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Meio Ambiente

Perfurações exploratórias de petróleo são ameaça tóxica para o Okavango

A empresa de exploração de petróleo ReconAfrica aparentemente não tomou uma medida fundamental que, segundo especialistas, previne a contaminação das água subterrâneas na Namíbia.

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Cães-selvagens e outras espécies típicas da África enfrentarão possível ameaça se houver produção de petróleo na região do Okavango.

Foto de Danita Delimont, Alamy Stock Photo

Por Jeffrey Barbee
Publicado 21 de mar de 2021 13:10 BRT

A empresa canadense de exploração de petróleo e gás ReconAfrica iniciou a perfuração exploratória na Namíbia em janeiro, no leito do Delta do Okavango, um pântano rico em vida selvagem. De acordo com imagens aéreas da empresa e análise independente, aparentemente a empresa não tomou uma medida ecológica fundamental que, segundo especialistas, previne a contaminação do abastecimento local de água.

A Namíbia é um país que sofre com a escassez de água e, quando as notícias sobre o projeto de exploração de petróleo se espalharam, comunidades manifestaram preocupação de que contaminantes provenientes da perfuração se infiltrassem em aquíferos rasos que fornecem água potável e irrigação para plantações.

Conservacionistas também temem que a contaminação decorrente da perfuração exploratória possa afetar a vida selvagem nas proximidades — elefantes, pangolins-terrestres, cães-selvagens-africanos, águias-marciais — e no Delta do Okavango, considerado patrimônio mundial pela UNESCO, cerca de 257 quilômetros a jusante.

Um grande poço ou reservatório de resíduos próximo ao primeiro poço de teste aparece em um vídeo publicado no site da ReconAfrica em 10 de janeiro. Esses poços servem para armazenar lama, fluidos e outros resíduos — que podem conter substâncias químicas perigosas ou hipersalinas — que surgem durante a perfuração de petróleo ou gás natural. Na Colúmbia Britânica e no Canadá, onde a ReconAfrica está sediada, é prática padrão do setor revestir esses poços com um forro impermeável para evitar que substâncias químicas penetrem no solo e contaminem águas subterrâneas.

A porta-voz da ReconAfrica, Claire Preece, contou à National Geographic em outubro de 2020 que as perfurações seriam “realizadas em poços revestidos”. Ela também afirmou que a “ReconAfrica segue os regulamentos e políticas da Namíbia, bem como as melhores práticas internacionais”. De acordo com a legislação namibiana, a empresa deve “controlar o fluxo e evitar o despejo, vazamento ou derramamento” de petróleo, fluido de perfuração, água ou qualquer outra substância do poço.

Nenhum revestimento é visível no vídeo publicado pela empresa.

O jornalista namibiano John Grobler, que visitou o local em 23 de janeiro, confirmou à National Geographic que o reservatório não estava revestido e que continha líquido acumulado.

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A porta-voz da ReconAfrica, Claire Preece, contou à National Geographic em outubro de 2020 que as perfurações seriam “realizadas em poços revestidos”. O depósito de resíduos do primeiro poço de teste da empresa na Namíbia aparentemente não foi revestido.

Foto de John Grobler

“Do ponto de vista ambiental, isso é totalmente inaceitável e, do ponto de vista social, é imprudente e vergonhoso”, observou Jan Arkert, geólogo de engenharia consultor e morador de Uniondale, na África do Sul, que colaborou por décadas em projetos relacionados à perfuração. “As comunidades são completamente dependentes das águas subterrâneas para fins domésticos e agrícolas, e será praticamente impossível conter e reverter qualquer contaminação do aquífero.”

Arkert comenta que seria complicado se a empresa optasse por revestir o poço agora, após o início da perfuração. Isso envolveria diversas etapas, incluindo a remoção dos resíduos já existentes e seu descarte em uma instalação adequada, o preparo da camada de cascalho subjacente para garantir que o forro não seja perfurado e, em seguida, a instalação do forro propriamente dito, que talvez precise ser importado. Arkert explica que cada etapa é demorada e provavelmente levaria de três a quatro semanas.

“Aparentemente os fluidos de perfuração da plataforma estão sendo descartados no reservatório sem revestimento”, reitera Matt Totten Jr., ex-geólogo de exploração para a indústria de petróleo e gás que trabalhou em projetos nos Estados Unidos, depois de analisar o vídeo e as fotos da ReconAfrica. “Observe as áreas descoloridas em marrom escuro no tanque ao lado da plataforma, onde os fluidos de perfuração são descartados.”

Depois de analisar outro vídeo aéreo do local de perfuração publicado pelo noticiário alemão VOX em 4 de março, Totten confirmou que o poço está cheio e ainda “aparenta estar sem forro e provavelmente repleto de água da chuva e fluidos de perfuração”.

A ReconAfrica não respondeu aos diversos pedidos de comentário sobre o reservatório.

Para obter permissão do governo da Namíbia para perfuração de poços exploratórios, a ReconAfrica teve que realizar uma avaliação de seus impactos ambientais. O relatório elaborado pela empresa referia-se a um “tanque” de resíduos e especificou que “rasparia todos os resíduos que fossem coletados no tanque e os descartaria juntamente com o revestimento do tanque em local adequado”.

Arkert, que participou de uma conferência on-line sobre o desenvolvimento de petróleo e gás na África em 17 de fevereiro, organizada pela Associação Europeia de Geocientistas e Engenheiros, perguntou a Scot Evans, CEO da ReconAfrica, por que a empresa não revestiu o poço.

Evans não respondeu à pergunta diretamente, mas relatou que no Canadá o fluido “é utilizado como fertilizante”. Ele acrescentou: “faremos uma pequena experiência com os agricultores locais para apresentar fertilizantes à comunidade quando terminarmos o nosso trabalho”.

De acordo com Arkert, essa resposta “só pode ser descrita como bizarra”, porque Evans está se referindo apenas ao fluido de perfuração. Mas o que é particularmente nocivo são os compostos naturais, como benzeno, etileno, tolueno e xileno, bem como água radioativa, que vêm à superfície se for descoberto petróleo. O “fluido armazenado no tanque de contenção sem revestimento constituirá um acúmulo de resíduos líquidos tóxicos, adequado apenas para descarte em aterros de resíduos perigosos”, afirma Arkert.

Outros especialistas concordam. A água que brota do poço durante a perfuração em formações de petróleo e gás “é tipicamente salina, contém óleo e graxa e pode conter compostos orgânicos e inorgânicos tóxicos, bem como materiais radioativos de ocorrência natural”, explica Surina Esterhuyse, geo-hidróloga da Universidade do Estado Livre, em Bloemfontein, África do Sul. Foi comprovado que algumas dessas substâncias químicas causam câncer, defeitos de nascença e distúrbios reprodutivos em humanos, de acordo com um estudo de 2016 publicado na revista científica Environmental Health Perspectives.

De acordo com um relatório de 2009 do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos, os reservatórios podem contaminar terras agrícolas, riachos e fontes de água potável e “podem deixar pássaros migratórios presos, matando-os, assim como outros animais selvagens”.

Não está claro quais protocolos a ReconAfrica seguiu para perfurar seu primeiro poço de teste na Namíbia com o objetivo de proteger o frágil ecossistema da região.

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