Calígula era tão odiado por seus próprios homens que eles o assassinaram em 41 d.C. Mas ...

Calígula, ex-imperador romano, era louco ou apenas incompreendido?

Se não fosse por Nero, Calígula seria facilmente classificado como o pior imperador do Império Romano, mas sua reputação notória pode merecer uma nova análise.

Calígula era tão odiado por seus próprios homens que eles o assassinaram em 41 d.C. Mas sua reputação notória não se reflete em obras de arte que retratam o imperador romano, como este bronze dourado do primeiro século d.C.

Foto de Bridgeman Images
Por Erin Blakemore
Publicado 3 de jul. de 2024, 07:00 BRT

Cometeu assassinato? Seguramente. Incesto? Talvez. O exercício brutal do poder político? Sem dúvida. Nos anais dos imperadores romanos infames, poucos chegam perto de Calígula, cujo reinado como terceiro imperador do Império Romano o tornou membro de um pequeno clube dos governantes mais odiados – e lembrados – do mundo.

Mas Calígula era realmente tão ruim assim? "Ele foi um imperador terrível", afirma Anthony A. Barrett, professor emérito da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, e autor do livro “Calígula: The Abuse of Power” e de outras pesquisas sobre o notório governante. "Mas ele não era tão ruim se estivermos usando ruim no sentido de comportamento extravagante e ridículo."

Veja como o jovem imperador romano ganhou sua má reputação – e por que pode valer a pena repensar seu breve e brutal reinado.

(Sobre líderes violentos, veja também: Como os maias escolhiam as vítimas de sacrifício?)

Quem foi Calígula? 


Nascido Gaius Julius Caesar Germanicus, ele era filho de um dos líderes mais reverenciados de Roma, o general Germanicus. Mas Calígula – ou "pequeno boto", como foi apelidado durante a infância – não herdou as habilidades de liderança do pai. Em vez disso, após a morte prematura de seu pai, Calígula passou grande parte de sua infância no exílio, apenas para retornar a Roma como um protegido incômodo de Tibério, o imperador paranoico que havia expulsado ele e sua família. Quando Tibério morreu em 37 d.C.Calígula, com então 24 anos, tornou-se o próximo imperador de Roma.

O que aconteceu em seguida é matéria de lenda: um governo caracterizado por crueldade, excessocapricho e disputas políticas. Mas, a princípio, diz Barrett, o jovem imperador romano parecia que poderia seguir os passos de seu respeitado pai. "Ninguém sabia nada sobre ele", diz o professor. "Eles provavelmente pensaram que poderiam controlá-lo." Jovem, charmoso e aparentemente capaz, Calígula começou seu reinado de forma razoável.

Calígula tinha problemas mentais? 


Mas então as coisas mudaram. Cerca de seis meses após o início de seu reinado, o comportamento do imperador mudou. Alguns historiadores atribuem essa mudança de personalidade a uma doença mental grave. Mas, para Barrett, é mais simples: a lua de mel havia acabado e a pressão estava aumentando. 

Ele acredita que, quando a realidade dos encargos administrativos e políticos de ser imperador ficou clara, o líder imaturo e despreparado lutou para estar à altura de seu título. Sem treinamento e sem as habilidades políticas necessárias para manter a confiança de seus súditos e do Senado, Calígula começou a vacilar.

Os atos obscenos de Calígula, como permitir que seu cavalo Incitatus estivesse à mesa em um banquete, eram temas populares entre os artistas. Acima, uma gravura do século 19, de The History of the Roman Emperors from Augustus to Constantine, de Jean Baptiste Louis Crevier, 1836.

Foto de De Agostini Picture Library, Getty Images

Logo, Calígula estava atacando seus inimigos, exigindo campanhas militares caras e imprudentes e até mesmo ordenando a morte de sua esposa. Circularam rumores de que o imperador hedonista mantinha relações sexuais com suas próprias irmãs, Julia Livilla e Agripina, a Jovem (a futura mãe do imperador Nero). Calígula acabou exilando-as depois de descobrir o que parece ter sido um esquema de bastidores contra seu reinado. Ele alimentou a controvérsia, provocando e humilhando o Senado e ordenando assassinatos a torto e a direito.

Esse comportamento caprichoso – e as acusações de que ele fazia coisas como colocar gladiadores fisicamente incapazes contra feras selvagens por esporte – há muito tempo alimenta a especulação de que Calígula sofria de algum tipo de transtorno de humor ou doença mental. Os diagnósticos retroativos culpam tudo, desde psicose epiléptica até encefalite.

Mas Barrett acredita que Calígula era saudável – um fato que lança uma luz ainda mais sinistra sobre sua brutalidade casual deliberada.

"Até o final, Calígula tomou decisões racionais", comenta Barrett, comparando-o mais a um Joseph Stalin do que a uma figura perturbada de Hitler. "Ele conseguia distinguir a realidade da fantasia." Mas a realidade do monarca era uma realidade impregnada de poder total – um privilégio que ele exercia estrategicamente e à vontade.

Esse poder teria subido à cabeça de qualquer um. "Quando ele entrou na cidade, o poder total e absoluto foi imediatamente colocado em suas mãos pelo consentimento unânime do Senado e da multidão", afirmou Suetônio, um historiador conhecido por suas biografias dos Césares. 

Desde o início, porém, o poder imperial de Calígula foi banhado pelo sangue de milhares de sacrifícios de animais. "Tão grande foi o regozijo público", disse Suetônio, "que nos três meses seguintes... diz-se que mais de 170 mil vítimas foram mortas em sacrifício".

Há fontes confiáveis sobre a época?


Apesar desses excessos, diz Barrett, é importante questionar os relatos dos contemporâneos do imperador Calígula. O trabalho deles foi informado por seus inimigos políticos e distorcido por boatos. O cronista mais confiável de sua época, Tácito, escreveu sobre Calígula, mas infelizmente seu trabalho se perdeu. As histórias que restaram contêm relatos "ridículos e absurdos" sobre o imperador, afirma Barrett, que compara Suetônio e seu contemporâneo, Cássio Dio, a repórteres de tabloides em busca de um furo sobre o imperador em apuros.

O comportamento de Calígula era definitivamente cruel, mas provavelmente um pouco menos terrível do que Dio e Suetônio querem fazer crer. Veja as exigências amplamente divulgadas de Calígula para ser tratado como um deus. Essa teria sido uma prática padrão nas colônias romanas, que eram obrigadas a reconhecer o chamado "culto imperial" de Roma. Mas Barrett diz que não há evidências, como a cunhagem de moedas, que apoiem uma exigência semelhante em Roma ou mesmo na Itália.

Há também a infame história de transformar seu cavalo em cônsul – uma ameaça que nunca se concretizou. Barrett atribui esse episódio a um imperador irritado que zombava de seus inimigos no Senado, inimigos que ele considerava tão incompetentes e imprestáveis que poderiam ser facilmente substituídos por um animal.

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    Calígula tinha má reputação?


    Mas, mesmo que Calígula nunca tenha se envolvido nas façanhas mais ultrajantes que lhe foram atribuídas, o fato de sua má reputação extremamente grande e duradoura permanece. O que explica a notoriedade contínua de um homem cujo governo durou menos de quatro anos há quase dois milênios?

    "Os seres humanos adoram vilões", explica Barrett, e Calígula desfruta dessa fama contínua graças a uma combinação de carisma pessoal e inimizade obstinada entre seus contemporâneos. Há outro fator, diz Barrett: a passagem do tempo. Como muitos anos se passaram desde suas façanhas, Barrett diz: "Calígula pertence a um mundo que é tão estranho para nós agora que podemos apreciar sua vilania com a consciência tranquila".

     

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