História

Máscara de 9 mil anos surpreende arqueólogos e levanta suspeitas

A rara descoberta foi recebida com animação, mas novamente levantou grandes questões sobre a autenticidade desses misteriosos artefatos neolíticos. Quinta-feira, 6 Dezembro

Por Kristin Romey

Com olhos vazios e enigmáticos e dentes demarcados, as máscaras de pedra de 9 mil anos provenientes dos arredores do sul do deserto da Judeia estão entre alguns dos artefatos mais convincentes e peculiares da região. Além disso, é preciso considerar a raridade dessas peças: conhece-se a existência de apenas 15 exemplares. Então, quando a Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA) recentemente anunciou a descoberta da décima sexta máscara de pedra, o fato chamou a atenção de arqueólogos e do público em geral—como também retomou uma delicada discussão sobre a autenticidade desses objetos tão únicos.

A máscara de pedra foi descoberta há alguns meses pela Unidade de Prevenção de Roubos da autoridade, de acordo com um comunicado à imprensa emitido pela IAA. Uma posterior investigação levou os arqueólogos de volta ao "provável sítio arqueológico onde a máscara foi originalmente encontrada", próximo ao assentamento de Pnei Hever, no sul da Cisjordânia. Os resultados de uma análise inicial da máscara foram apresentados no início desta semana no encontro anual da Sociedade Pré-Histórica de Israel por Ronit Lupu, da Unidade de Prevenção de Roubos de Antiguidades da IAA, e por Omry Barzilai, chefe do Departamento de Pesquisa Arqueológica da IAA.

A máscara recém-descoberta compartilha muitas características com as demais encontradas até o momento. Essas características incluem um rosto em tamanho real feito de calcário macio com grandes aberturas para os olhos, uma boca definida e orifícios perfurados nas laterais. Com base nos orifícios, alguns pesquisadores sugerem que as máscaras tenham sido criadas para serem presas ao rosto ou a um objeto.

"É maravilhosa, linda", diz Lupu, que participou da recuperação da máscara e da identificação do local associado à descoberta. "Você olha para ela e dá vontade de chorar de alegria".

Além do apelo estético, as máscaras de pedra do período neolítico são cientificamente importantes, criadas em um momento da história no qual as pessoas da região começavam a se organizar em comunidades assentadas, de acordo com Barzilai, que analisou a descoberta.

"A transição de uma economia voltada à caça e à procura de alimentos para a agricultura antiga e a domesticação de animais e plantas foi acompanhada por uma alteração na estrutura social e um grande aumento nos rituais e atividades religiosas", observou Barzilai no comunicado à imprensa.

Alan Simmons, professor emérito de antropologia da Universidade de Nevada, Las Vegas, que se especializou nesse período da história, também tem a mesma opinião. "Quando você tem populações maiores e mais pessoas vivendo em um mesmo lugar, você precisa ter controle social. É por isso que começamos a ver um comportamento mais formalizado, com rituais." Outros indicadores da existência de rituais nesse período incluem estatuetas humanas e crânios em gesso.

"Um acessório de festa sofisticado?"

Entretanto a real finalidade dessas máscaras na sociedade há 9 mil anos continua sendo um mistério. Alguns sugerem que elas estejam associadas a uma forma de veneração a ancestrais.

"Seriam utilizadas em rituais funerários ou algum outro tipo de ritual, ou eram apenas um acessório de festa sofisticado? Quem poderá saber?", indaga Simmons.

Grande parte do mistério tem a ver com o fato de que a maioria das máscaras do período neolítico veio de coleções particulares e possui origem duvidosa, sem uma procedência arqueológica consistente. Até o momento, de acordo com o comunicado da IAA, apenas duas das máscaras tinham um contexto arqueológico claro: uma máscara foi recuperada de uma caverna em Nahal Hemar e a outra foi comprada pelo general israelense Moshe Dayan.

Nesse último caso, a pessoa desconhecida que descobriu a máscara levou Lupu ao local da descoberta. Registros conflitantes não conseguem confirmar se o artefato foi voluntariamente entregue à Unidade de Prevenção de Roubos ou se foi alvo de buscas. Um levantamento da superfície do local revelou ferramentas de pedra datadas de 7.500 a 6.000 anos a.C., diz Lupu. Um análise isotópica e mineralógica preliminar da máscara indica que ela veio daquela área.

Devido à origem duvidosa da maioria das máscaras, Lupu entende que sua autenticidade seja questionada. Mas ela está confiante de que a máscara realmente veio do local da descoberta.

"Tenho certeza que esse é o contexto dessa descoberta", afirma ela. "Acredito que isso ficará claro quando for publicada [a análise final da máscara]".

Conhecer a localização não é suficiente

Alguns arqueólogos afirmam que saber a localização da descoberta não é suficiente. "Mesmo se conseguirmos encontrar o local de origem [da máscara], isso não nos diz nada sobre a forma como ela era utilizada", diz Yorke Rowan, professor de arqueologia da Universidade de Chicago. "Teria sido encontrada em um sepultamento? Em um contexto de ritual, como algum tipo de santuário? Esses são os tipos de perguntas que somente podem ser respondidas quando conhecemos o contexto arqueológico".

O fato de apenas uma das 16 máscaras de pedra ter sido cientificamente escavada também alerta para a possibilidade de falsificação dos demais exemplares, diz Morag Kersel, professora de antropologia da Universidade DePaul, que está elaborando um estudo sobre a autenticidade das máscaras.

Os que defendem a autenticidade da máscara apontam para uma análise de 2014 da pátina superficial de doze das máscaras de pedra—incluindo dez de coleções particulares sem procedência conhecida—que indicou que todas haviam sido descobertas dentro de um pequeno raio geográfico ao redor das montanhas e do deserto da Judeia. A última máscara também foi encontrada na mesma área.

Contudo Kersel pede cautela, observando que pátina "autêntica" pode ser produzida em artefatos falsificados. "Nunca saberemos se uma máscara é falsa ou sua verdadeira origem a menos que tenha sido escavada por equipes científicas", afirma ela.

Simmons também admite que o mistério que envolve a origem das demais máscaras tenha influenciado sua primeira reação à essa nova descoberta. "Veja, é uma descoberta realmente interessante, mas gostaria que houvesse mais evidências", diz ele. "Minha primeira pergunta [quando fiquei sabendo da descoberta] foi 'Hmm, ela é real?'"

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