História

Floresta amazônica já abrigou milhões a mais do que se pensava

Esqueça as pequenas tribos nômades e a selva imaculada: o sul da Amazônia provavelmente estava coberto por uma rede de grandes aldeias e centros cerimoniais antes da chegada de europeus.quarta-feira, 28 de março de 2018

Por Erin Blakemore
Geoglifos no sul da Amazônia são evidências de uma antiga população próspera.

Antes dos invasores ibéricos explorarem a América do Sul, comunidades esparsas de povos nômades se agruparam em torno do rio Amazonas, deixando a floresta tropical circundante intacta e intocada.

Será que era assim, mesmo?

Uma nova pesquisa sugere uma história muito diferente - uma região amazônica repleta de aldeias da floresta tropical, terraplanagens cerimoniais e uma população muito maior do que se imaginava anteriormente.

O estudo, financiado em parte pela National Geographic Society e publicado (em inglês) ontem no periódico Nature Communications, desafia uma percepção comum da floresta amazônica pré-colombiana como escassamente povoada. Essa percepção perdurou apesar dos relatos do século 16 acerca de aldeias grandes e interconectadas que vão contra as suposições modernas.

“Muita gente tem a imagem de que é um paraíso intocado,” discute Jonas Gregorio de Souza (em inglês), arqueólogo da Universidade de Exeter, que colaborou no projeto. Grande parte da região é inexplorada e coberta por florestas densas. Por isso, tem sido inacessível para os pesquisadores interessados em aprender mais sobre a vida longe do rio poderoso.

Até agora. A equipe usou imagens de satélite para tentar identificar antigos geoglifos - terraplenagem provavelmente usada para cerimônias - em partes inexploradas do estado brasileiro de Mato Grosso.

Depois, armados com as coordenadas dos prováveis geoglifos, eles foram a campo - às vezes literalmente, já que grandes áreas de terra na região são usadas para a agricultura. Com certeza, cada um dos 24 alvos que visitaram foram certeiros. "Tudo fazia sentido", diz de Souza. "Nós sabíamos que estávamos em uma área especial."

Em um local, a equipe foi mais fundo. Localizaram cerâmicas e carvão sugerindo uma aldeia que datava de cerca de 1410 d.C.

De volta ao escritório, eles costumavam prever onde outros sítios poderiam estar localizados, criando um modelo de computador que levava tudo, desde a elevação até o pH do solo e a precipitação, em consideração. Isso apontou que as pessoas teriam construído geoglifos em áreas de maior altitude, com grandes variações nas estações e temperaturas.

O modelo também mostrou que as pessoas não necessariamente teriam construído perto dos rios, uma ideia que também vai contra as suposições modernas. É provável que existam 1,3 mil geoglifos e aldeias em uma área de quase 400 mil km² do sul da Amazônia, dois terços dos quais ainda não foram encontrados.

E ainda foram previstas densidades populacionais muito maiores do que o esperado. A equipe agora acredita que entre 500 mil e 1 milhão de pessoas já viveram em apenas 7% da bacia amazônica. Isso vai contra estimativas anteriores de que apenas cerca de 2 milhões de pessoas viviam em toda a bacia amazônica.

A distribuição dos sítios em potencial sugere que eles eram interconectados, vilarejos avançados e fortificados por 1,7 mil quilômetros que floresceram entre 1200 e 1500 d.C. "Precisamos reavaliar a história da Amazônia", aclara José Iriarte, arqueólogo da Universidade de Exeter, Explorador da National Geographic, e primeiro autor do artigo, em comunicado à imprensa (em inglês).

Então, o que aconteceu com essa população que vivia nas florestas tropicais? Souza comenta que muitos morreram depois da conquista europeia da região. Doenças e genocídio acabaram com aldeias inteiras, e outros tantos abandonaram completamente a agricultura. "Eles tinham de estar constantemente em movimento", explica. Mas os vestígios que deixaram para trás indicam que ainda há mais para aprender sobre sua civilização desaparecida.

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