Será que o DNA conseguirá solucionar o mistério dos crânios europeus alongados?

Novo estudo genômico analisa uma possível correlação entre deformação craniana artificial e migração após o colapso do Império Romano.segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Modificação craniana pode ter sido uma forma extrema de declarar a identidade de uma pessoa durante o Período das Migrações (aprox. 300-700 d.C.), quando grupos chamados “bárbaros”, como os godos e os hunos, disputavam o controle do território na Europa após o colapso do Império Romano. Será que o DNA antigo poderia ajudar os arqueólogos a identificarem exatamente quais eram essas alianças culturais?

Em um local chamado Hermanov Vinograd, no leste da Croácia, os arqueólogos encontraram recentemente uma sepultura bastante peculiar que continha os restos mortais de três meninos adolescentes. Os adolescentes foram enterrados entre 415 e 560 d.C.

Dois dos meninos tinham crânios deformados artificialmente, e uma análise de DNA, publicada na revista científica PLOS ONE, revelou outro fato curioso: os três meninos enterrados juntos tinham origens genéticas drasticamente diferentes. Aquele sem nenhuma modificação no crânio tinha ascendência da Eurásia ocidental, o adolescente com o crânio aumentado, mas ainda arredondado, tinha ascendência do Oriente Próximo, e o garoto com o crânio muito alongado tinha ascendência principal do leste da Ásia.

“Quando obtivemos os resultados da análise de DNA antigo, ficamos bastante surpresos”, diz o principal autor, Mario Novak, do Instituto de Pesquisa Antropológica de Zagreb, na Croácia. “É óbvio que pessoas diferentes habitavam essa parte da Europa e interagiam muito umas com as outras. Talvez eles utilizavam a deformação craniana artificial como forma de indicar visualmente que pertenciam a um grupo cultural específico”.

A deformação craniana artificial (DCA) envolve enfaixar a cabeça de uma criança desde a infância para deformar o crânio e é uma forma de modificação do corpo praticada, pelo menos, desde o Período Neolítico em culturas de todo o mundo. Na Europa, a prática da DCA que apareceu próximo ao Mar Negro nos séculos 2 e 3 d.C., alcançou seu ápice nos séculos 5 e 6 e desapareceu no final do século 7, afirma Susanne Hakenbeck, arqueóloga histórica da Universidade de Cambridge que estuda a modificação craniana na Europa. Ela não participou do estudo.

Segundo Novak, cerca de uma dúzia de crânios com DCA foram encontrados na Croácia, nos arredores de Hermanov Vinograd. Contudo, até o momento, estudos científicos desses crânios não foram publicados.

Os hunos entram em cena

Novak e seus colegas acreditam que suas descobertas apoiam uma antiga teoria de que a DCA foi introduzida na Europa Central pelos hunos — um grupo nômade que se deslocava a cavalo e que alguns acreditam ter se originado no leste da Ásia.

“Pela primeira vez possuímos evidências físicas e biológicas da presença de um povo do leste asiático, provavelmente os hunos, nessa parte da Europa, com base nos resultados da análise de DNA antigo”, diz Novak.

No entanto a origem exata dos hunos é uma questão controversa entre os arqueólogos, e outros estudiosos sugerem que esse grupo não seja originário do leste da Ásia, mas do norte do Mar Negro.

Os dados genéticos por si só também não podem provar que um determinado indivíduo do passado — como o garoto com o crânio mais alongado de Hermanov Vinograd — seria um huno, fato que Novak se apressa em reconhecer.

“Não podemos afirmar, com base no DNA antigo, que tal pessoa seja um ostrogodo ou que tal pessoa seja um huno”, diz Novak. “Depende também de como as pessoas se sentiam em relação a si mesmas, o que é bem subjetivo” — e impossível saber sem fontes escritas, que não foram deixadas pelos hunos.

Depois de estudar a disseminação dos crânios com DCA descobertos na Europa e na Eurásia, Hakenbeck não acredita que exista uma ligação exclusiva entre os hunos e a prática. “É mais provável que a prática tenha chegado à Europa através de conexões com as estepes da Eurásia, que não são necessariamente comprovadas historicamente”, afirma ela. “É possível que os hunos tenham contribuído para isso, mas eles não foram os únicos”.

Histórias mais surpreendentes

Como os adolescentes acabaram enterrados juntos na sepultura também é um mistério. Hermanov Vinograd abriga um grande assentamento neolítico, mas não há nenhum assentamento do Período das Migrações nas imediações. Esse sepultamento isolado não fazia parte de nenhum cemitério maior e já existente, e talvez estivesse ligado a uma comunidade de nômades ou a um grupo de pessoas que morava em outro lugar, conta Novak. Os meninos seguiram dietas semelhantes em seus últimos anos, sugerindo que moravam no mesmo lugar há algum tempo. Eles foram enterrados com ossos de cavalo e porco, e a causa de morte dos adolescentes não é clara. Embora os restos de esqueletos incompletos não demonstrem sinais de morte violenta, os pesquisadores acreditam que os adolescentes possam ter sido mortos em algum tipo de ritual, ou que eles tenham sido afetados pela peste ou outra doença de morte rápida.

“O problema é que a amostra é realmente pequena — trata-se de apenas um sepultamento e não temos muita informação”, diz Krishna Veeramah, geneticista da Universidade Stony Brook, em Nova York, que não participou do estudo. “Mas, mesmo assim, é interessante que tenha sido encontrada tamanha diversidade”.

No ano passado, Veeramah e seus colegas publicaram um estudo que analisou o DNA de mulheres com deformação craniana artificial que haviam sido enterradas no sul da Alemanha durante o Período das Migrações. Essas mulheres tinham origens genéticas muito diversas, incluindo possíveis componentes de ascendência do leste asiático, e uma possível explicação para esse padrão é que as mulheres com crânios submetidos à DCA migraram para o oeste devido ao casamento. Segundo Hakenbeck, a maioria dos indivíduos com crânios modificados na Europa e na Eurásia ocidental é do sexo feminino, na proporção de cerca de 2 para 1.

Novak diz que, com mais amostras, os pesquisadores podem obter uma resolução mais precisa da origem das pessoas que praticavam DCA e descobrir se a prática era realmente um indicador visual de pertencimento a um determinado grupo cultural.

Não foram realizados muitos estudos envolvendo a análise de DNA de indivíduos com crânios submetidos à DCA, e o Período das Migrações na Europa não foi muito abrangido pela infinidade de estudos envolvendo DNA antigo publicados nas últimas duas décadas, explica Ron Pinhasi da Universidade de Viena, outro principal autor do novo estudo.

Em termos de dados genéticos, “sabemos muito mais sobre o que aconteceu na Europa há 5 mil anos do que sobre o que aconteceu no mesmo continente há 1,5 mil anos", afirma Pinhasi. No entanto ele acredita que isso esteja começando a mudar, e espera ver mais investigações em amostras de DNA dos últimos 2 mil anos.

“Acredito que iremos encontrar muitas outras histórias surpreendentes", diz Pinhasi. “E talvez quando essas histórias forem organizadas, teremos uma compreensão muito diferente do Período das Migrações”.

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