Indicado ao Oscar®, The Cave destaca a situação dos sírios e o trabalho corajoso de uma médica

Diretora do hospital subterrâneo, Amani Ballour espera que o prêmio exponha as atrocidades que ela testemunhou durante a guerra civil na Síria.domingo, 9 de fevereiro de 2020

A médica síria Amani Ballour viajará para a maior festa de Hollywood neste domingo (9/02), mas parecia não se importar com o fato de ainda não possuir um vestido digno de tapete vermelho para a cerimônia. Embora Ballour seja destaque no documentário The Cave, indicado ao Oscar®, ela está mais interessada em chamar atenção para a crise na Síria.

O documentário da National Geographic “é o nosso depoimento dos crimes contra a humanidade”, disse Ballour no domingo, pouco depois de chegar aos Estados Unidos. “Essa é a nossa verdade sobre o que aconteceu e o que ainda está acontecendo. Todas as pessoas ao redor do mundo conhecem o Oscar®. Eles assistirão ao filme e saberão a verdade.”

Em The Cave, o diretor Feras Fayyad e os produtores Kirstine Barfod e Sigrid Dyekjær acompanharam a jovem médica e sua equipe por mais de dois anos, período em que tratavam cerca de cinco mil pacientes por mês em um hospital improvisado, cavado nas profundezas da terra durante a guerra civil síria. Enquanto sua cidade natal, Ghouta Oriental, estava sendo sitiada e bombardeada, Ballour, a primeira mulher encarregada de um hospital sírio, precisava decidir como racionar os alimentos, suprimentos e remédios disponíveis.

Há mais de oito anos, a Síria é devastada pelo regime do presidente Bashar al-Assad. Estima-se que a guerra tenha matado mais de 380 mil pessoas e ferido mais de dois milhões.

“Vi as crianças morrendo de fome, desnutridas com muitas infecções e sem remédios”, disse Ballour. “Eu sofri também. Estava sempre com elas e não podia ajudá-las.” O filme documenta algumas das atrocidades mais angustiantes da guerra, incluindo um ataque químico em 2013 que matou 1,4 mil pessoas. Muitas das vítimas eram crianças.

Não perca: The Cave, no National Geographic
O documentário indicado ao Oscar® estreia 3 de fevereiro, às 21h.

Assim como milhares de pessoas impactadas pela guerra na Síria, Ballour fugiu para a Turquia em 2018. Nos dois anos desde que foi forçada a deixar Ghouta Oriental, ela se casou, participou de um filme aclamado internacionalmente, criou uma fundação e agora está viajando pelo mundo.

Após o voo mais longo de sua vida, Ballour, agora com 32 anos, chegou aos Estados Unidos pela primeira vez no domingo para iniciar uma turnê de uma semana de Nova York a Los Angeles, divulgando The Cave e conscientizando as pessoas sobre os acontecimentos que inspiraram o documentário. Posteriormente, ela se encontrará com colegas na conferência da Sociedade Médica Sírio-Americana, na Flórida, para trabalhar em seu mais recente projeto — que combina seu passado e o sucesso do filme — para que possa continuar ajudando os necessitados. Ballour criou a Al Amal, que significa esperança em árabe, uma organização que visa a ajudar mulheres em zonas de conflito.

“Queria ajudar crianças porque gosto delas. Mas não se pode ajudar crianças sem também ajudar mulheres.” A crise continua para muitos.

Recentemente em Idlib, o último reduto da oposição na Síria, os combates se intensificaram e forçaram 520 mil pessoas a se deslocarem desde dezembro de 2019. Segundo as Nações Unidas, pelo menos 53 unidades de saúde foram fechadas desde o início do ano.

Ballour consegue entender as mulheres que vivem nessas condições. Com a fundação Al Amal, ela espera que as mulheres consigam estudar, procurar emprego e, no fim, encontrar independência. É o apoio que Ballour poderia ter recebido enquanto dirigia o hospital.

“Eu precisava de apoio quando estava lá”, disse Ballour. “Fui a primeira gerente mulher do hospital e todas as pessoas me criticaram e falavam de mim. Eu estava o tempo todo brava e frustrada e tentava provar a eles que eu era capaz e que poderia estar lá. Mas agora eu posso apoiar outras mulheres. Sou forte agora. Sinto que sou forte porque muitas pessoas estão assistindo ao filme, me conhecem e acreditam em mim.”

Ao passo que Ballour espera que as pessoas, ao assistirem ao filme, conheçam as atrocidades cometidas na Síria, ela mesma só conseguiu assistir ao The Cave uma vez. Rever a linha de frente a faz lembrar como ela se distanciou do trabalho de salvar vidas.

“Chorei quando assisti, porque éramos felizes quando estávamos lá, apesar dos bombardeios e da fome”, disse Ballour. “Estávamos ajudando as pessoas. Estávamos fazendo coisas importantes e me sinto feliz e realizada por ter feito isso. Mas por estar fora da Síria, é muito difícil saber que ainda tem muita coisa acontecendo por lá."

O filme de 90 minutos recebeu prêmios durante toda a sua turnê nos festivais de cinema. The Cave ganhou o Audience Award no Festival Internacional de Cinema de Camden e o prêmio de melhor roteiro no Documentary Awards da International Documentary Association. Neste final de semana, a equipe concorre à sua mais prestigiada indicação: de melhor documentário na 92a cerimônia do Oscar®. Os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas — que somam nove mil pessoas, segundo algumas estimativas — têm até o dia 4 de fevereiro para votar. Os membros, todos profissionais da indústria cinematográfica, votarão em seu filme favorito em cada categoria.

Por mais inacreditável que seja, muitos integrantes da equipe médica e da equipe do documentário estarão em Los Angeles para participar da cerimônia. Fayyad, que recebeu um visto de três meses em setembro, teve o visto negado pela embaixada dos Estados Unidos na Dinamarca em um novo pedido realizado em dezembro. O agente da embaixada explicou que o pedido foi negado devido a uma sanção instituída por um decreto, informa o Deadline. A sanção praticamente impede que cidadãos sírios, e cidadãos de 12 outros países, entrem nos Estados Unidos. A proibição impediu Fayyad de receber o prêmio de melhor roteiro e de atuar como júri no Sundance Film Festival. Também ameaçou mantê-lo longe do Oscar® no próximo fim de semana.

Em resposta, a comunidade de documentaristas enviou uma carta com mais de 800 assinaturas ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, pedindo um visto para Fayyad. “O próprio Feras é um sobrevivente da tortura praticada pelo regime sírio. Sua entrada nos Estados Unidos foi negada apenas devido ao seu país natal. Estão negando-lhe, por medo, o direito que ele tem de fazer sua voz ser ouvida”, diz a carta.

Com a ajuda das inúmeras pessoas que o apoiaram, Fayyad recebeu um visto e chegou aos Estados Unidos em 26 de janeiro, a tempo de comparecer a um evento para os indicados ao Oscar® no dia seguinte.

Para Ballour, decidir participar do Oscar® foi fácil, mas obter seu visto foi bem mais difícil. “De acordo com a embaixada [dos Estados Unidos]: ‘Como você é da Síria, devemos negar seu visto. Mas como você tem os convites, vamos analisar’”. Dois dias depois, ela recebeu uma ligação. A embaixada concedeu a ela um visto com base nas fortes recomendações feitas pela National Geographic, que exibiu o documentário, e das recomendações feitas pelos médicos da Sociedade Médica Sírio-Americana.

Ballour teve sentimentos ambivalentes com relação ao visto, pois não conseguiu um para o marido. Se eles tivessem apresentado o pedido juntos, Ballour acredita que ambos teriam tido o visto negado. Para sua surpresa, no entanto, vários de seus ex-colegas conseguiram vistos e a encontrarão em Los Angeles. O grupo não se encontra desde que o filme foi produzido.

Fayyad, que em 2018 foi indicado ao Oscar® por Últimos Homens em Aleppo, disse que sua mãe e os desafios que ela enfrentou como mulher na Síria inspiraram The Cave. O projeto começou com a filmagem de sete hospitais. Ele diz que não demorou muito para descobrir que o trabalho de Ballour seria a maneira mais eficaz de demonstrar os crimes contra a humanidade que acontecem na Síria, além de mostrar a força e a resiliência do povo.

“Quando eu a conheci, ela era inspiradora, uma lutadora, era muito forte”, diz Fayyad. “Eu cresci em uma família grande, sete irmãs, 14 tias. Minha mãe é curda. Eu já convivia com a história das mulheres e a injustiça na minha sociedade. Senti que deveria fazer algo. Senti pena da história que minha mãe me contava.

Ao enviar três cinematografistas para acompanhar Ballour por dois anos, Fayyad capturou os desafios diários da médica. O filme em si, no entanto, criou seus próprios desafios para Ballour.

“Quando as pessoas viam as câmeras me seguindo, elas comentavam muito sobre isso. Temos uma cultura que não valoriza as mulheres, na qual as mulheres devem ficar em casa, casar e ter filhos”, disse Ballour. “Portanto, não foi fácil para toda a Síria me ver.”

Seu papel no filme aumentou sua popularidade, o que a coloca em risco. “Era muito perigoso estar na Síria e ser conhecida”, afirmou ela.

Hoje, as consequências são ansiedade e medo. “Estou em lugares seguros, mas não me sinto segura”, disse Ballour, em um hotel em Nova York. “Não sinto medo, mas a segurança é um sentimento especial que existe dentro de você. Não depende somente do local. Não me sinto segura, não; me sinto estressada o tempo todo.

“Penso muito no que aconteceu e no que está acontecendo agora. Eu me sentirei segura quando eles pararem de bombardear e as pessoas puderem voltar para suas casas, e quando todos forem libertados.”

Enquanto isso, ela e o marido pediram asilo no Canadá, onde esperam continuar a estudar e buscar novas oportunidades.

Independentemente do que acontecer, o regime e a Rússia não podem impedir que a verdade seja dita agora, disse Ballour. Com o lançamento do filme, ela sabe que os fatos serão mostrados. Mesmo que ela seja silenciada, “eles não podem matar a verdade”. Um Oscar®, ela espera, hesitante, pode trazer algum tipo de mudança para sua amada terra natal. Isso, para ela, seria a verdadeira vitória.

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