meia-idade" há muito tempo foi desmentida, afirma Margie Lachman, professora de psicologia da Universidade de Brandeis, nos Estados Unidos, que se concentra na meia-idade. Na realidade, apenas uma pequena porcentagem das pessoas relata ter passado por uma crise, e a crise pode ocorrer em muitas idades diferentes. 

Em vez disso, a meia-idade tem sido historicamente um momento para mudar o foco de si mesmo para outras pessoas, para encontrar significado por meio de orientação ou envolvimento em ativismo.

Uma mudança de foco para os outros também significa fazer malabarismos com as prioridades e aumentar o estresse, diz Lachman. Durante esse período, é provável que a pessoa tenha a mais ampla constelação de papéis: pai, mãe, cônjuge ou parceiro, irmão, colega de trabalho ou chefe, líder comunitário, amigo e, às vezes, até avô, diz ela. "As pessoas realmente dependem de você, talvez puxando-o em diferentes direções."

Mas a dupla tendência de a geração millennial ter filhos mais tarde e de os pais viverem mais intensifica esse fenômeno da "geração sanduíche". Embora o senso de controle sobre a própria vida geralmente atinja o pico na meia-idade, diz Lachman, as gerações nascidas mais recentemente se sentem progressivamente com menos controle do que as gerações anteriores.

E, acrescenta, a geração do milênio não só precisa equilibrar esses papéis, como também está lidando com a instabilidade no trabalho, a agitação geopolítica, o custo de vida e a inflação, além da ansiedade digital decorrente do aumento do uso das redes sociais.

Então, como é que a geração dos millennials ainda mede nosso crescimento por referências de outro século? Fingerman e outros cientistas sociais chamam isso de "defasagem cultural". "Não é que você tenha 'fracassado' ou não tenha aproveitado a oportunidade", explica Fingerman. "O que aconteceu foi que esses marcadores desapareceram e o mundo ficou menos estruturado."

Sem a estrutura para nos apoiar, mas com essas normas defasadas, muitos millennials ficam com uma sensação de adolescência prolongada. Veja o exemplo de Anna Schumann, que aos 38 anos está frustrada porque sua vida não parece estável o suficiente para ter filhos. O fato de não conseguir atingir os parâmetros financeiros "faz com que meu crescimento pessoal também pareça atrofiado", diz ela. "De muitas maneiras, ainda me sinto como uma criança; eu me pergunto se isso algum dia vai mudar."

Mudar os padrões da meia-idade pode ser uma coisa boa


Mas, com a falta de estruturavem também uma flexibilidade crescente, e alguns millennials se sentem entusiasmados com a ideia de permanecer "jovens" por mais tempo. Os avanços da biotecnologia ajudaram a aumentar a taxa de fertilidade das mães entre 40 e 45 anos em 132% entre 1990 e 2019, dando às mulheres mais tempo do que nunca antes da maternidade. 

Dados recentes sobre tendências de saúde mostram que a independência na meia-idade e na maturidade está aumentando, com menos adultos com mais de 72 anos relatando necessidades de autocuidado e mobilidade não atendidas e um salto de 10% nas pessoas com "alta capacidade física" nessa faixa etária (chegando a quase 1/3) entre 2011 e 2019. O resultado é uma tela ampla que os millennials estão preenchendo de várias maneiras novas.

Uma dessas maneiras é viajar. Radha Vyas, CEO e cofundadora da empresa de viagens em grupo nos Estados Unidos voltada para pessoas de meia-idade, a Flash Pack, vê a popularidade de sua empresa como resultado, em parte, do fato de a geração do milênio usar o dinheiro economizado e poupado para novas prioridades.

 Os “Flash Packers” geralmente são solteiros e não têm filhos; muitos estão viajando depois de uma demissão. "A sociedade mudou", comenta Radha. "Não existe mais um emprego seguro; talvez eles nunca queiram se estabelecer e talvez nunca queiram ter filhos." Então, eles se perguntam: e agora?

Ao perder as estruturas tradicionais da vida adulta, os millennials também ganharam nova liberdade, diz Fingerman, abrindo espaço para uma nova versão da vida adulta em que "você não precisa sair da casa dos pais para ser adulto; você não precisa se casar para ser adulto". 

Veja, por exemplo, o aumento da popularidade da coabitação, as tendências de desenvolvimento da não monogamia ou o aumento do nomadismo digital. "Se sua identidade for menos limitada pela necessidade de atingir uma meta social específica, você estará mais livre para extrair significado de outras experiências", afirma ela.

E se a maturidade significar apenas algo novo agora?”, pergunta Fingerman. Em vez de buscar o que pode parecer metas impossíveis, talvez signifique "ver as restrições em sua vida, mas adaptar-se a elas", usando essas limitações para desencadear um processo de autodefinição e exploração.

"Se o roteiro não é tão claro como era antes, você também pode tirar proveito disso, certo?", diz Lachman. "Pode ser emocionante. Você pode determinar como é a sua própria meia-idade."

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