Degelo do permafrost leva Parque Nacional de Denali a reimaginar futuro

Grande parte do solo em Denali, no estado do Alasca, Estados Unidos, está perdendo sua camada superior de permafrost, resultando em deslizamentos de terra e obstruções ocasionais da estrada do parque.

Carneiros-de-dall sobre o Rio Toklat no Parque Nacional de Denali. As mudanças climáticas estão derretendo a camada superior do permafrost em grande parte do parque, obstruindo sua estrada principal.

Foto de Aaron Huey, Nat Geo Image Collection
Publicado 20 de jul. de 2021 07:00 BRT

Uma única estrada, na maior parte, de cascalho, conecta 600 mil visitantes por ano com os cerca de 2,4 milhões de hectares do Parque Nacional e Reserva de Denali, no Alasca. A maioria dos visitantes faz passeios nos ônibus do parque para apreciar ursos-pardos, ursos-negros, lobos, caribus, alces e carneiros-de-dall — as “Cinco Grandes” espécies de animais silvestres do parque — e tem a expectativa de observar a montanha mais alta da América do Norte — Denali, com cerca de 6,2 mil metros de altitude — geralmente envolta por nuvens.

Contudo, nos últimos anos, a Estrada do Parque de Denali de quase 150 quilômetros de extensão que fornece acesso ao parque enfrentou desmoronamentos e deslizamentos — demandando manutenção considerável e, ocasionalmente, obstruindo a estrada — e os cientistas acreditam que as mudanças climáticas provavelmente são responsáveis pelo transtorno. Os desafios de manutenção de estradas são apenas alguns dos inúmeros efeitos produzidos pelo aumento das temperaturas nos parques nacionais do Alasca.

Assim como grande parte do Alasca, muitas regiões do Parque Nacional de Denali são cobertas por permafrost: o solo que permanece no ponto de congelamento ou a temperaturas inferiores por dois ou mais anos consecutivos. À medida que as mudanças climáticas aquecem o planeta, grande parte do permafrost superficial derrete. Na década de 1950, 75% de Denali possuíam permafrost próximo à superfície, logo abaixo da camada ativa que congela e descongela sazonalmente. O percentual caiu para cerca de 50% na década de 2000 e prevê-se uma redução para 6% até 2050. Em áreas onde o permafrost próximo à superfície está descongelando, ainda pode haver permafrost mais profundamente, pois o permafrost pode ter centenas de metros de espessura, e até mais de 600 metros de espessura em alguns pontos ao norte do Alasca.

Recentemente, três pesquisadores do Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos, incluindo David Swanson, ecologista, e Pam Sousanes e Ken Hill, ambos cientistas físicos, publicaram um estudo no periódico Arctic, Antarctic, and Alpine Research que analisou as temperaturas do ar e do solo em oito parques nacionais mais setentrionais do Alasca. Foi constatado um aumento na temperatura atmosférica média anual de ao menos um grau Celsius entre 2014 e 2019 na área do estudo em comparação com o período anterior de 30 anos, e um aumento próximo de dois graus Celsius em Denali e na maioria dos parques do Ártico. Houve um aumento ainda maior de três graus Celsius em certas regiões de parques na costa ocidental. As temperaturas médias anuais do solo também aumentaram.

“Se persistirem as temperaturas elevadas observadas entre 2014 e 2019, haverá degradação generalizada do permafrost em trechos desses parques nacionais e em outros ambientes semelhantes em todo o Alasca”, publicaram os autores. Projeções apontam que as temperaturas de Denali provavelmente continuarão em ascensão, segundo estudo de Patrick Gonzalez e colegas publicado em 2018 no periódico Environmental Research Letters.

O Alasca possui oito parques nacionais e 16 outros locais supervisionados pelo Serviço Nacional de Parques, incluindo monumentos nacionais, reservas e áreas históricas. O degelo do permafrost está provocando diversos efeitos nessas regiões, como desafios de infraestrutura e impactos nos ecossistemas.

Em Denali, desmoronamentos ocasionalmente acarretam o fechamento da Estrada do Parque de Denali. Em 2013, blocos de permafrost do tamanho de pequenas casas deslizaram por uma encosta íngreme acima do acampamento de Igloo Creek e obstruíram a estrada por quatro dias e, em 2014, parte da estrada desmoronou a ponto de aviões particulares e helicópteros do parque serem chamados para retirar visitantes de um alojamento privado. Em julho de 2016, um deslizamento de terra em Eagle’s Nest causou um fechamento que durou quatro dias, deixando seu acesso limitado por muitos outros dias. E, em 2019, 17 ônibus com 300 visitantes ficaram presos a uma grande distância no parque, saíram ilesos, mas houve um atraso de horas.

O degelo do permafrost afeta parques em todo o Alasca

Para buscar mais dados sobre como essas mudanças podem afetar ainda mais a estrada do parque, os cientistas fizeram orifícios de sondagem no solo da região entre 2003 e 2019. Foram encontradas “quantidades significativas de permafrost rico em gelo suscetível a descongelamento (relativamente morno) logo abaixo da estrada”, segundo o site do parque, que também apresenta uma explicação provável para os desafios da estrada do parque: “o mais plausível é que o permafrost da região está descongelando, o que condiz com as tendências regionais, resultando em perda da estabilidade dos declives”.

O degelo do permafrost não é um problema isolado que afeta apenas Denali. O Serviço Nacional de Parques é responsável por mais de 34 milhões de hectares de terra, e o Alasca contempla aproximadamente 22 milhões desses hectares. Cerca de 16 milhões estão localizados em zonas cobertas com mais da metade de permafrost.

Os parques nacionais também são uma atividade econômica importante no Alasca. Em 2018, os parques receberam 2,9 milhões de visitantes, trazendo um “estímulo total à economia do estado de mais de US$ 1,98 bilhão”, segundo o serviço do parque.

Os efeitos do degelo do permafrost são distintos entre os parques. Nos parques nacionais do Ártico ao norte do Alasca — mais remotos e de difícil acesso — há poucos visitantes e quase nenhuma infraestrutura. Mas o degelo do permafrost pode causar mudanças hidrológicas e permitir que a água penetre no solo, drene lagos ou crie novas lagoas. Também pode causar erosão do solo, assorear riachos e lagos com o acúmulo de sedimentos e lodo, afetar ciclos de nutrientes e liberar gases de efeito estufa. Essas mudanças podem alterar a vegetação e o habitat de animais silvestres.

“Conforme o clima aquece e os arbustos ficam mais altos e densos, os mochileiros e certamente os animais silvestres serão afetados”, afirma Swanson. Ele ressalta que as mudanças podem não ficar inicialmente discerníveis a um visitante comum dos parques do Ártico. “Os efeitos são graduais no Ártico, incluindo o que consideramos serem consequências relativamente rápidas devidas às mudanças climáticas”, conta Swanson.

Problemas na Estrada do Parque

A mudança é mais visível ao longo da Estrada do Parque de Denali, construída entre 1922 e 1938, que possui uma rota elevada ao longo da Montanha Polychrome com vistas panorâmicas deslumbrantes. Contudo, neste momento, no quilômetro 73,3 (marcado na milha 45,5) desse trecho, o deslizamento na área de Pretty Rocks está causando dores de cabeça, de acordo com o Guia de Estradas Geológicas de Denali. Identificado pela primeira vez na década de 1960, o deslizamento era um pequeno problema de manutenção, exigindo poucas obras de reparos a cada poucos anos. No entanto, com o aquecimento do Alasca, tornou-se um problema maior.

Em 2016 e 2017, uma extensão aproximada de 90 metros de estrada começou a afundar de forma mais significativa — até 13 centímetros por mês. Em 2018 e 2019, o afundamento avançou até cinco centímetros por dia e, em alguns dias de agosto de 2020, alcançou cerca de nove centímetros. No segundo trimestre deste ano, o parque utilizou cerca de 5,1 mil metros cúbicos de cascalho (o equivalente a 550 caminhões) para consertar a estrada.

Foram mapeadas mais de 140 “áreas de risco de desmoronamento” ao longo da estrada do parque. “Fazemos o possível para nos concentrarmos em resolver problemas já conhecidos e evidentes, como em Pretty Rocks, mas não deixamos de lado outros desafios”, afirma Denny Capps, geólogo do Parque Nacional e Reserva de Denali.

O Denali participa do Programa de Manejo de Encostas Instáveis das Agências Federais de Manejo do Solo e mantém uma cooperação com o Serviço Geológico dos Estados Unidos para o mapeamento geológico de alta resolução para que sejam obtidas mais informações sobre áreas ao longo da Estrada do Parque de Denali que sejam vulneráveis a riscos geológicos, como deslizamentos de terra, desmoronamentos e terremotos. Um sistema de monitoramento automatizado notifica Capps de qualquer movimentação significativa. Ao receber uma notificação, ele avalia os dados, até mesmo no meio da noite.

“Acordo, conecto-me ao sistema, analiso se apenas um dos sensores foi afetado, o que pode indicar que seja talvez somente um urso se coçando no sensor — pode acontecer”, conta Capps. Mas se ele encontrar um padrão de movimentação preocupante, vai pessoalmente ao local para inspecionar.

O parque cogita uma série de opções para resolver o dilema da estrada do parque, incluindo soluções de engenharia, como uma ponte, bem como um possível redirecionamento. Mas não existem soluções simples. Uma possível opção de redirecionamento seria contornar a Montanha Polychrome, sacrificando a vista panorâmica e trocando um conjunto de desafios geotécnicos por outro em uma rota com deslizamentos de terra conhecidos.

Outra possibilidade de redirecionamento seria levar a estrada ao fundo do vale, onde redes de canais conhecidas como rios entrelaçados e planícies de inundação poderiam acarretar problemas adicionais. Ambas as opções possíveis de redirecionamento atravessam o permafrost instável em descongelamento e exigiriam a construção de aproximadamente 10 quilômetros de estrada em áreas federais de vegetação natural — um processo complexo que implica uma extensa análise ambiental e participação pública.

Enquanto os parques tentam resolver os problemas atuais, cientistas também coletam dados fundamentais que ajudarão a planejar o futuro. Sousanes, cientista física do Serviço de Parques especializada no estudo do clima, trabalha com as Redes de Monitoramento e Inventário do Ártico e do Alasca Central. Ela se empenha em manter as estações de dados das redes em operação durante 365 dias por ano.

“Minha contribuição em toda essa iniciativa de monitoramento no longo prazo é a obtenção de dados básicos importantes sobre esses parques nacionais que inexistiam nos últimos cem anos”, conta Sousanes. “Começa a ser feito um registro relativamente amplo que pode nos ajudar a entender as mudanças observadas na paisagem.”

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