De fungos a borboletas: o Monte Everest está repleto de vida

Em um estudo recente, o DNA encontrado na água do degelo do pico mais alto do mundo revelou um tesouro de biodiversidade.

Por Jude Coleman
Publicado 22 de set. de 2022 10:26 BRT
O galo-das-neves-tibetano (fotografado no Tibete) é uma das espécies que habitam o Monte Everest.

O galo-das-neves-tibetano (fotografado no Tibete) é uma das espécies que habitam o Monte Everest.

Foto de J Dong Lei Nature Picture Library

Na primavera de 2019, Tracie Seimon ficava acordada ouvindo o estrondo profundo do gelo se quebrando. A geleira em que ela dormia na base do Monte Everest estava se movendo sob sua barraca.

Seimon, bióloga molecular da Wildlife Conservation Society, em Nova York, passou três semanas caminhando ao redor dessa geleira. Ela esperava fotografar a biodiversidade em um dos ambientes mais extremos do planeta – uma montanha com mais de oito quilômetros de altura, propensa a temperaturas abaixo de zero, oxigênio limitado e tempestades intensas.

Mas, apesar de sua natureza inóspita, o pico mais alto do mundo está repleto de vida. Seimon e sua equipe encontraram 16% das ordens taxonômicas da Terra – uma classificação que inclui famílias, gêneros e espécies – apenas no flanco sul do Monte Everest. Eles publicaram suas descobertas recentemente na revista iScience.

“Você se sente muito pequeno ao se aventurar nas montanhas”, diz Seimon. "É incrível." Ela acrescenta que a maioria dos excursionistas não está ciente da vida abundante que existe ao seu redor. 

O acampamento base do Monte Everest fica no topo da Geleira Khumbu, onde a equipe de Seimon viveu durante parte do estudo em barracas ao lado de alpinistas. O colorido aglomerado de barracas recebe cerca de 40 000 pessoas todos os anos, o que pode ser prejudicial para o ecossistema circundante, diz o coautor Anton Seimon, cientista atmosférico da Universidade Estadual dos Apalaches e explorador da National Geographic.

Além do tráfego de alpinistas, as mudanças climáticas também têm impactos na montanha, e é por isso que os pesquisadores queriam criar uma linha de base para sua biodiversidade. Compreender o que existe de vida no Monte Everest hoje ajudará os cientistas a acompanhar as mudanças no futuro.

“Foi uma experiência fascinante e um privilégio fazer parte do esforço”, diz Anton, que é casado com Seimon.

Encontrando vida na água do degelo

A equipe foi ao Monte Everest como parte da iniciativa Perpetual Planet, uma colaboração de pesquisa entre a National Geographic Society e a Rolex, que estuda as florestas, oceanos e montanhas da Terra. Além de estudar a biodiversidade, outras equipes montaram novas estações meteorológicas e coletaram gelo. 

Como a maioria dos pesquisadores e alpinistas do Everest, seu trabalho foi apoiado por uma equipe da etnia sherpas, que carregava equipamentos, mantinha o acampamento e guiava os cientistas pela montanha.

A chave de Seimon para encontrar sinais de vida foi coletar DNA de poças de água de degelo. Todos os seres vivos derramam habitualmente DNA ambiental, ou eDNA, no ar, na água e no solo circundantes. Os cientistas podem comparar um trecho de eDNA desconhecido com dados existentes para descobrir de que organismo provém, da mesma forma que um código de barras de biblioteca informa aos bibliotecários informações sobre um livro. 

(Artigo relacionado: DNA oculto revela segredos da vida dos animais)

Os pesquisadores se concentraram nas lagoas e riachos mais altos do Everest, localizados entre 4480 e 5486 metros na zona alpina e além. No total, a equipe coletou pouco mais de vinte litros de água de 10 corpos d'água ao redor da região de Khumbu. A partir disso, eles identificaram 187 ordens diferentes, uma sexta parte de todas as ordens taxonômicas da Terra.

Uma ordem taxonômica é uma classificação que ajuda os cientistas a mapear como os organismos individuais estão distantes entre si. Por exemplo, os humanos são classificados como Homo (gênero) e sapiens (espécie), mas também se enquadram na família Hominidae e na ordem Primata, que também inclui lêmures, macacos e símios.

Em alguns casos, os pesquisadores podem identificar organismos mais especificamente até o nível de gênero; mas como existem tão poucos dados sobre os habitantes do Monte Everest, muitas vezes não havia informações suficientes para cruzar o DNA com tantos detalhes.

Seimon destaca que o Monte Everest e outros ecossistemas de alta montanha são pouco estudados. “A massa terrestre global que existe acima de 4480 metros é menos do que 3% da massa terrestre da superfície global”, esclarece. “Foi muito emocionante encontrar tanta biodiversidade quanto encontramos lá em cima.”

Olhando mais profundamente o Everest

Entre os organismos que nadam, voam e correm nas ladeiras aparentemente áridas do Monte Everest estão os tardígrados e os rotíferos, duas criaturas microscópicas resistentes que podem sobreviver mesmo no vácuo do espaço. Borboletas, efemerópteros e outros insetos voadores também estavam presentes, além de vários fungos, bactérias e plantas.

“É o topo do mundo e é tão inacessível”, diz Kristine Bohmann, bióloga da Universidade de Copenhague que trabalha com eDNA no ar e não esteve envolvida na pesquisa. Ela diz que o trabalho mostra que estudar a biodiversidade nem sempre exige uma equipe completa de taxonomistas e às vezes pode ser feito de forma mais simples e eficiente, mesmo em ambientes hostis. 

Mais pesquisas ajudarão a criar um melhor registro da diversidade no Monte Everest e documentar organismos específicos. A realização de estudos futuros em diferentes estações do ano pode gerar mais biodiversidade e mostrar quais gêneros e espécies vivem na montanha em diferentes condições climáticas.

Tendo criado uma linha de base, um dos próximos objetivos de Seimon é comparar os dados com futuras amostras, principalmente para documentar os efeitos das mudanças climáticas na biodiversidade do Everest. Seu trabalho pode ajudar a informar estudos futuros, abrindo caminho para mais pesquisas sobre o teto do mundo.

A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, apoiou o trabalho do biólogo Tracie Seimon e do explorador Anton Seimon como parte da expedição do Everest 2019 da National Geographic e a Rolex Perpetual Planet. Saiba mais sobre o apoio da Society aos exploradores.

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