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Nova espécie de perereca brasileira tem espinhos e ganha nome de guerreiras lendárias da Amazônia

Os anfíbios têm pálpebras reticuladas, espinhos nas patas e são batizados em homenagem às mulheres guerreiras do folclore brasileiro. Sexta-feira, 27 Julho

Por Liz Langley

O nome de uma espécie recém-descoberta de perereca, nativa da Bacia Amazônica no norte do Brasil, tem muito poder feminino.

Os anfíbios têm pálpebras reticuladas, semitransparentes, espinhos nas mãos e são batizados em homenagem às mulheres guerreiras do folclore brasileiro.

Uma equipe de pesquisadores do Brasil e dos EUA descreveu a nova espécie - chamada Boana icamiaba - em 20 de julho, no South American Journal of Herpetology.

Tribo lendária

A espécie é um novo tipo de “sapo-gladiador”, grupo que tem grandes espinhos perto de seus polegares. Fiel ao nome, esses espinhos são normalmente usados em disputas de acasalamento ou territoriais.

(Relacionado: "Nova perereca é descoberta em rodovia abandonada no Brasil")

Existem 93 espécies de “sapos-gladiador”, incluindo os Hypsiboas geographicus, que têm pálpebras transparentes e, na maioria dos casos, não possuem os espinhos nas mãos.

Acreditava-se que a nova espécie fizesse parte desse grupo. No entanto, estudos feitos pelo Museu Paraense Emílio Goeldi, no Pará, onde o autor Pedro Peloso é um pesquisador associado, revelaram que, no fim das contas, eles têm espinhos.

O estudo reclassificou algumas espécies Boana, e análises de DNA verificaram que este novo sapo pertence ao grupo dos Hypsiboas geographicus.

Então, agora que sabemos que este pequeno sapo está armado com espinhos, Peloso, que também é pesquisador associado do Museu Americano de História Natural de Nova York, começou o processo de dar um nome ao novato.

(Saiba mais: "Pedro Peloso e sua expedição exploratória no coração da Amazônia")

Ele então lembrou-se da lenda das Amazonas, uma tribo guerreira composta apenas por mulheres descrita por exploradores do século 16. Elas eram originalmente chamadas de "Icamiabas", ou "seios quebrados", sugerindo que seus seios eram achatados ou mutilados para melhor utilizar o arco e flecha, como as Amazonas da mitologia grega. Dizem que essas mulheres lendárias deram o nome ao rio Amazonas.

“A analogia com as Icamiabas era apropriada – eram “gladiator frogs” escondidos entre um grupo de outras espécies”, diz ele. Apenas uma outra espécie, a Ricinulei, também faz referência à tribo com este apelido.

As Boana icamiaba foram pouco observadas, então, ainda não se sabe como elas usam a coluna. Em outras espécies, ela é usada em situações de acasalamento, para prender outros machos, diz Arturo Muñoz Saravia, estudante de doutorado na Universidade de Ghent, na Bélgica, e coordenador da Iniciativa dos Anfíbios da Bolívia, que não esteve envolvido no estudo.

Camuflado

Outra característica única da nova espécie é um conjunto de listras pretas, similares às listras de um tigre, em seu corpo marrom - uma cor que permite que esse sapo noturno se camufle bem entre as árvores durante o dia.

O estudo valida algo de que Muñoz Saravia e seus colegas se perguntavam.

"Estávamos pensando há vários anos, sim, que deveria haver mais espécies com esse nome", ao estudar o Boana geographica nas terras baixas da Bolívia. Agora a lista possui o Boana icamiaba e mais seis espécies de Boana ainda não descritas. (Relacionado: Ponto zero do fungo dos sapos é finalmente encontrado)

Felizmente, esses sapos aparentemente não são afetados pelo fungo que causou um declínio chocante nos números dos anfíbios em todo o mundo.

O desmatamento, no entanto, ainda é uma ameaça para muitas espécies nessa paisagem incrivelmente diversa.

Nós odiaríamos vê-los ir pois, até onde sabemos, eles acabaram de chegar.