Terremotos devastadores podem ter deixado o Himalaia cada vez mais perto de um megadesastre

Terremotos moderados não estão aliviando suficientemente a tensão das falhas geológicas da região. Pelo contrário, estão piorando a situação.terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Por Maya Wei-Haas
O sol atinge os picos do Himalaia em 8 de novembro de 2018, visto de Manang, Nepal.

Raios de sol atravessavam pequenas brechas no céu encoberto do Nepal na vigorosa manhã de 5 de abril de 2015. O dia começou como qualquer outro, mas, às 11h56 no horário local, transformou-se em um pesadelo.

Um terremoto poderoso de magnitude 7,8 atingiu a região, fazendo os moradores correrem para todos os lados conforme os prédios eram sacudidos e derrubados pelas convulsões do solo. Diversos deslizamentos aconteceram ao longo do terreno acidentado—e uma avalanche mortal varreu o Monte Evereste.

As consequências ao homem foram devastadoras. Os eventos mataram quase 9 mil pessoas e feriram outras milhares. O terremoto Gorkha, como foi posteriormente batizado, deixou vilarejos e cidades dos arredores em ruínas, destruindo mais de 600 mil casas. Quase quatro anos depois, após o investimento de bilhões de dólares, a região ainda se recupera.

Mas diversos estudos realizados desde o ocorrido levantaram um ponto de preocupação: provavelmente o terremoto não foi o pior que pode atingir a região.

Estudo publicado na revista científica Nature Communications fornece novas evidências de que, em vez de liberar as tensões sísmicas da crosta terrestre, o terremoto de 2015 provavelmente preparou a região adjacente para um mega terremoto ainda mais destrutivo, que poderia atingir magnitude 8 ou mais. As simulações numéricas do estudo analisam as condições por trás de como e por que terremotos moderados atuam como gatilhos para terremotos mais fortes, ajudando os cientistas a entenderem o acúmulo de estresse nas falhas.

Escombros circundam um dos complexos de templos mais antigos após o devastador terremoto de 2015 em Katmandu, Nepal. O desastre matou quase 9 mil pessoas e destruiu mais de 600 mil casas.

"Esse resultado tem implicações desconcertantes para o risco sísmico da Planície Indo-Gangética que se estende até o norte da península indiana e é populado por mais de 400 milhões de pessoas", conta por e-mail o geofísico Luca Dal Zilio, principal autor do estudo.

É impossível dizer exatamente quando esse mega terremoto realmente acontecerá, se será daqui a alguns anos, décadas ou séculos. Mas compreender os riscos que a região corre é vital para encontrar formas de proteger as diversas populações que vivem sobre esse gigante geológico, que é um tanto inquieto.

Intensificando terremotos

O Nepal já enfrentou diversos terremotos. O Himalaia está entre as regiões mais sismicamente ativas do mundo, resultado de uma colisão frequente entre duas placas continentais: a indiana e a eurasiática.

A placa indiana continuamente se desloca para o norte alguns centímetros por ano, aos poucos abrindo caminho sob o planalto tibetano.  Cada avanço causa terremotos de diferentes intensidades. O fenômeno pode ser comparado a um elástico, explica Rebecca Bendick, geofísica da Universidade de Montana, que não participou do novo estudo. A tensão na crosta terrestre se acumula, como quando alguém estica um elástico. Em algum momento, é necessário soltá-lo, transformando toda a energia armazenada em energia cinética, fazendo o elástico voar pelo ar. É basicamente isso que acontece em um terremoto.

No Himalaia, essa liberação ou deslocamento geológico normalmente ocorre no ponto de contato entre duas placas—conhecido como Main Himalayan Thrust. E essa liberação pode ter efeitos visíveis na superfície, elevando o terreno trinta centímetros por vez.

Super ciclos causam super terremotos

Os terremotos no Himalaia, entretanto, têm uma característica curiosa: "Quando você observa o histórico de sismicidade, parece não ter havido terremotos suficientes para equilibrar a energia que se acumula devido a essa carga", afirma Jean-Philippe Avouac da Caltech, coautor do novo estudo.

"Ela precisa ser liberada em algum momento", explica ele. "Então fica a pergunta: Como ela é liberada?"

A tensão pode ser gradualmente liberada na falha por meio de processos sísmicos, "como uma massinha de modelar que se deforma lentamente", diz ele. Mas um estudo realizado com GPS sugere que a liberação lenta não consegue dar conta de toda a energia que se acumula no Himalaia.

Em vez disso, a válvula de escape mais provável são os terremotos. Mas que tipo de terremoto? Os tremores do Himalaia geralmente são divididos em duas categorias: terremotos moderados, com magnitude próximo a 7, que não provocam rachaduras na superfície; e mega terremotos, com magnitude acima de 8, que formam rachaduras visíveis. Mas a relação entre esses dois tipos de terremotos e a forma como eles liberam a tensão acumulada ainda não estão claras.

Para resolver a equação dos terremotos, a equipe recorreu a modelos numéricos. "Descobrimos que no Himalaia existe uma espécie de super ciclo", explica Dal Zilio. Ou seja, os terremotos moderados liberam alguma tensão localmente, mas na verdade eles aumentam a tensão nas regiões subjacentes. Sendo assim, cada terremoto moderado acumula energia que, no final, resulta em um mega terremoto, com rachaduras visíveis na superfície, a cada 500 ou 600 anos, finalmente dissipando toda a tensão acumulada na região.

Esse padrão é compatível com as observações históricas, explica Dal Zilio. E o terremoto de 2015 no Nepal, embora devastador, é um exemplo de um dos terremotos mais moderados ocorridos na fase de acúmulo do ciclo.

O modelo também enfatiza a importância da movimentação da falha para o progresso do ciclo, explica Avouac. Acredita-se na existência de uma dobra subterrânea na falha, que parece afetar o local onde a tensão se acumula abaixo da superfície. Quando o modelo foi aplicado sem essa dobra, o super ciclo não acontece. Mas quando você coloca a dobra, a divisão entre terremotos intensos e moderados "surge naturalmente", diz ele.

Grande potencial para tremores intensos

Em conjunto com um trabalho passado, o novo estudo apresenta um caso convincente sobre os perigos sísmicos da região.

"Esse é um daqueles belos momentos em que todos os dados históricos, o nosso conhecimento básico sobre como os terremotos funcionam, e a simulação numérica se juntam para dar mais ou menos a mesma resposta", diz Bendick.

Bendick foi coautora de um estudo de 2017 no periódico Quaternary International que abordou a questão a partir de uma perspectiva histórica. Os resultados de sua equipe produziram um panorama semelhante. Apenas dois terremotos no Himalaia nos últimos 500 anos foram capazes de romper a superfície, um em 1934 e outro em 1950, explica Roger Bilham, principal autor do estudo de 2017.

"Isso significa que há diversas regiões que eu chamo de 'reservatórios de energia elástica' aguardando um acionamento", observa ele. De modo importante, as falhas não conseguem liberar as tensões espontaneamente. Elas parecem necessitar de um grande terremoto para romper o reservatório, o que pode intensificar os tremores.

"Imagine que sejam um tipo de bomba de combustível", diz Bilham.

E há diversos desses reservatórios. Em um outro estudo, Bilham e seus colegas calcularam a energia armazenada no Himalaia com base em terremotos históricos e nas taxas de colisão de placas tectônicas. Dos 15 segmentos analisados, sete poderiam produzir terremotos de magnitude 8,4, pelo menos, se a energia fosse liberada hoje.

Obviamente, é extremamente improvável que os reservatórios sejam ativados todos ao mesmo tempo, e terremotos intensos o bastante para desencadear liberações são raros. Mas é plausível que duas regiões possam ser ativadas na sequência, produzindo um terremoto ainda mais intenso. Os resultados do estudo mencionado devem ser publicados nas próximas semanas em uma Publicação Especial da Sociedade de Geologia sobre as placas tectônicas do Himalaia.

"A ameaça dos terremotos no Himalaia é enorme", afirma Bilham. "É bastante notável".

O que acontece agora?

"O que acontece é que nem a nossa equipe nem a deles consegue explicar o que acontecerá depois", diz Bilham. Ele afirma que deve haver cautela na interpretação de quaisquer resultados sobre terremotos futuros: "Todos eles podem ocorrer na semana que vem, ou um único terremoto de [magnitude] 8,7 pode acontecer amanhã, ou eles podem surgir apenas daqui a cinco séculos".

E tem mais, o novo modelo ainda precisa ser ajustado antes de ser utilizado em estimativas reais, observa Avouac. Atualmente, o modelo apenas divide o sistema em duas dimensões, ignorando algumas das grandes diferenças entre um lado e outro do Himalaia. A equipe espera ampliar o modelo para considerar três dimensões, talvez até mesmo usá-lo para calcular a probabilidade desses grandes eventos em diversas partes da cordilheira.

Esses esforços poderiam ajudar a direcionar ações de prontidão—o que é essencial para regiões com poucos recursos financeiros que precisam tomar decisões difíceis sobre onde investir o dinheiro. As populações do Himalaia continuam amplamente vulneráveis aos eventos sísmicos. Um estudo de 2018 estimou que se um terremoto de magnitude 8,7, semelhante ao terremoto histórico que assolou a região central do Himalaia em 1505, ocorresse nos dias de hoje, ele seria responsável pela morte de quase 600 mil pessoas e por mais de um milhão de feridos.

Entretanto, por enquanto, todos esses estudos podem servir de alerta.

"A tarefa é continuar divulgando que o evento Gorkha [de 2015] não foi o grande terremoto capaz de dissipar toda a tensão na região do Nepal", afirma Bendick. "Temos todos os motivos para nos planejarmos para o maior evento de nossas vidas—e quaisquer medidas tomadas para mitigar os impactos desse evento definitivamente salvarão vidas e economizarão recursos".

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