Não há plano B: precisamos de um novo sistema socioeconômico, diz membro brasileiro do IPCC

Em entrevista à National Geographic, o cientista Paulo Artaxo, um dos autores do Sexto Relatório de Avaliação sobre as mudanças climáticas, divulgado na semana passada, diz que a situação não é de fim do mundo, mas um chamado para agir.

Publicado 18 de ago. de 2021 17:00 BRT, Atualizado 19 de ago. de 2021 17:42 BRT
Torre de observação científica ZF-2, próximo a Manaus, no Amazonas. "O aumento da temperatura e a ...

Torre de observação científica ZF-2, próximo a Manaus, no Amazonas. "O aumento da temperatura e a redução da precipitação já estão afetando o ecossistema amazônico, fazendo com que ele deixe de ser [...] um absorvedor de dióxido de carbono para se tornar uma fonte de carbono", explica o cientista Paulo Artaxo.

Foto de Craig Cutler

O novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC), divulgado em 9 de agosto de 2021, é o mais contundente e urgente alerta sobre a crise climática.

A humanidade tem aquecido o planeta a uma taxa sem precedentes há pelos menos dois mil anos. O impacto da ação humana sobre o planeta é inequívoco e torna eventos climáticos extremos – como ondas de calor, chuvas violentas e secas severas – mais intensos e frequentes. Tudo pode piorar.

Parte desses impactos em curso são irreversíveis, mas alguns podem ser retardados se limitarmos as emissões de gases de efeito estufa.

O painel apresentou o relatório em uma coletiva de imprensa virtual, para uma audiência no mundo inteiro. São mensagens curtas e diretas, simplificadas e acompanhadas de dados e cenários de médio e longo prazo. Com linguagem clara e destinada a tomadores de decisão, o sumário executivo da primeira parte desse Sexto Relatório de Avaliação (AR6) traz o que a ciência, e o IPCC em particular, já vem avisando desde a década de 1990. Mas o documento traz algumas novidades: a quantificação do aquecimento global, cenários a curto prazo, um mapa interativo de projeções de um planeta cada vez mais quente e caminhos ainda possíveis.

Em meio ao esforço para transmitir a urgência da crise climática, entrevistamos Paulo Artaxo, pesquisador brasileiro que é um dos líderes do IPCC e coautor do primeiro capítulo do relatório.

O pesquisador esclarece os cenários do Brasil presentes no AR6. Um deles é o Nordeste brasileiro, que aparece como uma das regiões do planeta que mais sofrem com o aquecimento global. A Amazônia e o Centro-Oeste também são áreas que devem ser impactadas por calor extremo já nas próximas décadas. Paulo Artaxo evita falar em catástrofe, diz preferir usar urgência – é hora de arregaçar as mangas, unir esforços e mudar o sistema socioeconômico e a “forma de encarar os recursos naturais do nosso planeta.”

O pesquisador encerra a conversa, feita por videochamada, trazendo a importância da comunicação neste momento. “A ciência já fez o seu papel e deu o recado: mais claro, impossível. Agora é a vez dos comunicadores de levar essa mensagem para a população em geral. E isso é um trabalho que não é muito fácil. Vamos em frente, todos juntos, construir uma nova sociedade mais justa e mais sustentável.”

Nota do editor: a entrevista foi editada para fins de clareza e concisão.

Paulo Artaxo discursa durante audiência pública conjunta das comissão de Relações Exteriores e Meio Ambiente do Senado em maio de 2019. Além de membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, Artaxo é professor titular do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da Universidade de São Paulo e vice-presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo.

Foto de Marcos Oliveira/Agência Senado

Paulina Chamorro, National Geographic: Algo bastante importante nesse relatório e nas coletivas dos cientistas é o reforço de que é inequívoco que as mudanças climáticas são causadas pela ação humana. Por que isso?

Paulo Artaxo: Há quase 30 anos, o IPCC coloca, com vários graus de linguagem, que a atividade humana está mudando o clima do planeta. ‘Virtualmente certo’ foi a linguagem utilizada no relatório anterior. Para este relatório, [usou-se] inequívoco. Basicamente, hoje já é indiscutível a atribuição humana nas mudanças climáticas. Isso reflete o avanço da ciência. A ciência hoje dá a palavra de uma maneira muito clara e explícita de que são as atividades humanas que estão impactando o clima do planeta de uma maneira que pode trazer prejuízos socioeconômicos enormes para nossa sociedade e para os ecossistemas hoje e no futuro próximo.

P.C.: Nesse sentido, tem uma quantificação, que é uma outra novidade que vem neste relatório. O planeta já aqueceu, em média, 1,1ºC, mas nos continentes é um aquecimento mais forte, com 1,6ºC. Como é isso?

P.A.: Exatamente. O aumento global da temperatura, levando em conta os oceanos e as áreas continentais, é de 1,1ºC. Entretanto, como 70% da área do nosso planeta é coberta pelos oceanos, e eles tem uma capacidade térmica muito grande, a água absorve esse calor de uma maneira muito mais forte do que os ecossistemas continentais. Então, o que acontece é que o aquecimento nos continentes já aumentou 1,6ºC. Ou seja, traduzindo em miúdos: [aqueceu] onde a nossa sociedade está estruturada. Onde ocorre a maior quantidade de biodiversidade do planeta, que é nos continentes, nós já aquecemos mais do que o prometido no Acordo de Paris, que era limitar o aquecimento em 1,5ºC. Isso é um recado claro de que nós precisamos reduzir já, hoje, as emissões de gases de efeito estufa para evitar um impacto ainda maior do que nós já estamos tendo das mudanças climáticas no funcionamento dos ecossistemas e da nossa sociedade. 

P.C.: Outro destaque é justamente nesses cenários que são colocados no relatório. Aí eu queria falar sobre o Brasil. Tem a questão do Nordeste brasileiro como uma das regiões do planeta onde é mais clara a influência do aquecimento global. E tem também a Amazônia. Quais são esses cenários apontados no relatório?

P.A.: O Brasil tem vulnerabilidades muito importantes nas questões das mudanças climáticas globais. Além do Nordeste brasileiro e da Amazônia, nós temos a questão do Cerrado e do Brasil central e temos a extensa área costeira brasileira, que é muito vulnerável ao aumento do nível do mar. É fundamental termos políticas públicas que enderecem essas questões das vulnerabilidades brasileiras. No Nordeste, há locais onde a precipitação já diminuiu em média 30% e a temperatura já aumentou 2ºC. Portanto, temos uma região que era semiárida, onde já chovia pouco; com uma redução dessa precipitação, nós podemos chegar em uma região árida.

E, com isso, o Brasil vai ter que decidir o que vai acontecer com os milhões de nordestinos que podem estar vivendo numa região onde, basicamente, a agricultura de subsistência pode não mais ser possível.

A Amazônia tem a sua vulnerabilidade particular, que está sendo, digamos assim, atacada em duas frontes principais. Uma é no desmatamento – uma taxa da ordem de 11 mil km2 de florestas desmatadas a cada ano, o que é uma enormidade. Mas a Amazônia também é muito sensível às mudanças climáticas globais. Ou seja, o aumento da temperatura e a redução da precipitação já estão afetando o ecossistema amazônico, fazendo com que ele deixe de ser um sumidouro, um absorvedor de dióxido de carbono, para se tornar uma fonte de carbono para a atmosfera global. Isso é importante porque a Amazônia contém em torno de 120 bilhões de toneladas de carbono no ecossistema, o que corresponde a dez anos de toda queima de combustíveis fósseis do planeta. Para a Amazônia, temos que ter um olhar muito cuidadoso e diferenciado. E, por último, vou enfatizar o Centro-Oeste brasileiro, onde o nosso agronegócio está fincado, com grandes produções de soja, grandes áreas de pecuária com produção de carne. O clima no Brasil central já está mudando e a previsão do IPCC é uma redução significativa da precipitação, um aumento da temperatura de 4 a 5ºC se mantivermos as atuais emissões e o desmatamento na Amazônia. Isso é uma vulnerabilidade do agronegócio brasileiro, e a ciência está dando o recado de uma maneira muito clara e explícita. Esses são alguns dos pontos principais do relatório que impactam no Brasil.

P.C.: O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse que o AR6 é o alerta vermelho para a humanidade. Por quê?

P.A.: Esse novo relatório do IPCC faz uma compilação do estado atual da ciência mostrando para a sociedade os riscos importantes que estamos tendo se continuarmos as emissões dos gases de efeito estufa no estágio em que elas estão. O nosso risco é basicamente de termos um aumento de temperatura média no planeta na ordem de 4ºC. O que em áreas continentais implica um aumento de 5 a 5,5ºC, que vai ter impactos enormes sobre a nossa sociedade. Isso não é para o final do século, parte desses impactos estão acontecendo hoje. Parte desses impactos são irreversíveis. O relatório usa uma linguagem muito clara e explícita. Muito mais clara do que os relatórios anteriores, de que o homem é sim culpado por essas mudanças climáticas. E nós precisamos mudar o nosso sistema socioeconômico de uma maneira muito forte para que possamos deixar para as próximas gerações um planeta minimamente sustentável do ponto de vista do nosso clima. A mensagem do IPCC é muito clara quanto aos riscos iminentes que a nossa sociedade está correndo atualmente.

P.C.: Eu vi algumas apresentações e é muito louvável todo o esforço que vocês pesquisadores e pesquisadoras têm feito com relação à linguagem. O próprio IPCC tem, ao longo desses últimos anos, se esforçado na comunicação para que se chegue à mensagem definitiva. Algumas vezes, o vi dizer que não gosta particularmente do tom catastrófico, o tom de fim de mundo. Minha pergunta é: o que ainda pode ser feito ainda hoje e por que que a gente não pode pensar nesse fim de mundo? 

P.A.: Eu enfatizo sempre que não é uma catástrofe e não é um fim do mundo. É um recado para a sociedade de que nós temos que mudar a maneira de encarar os recursos naturais do nosso planeta. Temos que mudar toda a nossa estrutura socioeconômica para uma estrutura socioeconômica que seja minimamente sustentável. Enxergo esse relatório do IPCC como um recado claro da ciência para a humanidade, de que o atual caminho que nós estamos seguindo não é sustentável. E o relatório deixa isso muito claro: precisamos mudar nossos hábitos de consumo, precisamos descarbonizar toda a maneira que a gente gera e usa energia. E o que é importante: não precisamos de nenhuma tecnologia nova, de nenhuma nova questão que precise ainda ser desenvolvida. As ferramentas estão na nossa mão: a energia solar e energia eólica, hoje, podem ser geradas a preços competitivos em relação aos combustíveis [fósseis]; o setor de transporte precisa se eletrificar e deixar de usar combustíveis fósseis, e por aí afora. Quer dizer, o caminho é muito claro. Nós temos as ferramentas para fazer essa nova transição, mas faltam ações governamentais que indiquem para a sociedade as necessidades de mudanças rápidas, fortes e radicais, em como nós utilizamos recursos naturais do nosso planeta.

P.C.: Sobre o ponto de não retorno e os riscos que corremos: o que o relatório aponta neste sentido?

P.A.: São vários aspectos de pontos de não retorno que nós estamos correndo risco de atingir. Eu vou citar alguns e por que que algumas dessas mudanças são irreversíveis e por que o IPCC usa essa linguagem. É muito simples de entender. Por exemplo: o derretimento de um bilhão de toneladas de água da Groenlândia, que está acontecendo agora. Essa água é derretida nas geleiras continentais e na Groenlândia e aumenta o nível do mar. Não há processo físico conhecido que possa recongelar essa água e levá-la de volta, onde ela estava originalmente. Esse é um exemplo muito simples que mostra que alguns dos processos são realmente irreversíveis.

Outros processos irreversíveis são as florestas tropicais. Uma vez que desmata a região, você reduz a evapotranspiração dessa região. Mesmo que se replante parte dessa floresta, pode demorar séculos para ela recuperar a biodiversidade original, que é essencial para a própria sobrevivência da floresta. Outro exemplo: o mar já aumentou 20 cm e, de acordo com o relatório do IPCC, pode aumentar 1 m ao longo deste século. E em 2300, se nós continuarmos as nossas emissões de gases de efeito estufa, o aumento do nível do mar pode chegar a 15 m. Imagine as cidades costeiras – como Rio de Janeiro, Santos, Recife – com o aumento do mar da ordem de 15 m. E por que o IPCC fez as simulações de aumento do nível do mar para daqui 300 anos? Basicamente porque uma vez que você inicia esse processo, é impossível, com nosso conhecimento científico hoje, pará-lo. Nós estamos produzindo mudanças irreversíveis no nosso planeta, e as próximas gerações certamente vão nos agradecer muito se pararmos esse caminho que estamos seguindo hoje e começarmos a trilhar um caminho de sustentabilidade socioeconômica, que torne viável a exploração dos recursos naturais do nosso planeta para as dez bilhões de pessoas que teremos em 2050. 

P.C.: Por fim, falemos de sustentabilidade socioeconômica, o impacto para grupos mais vulneráveis.

P.A.: As mudanças climáticas têm um aspecto bastante perverso com a nossa sociedade. Primeiro, os mais impactados são os países de baixa renda, os países em desenvolvimento. Dentro de cada país, os mais impactados são os grupos sociais de menor renda. Há um aspecto de desigualdade social enorme nas mudanças climáticas e, na verdade, em quase tudo o que fazemos no nosso planeta. O desenho deste novo sistema socioeconômico que teremos que implementar passa pela redução das desigualdades. Não podemos esquecer que somente 5% da população mundial é responsável por 60% das emissões. Veja o grau de concentração das emissões de gases do efeito estufa. Nem todos nós somos responsáveis por essa situação. Quem mais vai sentir os impactos são os 95% da população que não são responsáveis pelas emissões. Isso é certamente uma questão que teremos que endereçar e está embutida nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e nas diretrizes mínimas para construir uma nova sociedade. Vamos ter que fazer isso, porque não temos um plano B, não temos um planeta B. Isso vai ter que ser feito pela nossa geração, porque não temos muito tempo para fazer isso. Vamos arregaçar as mangas, juntar as ciências, todas as organizações não governamentais, as minorias e lutar por um planeta mais justo e mais sustentável.

Trechos dessa entrevista também foram publicados no podcast Vozes do Planeta.

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