Inusitado manguezal distante de região litorânea prenuncia futura elevação do nível do mar

O manguezal de 100 mil anos revela que o nível dos mares já esteve muito acima do que está atualmente, um sinal do quanto o nível do mar pode se elevar com as mudanças climáticas.

Publicado 9 de out. de 2021 08:00 BRT
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Esta lagoa, chamada El Cacahuate, faz fronteira com o rio San Pedro Mártir, no estado de Tabasco, no México. Os mangues encobrem a lagoa a 160 quilômetros de seu habitat costeiro original.

Foto de Octavio Aburto

A equipe de pesquisa estava a mais de 160 quilômetros da costa, navegando ao longo do rio San Pedro Mártir, próximo à fronteira entre o México e a Guatemala, quando avistaram algo inesperado: um manguezal às margens de uma lagoa ampla e brilhante.

Não deveria existir mangues nesse lugar. Geralmente os manguezais ficam restritos às estreitas regiões costeiras, onde conseguem sobreviver em meio às severas condições de água salgada e tempestades.

De alguma forma, ali estava o manguezal, dezenas de metros acima do nível do mar, próximo a um conjunto de cachoeiras. Após uma análise cuidadosa, a equipe descobriu algo ainda mais curioso: esse manguezal é uma relíquia viva de um mundo antigo. Os antecessores desses mangues chegaram ao local cerca de 100 mil anos atrás, quando o planeta possuía a temperatura semelhante à de hoje, mas o nível do mar estava muitos metros acima. Apesar do nível do mar ter recuado, essa população de mangues conseguiu sobreviver.

“Montamos uma imagem de um mundo perdido”, diz Octavio Aburto-Oropeza, pesquisador do Instituto Scripps de Oceanografia e principal autor do novo estudo, publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences.

Essa antiga costa marítima, longe da costa moderna, pode ajudar pesquisadores de todo o mundo a entender exatamente a altitude dos níveis do mar durante a era quente passada — um tópico que gera debate e é muito importante para pesquisadores que estudam o aumento do nível dos oceanos em relação ao aquecimento global.

‘Uma relíquia viva de um mundo antigo’

Embora seja possível que os manguezais sobrevivam fora da estreita faixa costeira, eles não conseguem competir com plantas de outros ecossistemas, afirma Véronique Helfer, especialista em manguezais do Centro Leibniz de Pesquisa Marinha Tropical. “Normalmente, eles são limitados às zonas entremarés.”

Um manguezal próximo a cachoeiras que fazem parte de uma floresta de manguezais ao redor de uma lagoa. A floresta descende de antigos manguezais pertencentes ao período em que o nível do mar era muito mais elevado e a região era uma praia, cerca de 100 mil anos atrás.

Foto de Octavio Aburto

Os manguezais recém-descobertos no interior conseguiram sobreviver a quilômetros de qualquer costa devido à presença dos solos ao redor que lixiviam grandes quantidades de cálcio nas águas da lagoa e do rio, criando um ambiente líquido semelhante ao proporcionado pela água do mar, fazendo com que as árvores consigam sobreviver.

Mas não há apenas manguezais. Existem também orquídeas elegantes, samambaias delicadas e uvas-da-praia — espécies que costumam conviver com os manguezais nos dias atuais. Antigas conchas de ostra estão alojadas em sedimentos abaixo das raízes dos manguezais. Antigas dunas de areia e seixos de praia se estendem a partir das margens da lagoa.

Para Aburto-Oropeza e seus colegas, a grande questão era como e quando os manguezais chegaram a esse local. Os manguezais geralmente não se expandem para muito longe ou de maneira rápida; costumam permanecer em seu local de origem. As sementes brotam enquanto ainda estão na árvore e caem nas águas das marés. Na maioria das vezes elas flutuam por uma curta distância antes de criar raízes nas proximidades, explica Neil Saintilan, especialista em manguezais da Universidade Macquarie, na Austrália.

A água não teria sido capaz de transportar pequenos mangues rio acima passando por cachoeiras altas, então os antecessores desse manguezal devem ter sido transportados a esse local quando ainda era uma região litorânea, teorizam Aburto-Oropeza e seus colegas.

Para testar essa hipótese, eles compararam a composição genética dos manguezais próximos do rio San Pedro Mártir com os que ficam ao longo da distante costa de Yucatan. “A história de qualquer organismo do planeta está escrita em seu DNA”, diz Felipe Zapata, biólogo da Universidade da Califórnia em Los Angeles que realizou as análises genéticas.

Se os manguezais do interior cresceram durante a antiga era quente e ficaram encalhados quando o nível do mar diminuiu, eles deveriam ser geneticamente distintos das árvores modernas — e, de acordo com a análise do genoma, o caso é exatamente esse.

Mas a equipe deu um passo adiante. Ao copiar material genético, as células sofrem pequenas alterações que se acumulam em uma taxa surpreendentemente regular, como se fosse um relógio molecular que marca o tempo genético. Esse material genético revelou que os manguezais da lagoa próxima ao rio San Pedro Mártir haviam se separado dos manguezais mais próximos de sua origem há cerca de 100 mil anos, tornando-os “uma relíquia viva de um mundo antigo”, diz Aburto-Oropeza.

O tempo se alinha com um período, no passado da Terra, em que os níveis do mar eram muito mais altos do que são hoje. Mas a exata diferença para o atual nível do mar é uma questão sobre a qual ainda não se tem resposta.

Uma tartaruga-pintada encontra refúgio nas raízes submersas do manguezal.

Foto de Octavio Aburto

Níveis do mar no passado

Ao longo de sua história, a Terra passou por enormes mudanças climáticas impulsionadas por mudanças em sua órbita instável. Às vezes, o planeta se inclina para mais perto do sol e absorve o calor de maneira mais eficiente. Em outros períodos, a órbita do planeta Terra se estendeu ao longo de um eixo, mais longe do calor do sol. Em resposta a isso, as temperaturas globais aumentaram e diminuíram.

Essas mudanças de temperatura têm efeitos drásticos no nível do mar. Durante as grandes eras glaciais, como a que atingiu o planeta há cerca de 20 mil anos, gigantescas camadas de gelo cobriram a América do Norte até os Grandes Lagos e Long Island. O gelo da Antártida se estendeu para além de seus limites atuais. Quantidades imensas de água ficaram retidas pelo gelo, diminuindo o nível do mar. Os oceanos mais frios também eram menores, estendendo-se, às vezes, a quilômetros de distância de suas localizações atuais. Por outro lado, durante as eras quentes, o gelo derreteu e a água do oceano se estendeu, elevando o nível do mar.

A fase quente mais recente da Terra atingiu seu pico há cerca de 120 mil anos, quando as temperaturas globais chegaram a ser cerca de 0,5 a 1,5 grau Celsius mais elevadas do que eram antes da Revolução Industrial. Isso está dentro da faixa de cerca de 1 grau Celsius acima da média dos períodos pré-industriais de aquecimento global até os dias de hoje. A maioria dos países que assinaram o Acordo de Paris concordaram em limitar o aquecimento total a menos de 2 graus Celsius ou ainda, se possível, a menos de 1,5 grau Celsius.

“O mundo não era tão diferente em termos climáticos”, diz Alex Simms, geólogo da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara que estudou a história do nível do mar no Golfo do México. “Isso significa que se pode esperar ver o nível do mar cinco metros mais elevado, ou acima, nos próximos mil anos ou mais?”

As diferenças são muito importantes. Apenas um metro a mais de elevação seria capaz de inundar grandes extensões de costa que abrigam grandes cidades, centros econômicos e recursos culturais. Atualmente, cerca de 770 milhões de pessoas vivem em altitudes inferiores a cinco metros acima do nível médio do mar. Uma elevação de nove ou 10 metros seria catastrófica. Portanto, quaisquer dados que possam ajudar a identificar o que aconteceu no passado podem ajudar os pesquisadores a fazer previsões mais exatas de riscos futuros.

Quais níveis os mares já atingiram?

É muito difícil determinar qual era o nível do mar há mais de 100 mil anos, quando os antecessores desse manguezal criaram raízes. Frequentemente, pesquisadores procuram evidências de litorais antigos, como corais ou dunas de areia. Depois disso, eles medem a distância entre essas evidências e os litorais atuais para estipular a diferença nos níveis do mar. Porém, há uma infinidade de questões que complicam esse cálculo, como mudanças nas marés e as formações geológicas locais. A origem do derretimento do gelo — Groenlândia e Antártida, por exemplo — também pode influenciar os registros do nível do mar em locais distantes.

Os manguezais da lagoa foram encontrados a mais de nove metros acima do nível do mar atual. A equipe também encontrou algumas evidências geológicas: uma família estava cavando um poço próximo ao local e, a alguns metros abaixo, eles encontraram uma espessa camada de conchas e areia, que os pesquisadores confirmaram ser parte de uma antiga praia a cerca de 10 metros acima do nível do mar.

As águas calmas e ricas em cálcio do rio San Pedro Mártir permitem que esses manguezais sobrevivam sem água salgada.

Foto de Octavio Aburto

Esse é ponto mais alto do aumento estimado do nível do mar que muitos cientistas acreditam ter sido possível durante o último Período Interglacial. Mas é provável que a elevação que a equipe encontrou não seja, de fato, nove metros de elevação do nível do mar, explica Nicole Khan, especialista em nível do mar da Universidade de Hong Kong. O número pode ser falsamente alto por causa de mudanças geológicas profundas no manto da Terra.

O local de Yucatan é provavelmente afetado por um processo chamado ajuste pós-glacial. Quando grandes mantos de gelo se formam, como o que cobriu a América do Norte durante o último Período Glacial, seu peso impele a crosta terrestre para baixo, como um corpo afundando em um colchão. A crosta, por sua vez, empurra o manto para baixo. O manto, em resposta, projeta-se para fora da área que está sob pressão, criando uma protuberância ou crista — “forebulge” em inglês — que fica mais alto do que quando não há esse processo.

O Yucatan está provavelmente na faixa da crista daquela enorme camada de gelo, o que significa que a região ainda é provavelmente mais alta do que costumava ser, tendo sido elevada pela extinta camada de gelo. Um estudo recente sugere que esse efeito pode atingir alguns metros de altitude nas proximidades do Caribe. Se esse for o caso do manguezal, a praia de nove ou 10 metros de altitude que eles encontraram poderia, na verdade, estar a um nível mais baixo.

Ainda há grandes questões a serem respondidas sobre a história do nível do mar, revela Khan. Mas o mais importante é que essa pesquisa passa a compor o conjunto de dados que indicam que grandes mudanças no nível do mar são possíveis em condições não muito diferentes das atuais.

“Do ponto de vista do nível do mar, essa e outras pesquisas deixam claro que já foram muito mais elevados do que atualmente, mesmo sem envolvermos a questão do clima, então devemos realmente estar preparados para elevações muito mais significativas dos níveis do mar”, conclui Simms.

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