História

Espécie recém-descoberta de dinossauro ostentava 'asas de morcego'

A descoberta do raro fóssil da China revela o espécime mais preservado já encontrado desse peculiar grupo de dinossauros.domingo, 26 de maio de 2019

Essa ilustração representa o Ambopteryx longibrachium, uma espécie recém-descoberta de dinossauro terópode não aviário que tinha asas membranosas semelhantes às do morcego. Viveu há cerca de 163 milhões de anos onde hoje é a China.
Essa ilustração representa o Ambopteryx longibrachium, uma espécie recém-descoberta de dinossauro terópode não aviário que tinha asas membranosas semelhantes às do morcego. Viveu há cerca de 163 milhões de anos onde hoje é a China.

Há mais de 160 milhões de anos, as florestas da China pré-histórica eram lar de um bizarro predador: um pequenino dinossauro que planava de árvore em árvore com asas com aparência de couro, semelhantes às asas dos morcegos.

O fóssil, recém-descoberto e revelado na revista científica Nature, é apenas o segundo dinossauro já encontrado com penas com sinais de grandes membranas em suas asas. Então, é adequado que o nome do gênero recém-atribuído ao animal seja Ambopteryx, que em latim significa “duas asas”.

“Para mim, o mais animador é que isso mostra que alguns dinossauros desenvolveram estruturas bastante diferentes para conseguirem voar”, diz Min Wang, autor principal do estudo e paleontólogo no Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia da China.

Agora, o Ambopteryx é o fóssil mais conhecido do grupo scansoriopterygid, um esquisito grupo de dinossauros não aviários que inclui o Yi qi, o primeiro dinossauro já encontrado com asas semelhantes às do morcego. Esse achado, revelado em 2015 pelo coautor do estudo, Xing Xu, diretor adjunto do IVPP, mudou a forma como os cientistas entendem a evolução do voo.

“Antes da descoberta do Yi qi, tentávamos encaixar todos os dinossauros voadores que descobríamos na linhagem evolutiva dos pássaros”, conta o coautor do estudo Jingmai O'Connor, paleontólogo do IVPP especializado em aves pré-históricas. “O Yi qi simplesmente acabou com essa ideia”.

Agora, alguns pesquisadores acreditam que o voo se desenvolveu pelo menos em quatro momentos distintos entre os dinossauros, incluindo entre os scansoriopterygids. Mas ainda perdurava um ceticismo saudável sobre o Yi qi. O animal possui ossos peculiares, semelhantes a hastes, chamados de elementos estiliformes, que se projetavam de seus pulsos e os paleontólogos pensavam que podiam estar ali para ajudar a apoiar uma grande asa membranosa. Mas nenhum outro dinossauro, vivo ou morto, também apresentava esse osso — até o Ambopteryx.

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O fóssil recém-descoberto não apenas possui elementos estiliformes, ele também preserva um filamento amarronzado em uma asa — material que se acredita ser traços de uma membrana de asa. Além disso, o Ambopteryx possui penas fossilizadas e um pigóstilo, um grupo de vértebras fundidas da cauda que fixa as penas da cauda das aves vivas.

Um 'dinossauro-esquilo-voador'

Um fazendeiro local descobriu o fóssil do Ambopteryx em 2017, fora de uma vila nas proximidades de Lingyuan, cidade da província de Liaoning na região nordeste da China. Quando o IVPP obteve o fóssil pela primeira vez, os pesquisadores acreditavam que podia ser uma ave pré-histórica, até que Wang — especialista em evolução primitiva das aves — assumiu a frente da pesquisa. Mas conforme os preparadores cautelosamente removiam o excesso de rocha, Wang percebeu que o animal definitivamente não era uma ave.

Agora, inteiramente exposto, o fóssil preserva detalhes de como era a vida do Ambopteryx. Muito provavelmente era um onívoro oportunista: em seu estômago havia gastrólitos, como aqueles das aves modernas que se alimentam de plantas, mas também havia fragmentos de ossos, sinal de que a criatura se alimentou de carne pouco antes de morrer. O animal adulto pesava aproximadamente apenas algumas centenas de gramas.

Os pesquisadores ainda estão analisando como era a sua capacidade de voo — embora pareça que fosse bem adaptada para planar entre as árvores. Suas patas sugerem que evoluiu para pousar em árvores, mas em vez de agir como um pássaro canoro, a equipe acredita que seu comportamento possa ter sido como o de esquilos-voadores e petauros-do-açúcar de hoje.

“Provavelmente vivia subindo ao redor das árvores — como um pequeno esquilo-dinossauro de aparência esquisita — e então planava de galho em galho”, conta O'Connor.

“Se existisse um terópode arbóreo, ele seria um animal bastante estranho e se pareceria bastante com isso”, diz o paleontólogo da Universidade do Sul da Califórnia Mike Habib, especialista em biomecânica que estuda o voo do Yi qi.

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Voando rumo ao desconhecido

Os cientistas estão ansiosos para descobrir mais sinais do tecido mole do Ambopteryx, o que pode ser facilitado com novas técnicas de imagem. Por exemplo, o paleontólogo da Universidade de Hong Kong, Michael Pittman, utilizou lasers para revelar traços de tecido mole em fósseis do dinossauro emplumado Anchiornis.

Pittman já está familiarizado com o scansoriopterygids. Na reunião de 2018 da Sociedade de Paleontologia de Vertebrados, o estudante de Ph.D. de Pittman, Arindam Roy, apresentou resultados iniciais das análises do Yi qi feitas em laboratório com laserWang e Pittman dizem que estão discutindo a possibilidade de realizar uma análise semelhante no Ambopteryx.

Para obter respostas mais claras, os paleontólogos dizem que o ideal seria descobrir um parente ainda mais preservado do Ambopteryx. Isso é pedir muito — apesar de os sítios arqueológicos da China preservarem dinossauros emplumados em detalhes impressionantes. Talvez uma criatura com asas de morcego ainda mais intocada esteja esperando para ser encontrada.

“Nos acostumamos tanto com esses incríveis fósseis da China que começamos a fazer perguntas inapropriadas, como:  por que você não encontrou um que preservou perfeitamente todos os detalhes e mostra tudo definido?”, brinca Habib. “Isso elevou o nível do que significa um bom fóssil”.

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