Como os maias escolhiam as vítimas de sacrifício? Novas pistas foram descobertas graças ao DNA

Um estudo com os restos humanos depositados há mais de 800 anos na cidade maia de Chichen Itza desafia suposições de longa data sobre a idade e o gênero das vítimas de sacrifícios feitos pelos maias.

Por Tom Metcalfe
Publicado 25 de jun. de 2024, 07:00 BRT
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A Grande Pirâmide (El Castillo) em Chichén Itzá, na península de Yucatán, no México – cidade maia que atingiu seu auge há cerca de mil anos.

Foto de Cristina Mittermeier, Nat Geo Image Collection

Há quase 60 anos, os arqueólogos descobriram um esconderijo de ossos humanos em uma cisterna subterrânea em Chichén Itzá, uma das cidades mais poderosas da antiga civilização maia. A cisterna estava conectada a uma caverna localizada a apenas alguns metros do Cenote Sagrado, um sumidouro cheio de água com os restos de centenas de sacrifícios humanos.

Quando a descoberta na cisterna, ou chultún, foi feita na Península de Yucatán, no México, em 1967, os arqueólogos determinaram que jovens adultos e crianças haviam sido depositados no local depois de mortos em um período de oito séculos e presumiram que a maioria deles eram mulheres jovens. Na época, pensava-se que os maias preferiam vítimas do sexo feminino para seus sacrifícios rituais.

Porém agora, um novo estudo de DNA inverteu essa suposição, revelando que todos os 64 conjuntos de restos mortais de humanos coletados na caverna são de vítimas do sexo masculino, muitos deles irmãos e primos com idade entre três e seis anos – e um número improvável de gêmeos idênticos.

"Não esperávamos que fosse esse o caso", diz o arqueogeneticista Rodrigo Barquera, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, e principal autor de um novo estudo que descreve a análise recém-publicada na revista científica Nature.

"Tradicionalmente, esses tipos de sepultamentos são associados na arqueologia mesoamericana a oferendas de fertilidade, e esse tipo de oferenda geralmente apresenta apenas mulheres."

Vista das esculturas em relevo na Plataforma dos Crânios em Chichén Itzá, no México. Os maias praticavam o sacrifício humano para pedir favores aos seus deuses, como para ter colheitas mais férteis, para a chuva ou para a vitória na guerra.

Foto de Joël Sartore, Nat Geo Image Collection

Sepultamento em massa


Nos últimos anos, Barquera e seus coautores deram outra olhada nos ossos recuperados do chultún e da caverna em 1967, que agora estão armazenados nas proximidades.  Sua nova análise sugere que o local foi usado para mais de 100 sepultamentos entre os anos 500 d.C. e 1300.

maioria das pessoas enterradas ali foi sepultada antes dos anos 900 – aproximadamente quando Chichén Itzá era a cidade dominante das planícies maias do norte, domínios da civilização maia que abrangiam o que hoje é a Península de Yucatán, no México, o norte da Guatemala e Belize.

Estudos antropológicos anteriores revelaram que as vítimas eram, em sua maioria, bebês e crianças pequenas, mas essa é a primeira vez que seu DNA foi analisado, afiema Barquera.

Além de saber que apenas meninos haviam sido enterrados na caverna, os pesquisadores ficaram surpresos ao descobrir que muitos tinham parentesco próximo: pelo menos um quarto era irmão ou primo de outro menino enterrado na mesma caverna, e os enterros incluíam dois pares de gêmeos idênticos

Gêmeos idênticos ocorrem apenas em cerca de 0,4% dos nascimentos, portanto, encontrar dois pares de gêmeos idênticos entre 64 sepultamentos é muito mais do que seria esperado por acaso, observa Barquera.

Heróis maias gêmeos


Não está claro o quanto o sacrifício humano era difundido entre os maias, embora haja muitos relatos espanhóis sobre a prática depois que eles chegaram aos territórios maias no início do século 16.

Atualmente, parece que os maias praticavam o sacrifício humano principalmente nos últimos estágios de sua civilização, para pedir favores aos seus deuses, como para pela fertilidade de suas colheitas, pela chuva ou pela vitória na guerra.

Os gêmeos ocupam lugar de destaque na mitologia mesoamericana e são um tema central no Popul Vuh, uma narrativa sagrada do povo maia Kʼicheʼ que se acredita datar dos primeiros estágios da civilização maia.

De acordo com o Popul Vuhgêmeos chamados Hun-Hunahpú e Vucub-Hanahpú desceram ao submundo para jogar bola, mas foram sacrificados pelos deuses após serem derrotados.

Apesar de sua morte, a cabeça de um dos gêmeos engravidou uma donzela com os "gêmeos heróis" Hunahpú e Xbalanqué, que passaram a vingar seu pai por meio de ciclos repetidos de sacrifícioressurreição.

Barquera observa que as estruturas subterrâneas, como a caverna onde as crianças eram enterradas, eram vistas como entradas para o submundo. E pode ser que os sacrifícios de meninos gêmeos parentes próximos – talvez quando não havia gêmeos verdadeiros – fizessem parte de rituais que envolviam os gêmeos heróis com o objetivo de garantir colheitas abundantes de milho.

Novas perguntas para ossos antigos


O novo estudo da revista Nature levanta outras questões a serem respondidas pelos arqueólogos. A primeira é sobre as causas da morte, uma vez que não há marcas visíveis feitas por humanos nos ossos da caverna, ao contrário dos restos mortais do Cenote Sagrado, nas proximidades.

"Não encontramos nenhuma marca de corte ou lesão que indicasse métodos específicos de sacrifício", comenta Barquera. "Isso indica que o sacrifício não envolvia, por exemplo, extração de coração ou decapitação – portanto, talvez fosse um tipo diferente de método de sacrifício."

Uma análise mais aprofundada do DNA antigo poderia determinar se alguma das crianças enterradas na caverna era de várias gerações da mesma família, o que pode indicar que a honra – ou maldição – de fornecer vítimas de sacrifício pode ter sido um privilégio herdado entre certas famílias, diz Barquera.

Imunidade contra doenças


A nova análise também envolveu a análise de amostras de sangue de maias modernos que vivem hoje perto de Chichén Itzá. Os resultados mostram uma "continuidade genética" entre as crianças enterradas na caverna e as pessoas modernas da região.

Barquera diz que isso indica que as vítimas do sacrifício vieram da população local e não de comunidades mais distantes do império maia.

Os pesquisadores também observaram diferenças distintas entre as sequências de DNA antigas e modernas envolvendo imunidades a doenças, sugerindo que os maias locais se adaptaram a certas doenças infecciosas, como a Salmonella enterica, introduzida durante o período colonial espanhol, afirma Barquera.

arqueólogo e Explorador da National GeographicGuillermo de Anda, pesquisador da Instituição Nacional de Arqueologia e História do México, não participou do estudo mais recente, mas passou décadas pesquisando sacrifícios humanos em Chichén Itzá, incluindo vários mergulhos no Cenote Sagrado.

Recentemente, ele procurou na selva próxima à caverna onde o enterro em massa foi descoberto em 1967, mas ela parece ter sido coberta pelo que restou de uma pista de pouso construída alguns anos depois – mas depois abandonada – perto das vastas ruínas da cidade.

 "Gostaríamos muito que ela estivesse lá, mas parece que se foi para sempre", diz De Anda.

De Anda diz que a proximidade da caverna com o Cenote Sagrado levanta questões sobre por que dois lugares diferentestão próximos um do outro, eram usados para o descarte de vítimas de sacrifício; e a falta de causas visíveis de morte nos ossos dos sepultamentos da caverna também é um mistério que precisa ser abordado.

Essa parece ser a primeira vez que a análise de DNA antigo foi usada em restos mortais de Chichén Itzá, e De Anda espera que essas técnicas sejam usadas agora nos ossos das vítimas de sacrifício do Cenote Sagrado. "Essa é uma novidade para Chichén Itzá", comenta ele. "Estamos ansiosos para fazer isso".

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