Animais

Estamos perdendo as borboletas-monarcas em ritmo acelerado —entenda o motivo

Ainda há tempo de salvá-las, mas, de acordo com cientistas, a questão é se estamos dispostos a fazer isso ou não. Quarta-feira, 9 Janeiro

Por Carrie Arnold

A migração épica das borboletas-monarcas, que percorrem cerca de 4.828 quilômetros, pode se tornar algo do passado. A cada outono, as monarcas deixam seus habitats de verão no norte dos EUA e Canadá em rumo a seus habitats de inverno na Califórnia e no México. Contudo a Contagem das Monarcas do Oeste Realizada no Dia de Ação de Graças em 2018 constatou que o número de monarcas da costa oeste que passa o inverno na Califórnia foi reduzido a apenas 20.456 borboletas—uma queda de 86 % em comparação ao ano anterior. E o número de monarcas do leste que ficam no México após o término do inverno caiu 15 % desde o último ano, contabilizando uma queda total de mais de 80 % ao longo dos últimos 20 anos, de acordo com a Federação Nacional da Vida Silvestre.

A contagem desse ano fez parte de uma série de más notícias sobre a carismática borboleta, inseto que realiza uma das migrações mais longas de que se tem conhecimento. O culpado? O homem. As consequências das mudanças climáticas provocadas pelo homem e da perda de habitat agora ameaçam as borboletas-monarcas da América do Norte de extinção.

O aumento nos níveis de dióxido de carbono pode estar tornando as asclépias—o único alimento das lagartas monarcas—muito tóxicas para serem toleradas. E o aumento das temperaturas também pode estar realocando as áreas de procriação cada vez mais para o norte. Isso significa que as rotas de migração das monarcas ficam mais longas e, consequentemente, mais difíceis.

"Muitas ameaças ambientais podem se acumular", diz Karen Oberhauser, entomóloga da Universidade de Wisconsin e diretora do UW-Arboretum. E pode ser difícil prever as consequências.

Embora as monarcas estejam à beira da extinção—com um número cada vez mais baixo de indivíduos, impossibilitando a recuperação da espécie—, cientistas como Oberhauser dizem que nem tudo está perdido ainda. A criação de novos habitats para as monarcas, com a plantação de espécies nativas de asclépias, pode fornecer alimento e locais de descanso às borboletas migratórias, bem como a tomada de providências sobre as mudanças climáticas.

ONDE ESTÃO AS ASCLÉPIAS?

Em 2004, um produtor agrícola do centro-oeste enviou um e-mail a Chip Taylor, entomólogo da Universidade do Kansas, para alertá-lo sobre o eminente apocalipse das monarcas. A criação de milho e soja resistentes a herbicidas permitiu que os produtores erradicassem as ervas daninhas e outras plantas indesejadas, incluindo as asclépias, que competiam com seus cultivos.

O medo e o receio tomaram conta de Taylor. Ele havia passado anos estudando as monarcas e sabia que elas dependiam das asclépias encontradas nos corredores migratórios do centro-oeste. O advento dessas novas variedades de grãos significou a morte das asclépias.

Os dados obtidos ao longo dos anos seguintes apenas confirmaram o que Taylor mais temia: o número de monarcas começou a cair drasticamente. "Em um curto período de tempo, as monarcas sofreram uma queda enorme, com consequências graves", afirma Taylor.

Além da perda das asclépias nas fazendas, a seca também prejudica as plantas dessa espécie. A seca que atingiu o Texas em 2013 dizimou as asclépias da região e isso contribuiu para o baixo número de monarcas naquele ano.

A perda das asclépias serviu de alerta a um público cada vez mais preocupado com o fato de que as lindas borboletas que tanto admiram podem acabar seguindo o mesmo caminho do pombo-passageiro e do mamute-lanoso. A conscientização sobre o desaparecimento das asclépias se transformou em preocupação com a sobrevivência das monarcas conforme o clima continua a mudar. Diversos estudos publicados ao longo dos últimos anos demonstram que essas preocupações não são em vão.

O aumento nos níveis de dióxido de carbono provenientes da queima de combustíveis fósseis é o principal agente das mudanças climáticas, e esse aumento pode alterar o modo como as plantas, incluindo as asclépias, constroem determinadas moléculas, explica Leslie Decker, pesquisadora de pós-doutorado da Universidade de Stanford. As asclépias produzem esteroides tóxicos chamados cardenólidos. As monarcas evoluíram e se tornaram capazes de tolerar baixos níveis dessa substância, armazenando-a no organismo e utilizando-a como um repelente de gosto amargo contra os predadores.

Os cardenólidos também ajudam as borboletas, pois impedem o desenvolvimento de um parasita que afeta as monarcas e que possui um nome difícil de pronunciar Ophryocystis elektroscirrha. "Tive que treinar a pronúncia desse nome quando estava na faculdade", comenta Decker rindo.

Esse parasita unicelular pode infectar lagartas recém-eclodidas perfurando-as na barriga para encontrar um local para se reproduzir. Quando as lagartas infectadas conseguem sobreviver, as borboletas resultantes têm asas deformadas e menor resistência. Os cardenólidos ajudam as monarcas a tolerar o parasita para que ele não as prejudique.

Contudo quando Decker cultivou asclépias em uma estufa com níveis de dióxido de carbono de 760 partes por milhão (ppm)—níveis que, de acordo com as projeções de cientistas climáticos, ocorrerão daqui a 150 a 200 anos, conforme os atuais 410 ppm continuam a subir—ela descobriu que as plantas produziram uma combinação diferente de cardenólidos, menos efetiva contra os parasitas que atingem as monarcas. Ela publicou suas descobertas em julho de 2018 na revista científica Ecology Letters.

"Não sabemos as alterações que estamos provocando nas plantas que nos cercam", afirma Decker.

EQUILÍBRIO NA TOXICIDADE

Além disso, nem todas as asclépias são iguais. Conforme as pessoas começaram a plantar asclépias em seus quintais, as plantas passaram a ser fornecidas por grandes lojas e viveiros. As plantas normalmente oferecidas, entretanto, eram de uma espécie resistente e de fácil cultivo, originalmente encontrada no México, a Asclepias curassavica. Assim como suas parentes da América do Norte, a A. curassavica também produz cardenólidos tóxicos, mas em quantidade significativamente maior do que as espécies nativas de asclépias dos EUA. Essa quantidade está muito além do que as monarcas conseguem tolerar, afirma Matt Faldyn, estudante de doutorado em ecologia da Universidade do Estado de Louisiana.

Em um artigo publicado na revista científica Ecology, Faldyn descobriu que temperaturas mais altas aumentaram ainda mais os níveis de cardenólidos na A. curassavica, tornando-as excessivamente tóxicas às borboletas.

"Essas toxinas possuem uma zona de equilíbrio na qual não são nem muito tóxicas nem muito fracas. Com as mudanças climáticas, as asclépias podem ir além desse ponto e sair dessa zona de equilíbrio", afirma Faldyn.

Oberhauser afirma que devido ao fato de ambos os estudos sobre a toxicidade das asclépias terem sido realizados em laboratório, os cientistas ainda não sabem ao certo os impactos causados às monarcas pela alteração nos níveis de cardenólidos. Ainda, Faldyn sugere plantar espécies nativas de asclépias, pois elas são mais bem adaptadas ao ambiente local e podem ser menos propensas a se tornarem super tóxicas.

ASAS MAIORES

As mudanças climáticas não afetam as monarcas apenas por meio das asclépias. Elas também estão modificando as borboletas de forma mais direta. Micah Freedman, aluno de doutorado em ecologia e evolução da Universidade da Califórnia, em Davis, visitou acervos de museus ao redor do país em 2017. Com a ajuda da bolsa de exploração da National Geographic Society, Freedman conseguiu medir o tamanho de milhares de monarcas desde a década de 1870. As borboletas-monarca têm diversos tamanhos e sua envergadura varia de cerca de 8,90 a 12 centímetros. Sendo assim, somente quando ele começou a analisar suas medições no computador foi capaz de detectar um pequeno, mas consistente, aumento de 4,9 por cento no tamanho da asa ao longo dos últimos 150 anos.

"No começo, nem eu conseguia acreditar", conta ele.

O estudo de Freedman, publicado mês passado na revista científica Animal Migration, não conseguiu determinar por que o tamanho da asa está aumentando, mas ele acredita que o aumento poderia estar relacionado às mudanças climáticas. O aumento nas temperaturas pode estar realocando as áreas de procriação na primavera e no verão ainda mais para o norte, o que significa um retorno mais longo até o México no outono. Como é sabido que o tamanho da monarca corresponde à distância de migração percorrida, afirma Freedman, as monarcas com asas maiores e mais longas possuem mais vantagens em relação às borboletas menores.

Conforme a população continua a cair, a extinção se torna cada vez mais provável. A Agência de Pesquisa Geológica dos EUA solicitou a Oberhauser, a Brice Semmens, biólogo de pesca do Scripps Oceanographic Institute que estuda a dinâmica das populações, e a um grupo de outros especialistas em monarcas que determinassem as maiores ameaças a essa espécie de borboleta e as chances de a espécie entrar em extinção. De acordo com os modelos matemáticos desses pesquisadores, a chance de o número de monarcas cair excessivamente nos próximos 20 anos, impedindo a espécie de se recuperar, seria de 11 a 57 por cento. Para cortar esse risco pela metade, as populações de monarca precisariam aumentar em mais de cinco milhões de borboletas, afirma Semmens.

"Nenhum processo populacional é inexorável. Não é possível prever o que acontecerá no próximo ano", explica ele.

Um estudo realizado pelo grupo da USGS para fins de acompanhamento demonstrou que os três principais fatores que levaram à redução no número de monarcas foram a perda de habitat na porção norte do centro-oeste e temperaturas mais altas na primavera e no final do verão. Taylor estima que sejam necessárias mais de um bilhão de mudas de asclépias para reduzir a mortalidade.

"Somos capazes de salvar as monarcas e outras espécies", afirma ele. "A pergunta é se estamos dispostos a fazer isso".

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