História

Pistas de colônia desaparecida na América do Norte são finalmente encontradas

Artefatos sugerem que alguns membros da povoação inglesa de Roanoke sobreviveram e foram assimilados aos nativos.

Por Andrew Lawler
Fotos de Mark Thiessen

A busca pela colônia começou quando um inglês ansioso chamado John White saiu ao mar da Ilha Roanoke da Carolina do Norte, uma história que de mais de 400 anos. Designado governador da nova colônia de Roanoke pelo Sr. Walter Raleigh, John White vinha da Inglaterra com abastecimentos básicos.

Mas quando chegou em terra, em 18 de agosto de 1590, encontrou o local do assentamento saqueado e abandonado. Os colonizadores desaparecidos deixaram para trás somente duas pistas sobre seu paradeiro: a palavra “Croatoan” esculpida no poste destacado e em uma árvore.

Desde então, exploradores, historiadores, arqueólogos e entusiastas tentam descobrir o destino dos 115 homens, mulheres e crianças que faziam parte da primeira tentativa da Inglaterra de se estabelecer no Novo Mundo. Os esforços para resolver o mistério ainda não solucionado mais antigo da América, chamado de “a Colônia Perdida”, produziu várias teorias, mas nenhuma resposta clara.

Agora, duas equipes independentes dizem ter restos arqueológicos que sugerem que pelo menos alguns dos colonizadores abandonados podem ter sobrevivido, possivelmente dividindo-se em dois grupos que se instalaram entre os indígenas da América.

“As evidências são de que eles se incorporaram aos indígenas, mas mantiveram seus objetos.”

por Mark Horton, Arqueólogo
Arqueólogo

Uma coleção de objetos europeus recém-descobertos, incluindo um cabo de espada, tigelas inglesas quebradas e um pedaço de pedra com uma carta inscrita, podem indicar a presença dos colonizadores na Ilha Hatteras, há cerca de 80 quilômetros ao sudeste de assentamento na Iha de Roanoke, e em um lugar no continente, 80 quilômetros ao noroeste.

“As evidências são de que eles se incorporaram aos indígenas, mas mantiveram seus objetos,” diz Mark Horton, arqueólogo da Universidade de Bristol, na Inglaterra, que lidera o trabalho de escavação na Ilha Hatteras.

Enquanto isso, no local no continente em Albemarle Sound próximo a Edenton, Carolina do Norte, Nick Luccketti, da First Colony Foundation, acredita que seu grupo desenterrou peças de cerâmica usadas pelos colonizadores perdidos depois que saíram do assentamento em Roanoke.

Membros das duas equipes admitem que não podem confirmar ainda que resolveram esse enigma. E muitos dos seus colegas duvidam que as peças definitivamente estejam ligadas aos colonizadores, considerando as dificuldades na definição exata da data.

Há muito mais a ser feito, alertou Ivor Noel Hume, arqueólogo da Colonial Williamsburg, que escavou na Ilha de Roanoke na década de 1990. 

Mas as escavações indicam um desvio importante da Ilha de Roanoke, onde os pesquisadores encontraram poucos e frustrantes sinais de presença dos primeiros europeus.

O anel de um senhor

“Ei, um pedaço de ferro!” exclama Margaret Dawson, enfermeira e escavadora voluntária, enquanto ela analisa a terra escura em um ponto na Ilha Hatteras, chamado Cape Creek. Ela e seu marido Scott, professor da região, fundaram em 2014 a Croatoan Archaeological Society, nome que homenageia os primeiros habitantes nativos da ilha, e que patrocina as escavações anuais de Horton desde então.

Escondido na floresta virginiana de Quercus perto de Pamlico Sound, Cape Creek foi o local de um centro comercial e uma cidade Croatoan. Sob a supervisão de Horton, voluntários se dedicam à busca na terra de uma vala próxima usando peneiras de malha fina. As duas jovens filhas de Dawson encontram rapidamente pequenas contas de vidro veneziano.

Durante uma escavação de dois dias, as peneiras ajudaram a identificar grandes objetos de indígenas e europeus, incluindo ossos de veado e tartaruga, tijolos caseiros e importados, cerâmica indígena, pedaços de ferro europeu, peças de uma arma do século 16 e um olhal de cobre que pode ter sido usado em peças de vestuário.

Em 1998, arqueólogos da East Carolina University encontraram um anel de sinete de ouro de dez quilates com a gravação de um leão ou cavalo, um achado sem precedentes do início da colonização da América pelos ingleses. O objeto bem usado pode ser do século 16 e é quase certeza de que pertencia a um nobre inglês.

Contudo, assim como a maioria das peças europeias encontradas em Cape Creek, esse objeto estava misturado a outros que são do século 17, uma geração inteira depois do abandono da colônia de Roanoke.

Horton argumenta que os membros da colônia perdida que viveram entre os Croatoans podem ter mantido suas poucas relíquias, mesmo depois de adotarem gradualmente os costumes indígenas.

Uma das descobertas recentes mais atípicas é um pequeno pedaço de bloco que foi usado para escrever, além de um lápis de chumbo. Uma pequena carta pode ser feita em um cantinho. Um bloco semelhante, porém muito maior, foi encontrado em Jamestown.

“Este foi de alguém que sabia ler ou escrever,” explica Horton. “Isso não tinha valor comercial, mas era de um europeu estudado.” Uma outra peça escavada recentemente em Cape Creek faz parte do cabo de uma rapieira, que é uma espada leve, usada na Inglaterra no fim do século 16. Além dela, foram encontradas uma grande barra de cobre, uma longa barra de ferro e uma peça de pedra alemã parecem ser do fim do século 16. Essas peças podem ser sinais de trabalho metalúrgico de europeus e possivelmente dos colonizadores de Roanoke, pois os indígenas não conheciam essa tecnologia.

“Existem itens do comércio aqui,” diz Horton, gesticulando para as peças. “Mas também existem peças que não vieram do comércio.” Tais artefatos eram objetos pessoais dos colonizadores?

O X marca o local?

Se o anel de ouro inspirou as escavações de Horton em Hatteras, então um mapa em aquarela de 1585 feito por White levou a First Colony Foundation a direcionar sua atenção para o continente. Conhecido como mapa La Virginea Pars e parte do acervo permanente do Museu Britânico, o documento foi notícia em 2012 quando pesquisadores descobriram uma pequena estrela de quatro pontas escondida sob um remendo em cima do mapa. Uma teoria diz que o símbolo pode ter marcado a localização de um forte no interior. 

Se o forte foi construído nessa localidade, ou até planejado ou cogitado, pode ter sido um destino lógico para pelo menos alguns dos colonizadores sumidos. “Nós achamos que isso representa os colonizadores de Roanoke,” comenta Luccketti, segurando dois pedaços de peças de cerâmica verde. Os fragmentos foram encontrados em uma escavação recente no lugar onde a First Colony Foundation chama de Ponto X, em Albemarle Sound.

Em 2006, Luccketti e seu colega Clay Swindell do Museu de Albemarle investigaram um lugar na região do icônico forte identificado posteriormente no mapa de White. Lá, encontraram uma grande quantidade de peças de cerâmica indígena. Os arqueólogos suspeitam que o local seja um vilarejo indígena chamado Mettaquem.

Mais recentemente, em uma área próxima ao vilarejo, a equipe da First Colony Foundation encontrou peças de cerâmica inglesa semelhantes àquelas encontradas na Ilha de Roanoke e comuns em Jamestown, mas incomuns na segunda metade do século 17, quando os colonizadores ingleses foram para o sul, partindo da Virgínia, para se assentarem na Carolina do Norte. Outras peças de cerâmica típicas do fim do século 17 estão faltando.

Os escavadores também encontraram um gancho de metal que possivelmente foi usado para esticar coberturas de esconderijos ou barracas, além de uma ponteira, um tubo de cobre fino usado para fixar fibras de lã. As ponteiras foram substituídas por ganchos e ilhós na primeira metade do século 17. Esses objetos apareceram na Ilha de Roanoke e em Cape Creek.

A equipe encontrou, no total, 125 quilogramas de peças de cerâmica indígena de vários séculos de assentamento, diz Swindell. Os objetos ingleses chamados de Border Ware se referem a algumas dúzias de fragmentos de três ou quatro potes.

Ele salienta que o primeiro colonizador inglês registrado na região chegou em aproximadamente 1655. Luccketti diz também que, ao contrário do local em Cape Creek, não há peças óbvias de comércio que possam sugerir troca, em vez de colonizadores residentes. Ele acha que os colonizadores podem ter mudado para esse lugar para viver entre os aliados indígenas depois da partida de White.

Mas Brett Riggs, arqueólogo da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill não envolvido nas escavações, alega que os indígenas americanos rapidamente recolheram os objetos deixados pelos europeus.

“Qualquer coisa de utilidade foi levada para suas casas,” esclarece Rigs. “Eles usavam tudo.” Até o vidro das garrafas era útil para afiar as pontas das flechas. Ele salienta que os objetos europeus não são dos colonizadores europeus.

Os voluntários da First Colony Foundation admitem que eles não resolveram esse enigma. “O que encontramos é fascinante,” diz Martha Williams, enquanto descansa do seu trabalho de peneirar a terra em uma manhã recente no Ponto X. “Eu adoraria ver algumas evidências definitivas, mas o que temos são fragmentos.”

É difícil confirmar a data dos objetos daqui algumas décadas para distinguir os colonizadores perdidos dos outros colonizadores posteriores. A datação por radiocarbono ou outros métodos não é precisa o suficiente, e os estilos das peças não mudam de maneira uniforme com o tempo e espaço.

Por exemplo, restos de um pote tipo Border Ware encontrado na margem do rio em Edenton são do fim do século XVII. “Eu diria que as peças são de um período entre 1590 e 1630,” diz Hume, um especialista respeitado em peças da época colonial. “Alguém guardou alguma coisa por seis semanas ou seis anos? É muito difícil saber.”

Entre os novos achados e valas a serem escavadas, os arqueólogos dizem ter esperança de novas pistas sobre o caso dos colonizadores perdidos.

“Ainda há muita terra para escavar,” diz Swindell. E nenhum dos grupos ainda publicou artigos acadêmicos detalhados analisando e catalogando suas descobertas.

“Não sabemos o que aconteceu ainda, estamos esperando por uma evidência,” comenta Charles Ewen, arqueólogo da East Carolina University, que não faz parte das equipes. “Eu acho que nada pode ser descartado.”

Publicado em 7 de agosto de 2015.

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