
O mapa do Holocausto redesenhado: uma investigação revelou mais de 42 mil campos e guetos nazistas
Um rabino vê uma exposição de sapatos de vítimas de campos de concentração em Auschwitz, na Polônia.
O mapa do Terceiro Reich está sendo dramaticamente redesenhado. Há alguns anos, quando começou a investigar o passado para documentar o número e a natureza dos guetos e campos da era nazista, o estudioso Geoffrey Megargee esperava identificar talvez 7 mil locais. Ele subestimou enormemente sua tarefa.
Isso porque, no final, mais de 42.200 locais são citados na enciclopédia de sete volumes editada por ele. Chamada de “The United States Holocaust Memorial Museum Encyclopedia of Camps and Ghettos, 1933-1945” (“Enciclopédia do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos sobre Campos e Guetos, 1933-1945”).
Diante da efeméride do Dia Internacional da Lembrança do Holocausto, que acontece anualmente em 27 de janeiro, National Geographic apresenta uma conversa com Megargee e Martin Dean, editor do segundo volume da enciclopédia: “Guetos na Europa Oriental ocupada pela Alemanha”.
“Documentar isso em um mapa e ver como o Holocausto afetou todas as comunidades da Europa deixa bem clara a amplitude da campanha de assassinatos do regime nazista”, diz Dean.
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O guarda da SS Schmiller passa pelo celeiro do campo de trabalho agrícola de Lipa, onde trabalhadores judeus empilham feno.
Investigando guetos e campos de concentração nazistas
Para ser incluído na enciclopédia, um local precisava ter abrigado pelo menos 20 pessoas e ter existido por pelo menos um mês. Além disso, precisava estar identificado em um mapa — o que não é tarefa fácil, já que algumas cidades em questão mudaram de nome várias vezes desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Os estudiosos se basearam em pesquisas anteriores e entrevistas com sobreviventes, mas também buscaram registros que “desapareceram em arquivos em uma dúzia de países diferentes”, diz Megargee. Muitos dos arquivos ficaram atrás da Cortina de Ferro até a década de 1990, fora do alcance de estudiosos externos. Mesmo agora, alguns ainda são restritos.
Os locais incluem os campos de extermínio onde câmaras de gás foram construídas para a “solução final” de assassinar o povo judeu. Mas isso é apenas parte do escopo do projeto.
“Não estamos analisando apenas locais diretamente envolvidos com o Holocausto”, diz Megargee, “mas [também] toda a gama de instalações de perseguição que os nazistas e seus aliados administravam”.


O edifício da casa de banhos, agora acessível aos visitantes, fica na parte mais antiga de Auschwitz II-Birkenau, onde os prisioneiros do sexo masculino foram detidos pela primeira vez em março de 1942. A construção foi concluída dois meses depois desta data. Os visitantes do museu podem ver restos de sistemas hidráulicos e elétricos, ganchos de metal, canos e conexões no interior. As paredes da câmara de desinfecção com gás Zyklon B ainda apresentam manchas azuis, evidência do uso de cianeto de hidrogênio.
Vista de uma das casas de banhos em Auschwitz II-Birkenau, um dos edifícios mais antigos do campo de concentração. O local agora é aberto aos visitantes do museu criado no antigo campo de extermínio nazista.
Mapeando os trabalhadores forçados em todos os lugares
Cada lista contém uma descrição cuidadosa, mas arrepiante, do local, com base em registros e depoimentos de sobreviventes. Muitas das entradas da enciclopédia eram campos de trabalhos forçados.
“Pense em como era a vida na Alemanha”, diz Megargee. “Havia trabalhadores forçados estrangeiros em todos os tipos de negócios imagináveis: fazendas, fábricas, lojas de varejo, hospitais, ferrovias. Não era possível ir a lugar nenhum na Alemanha sem encontrar pessoas mantidas contra sua vontade e forçadas a trabalhar. Seus direitos estavam sendo violados”.
E não era segredo para os cidadãos alemães que esses trabalhadores estavam entre eles. “Mesmo em uma cidade grande, você sabe quem mora no seu bairro — e quem não mora”, diz Megargee. “E você podia ver os barracões onde esses trabalhadores forçados viviam.”
O Campo de Educação para o Trabalho Watenstedt-Salzgitter, por exemplo, estabelecido “em uma floresta a nordeste de Hallendorf”, na Alemanha, podia abrigar cerca de 800 prisioneiras e 1 mil prisioneiros ao mesmo tempo. A entrada da enciclopédia menciona 492 mortes documentadas lá em 1942, atribuídas a “coração fraco” ou “tiro ao tentar fugir”.
Um sobrevivente desse campo lembra-se de um homem da SS “que espancava os prisioneiros a caminho do café da manhã”. (Havia prisioneiros judeus nesse campo, mas na maioria dos campos de trabalhos forçados e de educação profissional na Alemanha, os internados eram normalmente europeus não judeus.)

Judeus holandeses vestindo uniformes prisionais marcados com uma estrela amarela e a letra “N”, de Holanda, ficam em posição de sentido durante uma chamada no campo de concentração de Mauthausen, na Áustria.
A taxa de mortalidade impressionante nos campos de trabalho forçado
Megargee afirma que algumas das categorias de locais que encontrou eram “particularmente surpreendentes ou horríveis”. As chamadas Instituições de Cuidados para Mulheres Estrangeiras e Seus Filhos eram essencialmente currais para trabalhadoras, geralmente da Europa Oriental, que haviam engravidado. Em um estágio anterior do regime nazista, essas mulheres teriam sido enviadas para casa para ter o filho. Depois de 1943, elas foram enviadas para as Instituições de Cuidados, onde “o bebê era abortado ou, após o nascimento, morto por inanição lenta”, diz Megargee.
Os judeus europeus foram inicialmente confinados em guetos. Quando os guetos foram fechados, a maioria dos judeus foi morta; apenas alguns foram selecionados e enviados para campos de trabalhos forçados e campos de concentração, onde eram novamente selecionados periodicamente para continuar trabalhando ou para serem mortos.
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“A 'Enciclopédia dos Campos e Guetos' presta homenagem aos milhões de pessoas presas e massacradas pelos nazistas.”
A investigação mostrou que a taxa de mortalidade dos judeus europeus nos campos e guetos foi de “impressionantes” 90%, em comparação com 10% das trabalhadoras estrangeiras mantidas em campos de trabalhos forçados alemães, observa Dean.
A “Enciclopédia dos Campos e Guetos” presta homenagem aos milhões de pessoas presas e massacradas pelos nazistas, memorializando todos os nomes dos locais. Em suas páginas, o leitor encontrará campos dos quais poucas pessoas ouviram falar, como o campo de trabalho no Cemitério de St. Martin, em Poznan, Polônia, onde judeus eram obrigados a escavar túmulos poloneses em busca de dentes de ouro, joias ou latão, e até mesmo destruir lápides para o esforço de guerra nazista.
E há os nomes infames gravados na memória do mundo, como Auschwitz-Birkenau, com suas câmaras de gás. “Isso é reconhecer todos os milhares de lugares onde pessoas sofreram e morreram”, diz Martin, “que, de outra forma, desapareceriam da consciência das pessoas”.