Estudo de DNA aumenta mistério sobre lago dos esqueletos

Os inúmeros corpos encontrados no Lago Roopkund eram de peregrinos que morreram após um temporal no Himalaia há mais de cem anos — ou assim pensavam os pesquisadores.quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Roopkund, um lago remoto no topo do Himalaia indiano, abriga um dos mistérios mais arrepiantes da arqueologia: esqueletos de cerca de 800 pessoas. Agora, estudo publicado na revista científica Nature Communications tenta desvendar o que ocorreu de fato no “Lago dos Esqueletos” — mas os resultados trazem mais dúvidas do que respostas.

No início dos anos 2000, estudos preliminares de DNA sugeriram que a ancestralidade das pessoas que morreram no Roopkund era do sul da Ásia, e datações por radiocarbono ao redor do local indicam 800 d.C., sinal de que todos morreram em um único evento.

Porém, análises genômicas completas realizadas recentemente em 38 conjuntos de restos mortais derrubam essa teoria. Os novos resultados mostram que havia 23 pessoas com ancestralidade do sul da Ásia no Roopkund, mas elas morreram durante um ou diversos eventos entre os séculos 7 e 10 d.C. Além disso, os esqueletos encontrados no Roopkund contêm outro grupo de 14 vítimas que morreram no local cem anos depois — provavelmente em um único evento.

E, diferentemente dos últimos esqueletos com origem no sul da Ásia, o grupo mais antigo de Roopkund possuía ancestralidade genética relacionada ao Mediterrâneo — precisamente Grécia e Creta. (Um outro indivíduo, que morreu na mesma época que o grupo proveniente do Mediterrâneo, possuía ancestralidade do leste da Ásia.) Nenhum dos indivíduos examinados possuíam parentesco entre si e estudos isotópicos adicionais confirmaram que os grupos do sul da Ásia e do Mediterrâneo consumiam dietas diferentes.

Por que havia um grupo proveniente do Mediterrâneo no Roopkund e como se deu o fim deles? Os pesquisadores não sabem e não formularam nenhuma hipótese.

“Tentamos encontrar respostas sobre todas as possíveis ancestralidades genéticas dos esqueletos de Roopkund, mas não conseguimos saber por que habitantes do Mediterrâneo viajaram para esse lago e o que estavam fazendo lá”, escreveu por e-mail o coautor do estudo Niraj Rai, arqueogeneticista do Instituto de Paleociências Birbal Sahni em Lucknow, Índia.

Uma “cena horripilante”

A excentricidade de Roopkund assusta até os profissionais. Na década de 1950, um explorador descreveu o local para uma emissora de rádio indiana como uma “cena horripilante que nos fez perder o fôlego”. E durante décadas, vários estudiosos tentaram descobrir quem eram aqueles homens e mulheres no Roopkund e como morreram.

A causa da morte dessas pessoas permanece indefinida. É improvável que a morte tenha ocorrido em consequência de uma batalha: os restos mortais pertencem a homens e mulheres, e não foram encontradas armas ou sinais de violência decorrente de um combate. As vítimas também estavam saudáveis quando morreram, eliminando assim a possibilidade de uma epidemia.

Mas e quando uma música folclórica local homenageia a forma como as vítimas morreram? Há uma canção que descreve uma procissão da realeza durante o Raj Jat — uma peregrinação realizada na região a cada 12 anos para venerar a deusa Nanda Devi. Essa procissão deturpou a paisagem sagrada com mulheres dançantes. Em resposta, Nanda Devi, em um momento de fúria, atingiu o grupo com “bolas de ferro” lançadas do céu.

Uma outra possibilidade irresistível é a de que as vítimas no Roopkund eram peregrinos que morreram durante o Raj Jat após terem sido atingidos por uma tempestade de granizo. Exemplares de uma espécie de guarda-sol, utilizados durante a procissão, foram supostamente encontrados dentre os vestígios e os crânios de algumas das pessoas possuíam fraturas não cicatrizadas, talvez um sinal de pedras de granizo grandes, as fatais “bolas de ferro” descritas na música.

Para verificar esse e outros cenários, uma equipe internacional de pesquisadores realizou análises genômicas nos restos mortais do Roopkund. A equipe não tinha nenhuma expectativa a respeito da identidade das pessoas encontradas no Roopkund, mas os sinais de ancestralidade mediterrânea no topo do Himalaia indiano certamente surpreenderam.

“Quando o resultado da análise de DNA chegou, ficou bastante claro que algumas dessas pessoas não tinham ancestralidade típica do sul da Ásia”, conta Éadaoin Harney, coautor do estudo e pesquisador do departamento de biologia organísmica e evolucionária de Harvard. “Definitivamente não esperávamos esse resultado.”

Será que o grupo proveniente do Mediterrâneo participou da peregrinação Raj Jat e permaneceu no lago tempo suficiente para morrer ali mesmo? William Sax, chefe do departamento de antropologia da Universidade de Heidelberg e autor de um livro sobre a peregrinação, afirma que esse tipo de cenário “não faz sentido algum”.

Sax visitou o lago três vezes, sua viagem mais recente foi em 2004 quando participou de um programa de televisão da National Geographic. Ele disse que atualmente os peregrinos dão pouca atenção ao lago.

“Quando os peregrinos passam pelo Roopkund, o fazem rapidamente porque ainda falta uma boa parte do percurso, então eles param por alguns instantes e reverenciam o local — mas lá não é, e nunca foi, muito importante para a peregrinação em si”, ele conta. “É um local escuro e sujo que você acena com a cabeça e segue em frente.”

Os pesquisadores têm planos para desvendar os mistérios do Roopkund: Rai conta que, no próximo ano, outra expedição será realizada no lago para estudar os artefatos relacionados aos esqueletos.

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