Varíola dos macacos: cão que foi infectado pode transmitir a doença para humanos?

Especialistas se preocupam que a doença possa se espalhar em animais, tornando quase impossível a sua erradicação.

Por Sharon Guynup
Publicado 25 de ago. de 2022 15:19 BRT
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Um galgo italiano, como o retratado aqui, contraiu varíola dos macacos de seu proprietário.

Foto de Anne Bentz EyeEm, Getty Images

Um galgo italiano de quatro anos em Paris parece ser o primeiro cão doméstico infectado com o vírus da varíola dos macacos. Pesquisadores relataram que o animal eclodiu em bolhas suspeitas 12 dias depois que seus donos desenvolveram lesões com pus. Testes confirmaram que a mesma linhagem da varíola dos macacos infectou um dos dois homens e seu cão.

O vírus, que se transmite por contato físico, foi declarado emergência sanitária internacional em julho. Os casos atualmente são 44 503 em 96 países e territórios.

Dada a proximidade que compartilhamos com nossos animais de estimação, "isto não foi inesperado", surpreende-se Colin Parrish, um professor de virologia veterinária da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, que estuda os novos vírus caninos emergentes. "Tem sido um risco teórico porque nós acariciamos e beijamos nossos cães, os abraçamos e compartilhamos a comida com eles. Eles nos lambem e muitas vezes dormem conosco, como fez o galgo com seus donos", observa Parrish.

Embora o cão tenha se recuperado, este caso canino provocou preocupações entre os donos de animais de estimação que se perguntam se eles poderiam contrair o vírus de seus cães ou gatos ou se preocupam que seus animais de estimação possam estar em perigo.

Segundo Parrish, esses medos são em grande parte infundados. "Não exagere na reação. Não entre em pânico. O risco é muito baixo". Com dezenas de milhares de infecções humanas, se os cães fossem muito suscetíveis, "já teríamos tido muitos casos", esclarece. Com apenas um único caso documentado, ele considera seguro levar cães para o parque ou para a creche dos cães.

Os cães podem transmitir o vírus?

Em geral, relativamente pouco se sabe sobre a varíola dos macacos em animais de companhia como cães e gatos, diz Jeff Doty, líder de uma equipe que estuda a varíola dos macacos nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos EUA.

O estudo documentando o caso do galgo não abordou os sintomas do animal ou a gravidade da doença no animal, mas os CDC compilaram uma lista de possíveis sintomas que os cães podem apresentar: letargia, recusa de comer, tosse, corrimento nasal ou nos olhos, e uma erupção cutânea.

Não está claro se os cães que contraem este vírus podem transmiti-lo a outros cães ou a animais selvagens, ou se eles podem retransmiti-lo de volta aos humanos. Doty diz que isso depende de quanto do vírus eles carregam e como eles poderiam transmiti-lo.

Ainda não se sabe se os cães ou outras espécies podem efetivamente transmitir o vírus, reforça o pesquisador. E embora os cientistas descobriram que alguns animais, tais como cães-da-pradaria (um mamífero roedor), possam transmitir o vírus da varíola dos macacos pela secreção nasal ou pelas fezes, "nós simplesmente não sabemos se o mesmo ocorre com os cães".

Parrish observa que, hipoteticamente, se você entrasse em contato com um cão com lesões, você poderia pegar o vírus, mas "o maior risco ainda é o contato de humano para humano".

Como proteger seu animal de estimação – e a si mesmo

Embora o número de casos continue a aumentar, "a maioria da população em geral não corre o risco de contrair varíola", ressalta Mike Ryan, diretor executivo do Programa de Emergências de Saúde da Organização Mundial da Saúde, em uma coletiva de imprensa na semana passada. Ele acrescentou que "animais e pets não são um risco para as pessoas neste momento".

Na verdade, as pessoas representam mais um risco para os animais. Os órgãos de saúde pública enfatizam que aqueles que contraem a varíola dos macacos devem evitar o contato com animais de estimação, gado e outros animais em cativeiro, assim como os da vida selvagem.

Se os animais de estimação não tiverem sido expostos, os CDC recomendam que os tutores sintomáticos os entreguem aos membros da família ou outros cuidadores até que eles se recuperem – e desinfectem a casa antes que os animais retornem. Se isso não for possível, os CDC recomendam isolar os animais e mantê-los em quarentena por 21 dias.

Algumas pessoas podem não ter outra opção a não ser cuidar de seus animais de estimação. "Precauções normais e sensatas são suficientes", orienta Parrish. Ele observa a importância de usar roupas que cubram as erupções cutâneas, lavar as mãos, usar higienizador de mãos, luvas e uma máscara ao redor dos animais, e mantê-los longe de lençóis e toalhas contaminadas. O manejo cuidadoso do lixo também é fundamental para evitar que o vírus se espalhe para os animais da vizinhança que possam vasculhar o lixo.

Os CDC advertem contra a tentativa de limpar os animais de estimação com desinfetantes, álcool, higienizador de mãos ou outros produtos químicos que possam envenená-los.

No caso improvável de você ter sido diagnosticado com varíola dos macacos e seu animal de estimação tiver lesões ou desenvolver dois ou mais sintomas dentro de 21 dias após a exposição a você, a agência aconselha entrar em contato com um veterinário.

A vigilância é necessária. Existem vacinas humanas eficazes, e "devemos tentar controlar e erradicar o vírus dos humanos se pudermos", alerta Parrish. Não há vacinas licenciadas disponíveis para cães ou gatos.

"Precisamos ser cautelosos", diz Ryan, porque quanto mais o vírus se espalha, "mais ele pode evoluir".

Transmissão de animais para humanos

Como cerca de 60% das doenças humanas, a varíola dos macacos é zoonótica: ela teve origem em animais e depois em pessoas infectadas. A doença foi diagnosticada em 1958, após ter sido descoberta em macacos em cativeiro que foram usados para pesquisa na Dinamarca, mas é principalmente hantavírus.

O(s) principal(is) reservatório(s) animal(ais) da varíola continua(m) a ser um mistério. Mas os especialistas em saúde pública sabem que pequenos roedores – esquilos, ratos da Gâmbia e ratos da África – foram identificados com o vírus nas florestas tropicais da África Central e Ocidental, onde ele é endêmico.

O primeiro caso humano foi diagnosticado em 1970, 12 anos depois que a varíola dos macacos foi identificada pela primeira vez. Durante décadas, as infecções foram provavelmente "repercussões", com o vírus sendo transmitido para pessoas enquanto elas entravam em contato com animais infectados.

Em 2010, começaram a surgir relatos de transmissão entre humanos, e em 2017, começou um surto localizado na Nigéria. O vírus agora se espalhou entre pessoas em todo o mundo.

Novos hospedeiros?

Embora o risco para cães e gatos pareça ser pequeno, há poucas informações sobre quais animais são suscetíveis à varíola dos macacos.

Esquilos, macacos, grandes símios e alguns tipos de ratos podem ser infectados, assim como porcos-espinhos, musaranhos, chinchilas e outros pequenos mamíferos. Há dúvidas sobre as vacas, por causa da varíola bovina. Ainda não se sabe se gatos, esquilos-da-mongólia, coelhos, hamsters, guaxinins, gambás e outras espécies estão em risco.

Há uma preocupação especial que a varíola dos macacos possa se infiltrar nas populações de roedores dos EUA, que muitas vezes vivem em grandes congregações sociais. As densas colônias de cães da pradaria do Oeste estão nessa lista. 

Em 2003, um carregamento de 800 pequenos mamíferos importados de Gana para o Texas, para o exótico comércio de animais de estimação, trouxe a varíola dos macacos para os EUA. Os cães da pradaria enjaulados contraíram o vírus e depois infectaram 47 pessoas que tiveram contato com eles.

Algumas boas notícias vêm de estudos de laboratório que mostram que os onipresentes ratos urbanos do gênero Rattus, que infestam as cidades do mundo, parecem desenvolver imunidade à varíola dos macacos, diz Doty.

Os crescentes casos humanos têm colocado os funcionários da saúde pública em alerta máximo. O retorno da varíola humana aos animais poderia criar novos reservatórios endêmicos e novas cadeias de transmissão, diz Andrea McCollum, epidemiologista dos CDC, que trabalha na equipe de resposta à epidemia da varíola.

"O que não queremos ver acontecer", diz Ryan, da OMS, "é o vírus se deslocando de uma espécie para outra". Isso poderia tornar a varíola dos macacos quase impossível de se erradicar.

A adaptação a um novo hospedeiro permite que um vírus evolua, com a possibilidade de que ele se desenvolva e mute", alerta Rosamund Lewis, líder técnico da OMS para a varíola dos macacos. Isso significa que ele pode tornar-se mais ou menos contagioso, mais fraco ou mais virulento.

"Sabemos que há mudanças genéticas acontecendo, diz Doty, mas não sabemos o que [elas] podem significar para a suscetibilidade ou a capacidade do vírus de infectar diferentes espécies de animais".

Entretanto, quando os vírus zoonóticos contaminam uma nova espécie, geralmente eles tendem a enfraquecer", aponta Sylvie Briand, diretora de preparação global para riscos infecciosos da OMS. "Isso porque o vírus não é muito adequado para a espécie em questão".

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