Ferrovia brasileira interrompeu muitas vidas para transportar ferro ao mundo

Durante anos, um fotógrafo registrou comunidades que foram transformadas pela linha de carga que atravessa uma selva montanhosa rumo a portos marítimos no Oceano Atlântico.

Moradores brincam em um rio poluído por siderúrgicas da região que processam o ferro da Mina de Carajás (Pará), a maior mina de minério de ferro do mundo, em Piquiá de Baixo. O trem que transporta a matéria-prima passa aproximadamente a cada 20 minutos.

Por National Geographic Staff
fotografias de Ian Cheibub
Publicado 22 de nov. de 2022 10:12 BRT

Na orla fluvial da floresta amazônica, no estado do Pará, fica a maior mina de minério de ferro do planeta. Das profundezas da Mina de Carajás são extraídos metais encontrados em eletrodomésticos e objetos de uso diário em todo o mundo.

A mina de Carajás produz tanta matéria-prima em um ano – só em 2020 foram cerca de 100 milhões de toneladas métricas – que no mundo de hoje é quase impossível não encontrar sua característica cinza e fuliginosa, lustrada e reluzente em máquinas de lavar, que muitas vezes viaja longas distâncias como parte de um comércio de alcance global. Mas como tanto ferro sai de uma mina no meio da floresta e chega como aço a um porto marítimo, de onde é enviado para as regiões mais distantes do mundo?

A resposta é uma ferrovia de cerca de 805 quilômetros, que se estende da mina, no meio da selva montanhosa, até o porto de Ponta da Madeira, em São Luís, na costa do Oceano Atlântico. O trem, que se movimenta sobre a terra e também sobre rios utilizando pontes, transporta minério em seus vagões de metal e realiza paradas em refinarias de aço ao longo do caminho.

O Projeto Grande Carajás – como é conhecido todo o sistema industrial que envolve a mina e a ferrovia – e a Vale S.A, a mineradora brasileira responsável, estão sob o radar de organizações internacionais de direitos humanos e ambientais por supostos abusos e violações que transformaram a vida de muitas comunidades da região.

Algumas casas foram consideradas estruturalmente instáveis devido à trepidação constante causada pelo trem; outras foram demolidas para dar lugar à construção, deixando as pessoas desabrigadas. Ao atravessarem os trilhos em locais onde não há passagem segura, alguns moradores foram atropelados.

Em Piquiá de Baixo, município particularmente afetado, onde as siderúrgicas foram construídas na década de 1980, cerca de 65% dos moradores agora sofrem de problemas respiratórios, de acordo com um estudo realizado em 2012 pela Federação Internacional de Direitos Humanos, citado em um Relatório da ONU de 2020, após a visita do Conselho de Direitos Humanos à região. Outros tiveram doenças oftalmológicas, dermatológicas e queimaduras causadas por resíduos descartados de forma inadequada e resíduos tóxicos do “ferro-gusa”, produto intermediário do beneficiamento do aço.

O fotógrafo brasileiro Ian Cheibub passou meses ao longo dos últimos três anos acompanhando a ferrovia e as comunidades estabelecidas às margens dos trilhos. Capturadas originalmente em preto e branco, as imagens retratam um mundo transformado pela ferrovia de carga.

Moradores da comunidade Mutum 2 tentam pescar em uma poça d'água por onde passava um rio que foi interrompido pela construção da Estrada de Ferro Carajás, com cerca de 805 quilômetros, que se estende da mina de Carajás até comunidades rurais no norte do Brasil. Mutum 2 é uma entre as diversas comunidades impactadas pela estrada de ferro, que começou a funcionar no fim da década de 1970.

À esquerda: No alto:

Crianças brincam em Santa Rosa dos Pretos, um dos muitos quilombos do Brasil – comunidades estabelecidas por africanos que fugiram da escravidão. Em Santa Rosa dos Pretos, a Estrada de Ferro Carajás fez com que secasse o único rio que possuíam.

À direita: Acima:

Zacarias, um dos moradores mais antigos de Mutum 2, enche um regador com água de um cano. O acesso à água passou a ser a preocupação mais urgente da comunidade desde que a expansão da estrada de ferro secou o rio.

fotografias de Ian Cheibub

Moradores de Mutum 2 produzem farinha para venda no município vizinho de Arari, no estado do Maranhão.

Foto de Ian Cheibub

Amjire Parkateje em frente a duas toras antes da tradicional corrida de toras, que ocorre mensalmente na Terra Indígena Mãe Maria. “Deus fez a Sumauma (a árvore) para a corrida indígena”, diz ele.

Foto de Ian Cheibub
À esquerda: No alto:

Edna Teresa Belfort descansa em uma rede em uma casa do quilombo Santa Rosa dos Pretos. Seus habitantes, cujos ancestrais fugiram da escravidão e estabeleceram a comunidade, lutam há muito tempo para obter os direitos de propriedade de suas terras.

À direita: Acima:

Zacarias da Silva, conhecido como Zazinha, veste uma fantasia tradicional de Bumba-meu-boi em sua casa em Mutum 2, comunidade drasticamente impactada pela Estrada de Ferro Carajás. Bumba-meu-boi é uma festa popular brasileira que mistura tradições indígenas e africanas. Quando a Estrada de Ferro Carajás foi ampliada, muitos moradores precisaram deixar o local para procurar emprego e a festividade acabou sendo extinta.

fotografias de Ian Cheibub

José Antonio Dias Cardoso e sua esposa Leonilda Cardoso seguram retratos de seus filhos, que deixaram a cidade de Piquiá de Baixo.

Foto de Ian Cheibub

Vista aérea do Porto de Itaqui, em São Luís, capital do Maranhão, Brasil, onde as pilhas de minério de ferro extraído das minas são embarcadas para o exterior.

Foto de Ian Cheibub

Enzo Pires, da comunidade Santa Rosa dos Pretos, dorme na cama da avó.

Foto de Ian Cheibub
À esquerda: No alto:

Uma rachadura marca a parede com um número de telefone escrito na casa de Maria Pereira, de 64 anos, em Marabá, no estado do Pará. A trepidação causada pela passagem dos trens na Estrada de Ferro Carajás fez com que muitas casas rachassem e, por fim, desmoronassem.

À direita: Acima:

Roupas estendidas em um quarto da casa de João Reis. João foi despejado da casa onde morou durante toda sua vida no bairro Km 7, em Marabá, durante a expansão da ferrovia, em 2018. Mais de 150 famílias passaram pela mesma situação na época.

fotografias de Ian Cheibub

Daguimar Jardim em frente ao túmulo de seu pai em um cemitério que hoje faz parte da área de mineração S11D. Quando a mina de ferro foi descoberta, os pequenos agricultores que viviam na região foram obrigados a sair. Uma vez por ano, eles visitam o cemitério; e para isso, precisam pular uma cerca. Uma floresta cresceu sobre as sepulturas.

Foto de Ian Cheibub
À esquerda: No alto:

Um muro é visto no bairro Km7 em Marabá, no Pará.

À direita: Acima:

Uma casa rachada na comunidade Km7, em Marabá.

fotografias de Ian Cheibub

Jovens jogam futebol em Piquiá da Conquista, um novo assentamento em construção para realojar moradores de Piquiá de Baixo.

Foto de Ian Cheibub
À esquerda: No alto:

Cavalo no campo de futebol de Mutum 2. Moradores da comunidade, isolados pela Estrada de Ferro Carajás, dependem de cavalos para transportar água e outros recursos básicos.

À direita: Acima:

Meninos do assentamento Francisco Romão caminham pela Estrada de Ferro Carajás para observar os animais mortos pelo trem. Eles enrolaram a camiseta ao redor da cabeça devido ao cheiro das carcaças em decomposição. 

fotografias de Ian Cheibub

Uma mulher atravessa a ponte sobre a Estrada de Ferro Carajás no bairro Km7 em Marabá.

Foto de Ian Cheibub

Ian Cheibub é um contador de histórias visuais radicado no Brasil. Atualmente trabalha na cobertura de reportagens no Brasil para veículos de mídia internacionais. Seus trabalhos de foto e vídeo também foram publicados na GEO Magazine, Der Spiegel, The Guardian, De Volkskrant, STERN, VICE, NRC, entre outras mídias.

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