Tecnologia ajuda a esclarecer 6 grandes mistérios da arte

Cientistas utilizam técnicas avançadas no estudo de obras de arte históricas.Thursday, September 6, 2018

Por Harmony Huskinson

Por trás dos rostos familiares das centenas de quadros que forram as paredes da Galeria Nacional de Arte em Washington D.C., existem muitos segredos  esperando para serem revelados.

Seja um Picasso ou um Da Vinci, cada tela tem suas pinceladas que podem esconder algo a mais: talvez outra pintura ou um mistério esperando ser esclarecido por John Delaney, cientista-chefe de imagens do museu.

Em mais um dia comum, pacientemente, ele coloca um quadro na frente de uma câmera especializada e o escaneia: esse procedimento vai revelar não somente o que há embaixo da tinta, mas também o que existe em cada camada da tinta que está abaixo da superfície.

Delaney faz parte de uma comunidade de cientistas, curadores e historiadores de arte que montaram uma caixa de ferramentas composta por raios-x, lasers, microscópios e softwares de alta precisão que revelam alguns dos maiores mistérios da arte. Essas tecnologias ajudaram a desvendar informações revolucionárias sobre a arte e o artista.

Conheça algumas dessas tecnologias e os mistérios resolvidos por elas:

1 - Picasso sob a tinta

Uma das obras mais notáveis de Picasso de sua Fase Azul, "Le Gourmet," representa uma criança raspando migalhas de seu pote de comida. Mas, embaixo dos azuis-celestes e cobaltos da tela, existe um retrato escondido: uma mulher coberta com um véu olhando para o horizonte serenamente. O retrato escondido no qual Picasso trabalhou antes da sua Fase Azul apresenta pinceladas vibrantes de tinta branca e pode conter outros pigmentos desconhecidos.

Picasso: ''Le Gourmet.''

A habilidade de ver esboços e pinturas antigas escondidas sob a superfície já existe há décadas graças à reflectografia de infravermelho, que foi utilizada para desvendar a mulher de véu na Galeria Nacional nos anos 1990.

Mas a tecnologia de Delaney vai além de apenas ver uma pintura escondida. O seu método de imagem por infravermelho tira fotos da mulher misteriosa de Picasso em uma gama de raios infravermelhos. Delaney transforma essas imagens em um bloquinho animado permitindo que os visitantes vejam o menino desaparecer ao mesmo tempo em que a mulher aparece na tela.

As duas imagens são uma dádiva para os entusiastas de Picasso que têm interesse em saber como o artista realizava suas pinturas em diversos momentos de sua vida.

“Os métodos e técnicas [do artista] e sua evolução ficam em evidência”, diz Delaney.

2 - Discos bi

Redondos e planos, os discos bi de jade parecem discos de 45 rpm - a diferença é que eles são verdes, têm 5 mil anos e escondem muitos segredos.

Os discos circulares foram esculpidos por artesões da cultura neolítica Liangzhu, do Sudeste da China. Eles eram enterrados juntamente com as pessoas que faziam parte da elite.

“É a primeira vez que esse tipo de forma circular aparece na história da China ... portanto, existem perguntas reais sobre como eles foram feitos”, diz Janet Douglas, cientista de conservação da Galeria Freer de Arte e da Galeria Arthur M. Sackler do Instituto Smithsoniano, que reconstruíram a forma como os discos foram esculpidos.

Em primeiro lugar, Douglas comparou as obras com um microscópio para entender como elas foram entalhadas e polidas. Ela também examinou as ferramentas de jade e de entalhe do sítio arqueológico em Dingshadi, localizado na Província de Jiangsu, para aprender mais sobre como os discos foram esculpidos.

“Uma das primeiras coisas que as pessoas pensam ao ver esses discos bi é, ‘Ah, os chineses inventaram a roda,’ mas na verdade os chineses desenvolveram uma roda giratória e ferramentas giratórias para trabalhar com o jade”, afirma.

Para esculpir o disco bi, os membros da cultura Liangzhu começavam serrando fatias de jade com uma serra de corda, uma faixa de couro incorporada com areia grossa. Depois eles moldavam o jade em um círculo com uma serra de pedra. Para fazer o círculo central, os Liangzhu giravam os discos bi em uma ponta afiada que se parece com uma broca moderna.

“Por esse motivo eles criaram objetos em formatos circulares: porque encontraram uma forma de mecanizar o processo”, ela diz.

3 - Reconhecendo Shakespeare

Retrato de Shakespeare.

Shakespeare, representado em uma estampa verificada (à esquerda) e o incerto “Retrato Cobbe.”

Existem dois retratos de Shakespeare em que não resta dúvidas de que ele é o homem retratado: um deles é uma estampa do escritor na primeira compilação dos seus trabalhos; o outro é um busto em homenagem a ele em sua cidade natal, Stratford-upon-Avon.

Mas existem dezenas de outros retratos de Shakespeare em que se contesta a identidade de Bardo. É aqui que entram o historiador de arte Conrad Rudolph e o engenheiro elétrico Amit Roy-Chowdhury.

Eles desenvolveram um novo tipo de software de reconhecimento facial que analisa os retratos da elite da história (e também os não tão conhecidos) para dar certa objetividade à confusão acadêmica sobre quem está realmente retratado em uma tela ou em uma escultura.

“Fornecemos um volume de informações quantitativas que permitem que o curador ou historiador de arte decidam se de fato se trata da Maria da Escócia, por exemplo”, diz Rudolph, que trabalha com Roy-Chowdhury na Universidade da Califórnia, Riverside.

O software identifica os dois principais aspectos faciais: chamado pelos pesquisadores de “similaridade dos traços locais” (os cantos das bocas ou olhos) e a “similaridade da distância antropométrica” (a largura de uma boca ou a distância entre os olhos).

A partir daí, um algoritmo calcula a probabilidade da identidade do sujeito do retrato. A objetividade de um computador, entretanto, tem as suas limitações. Por exemplo, um retrato de um Shakespeare jovem é radicalmente diferente de um retrato de um Shakespeare de meia-idade, pois as características faciais mudam de forma conforme a pessoa envelhece. Treinar um computador para esse tipo de reconhecimento pode ser complexo, diz Row-Choudhury.

4 - Picasso utilizava tinta para paredes?

“A Poltrona Vermelha”, de Picasso.

“A Poltrona Vermelha”, à esquerda, e uma propaganda da tinta Ripolin que Picasso utilizava.

À medida que o movimento vanguardista surgia no início do século 20, os artistas começavam a desafiar os métodos existentes com novos estilos e materiais.

Durante anos os historiadores de arte sabiam que Picasso estava entre os primeiros artistas a fugirem da tinta tradicional para obter uma secagem mais rápida, uma tinta para paredes francesa e brilhante chamada Ripolin. Mas ninguém sabia quais quadros continham a tinta industrial ou em qual concentração ele pode tê-la misturado com outras tintas.

“Ao observarmos um quadro com cores brilhantes, acabamento leve e superfície esmaltada, [supúnhamos] que deveria ser a Ripolin”, afirma Francesca Casadio, cientista-chefe de conservação do Instituto de Arte de Chicago, que passou oito anos pesquisando a pintura de Picasso. “Até agora, os historiadores de arte somente tiveram a chance de fazer tais afirmações por meio da observação”.

Contudo, agora, cientistas de conservação como Casadio podem utilizar imagens de alta resolução - ao invés do olho nu - para determinarem o tipo de tinta que um artista usava.

Casadio colecionava amostras microscópicas de dois quadros de Picasso, incluindo o famoso retrato cubista de sua amante, "A Poltrona Vermelha." Ela levou as amostras para o Laboratório Nacional de Argonne, próximo de Chicago, onde trabalhou com o físico Volker Rose para analisar o tipo de tinta utilizado.

Para tanto, Casadio utilizou uma nanosonda para visualizar dentro das partículas individuais de pigmento. Várias substâncias químicas nessas partículas (e a falta de outras substâncias químicas) indicaram a verdadeira origem da tinta.

O seu estudo não revelou apenas informações extras sobre o uso da tinta de parede por Picasso - mas também incluiu na discussão a influência cultural da Ripolin na França no início do século 19. Inclusive, ela tinha menos impurezas do que o esperado.

“A marca era utilizada não somente por ter boa propaganda, mas porque era de boa qualidade”, diz Casadio.

E, graças a seus esforços, os conservacionistas agora sabem que a Ripolin é uma tinta estável, que os ajudará a manter as telas de Picasso vibrantes e bem preservadas durante séculos.

5 - O céu era muito azul?

Tipo de vidro de cobalto em pó - chamado smalt - para colorir o "céu azul".

Às vezes, na arte, os céus cinzas não necessariamente significavam céus nublados.

Diversos pigmentos da tinta podem desbotar ou perder a cor com o passar do tempo em função das reações químicas em contato com o meio ambiente.

Na obra The Heavenly and Earthly Trinities”, de Bartolomé Esteban Murillo, o céu e diversas nuvens cercam a figura celestial de Deus, que observa a trindade humana de Maria, José e o menino Jesus. Quando Murillo pintou pela primeira vez essa imagem bíblica no final do século 16, ele utilizou um tipo de vidro de cobalto em pó - chamado smalt - para colorir o céu azul.

Mas com o tempo, esse smalt desbota e o seu azul fica marrom e cinza. Durante muitos anos, o céu de Murillo estava pintado em diferentes tons de cinza e azul, mas ninguém conseguia explicar como e por que as cores desbotavam.

“Por muitos e muitos anos, grupos de cientistas que trabalhavam na conservação dos quadros se perguntavam o motivo do desbotamento do pigmento,” diz Loïc Bertrand, diretor da IPANEMA, uma empresa francesa - com base no acelerador de partículas - que pesquisa artefatos antigos europeus utilizando técnicas científicas avançadas.

Saber o porquê de a tinta desbotar - e a velocidade em que desbota - pode ajudar os historiadores de arte a imaginar como o quadro era originalmente.

Então, a empresa de Bertrand, juntamente com cientistas da Galeria Nacional, em Londres, e do Louvre, em Paris, reuniram amostras microscópicas de cinco quadros que utilizaram o smalt entre os séculos 16 e 18.

A pequena amostra coletada da obra de Murillo "The Heavenly and Earthly Trinities” parecia um bolo em camadas - se observada por um microscópio. Os cientistas estavam interessados nos tipos de tinta contidos nessas camadas. Para tanto, eles utilizaram uma técnica chamada de espectroscopia de raios-x, que diferencia com facilidade diversas substâncias químicas na tinta.

As imagens avançadas mostraram como o smalt perdeu a sua cor. Está relacionado ao potássio, um íon presente no pigmento do smalt que ajuda em sua preservação. Quando o potássio reage no contato com o meio ambiente, ele se desestabiliza e lentamente a  tinta dissolve. Ao escorrer, o smalt desbota de azuis vibrantes para cinzas sem graça.

Ainda assim, os conservacionistas de arte trabalhando na obra de Murillo ficaram com uma dúvida: O pintor barroco utilizou um pigmento que desbotava de propósito, talvez como uma expressão artística?

“A dúvida da intencionalidade é sempre uma declaração difícil... Portanto, precisamos nos basear em comentários passados sobre a cor do quadro, mas também nas provas materiais,” diz Bertrand.

6 - Encontrando um Leonardo perdido

Cientistas usam ferramenta para "olhar" por trás do mural.

A busca do engenheiro Maurizio Seracini para encontrar a obra de arte perdida de Leonardo da Vinci “A Batalha de Anghiari“ durou 36 anos e foi cheia de mistério, triunfo e desespero dignos de um romance de Dan Brown - mas com muito mais ciência.

Seracini tem certeza que o famoso mural experimental de Leonardo está atrás de “A Batalha de Marciano” no Hall dos 500 no Palazzo Vecchio, na prefeitura de Florença.

Outro pintor, Giorgio Vasari, pode ter escondido o mural de Leonardo quando foi convidado para pintar “A Batalha de Marciano” em meados do século 16.

Vasari era um admirador conhecido de Leonardo e, no passado, havia escondido outra obra de arte famosa atrás de um altar.

Quando Seracini começou a vasculhar o Palazzo Vecchio na década de 1970, ele subiu em um andaime na frente do afresco de Vasari e descobriu as palavras “Cerca Trova” - “Procure e Encontrará” - pintada na pequena bandeira de um soldado.

Essa frase fez Seracini pensar: O que há para procurar?

Com o passar dos anos, ele utilizou diversas ferramentas de diagnóstico para responder à essa pergunta.

Financiado pela National Geographic Society, Seracini planejou procurar por “A Batalha de Anghiari” utilizando duas tecnologias nucleares - um dispositivo de detecção de bomba e um retrodifusor de nêutrons - que tinham o potencial de detectar a tinta de olho de linhaça, marca registrada de Leonardo, sem atrapalhar a cena de batalha de Vasari.

Mas havia um problema. Ambos os métodos utilizam radiação e isso deixou os oficiais do governo desconfortáveis com a ideia. Em substituição, os oficiais de Florença pediram que Seracini procurasse por “A Batalha de Anghiari” com outra técnica chamada endoscopia.

Similar ao procedimento médico, a endoscopia artística utiliza uma câmera bem pequena para explorar espaços inacessíveis. Nesse caso, a equipe de Seracini fez seis pequenos furos com tamanhos milimétricos nas partes já quebradas do afresco de Vasari. Em seguida introduziram uma pequena sonda com uma câmera minúscula acoplada através desses furos.

Em novembro de 2012, a análise da endoscopia foi concluída com resultados mistos.

Os dados do raio-x das amostras de sujeira removidas da parte de trás da parede descreveram pigmentos pretos similares àqueles contidos nas pinceladas de outros quadros como a "Mona Lisa." Contudo, o mural de Leonardo não foi encontrado.

7 - Quem fez o quê, exatamente?

"The Armorer's Shop"

Parece tão natural. Artesãos industriais holandeses dedicados em volta de uma pilha de armaduras resplandecentes de prata. Mas, diferentemente da simplicidade desse ambiente de trabalho calmo, os armeiros e a armadura foram pintados por dois artistas, com 20 anos de diferença.

Por cerca de 50 anos, o Museu de Arte da Carolina do Norte atribuiu a obra "The Armorer's Shop" a David Teniers, o Jovem. Teniers, que trabalhava no século 17, era considerado o pintor da cena no painel de madeira.

Mas quando Noelle Ocon, a restauradora o museu, tirou um raio-x do quadro em novembro de 2000, foi surpreendida com linhas finas que indicavam painéis de madeira separados, e provavelmente artistas diferentes.

Intrigada por essa descoberta, ela e seus colegas restauradores entraram em contato com Jennifer Mass, cientista-chefe de conservação de arte da Universidade de Delaware, para descobrir se o quadro era um pastiche - uma obra de arte alterada ou que sofreu acréscimos de outro artista.

“Eles queriam informações mais aprofundadas sobre aquilo que estavam vendo e o que aquilo significava sobre a construção da obra e os artistas envolvidos”, diz Mass.

Ao medir os anéis da árvore nos painéis de madeira de carvalho, Mass localizou a faixa etária de cada painel, permitindo que ela previsse quando cada parte fora pintada e qual delas foi pintada primeiro.

Em seguida, ela escaneou o quadro para analisar quais substâncias químicas foram utilizadas em cada camada do quadro.

Com isso, foram reveladas camadas mais grossas de tinta onde o artista posterior juntou os quadros.

Com ajuda de historiadores de arte, Mass e Ocon concluíram que Jan Brueghel, o Jovem, provavelmente pintara a pilha de armaduras na década de 1620, quando Teniers, o Jovem, era adolescente. Depois de 20 anos, Teniers acrescentou os detalhes da fatia de vida, substituindo uma armadura por uma mesa e representando alguns ferreiros trabalhando ao fundo.

Esse foi o único quadro confirmado como um trabalho de ambos os artistas. Não existe registro de eles terem trabalhado juntos.

“Chamar de colaboração ou de apropriação é algo difícil de definir”, diz Mass. “Nunca saberemos se Brueghel contribuiu com Teniers ou se aprovou a transformação da obra em um quadro maior”.

De qualquer forma, pelo menos sabemos que Teniers recebeu todo o crédito, pois foi o único artista a assinar o trabalho.

 

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