O câncer era de fato menos comum no período pré-industrial?

Antes do tabaco e das fábricas, a taxa de incidência de câncer na Grã-Bretanha era estimada em 1%. Um novo estudo arqueológico não condiz com essa estimativa.

Publicado 27 de mai de 2021 17:00 BRT
Medieval Cancer- Painting of death

Afresco italiano do século 15, de autor desconhecido, retratando a obra “O Triunfo da Morte”. Em geral, considera-se que as doenças medievais se restringiam apenas a infecções, desnutrição e ferimentos sofridos em guerras ou acidentes.

Foto de Art via Werner Forman Archive, Bridgeman Images

Atualmente, há uma previsão de que mais da metade de todos os britânicos receberá um diagnóstico de câncer ao longo de sua vida. Evidências arqueológicas de períodos anteriores, entretanto, há muito indicam que apenas 1% dos habitantes pré-industriais da ilha foram acometidos pela doença devastadora.

Agora, uma nova pesquisa sugere que esse percentual pode ter sido amplamente subestimado.

Em um estudo publicado recentemente no periódico Cancer, os arqueólogos utilizaram recursos modernos de detecção de câncer em ossos de sepulturas centenárias e determinaram que a incidência de câncer na Grã-Bretanha pré-industrial pode ter sido ao menos 10 vezes maior do que se acreditava anteriormente.

O estudo foi liderado por Piers Mitchell, da Universidade de Cambridge, que se divide entre a pesquisa paleopatológica no departamento de arqueologia da universidade e os hospitais do Serviço Nacional de Saúde do país, onde realiza cirurgias ortopédicas em pacientes com câncer. Com base em sua experiência com pacientes modernos, Mitchell sempre foi cético em relação a pesquisas antropológicas que sugerem que a incidência de câncer em populações pré-industriais britânicas era muito menor do que a atual, devido, em grande parte, aos níveis significativamente menores de substâncias carcinogênicas ambientais.

Contudo, no período pré-industrial, a Grã-Bretanha não estava exatamente livre de substâncias carcinogênicas: as pessoas consumiam álcool regularmente, estavam expostas a poluentes expelidos pela queima de lenha e carvão em ambientes fechados e enfrentavam o risco de mutações celulares à medida que envelheciam. Mas a ameaça do câncer acentuou expressivamente quando substâncias carcinogênicas como o tabaco (introduzido pela primeira vez na Grã-Bretanha no século 16) e a poluição causada por atividades industriais (a partir do século 18) foram introduzidas no cotidiano.

Alguns indivíduos do estudo foram exumados de sepulturas medievais escavadas no local do antigo hospital de St. John the Evangelist em Cambridge, Reino Unido.

Foto de Cambridge Archaeological Unit, St John's College

Análise superficial

Estudos anteriores sobre taxas de incidência de câncer em populações pré-industriais baseavam-se principalmente em avaliações visuais de restos de esqueletos, concentradas em buscar lesões características indicativas da disseminação de certos tipos de câncer.

Mitchell acredita que essa é a razão pela qual os cânceres em tempos antigos foram subestimados. A maioria dos cânceres começa nos tecidos moles, e aqueles que se espalham aos ossos iniciam da medula óssea para fora. Portanto, analisar apenas a superfície óssea externa não é uma medida muito representativa.

Para identificar melhor eventuais cânceres em restos humanos antigos, Mitchell e sua equipe empregaram os mesmos recursos utilizados por ele para diagnosticar câncer em ossos de pacientes nos dias atuais — tomografias computadorizadas e raios X — em 143 esqueletos adultos de seis cemitérios medievais, todos localizados nos arredores de Cambridge, na Inglaterra, datados entre o século 6 d.C. e o início do século 16 d.C.

O tamanho da amostragem foi limitado devido à qualidade dos ossos disponíveis, afirma Mitchell: “ossos enterrados por um período entre 500 a mil anos geralmente se desintegram ou são danificados por raízes de árvores ou roedores”. Ele se concentrou em partes do esqueleto como a pélvis, coluna vertebral e fêmures que estivessem intactas: áreas com bastante fluxo sanguíneo onde as metástases ósseas são mais comuns.

A seta indica uma lesão cancerosa na espinha dorsal de um indivíduo que viveu no período medieval. Os pesquisadores se concentraram em partes do esqueleto como a pélvis, coluna vertebral e fêmures que estivessem intactas: áreas com bastante fluxo sanguíneo onde as metástases ósseas são mais comuns.

Foto de Jenna Dittmar

A equipe só indicou diagnósticos de câncer se a avaliação dos exames de tomografia e de raios X por Mitchell fosse condizente com a opinião de Alastair Littlewood, radiologista que atua no Hospital Municipal de Peterborough. Essa abordagem dupla eliminou quase todos os esqueletos analisados. No fim, a equipe detectou câncer nos ossos de cinco dentre os 143 indivíduos.

Esse número, entretanto, provavelmente não considera todos os casos de câncer possíveis na população testada: apenas entre um terço e metade das mortes por câncer atualmente possuem disseminação aos ossos, e tomografias computadorizadas detectam câncer nos ossos em apenas cerca de 75% dos casos. Quando os pesquisadores aplicaram essas limitações aos esqueletos medievais, foi possível extrapolar que entre 9% e 14% dos britânicos do período pré-industrial provavelmente tiveram câncer: uma estimativa dez vezes superior à cifra anterior de cerca de 1%.

Sem a possibilidade de fazer exames de sangue e biópsias para descartar outras doenças, também não há como saber se todas as lesões ósseas identificadas no estudo foram decorrentes de câncer. E como o estudo foi conduzido com espécimes de uma única área geográfica, não é necessariamente representativo de toda a Grã-Bretanha no período medieval. Mas, segundo Mitchell, Cambridge era uma “típica” cidade britânica na época.

O Tacuinum Sanitatis, manual europeu do século 14, descreve tratamentos médicos. Na imagem, mulheres colhem sálvia.

Foto de Art via Bridgeman Images

Maçãs azedas são colhidas para tratar doenças nos tempos medievais, de acordo com o Tacuinum Sanitatis do século 14.

Foto de Art via Bridgeman Images

A complexa realidade das doenças pré-industriais

Esse novo estudo é discrepante do estereótipo histórico de que as doenças medievais se restringiam a infecções, desnutrição e ferimentos sofridos em guerras ou acidentes.

“É um grande passo com repercussões futuras na pesquisa bioarqueológica e paleopatológica”, conta Roselyn Campbell, bioarqueóloga que dirige a Organização de Pesquisas Paleo-oncológicas, coalizão de acadêmicos que estudam câncer na antiguidade (Campbell não participou do estudo atual).

Embora um número crescente de arqueólogos tenha acesso a máquinas de raios X, segundo ela, a falta de financiamento e os desafios logísticos tornam os tomógrafos inacessíveis à maioria dos pesquisadores. Ela espera que um maior número de seus colegas possa usufruir mais da tecnologia da tomografia.

“Foi apenas nas últimas décadas que os estudiosos começaram a buscar metodicamente evidências de câncer no passado”, conta ela. Embora Campbell desaconselhe o uso de um único estudo para tirar conclusões amplas sobre a incidência de câncer no passado, ela observa que os pesquisadores podem utilizar os métodos de Mitchell para estudar o câncer em tempos antigos em amostras maiores e em regiões e intervalos maiores.

Mitchell está muito animado com as implicações do estudo à medicina moderna. Os cientistas reconhecem os efeitos atuais de substâncias carcinogênicas como o tabaco e a fumaça das fábricas e dos automóveis à saúde. Mas a compreensão dos efeitos do câncer sobre uma sociedade pré-industrial pode contribuir para que futuros pesquisadores quantifiquem como essas substâncias cancerígenas afetaram a saúde humana. “Como médico, é útil ter mais informações sobre um longo período para identificar qual é ritmo de aceleração da prevalência do câncer. Até que ponto a eliminação dessas substâncias carcinogênicas poderia causar um impacto?” Ele afirma que as pesquisas também podem ajudar cientistas a entender melhor os impactos de elementos carcinogênicos não industriais, tais como radiação solar, chumbo, queima de materiais em ambientes fechados, vírus e parasitas.

Carta de tarô medieval, o Três de Copas, mostra um médico ao lado da cama de um paciente. Em geral, acredita-se que o câncer fosse uma doença rara na Europa medieval.

Foto de Art via Bridgeman Images

Ambos os pesquisadores enfatizam que nem todo câncer é causado por agentes cancerígenos, como o tabaco ou poluentes industriais — a idade, genética e mutações aleatórias também podem desempenhar um papel. “Se for eliminada toda a poluição, todo fumo, haverá uma redução na incidência de câncer, mas ainda assim a doença não desaparecerá”, observa Mitchell. No entanto uma colaboração entre a paleopatologia e a medicina moderna poderia um dia “ajudar a quantificar em que medida certas agressões ao corpo humano podem aumentar ou diminuir o risco de câncer”.

Ainda que não seja alcançado esse objetivo, reitera Campbell, vale a pena continuar tentando diagnosticar cânceres do passado. “Sempre há algum grau de incerteza, e não há nenhum problema nisso”, prossegue ela. “É preciso aceitar que nem sempre teremos uma resposta definitiva.”

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