Atlântico Sudoeste está entre as regiões mais vulneráveis aos impactos climáticos

Aquecimento, desoxigenação e acidificação são os principais motores do desequilíbrio do oceano, alerta a Organização Meteorológica Mundial.

Atafona, no município de São João da Barra, no Norte Fluminense, é um exemplo do impacto do aumento do nível do mar na costa brasileira. O distrito perdeu 14 quarteirões devido ao aumento do nível mar e à erosão costeira. Cerca de 400 construções estão soterradas nas dunas. 

Foto de Felipe Fittipaldi
Por Kevin Damasio
Publicado 28 de set. de 2022 10:03 BRT, Atualizado 28 de set. de 2022 18:25 BRT

Lisboa, Portugal | O aumento do nível do mar no Atlântico Sul e no Atlântico Norte Subtropical ocorre em um ritmo mais acelerado do que a média global, constatou a Organização Meteorológica Mundial (OMM), em relatório lançado no final de julho. A entidade alertou que essa elevação coloca em risco as populações que vivem nas zonas costeiras de grande parte da América Latina e do Caribe, uma vulnerabilidade refletida por questões como “a contaminação dos aquíferos de água doce, erosão da linha de costa, inundação de áreas baixas e aumento do risco de tempestades”.

Na América do Sul, a situação é mais crítica na costa atlântica abaixo da linha do equador, área que compreende boa parte do litoral brasileiro. Nesta região do Atlântico, o nível do mar eleva-se 3,52 milímetros a cada ano, acima da média mundial de 3,33 mm. A taxa anual é de 3,48 mm no Atlântico Norte Subtropical (Caribe e o Golfo do México) e 3,23 mm no Norte Tropical (América Central e sul do Caribe). Na costa pacífica sul-americana, o aumento médio é de 2,45 mm a cada ano.

Essas mudanças estão em boa parte relacionadas ao aumento da temperatura média da superfície do oceano, que varia conforme as regiões e influencia as trocas de energia e umidade entre os ecossistemas marinhos e a atmosfera. Tais padrões espaciais de temperatura “revelam a estrutura dinâmica do oceano, como frentes oceânicas, redemoinhos, ressurgência costeira e trocas entre a plataforma continental e o oceano aberto”, observa o relatório. “Em um mundo mais quente, a temperatura da superfície do mar torna mais frequentes as ondas de calor marinhas, o branqueamento de coral e os danos aos recifes e à pesca.”

Grande responsável pelo aquecimento, a concentração de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera alcançou novo recorde em 2020. A OMM já havia identificado, em seu 17º relatório anual sobre o tema, a presença de 413,2 partículas por milhão (ppm) de dióxido de carbono (CO2), 1.889 ppm de metano (CH4) e 333,2 ppm de óxido nitroso (N2O) – altas de, respectivamente, 149%, 262% e 123%, em relação aos níveis pré-industriais (antes de 1750).

O ritmo de aumento é superior à média anual da década 2011-2020, e a tendência é de nova alta em 2021. O próximo relatório deve ser publicado no último trimestre de 2022. O grande acúmulo desses gases provoca uma força radioativa, fenômeno que aumentou em 47% de 1990 a 2020 e é responsável pelo aquecimento global. O CO2 foi responsável por 80% dessa alta.

Serviços do oceano

A interação oceano-atmosfera é crucial para manter o planeta habitável. Do total de CO2 emitido por atividades humanas entre 2010 e 2019, 46% permanecem na atmosfera, 23% foram absorvidos pelo oceano e 31% pelos ambientes terrestres, segundo a OMM.

“Todos os anos, emitimos de 37 a 40 bilhões de toneladas de CO2 para a atmosfera, principalmente por queima de combustível fóssil, desmatamento, práticas agrícolas e uso da terra”, observa Leticia da Cunha, coordenadora do Laboratório de Oceanografia Química, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

“O oceano absorve CO2 por duas vias. Uma é a dissolução de gases, processo físico-químico da interação da fase gasosa (atmosfera) e líquida (oceano). Outra parte, um pouco menor, mas não menos importante, é a biológica, pela fotossíntese dos organismos marinhos produtores primários, principalmente o plâncton”, explica a oceanógrafa. Cunha coordena a Rede Brasileira de Pesquisa em Acidificação dos Oceanos e é co-autora do capítulo de biogeoquímica do Sexto Relatório de Avaliação do Clima, do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês).

Os ambientes marinhos também absorvem aproximadamente 90% do excesso de calor da atmosfera, produzido pelas emissões de gases de efeito estufa decorrentes das atividades humanas. Essa energia adicional na imensidão d’água, que ocupa 71% da superfície do planeta, ocasiona o aquecimento do oceano e, consequentemente, a expansão térmica. Esta última, por sua vez, contribui para o aumento do nível do mar, incrementado também pelo derretimento das geleiras e das calotas polares.

“As consequências são águas mais quentes, mudanças na circulação geral do oceano e a expansão térmica que resulta no aumento do volume. Uma água apenas um décimo de grau mais quente, banhando as regiões de geleira no Ártico e na Antártica, ajuda a derreter mais rápido aquelas plataformas de gelo nos polos”, aponta Cunha.

Efeitos da crise climática

Os impactos climáticos enfrentados pelo oceano foi um dos principais temas da segunda Conferência dos Oceanos da ONU, que aconteceu no final de junho em Lisboa, Portugal. Uma sessão oficial tratou três dos problemas que mais desequilibram os ecossistemas marinhos: aquecimento, acidificação e desoxigenação.

“O oceano tem diminuído significativamente o ritmo da mudança climática, mas há um preço, já que também tem aquecido, acidificado e perdido oxigênio. Os padrões de circulação estão mudando e o nível do mar está aumentando. A continuação dessas mudanças não ameaça apenas os ecossistemas marinhos, como também a habilidade futura do oceano em sustentar toda a vida na Terra”, disse, na sessão da conferência, Stephen Widdicombe, diretor da Rede Global de Observação da Acidificação do Oceano (GOA-ON).

O aquecimento global elevou a temperatura média do oceano em 0,7ºC no último século, destaca o relatório da sessão. Isso tem alterado aspectos fundamentais nos processos químicos, físicos e biológicos, que se somam a outros impactos antropogênicos, como a poluição marinha. A expansão térmica da água e o derretimento de geleiras e calotas polares têm acelerado o aumento do nível do mar ao menos desde os anos 1960, com efeitos variados conforme as regiões.

“A temperatura do oceano alcançou um recorde nos primeiros 2 mil metros de profundidade e continuou em 2021. Todas as bases de dados apontam que as taxas de aquecimento do oceano mostraram forte alta nas últimas duas décadas”, observou Johann Stander, diretor de serviços da Organização Meteorológica Mundial. “O calor está penetrando em camadas ainda mais profundas do mar. A maior parte do oceano passou por pelo menos uma onda de calor marinha forte ao longo de 2021, o que tem afetado a vida marinha e seus ecossistemas.”

Ecossistemas mais quentes já provocam alterações na distribuição geográfica da biodiversidade. Espécies começaram a migrar em busca de condições termicamente mais toleráveis. As projeções climáticas indicam que, com um aquecimento de 2,5ºC a 4,3ºC até 2100, as regiões dos trópicos do oceano podem perder até 40% do estoque pesqueiro, enquanto é projetado um ganho de 30% a 70% em áreas de latitudes mais altas do oceano, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.

“Nas latitudes mais baixas, vemos um vale de biodiversidade se formando, onde as espécies estão desaparecendo. Essa extinção local indica que os organismos não conseguem mais viver lá. Há perda de habitat. Há migrações induzidas pelo calor”, explicou Hans Otto-Pörtner, vice-presidente do Grupo de Trabalho do IPCC. “E os maiores motores dessas mudanças são as tendências e a velocidade do aquecimento, que alteram as interações entre as espécies e a composição das comunidades.”

Otto-Pörtner reforçou a necessidade de monitorar e compreender essas mudanças. A comunidade científica já entende a influência da tolerância térmica na permanência e mudança de habitat, além da perda de espécies. Mas ainda busca compreender qual é o papel da deficiência de oxigênio e da acumulação de CO2 em algumas partes do oceano.

Desde meados do século 20, estima-se uma redução global de 1% a 3% do oxigênio disponível no oceano. O ambiente marinho mais quente, decorrente da emergência climática, acelera o processo de desoxigenação diretamente, pelo declínio na solubilidade, e indiretamente, por meio da redução da velocidade da ventilação oceânica. “Em regiões costeiras, o aumento da carga de nutriente antropogênico na produção e na respiração do material orgânico contribui para perdas do balanço de oxigênio, ampliada acumulação de dióxido de carbono e, por consequência, a acidificação”, afirmam os pesquisadores, no relatório.

Expansão das zonas mortas

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) projeta uma expansão de 7% das zonas de mínimo de oxigênio – consideradas zonas mortas – até 2100, em comparação às áreas do período pré-industrial. Se isso ocorrer, cientistas da União Internacional para a Conservação da Natureza alertam para alterações significativas na vida marinha que envolvem a diversidade, a composição, a abundância e a distribuição.

Já no processo de acidificação, o dióxido de carbono absorvido pelo oceano dissolve-se e forma um ácido carbônico. Essa reação altera a química de carbono, entre outras mudanças, pois aumenta a acidez da água marinha ao reduzir seu pH.

Desde a Revolução Industrial, o pH médio da superfície do oceano caiu de 8,2 para 8,1, um incremento de 26% na acidez. O pH médio da superfície do oceano pode cair de 0,3 a 0,4 até o final do século 21, se o planeta mantiver a atual trajetória de emissões de gases de efeito estufa. Isso representaria águas de 100% a 150% mais ácidas.

“Mesmo pequenas mudanças na química do carbonato podem ter impactos biológicos e ecológicos significativos quando ocorrem por longos períodos de tempo”, observam os pesquisadores no relatório, “como na construção de conchas e esqueletos de carbonato de cálcio de muitos organismos marinhos”.

“As consequências desses eventos se tornam mais drásticas quando múltiplas pressões se combinam para impactar os sistemas biológicos”, disse Widdicombe. “Os recifes de coral estão sofrendo com o branqueamento e as águas mais quentes, enquanto encontram mais dificuldade para construir recifes de carbonato de cálcio diante da alta na acidez do oceano. Sem falar de todos os estressores adicionais não relacionados ao clima a que estão expostos, como a exploração predatória, a poluição e a degradação de habitats.”

O distúrbio do oceano resulta em maior intensidade e frequência de eventos extremos, a exemplo de ondas de calor e tempestades. Além disso, a resiliência – a capacidade de retornar às condições originais de equilíbrio – e a biodiversidade dos ecossistemas marinhos são afetadas, com impactos como mortalidade em larga escala, embranquecimento de corais e redução do estoque pesqueiro. O relatório ressalta que já se observam os efeitos dessas três pressões combinadas nos ecossistemas marinhos, porém ainda é difícil prever as escalas espaciais e temporais dos eventos e processos.

“É um equívoco presumir que os efeitos serão sentidos daqui a décadas. Já estamos vendo a ocorrência de eventos climáticos, como ondas de calor, tempestades severas, zonas mortas sem oxigênio [no oceano], ressurgência sazonal de águas mais ácidas e o aumento do nível do mar em escala local e regional, dos polos aos trópicos, causando impactos significativos nos ecossistemas marinhos e na saúde e bem-estar de comunidades humanas”, refletiu Widdicombe. Além de coordenar a GOA-ON, Widdicombe é diretor de ciência do Laboratório Marinho de Plymouth, no Reino Unido – uma das principais redes de pesquisa dedicadas ao oceano e seus ecossistemas.

“Está claro que escalar a ação pelo oceano é uma necessidade urgente. Precisamos reduzir a causa fundamental desse estresse induzido pelo clima, ao estabilizar e depois drasticamente reduzir a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera e no oceano”, prosseguiu o ecologista marinho. “Isso precisa ser complementado por ações adicionais que vão aumentar a resiliência tanto dos ecossistemas marinhos quanto das comunidades humanas que deles dependem. E ações que vão reduzir a vulnerabilidade do sistema marinho e proporcionar o espaço para que os organismos se adaptem a um clima global em transformação.”

Tubarões-de-recife-caribenhos patrulham os jardins do Parque Nacional Marinho da Rainha, em Cuba. O nível do mar está aumentando 3,48 mm por ano na região do Caribe e do Golfo do México – a média mundial é 3,33.

Foto de Jennifer Hayes

Recuperação do planeta azul

Se as metas para 2030 estabelecidas no Acordo de Paris forem cumpridas, chegaremos ao final do século com um planeta 2,4ºC mais quente. Se as políticas atuais permanecerem, o aumento será de 2,7ºC em comparação ao período pré-industrial.

A avaliação é do relatório de junho passado do Climate Action Tracker, um observatório internacional independente dedicado a monitorar a agenda climática das nações. Para limitar o aquecimento a 1,5ºC até 2100, as metas para 2030 precisam ser mais ambiciosas, a ponto de reduzir de 19 a 23 bilhões de toneladas de carbono além do que se projeta com compromissos atuais.

Tornar o oceano mais saudável, com a redução dos impactos climáticos, depende primeiramente da diminuição drástica da emissão de gases de efeito estufa. Esta prioridade ecoou nas falas dos cientistas e governantes durante a segunda Conferência dos Oceanos da ONU. Mas não é a única medida.

Jessie Turner, diretora da Aliança Internacional para Combater a Acidificação do Oceano, elencou outras quatro frentes de ação prioritárias. “Precisamos integrar o oceano aos compromissos e prioridades climáticas, e transformar esse conhecimento em ação política”, resumiu a oceanógrafa. “Sabemos o suficiente para agir.”

Para Turner, é necessário ampliar medidas de adaptação e resiliência de ecossistemas e espécies vulneráveis e de comunidades humanas que dependem dos recursos marinhos, por parte de atores governamentais e não governamentais.

Outro ponto essencial consiste na implementação de estratégias de intervenção e adaptação de setores econômicos e nações, que envolvam soluções baseadas na natureza. As medidas envolveriam, por exemplo, a restauração de manguezais, pradarias marinhas, marismas e bosques submarinos, técnicas de aquacultura menos nocivas ao meio ambiente e redução da poluição de origem terrestre, sobretudo por esgoto e fertilizantes. 

Governos, instituições e outras partes interessadas devem ainda integrar políticas e adotar estruturas existentes, como planos nacionais de ação e adaptação climática a políticas de gestão da zona costeira ou do oceano, áreas de proteção marinha, planos de zoneamento marinho, iniciativas de conservação de recifes de coral e monitoramento da qualidade da água.

“O melhor ponto de partida seria desenvolver um conhecimento regional das tendências e impactos, por meio de uma avaliação da vulnerabilidade”, defende Turner. “Ao considerar o quanto de acidez aumentou e os impactos climáticos cumulativos no oceano, os governantes terão uma ideia melhor das vulnerabilidades econômicas, culturais e sociais diretamente causadas pelas emissões de carbono, e pensar estrategicamente em ações que deem apoio à segurança alimentar, soberania e maior resiliência.”

Turner destacou uma questão essencial para colocar em prática essas frentes de ação pelo oceano: financiamento, parcerias e programas de suporte duradouros. “Menos de 2% dos fundos internacionais de adaptação climática são aplicados para projetos de oceano e adaptação costeira. Internacionalmente, 70% da produção de conhecimento de acidificação é conduzida por países norte-americanos e europeus. Apenas 1,6% do auxílio de desenvolvimento oficial é para ajudar na economia do oceano”, relatou a cientista. “No momento, isso é inadequado e não reflete o nível de gravidade e prejuízo que as mudanças climáticas impõem aos recursos oceânicos. Além disso, realmente demonstra quão desigual é a distribuição do financiamento da ciência climática, o que resulta em capacidade limitada onde mais precisamos.”

O caminho para a recuperação do oceano será longo, mas tem havido progresso. No âmbito da Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, dois programas abrangem os impactos climáticos por meio do incentivo à pesquisa de acidificação e do oxigênio oceânico.

No espectro da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima e do Acordo de Paris, 60% dos compromissos nacionalmente determinados envolvem questões relacionadas ao oceano. Além disso, relatórios recentes do IPCC reforçaram a necessidade de minimizar os impactos ao oceano, como meio de manter serviços ecossistêmicos essenciais.

A Comissão Oceanográfica Intergovernamental da Unesco anunciou uma metodologia para auxiliar pesquisadores e governantes no monitoramento da acidificação, tendo em vista uma comunicação padronizada e confiável sobre os indicadores – um entre os 2 mil compromissos firmados por nações e instituições na segunda Conferência dos Oceanos da ONU.

Mares brasileiros

A Diretoria de Hidrografia e Navegação, da Marinha do Brasil, monitora o nível do mar por meio de marégrafos, alguns instalados há 60 anos em diversos pontos da costa brasileira, observou Leticia da Cunha, do laboratório de Biogeoquímica Oceânica da UERJ. Os dados gerados servem de base para um atlas desenvolvido pela Nasa. A agência espacial americana projeta a elevação em centenas de regiões do planeta conforme os cenários desenhados pelo IPCC.

No ritmo atual das emissões e do cumprimento das metas, o mundo caminha para um aquecimento médio de 2,7ºC até 2100. Neste cenário, a plataforma da Nasa indica que a elevação do nível do mar ao longo da costa brasileira seria de 57 a 69 centímetros, acima da média global (47 cm).

Já o programa Pirata, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), acompanha há 25 anos variáveis oceânicas no Atlântico Tropical, que geram indicadores sobre, por exemplo, o aquecimento da superfície do mar, ondas de calor marinhas e a formação de ciclones. Segundo Cunha, que integra o comitê científico do Pirata, esse monitoramento mostra que o Sul e o Sudeste do Brasil já estão mais vulneráveis aos ciclones tropicais, enquanto o Norte e o Nordeste são regiões mais suscetíveis às ondas de calor.

Em 2012, Cunha fez parte de um grupo de cientistas brasileiros que se uniu, de maneira independente, para criar a Rede Brasileira de Pesquisa em Acidificação dos Oceanos (BrOA). O objetivo inicial consistia em inserir o tema no debate científico do país. Ao longo de uma década, os membros realizaram pesquisas e participaram de conferências pela América Latina. O BrOA associou-se também às redes latino-americana (LAOCA) e global (GOA-ON).

No entanto, o Brasil ainda necessita de um monitoramento amplo e de longo prazo para entender as tendências de acidificação na região costeira, como parte de uma política de Estado, defende Cunha. O conhecimento científico sobre este problema no país, hoje em dia, restringe-se a estudos com recortes de regiões e de espécies.

“De maneira geral, está acidificando, porque tem cada vez mais CO2 na atmosfera. Agora, a taxa com que isso acontece é muito variável”, analisa Cunha. Regiões costeiras possuem variáveis que dificultam a identificação do processo de acidificação, por fatores que envolvem as marés, os rios e a influência antrópica por meio da poluição e de lançamento de esgoto no mar, continua a pesquisadora. “Em áreas oceânicas, longe da costa, esse sinal urbano-antropogênico fica mais fácil de detectar, porque tem outra escala de processos com menor variabilidade e envolve a circulação da água do oceano.”

Um estudo de Rodrigo Kerr, professor do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande e também coordenador da rede BrOA, identificou que em regiões brasileiras o mar já acidificou, a partir da observação de massas d’água que se aproximam da costa de Cabo Frio, no Rio de Janeiro, do Cabo de Santa Marta, em Santa Catarina, e em zonas costeiras do Nordeste. As águas frias que sobem têm vindo mais ácidas do que o normal.

“Se não fizermos nada, o cenário realmente será catastrófico. A eficiência do oceano vai diminuir. Teremos um oceano mais ácido e mais quente, onde a vida será completamente diferente do que conhecemos agora.”, alerta Cunha.

Mas ainda há “um tempo relativamente hábil” para o mundo se colocar em direção ao objetivo principal do Acordo de Paris: limitar o aumento médio global a menos de 2ºC em comparação a meados do século 18, de preferência em até 1,5ºC. “Se conseguirmos frear esse aquecimento, os problemas do oceano também vão se estabilizar.”  

Esta reportagem foi produzida no âmbito da 2022 UN Ocean Conference Fellowship, organizada pela Earth Journalism Network da Internews com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian (Reino Unido).

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