A curiosa relação entre o canto dos sapos para acasalar e a previsão do tempo

Cientistas sugerem que as fêmeas de rã ouvem mudanças nos coaxares dos machos como um sinal de que a temperatura do ambiente está quente o suficiente para acasalar.

Por Jude Coleman
Publicado 19 de mar. de 2026, 09:20 BRT
Um macho de sapo-arborícola-do-pacífico (Pseudacris regilla) vocaliza no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Lago Conboy, ...

Um macho de sapo-arborícola-do-pacífico (Pseudacris regilla) vocaliza no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Lago Conboy, no estado de Washington, nos Estados Unidos.

Foto de Cyril Ruoso, Nature Picture Library

Quando o gelo e a neve começam a derreter nas águas de alta altitude da Califórniaos sapos machos entram em ação. Saindo da hibernação, eles se dirigem a lagos e lagoas espalhados pela região e começam a coaxar para atrair as fêmeas. Eles têm pouco tempo para acasalar antes que a água congele novamente.

“Há janelas de tempo muito curtas em que os animais precisam realizar muita coisa”, comenta a ecologista de mudanças climáticas Julianne Pekny, diretora de ciência da conservação da Amphibian and Reptile Conservancy. Alguns corpos d'água ficam livres de gelo e neve por apenas alguns meses.

Quando os sapos-arborícolas machos chegam ao local, por exemplo, seus coaxares são distintamente mais lentos e menos frequentes do que mais tarde na estação, quando está mais quente, relatam Pekny e seus colegas em um estudo recente publicado na revista acadêmica Frontiers in Ecology and the Environment

Com base em dados coletados quando Pekny era estudante de pós-graduação na Universidade da Califórnia, em Davis, os cientistas argumentam que as rãs fêmeas também percebem a mudança na cadência dos chamados de acasalamento e usam essas pistas para ajudá-las a decidir em quais águas a temperatura é ideal para depositar os ovos.


temperatura correta para depositar os ovos é uma informação particularmente importante em locais com um curto período para a postura de ovos das fêmeas. E, à medida que as estações mudam em resposta às alterações climáticas, essa espécie de “aplicativo meteorológico” de acordo com o canto dos machos,  poderia ajudar as fêmeas desses anfíbios a ajustar suas decisões de acasalamento de acordo.

Pekny, que também é diretora de análise de dados ecológicos da Tangled Bank Conservation, nos Estados Unidos, afirma que os ecologistas presumiam antes que os cantos de sapos apenas transmitiam informações relacionadas à atratividade e à competição por parceiras. 

Os sapos machos usam seus coaxares para anunciar sua localização disponibilidade para as fêmeas solteiras na área, com coaxares mais profundos e robustos geralmente emanados de sapos maiores. Por sua vez, esses coaxares — e os sapos que os emitem — são mais atraentes para as fêmeas.

As fêmeas também são mais atraídas por coaxares mais rápidosfrequentes. Pekny acredita que isso ocorre em parte porque as fêmeas monitoram as mudanças ambientais por meio desses coaxares, e não apenas por sinais de acasalamento

Enquanto usualmente os sapos machos correm para a água assim que o clima esquenta, as fêmeas ficam para trás. Isso significa que, embora elas e os machos experimentem temperaturas do ar semelhantes, são os machos que sabem o quão frios são os habitats de reprodução.

O estudo descreve "uma nova maneira de pensar sobre os cantos dos sapos como um sistema de dupla informação", afirma Adam Leaché, herpetólogo do Museu Burke de História Natural e Cultura e da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, que não participou deste estudo. "É interessante pensar nos cantos de acasalamento como sinais sexuais e sinais ecológicos ao mesmo tempo."

(Você pode se interessar também: Quais são as diferenças entre sapo, rã e perereca?)

Acima, um sapo arborícola tradicional da região do Pacífico.

Acima, um sapo arborícola tradicional da região do Pacífico.

Foto de Domínio público

Águas quentes x águas frias


A ideia para a teoria de Pekny surgiu enquanto ela fazia trabalho de campo no norte da Califórnia e conseguia ouvir a diferença nos coros dos sapos ao longo das estações do ano. Ela decidiu coletar 35 sapos na Reserva Ecológica de Quail Ridge, no Condado de Napa, e testar como seus coaxares reagiam às mudanças de temperatura

Ela colocou os sapos machos em aquários com diferentes temperaturas da água e, com um pequeno microfone na mão, gravou a frequência e a duração de seus coaxares. Em seguida, ela transferiu as rãs para novos aquários para ver como elas reagiriam às diferentes temperaturas.

Descobriu-se que a água mais fria realmente tornava o canto dos sapos mais lento, enquanto a água mais quente o animava. Essa descoberta também foi sugerida para outras espécies de sapos.

Pekny também descobriu que a literatura existente sobre coros de sapos tendia a atribuir a atração das fêmeas por cantos mais rápidos à seleção de parceiros. Mas usar os sapos machos como pequenos meteorologistas anfíbios também faz sentido, especialmente em um local com lagos e lagoas formados pelo derretimento da neve, diz ela. É do interesse da fêmea evitar chegar à água muito cedo, porque os machos se aproximam para acasalar logo após sua chegada.

"Há muita agressividade por parte dos machos", diz Pekny. "Há até risco de mortalidade para a fêmea, devido a essa agressividade." A temperatura da água também pode variar de acordo com a altitude, então seria interessante e útil para as fêmeas saberem quais áreas são ideais para a postura de ovos.

(Conteúdo relacionado: Qual é a diferença entre tempo e clima?)

Questões mais amplas sobre as mudanças no clima e a reprodução dos sapos


Luke Larter, um ecologista comportamental da Universidade Brown, nos Estados Unidos, que não participou deste estudo, não tem tanta certeza de que as fêmeas estejam obtendo essas informações a partir dos cantos dos machos — somente experimentos adicionais revelarão se esse é o caso. Mas ele afirma que o estudo ainda apresenta uma ideia importante.

“Não temos uma visão completa de toda a dinâmica envolvida... É por isso que ideias como essa são valiosas”, comenta ele. Pekny concorda que mais pesquisas são necessárias, em particular para separar o ambiente da fêmea e a paisagem acústica à qual ela está exposta. Se a teoria dela for verdadeira para as rãs-arborícolas da Serra Nevada, também poderá ser aplicável a outras espécies de sapos de clima temperado que têm períodos de acasalamento curtos, diz Leaché.

Dado que os anfíbios são o grupo animal mais ameaçado globalmente — cerca de 41% estão em perigo de extinção — os cientistas estão particularmente interessados ​​em compreender suas interações e relações com seus habitats. De modo geral, parece que muitos anfíbios, incluindo sapos e rãs, estão adaptando seus comportamentos para acompanhar o ritmo das mudanças climáticas

Uma consequência grave disso pode ser uma discrepância temporal entre o acasalamento dos sapos e o de suas presas. Se elas acabarem acasalando mais cedo devido à chegada precoce da primavera, seus girinos podem emergir antes que haja alimento suficiente disponível. E, posteriormente, as rãs adultas podem estar se movimentando antes de suas presas.

O clima está realmente afetando toda a vida selvagem de forma geral”, diz Pekny. “Os impactos reais são mais difíceis de entender porque [as rãs] estão muito interligadas a outros animais.”abitats are.

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