Mantos de gelo da Groenlândia dão dicas sobre elevação global do nível do mar

Cientistas vêm perfurando as geleiras a fundo e utilizando equipamentos sofisticados para compreender melhor uma peça fundamental do quebra-cabeças climático.segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Por Kristen Pope
Escaladores descem muitas centenas de metros em direção a um manto de gelo na Groenlândia, onde esperam sondar os mistérios das mudanças climáticas globais.

Groenlândia A notícia logo se espalhou no Centro Internacional de Apoio à Ciência de Kangerlussuaq, na Groenlândia: Uma das pontes localizadas na maior estrada do país acabara de ser encoberta pelo furioso Rio Watson.

Uma equipe de pesquisa ficou praticamente ilhada do outro lado da ponte por conta da fúria das águas, e ao retornarem alertaram a professora Åsa Rennermalm, da Universidade de Rutgers, e sua equipe, que já estavam prestes a se encaminhar ao local para montar um acampamento na parte final da estrada. Rennermalm optou por esperar até a manhã seguinte, quando a temperatura — e o rio, de temperatura glacial—estivesse mais baixa, para poder se aventurar no local de pesquisa.

A equipe de Rennermalm sofreu um atraso na data de 15 de julho, dois dias antes da ocorrência de um dos três picos de derretimento, em 2018, do Manto de Gelo da Groenlândia, ocorridos em 17 de julho, 31 de julho e 9 de agosto. O verão é a "estação do derretimento" na Groenlândia, e esses três "derretimentos significativos" abrangeram cerca de 499 mil quilômetros quadrados—aproximadamente um terço da superfície do Manto de Gelo da Groenlândia — de acordo com o Centro Nacional de Dados sobre a Neve e o Gelo. Esses derretimentos não foram tão graves quanto à estação extrema ocorrida em 2012, que levou a um derretimento superficial de mais de 97 por cento do manto de gelolevou embora uma grande ponte localizada na mesma estrada; mesmo assim, os pesquisadores estão preocupados, e muitos vêm investigando o manto de gelo para averiguar a velocidade de seu desaparecimento.

Caso o Manto de Gelo da Groenlândia sofra um derretimento significativo, tal fato terá um impacto muito maior que apenas a destruição de algumas pontes. Pode causar uma significativa elevação do nível do mar, o que pode fazer submergirem comunidades litorâneas mundo afora—e até mesmo nações insulares inteiras. Para entender melhor sobre a velocidade provável de derretimento desse manto de gelo, cientistas do mundo inteiro, inclusive a própria Rennermalm, estão realizando pesquisas em localidades longínquas a fim de estudar diferentes aspectos do manto, acompanhar as alterações e antecipar-se ao futuro.

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Para onde vai toda essa água?

Rennermalm estudou o manto de gelo e o tundra da Groenlândia por cerca de uma década e atualmente trabalha em diversos projetos, um deles com o objetivo de identificar o volume de água de degelo que sai do manto, contra o volume que permanece em suas profundezas. “Pode-se pensar que toda essa água vai embora, mas a nossa pesquisa indica [outra coisa]”, diz Rennermalm.

“Estamos estudando o que acontece com a água em elevações maiores”, diz. “Em vez de formar canais [pelos quais ela possa escapar], ela se infiltra na neve e no gelo [onde fica armazenada].”

Rennermalm estuda também a hidrologia da superfície, examinando o volume de água que flui sobre o manto de gelo, utilizando imagens de satélite de alta resolução e outras técnicas. Saber aonde vai a água de degelo, assim como o quanto dela fica dentro da geleira em comparação com o que sai para o mar, pode ajudar e muito os cientistas na previsão da elevação do nível do mar.

equipe do professor Jason Briner, da Universidade de Buffalo, também procura compreender a velocidade do derretimento do Manto de Gelo da Groenlândia. A equipe dele tenta verificar se o ar aquecido, que normalmente carrega mais umidade, pode acabar depositando mais neve no Ártico—fator que retardaria o encolhimento do manto de gelo.

Essa equipe vem trabalhando para avaliar se a precipitação, a temperatura ou uma junção de ambas influencia na velocidade de derretimento. Esse dado ajudará os cientistas no desenvolvimento de modelos computacionais mais precisos.

"Se nevar mais sobre o manto de gelo durante épocas quentes, queremos considerar esse fato nas previsões dos nossos modelos computacionais quanto ao encolhimento do manto e à elevação do nível do mar", diz ele.

Esses modelos ajudam a responder questões essenciais. "O nosso interesse é compreender a sensibilidade do manto de gelo às mudanças climáticas", diz Briner, observando que isso acaba influenciando a elevação do nível do mar. "Quando ocorre uma mudança climática abrupta em vez de uma mudança gradual, será que isso afeta o manto de gelo de forma diferente?"

Perfurando o gelo em profundidade

Nas alturas do ventoso gelo do Ártico na região Nordeste da Groenlândia, a equipe do Projeto para Coleta de Núcleos de Gelo do Leste da Groenlândia (EastGRIP) passou quatro meses em campo, neste verão, coletando um núcleo de gelo da Corrente de Gelo da Região Nordeste da Groenlândia—massa de gelo em constante movimento. Os pesquisadores estão usando essa colaboração internacional desenvolvida ao longo de vários anos para dar uma espiada no passado e revelar pistas úteis para o futuro.

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"Compreender períodos anteriores de aquecimento climático, como o Ótimo Climático, de 5 mil a 8 mil anos atrás, e enxergá-los em analogia ao período de aquecimento que temos agora é certamente algo de enorme interesse", diz Dorthe Dahl-Jensen, presidente do Comitê-Diretor do EastGRIP e professor do Instituto Niels Bohr, em Copenhagen, Dinamarca.

"O Manto de Gelo da Groenlândia vem perdendo massa de duas formas: primeiramente, pelo derretimento ao longo da margem pelo litoral da Groenlândia, e, em segundo lugar, pela descarga de gelo através dessas correntes", diz Dahl-Jensen. "Sabemos muito pouco sobre essas correntes de gelo e elas respondem por cerca de metade da perda de massa do Manto de Gelo da Groenlândia".

Essa é a primeira vez que uma equipe perfura a tamanha profundidade para extrair um núcleo de uma corrente de gelo, de acordo com Dahl-Jensen. Trincheiras de gelo sob a superfície abrigam a pesquisa principal, e uma equipe de cientistas, encapotados com parkas, chapéus de inverno e outros aparatos para o frio extremo, perfuram a corrente de gelo até a base rochosa — a uma distância projetada de 2550 metros. O remoto local é acessado por meio de uma pista de pouso de gelo, ou "pista de esqui", que permite que a 109a Airlift Wing, da Guarda Nacional Aérea dos EUA, transporte contingentes e equipamentos.

Em 2017, teve início a perfuração do núcleo de gelo, com os cientistas coletando 900 metros de núcleo naquele ano e mais 750 metros em 2018. Com mais 900 metros para terminar, a equipe prevê perfurar a base rochosa até 2019 ou 2020. As amostras do núcleo são analisadas no local quanto à condutividade elétrica, isótopos de água estáveis e outras medições, sendo as partes enviadas a outras instalações de pesquisa para análises adicionais.

Embora o projeto de coleta de núcleos se concentre no que acontece abaixo da superfície, o professor Jim White, da Universidade de Colorado e seus colegas, estudam também o que acontece no ar acima do EastGRIP, utilizando o voo de drones na área para coletar amostras do ar em diversas altitudes, a fim de medir os isótopos no vapor—outra peça essencial no quebra-cabeças da elevação do nível do mar.

"O que eu acho muito importante é a gente compreender, do ponto de vista humano, do ponto de vista de políticas públicas, é a velocidade em que teremos o aumento do nível do mar", diz White. "Isso definirá muitas coisas, como 'Onde vou precisar reconstruir?', 'O que esperar do valor das casas espalhadas no litoral, as coberturas dos seguros, a infraestrutura?'. Existe um monte de questões que têm impacto econômico e socioeconômico que dependem mais da velocidade da elevação do nível do mar que da própria elevação em si."

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