Nat Geo Podcast | Episódio 1: Carvalhal entrevista Ailton Krenak e Paulina Chamorro

Lançado pela primeira vez no Dia da Terra, a nova temporada do Nat Geo Podcast começa discutindo como podemos garantir o futuro do planeta e de seus habitantes.

Por Nat Geo Podcast
Publicado 24 de mai. de 2022 17:36 BRT

André Carvalhal (apresentador): Olá, eu sou André Carvalhal. Escritor, especialista em design para sustentabilidade e agora apresentador deste mais novo podcast, realizado pela National Geographic Brasil, o Nat Geo Podcast, que tem como propósito pensar em futuros e presentes mais sustentáveis. E vai funcionar assim: os episódios serão quinzenais, lançados às terças-feiras. A gente vai escolher um tema urgente relacionado a questões socioambientais e convidar pessoas para jogar luz no problema e nos ajudar a pensar em ações de impacto positivo para nossas vidas, para a sociedade e para o planeta. A gente decidiu começar este primeiro episódio excepcionalmente em uma sexta-feira, porque hoje, dia 22 de abril, é o Dia da Terra, e nada melhor do que começar falando sobre a nossa casa. Essa data existe desde 1970 e se tornou um dia mundial no qual milhares de ativistas no mundo todo se reúnem para chamar atenção, criar consciência e promover reflexões sobre os nossos problemas ambientais.

Quando a gente fala nesses problemas, a gente pode imaginar um guarda-chuva muito variado de questões que vão desde a poluição do ar à degradação do solo, contaminação de águas, desmatamento de florestas e até o tão falado aquecimento global e a consequente elevação do nível do mar. Mas a gente está aqui para pensar em caminhos, propostas e ações para enfrentarmos essa situação. E para começar muito bem, neste primeiro episódio do Nat Geo Podcast, eu trago duas pessoas que vivem o Dia da Terra 365 dias do ano. Eu estou muitíssimo feliz em anunciar a participação da Paulina Chamorro, que é colaboradora e parceira da National Geographic Brasil, e do escritor Ailton Krenak, que como eu sempre digo é uma das vozes mais importantes no Brasil sobre esses temas hoje.

André: Olá.

Paulina Chamorro: Olá, André, olá, Ailton. Enorme prazer estar aqui com vocês hoje neste início de conversa, neste primeiro episódio ainda. É uma grande honra realmente.

Ailton Krenak: Boa tarde, Paulina. Que bom ter você aqui nesta conversa. Eu estou aceitando o convite do André para a gente falar sobre esse planeta azul maravilhoso, essa nave que alguns de nós experimentam a conexão tão cotidiana que ela faz parte de um... Nós nos sentimos como parte deste organismo. A gente não é passageiro, a gente não é tripulação. Nós somos extensão deste organismo maravilhoso e vamos conversar sobre isso.

André: É isso.

Ailton: Boa tarde, André.

André: Boa tarde, querido.

André: Bom, e a ideia do primeiro bloco é a gente explorar o cenário atual, dando um panorama de onde a gente está e como chegamos aqui. E eu vou começar com você, Paulina, que é comunicadora socioambiental, já ouviu muita gente no seu podcast, o Vozes do Planeta, e já viveu de perto muitas realidades nos seus inúmeros trabalhos in loco. Você escreveu também já muitas colunas e matérias denunciando e defendendo temas ambientais. E apesar de normalmente você estar entrevistando as pessoas, hoje você está aí do outro lado. E eu queria pedir para você contar um pouco para a gente, sintetizar um pouco o que você percebe como as principais ameaças e os principais desafios que a gente vive hoje aqui na Terra quando se fala das questões socioambientais.

Paulina: Poxa, André, obrigada por já abrir assim com essa missiva. Eu estou há mais de duas décadas trabalhando na cobertura de temas socioambientais e entrevistando essencialmente pessoas que no fundo falam sobre natureza. Tudo nos leva... Eu gosto de pensar quando estou fazendo a comunicação, quando estou fazendo o jornalismo que tudo nos leva à natureza. Se a gente está trabalhando com um tema econômico, a gente está trabalhando com justiça socioambiental, a gente está trabalhando com o clima, acabamos chegando sempre à natureza, a raiz de tudo isso é a natureza. Então, acredito que o que mais a gente tem visto hoje são duas frentes, o que eu tenho percebido, são duas frentes: como a produção do conhecimento tradicional, a produção do conhecimento científico, a produção sobre a conservação, ela pode atravessar essa ponte para chegar para mais pessoas.

Hoje a gente tem o maior número da população mundial, não só no Brasil, mas no mundo todo, vivendo em cidades, e isso parece que está nos desconectando com a origem de tudo, a origem de a gente respirar o ar, a gente beber água, de ter alimento na nossa mesa, e essa desconexão está nos levando a uma cegueira que a gente mesmo está provocando nesse organismo. Então, eu acredito que, hoje, o grande desafio que a gente precisa passar passa também pela comunicação como sendo ponte para essa troca de vivências, para essa troca de experiências, para essa troca de exemplos de como é que a gente vai continuar sobrevivendo aqui no planeta, então puxando a sardinha, né, para mim, para a minha área, claro, passa nesses grandes desafios pela comunicação, e a gente tem, na verdade, um planeta maravilhoso.

A gente também precisa comunicar e fazer com que as pessoas se encantem pela maravilha que é este organismo vivo, o planeta que a gente vive, mas, ao mesmo tempo, que a gente possa entender a nossa parcela de participação no momento que a gente está vivendo, que é um momento de um planeta doente. É um momento de um planeta que está passando por muitas transformações, e quem está sofrendo diretamente somos nós, né? Então, essa compreensão, essa ligação é muito importante que a gente faça. Eu estou nessa frente de luta nessa comunicação para que a gente possa chegar em mais pessoas e tentar mudar um pouco a nossa rota, e termos um futuro, né?

André: Muito bom, Paulina. Muito obrigado. Ailton, agora você. Eu percebo bastante nos seus livros uma crítica em relação ao conceito de humanidade que a gente aprendeu e eu queria saber como que essa ideia de que todos somos humanos pode, na verdade, acabar segregando as pessoas e contribuindo para uma separação cada vez maior entre o ser humano e a natureza.

Ailton: André e Paulina, quando nós observamos esse raio de coisas que incidem sobra a nossa vida no planeta, lembrando que a comunicação tem um papel fundamental na mudança desse modo de estar na Terra, eu queria acrescentar uma observação que nós não temos mais comunicação no sentido do que a gente pensava no século 20.

Apesar de nós estarmos experimentando a chamada “sociedade da informação”, a comunicação é cada vez mais truncada e desviada. Tem um desvio na comunicação. Se não na comunicação, deve haver então um desvio na cognição, na compreensão do que está sendo dito, porque todas as conferências, todas as abordagens que foram feitas até agora desde a década de 80 com relação à questão do clima do planeta e todas as informações que se acrescentaram em oferta a nós entendermos melhor o que é o organismo da Terra, nós ainda repetimos erros gravíssimos, como o de imaginar que o planeta está sujeito à nossa vontade. E esse uso da palavra em relação ao organismo da Terra como planeta, às vezes, como natureza, ele denuncia a nossa falta de intimidade com esse organismo de que nós fazemos parte. Seria como se um órgão do nosso corpo quisesse refletir sobre o corpo todo, mas continuasse expressando uma separação.

Os humanos estão separados do corpo da Terra, e nós não podemos continuar nos enganando sobre isso. Os humanos se distanciaram da Terra como um filho que tem vergonha da mãe. Se esses humanos, se a imagem de filhos com vergonha da mãe se afastando do corpo da mãe não mudar, se eu não mudar esse paradigma, não é propriamente o planeta que vai estar doente. O que vai acontecer é que os humanos vão morrer. Nessa analogia que eu fiz dos filhos com nojo da mãe, os filhos é que vão morrer. A mãe, não. A mãe é a mãe. A Mãe Terra vai continuar existindo depois que os humanos tiverem todos virado esterco.

E eu não sou tão fanático pelos humanos, eu estou interessado em outros seres que compartilham a vida com a gente no planeta que são não humanos, e são bilhões de não humanos. Eu já insisti muito no diálogo com os humanos e eu confesso que eu desisti deles. Eu acho que o problema ambiental no planeta são os humanos. A gente, às vezes, fica animado em fazer análises, complexar o assunto, mas o assunto é que nós somos uma hiperpopulação do planeta. A gente disparou, a gente não para mais de crescer. Nós viramos a peste do planeta.

Então, ao analisar o problema em uma perspectiva mais cosmológica, digamos assim, ampla, ele iria nos fazer pensar que o planeta é autossuficiente, ele se autorregula, se autorregenera inclusive. Se a gente causar algum dano temporário a ele, um milhão de anos é brincadeira, ele se recupera.

Agora, um milhão de anos não é brincadeira para a humanidade. Se a gente encarar uma crise de 10 anos de pandemia, morre todo mundo. E nós estamos diante de novas ondas pandêmicas no planeta, e será que não é esse organismo inteligente e generoso que decidiu liberar esses ares, digamos assim? Vamos chamar essas pandemias de “ares”, como os nossos antigos chamavam. Veio um vento forte de algum lugar. Quem mandou? Será que não é a Terra, não? E se a Terra estiver determinada agora a liberar um pouquinho mais de atmosfera para a gente para ver se a gente está entendendo onde é que nós estamos?

É como se nós tivéssemos sido convidados para um jardim maravilhoso, começamos a predar o jardim, e algumas flores do jardim resolveram soltar algumas essências mortais para ver se a gente se toca. Eu acho que pode estar acontecendo isso.

André: Sim. Paulina, e você falou sobre a dificuldade da comunicação. O Ailton complementou um pouco sobre isso também. Quando a gente fala sobre a compreensão da dimensão desse problema além da dificuldade de comunicar, eu vejo também que existe muita gente que nega o problema, né?

Na década de 70, quando o Dia da Terra surgiu, era preciso relatório, imagem de satélite para provar, para mostrar para as pessoas para onde que a gente estava indo, e hoje basta a gente abrir a nossa janela, a gente sair na rua, e a gente já vê os impactos, né, de tudo que estava sendo previsto lá atrás. A gente hoje já vê milhões de pessoas e regiões inteiras sendo afetadas, tendo que deixar suas casas. Por que você acha que ainda tem tanta gente que insiste em desacreditar, em negar ou até menosprezar as mudanças climáticas? Por que você acha que o negacionismo é tão forte?

Paulina: Bom, existe ainda uma parcela muito privilegiada que não está passando diretamente, sofrendo diretamente as consequências da crise climática, e isso contribui bastante, ou mesmo que esteja recebendo de uma maneira muito branda ainda comparada a essas bilhões de pessoas que já estão passando fome por mudança de ambiente, de ter que se mudar de suas áreas por falta de água, por uma série... Muito calor, muita seca. Mesmo essas pessoas que estão recebendo de uma maneira muito branda, elas não entenderam ainda essa dimensão por conta justamente dessa desconexão de se entender como mais uma espécie, né, integrante aqui desse planeta.

Tem que lembrar, por exemplo, falando de negacionismo, talvez a questão climática, pelo menos dentro da minha área, na cobertura socioambiental, sempre foi um tema, há pelo menos 20 anos, muito negado, né? Mas a gente tem que lembrar que a Hipótese de Gaia, que depois virou Teoria de Gaia, ficou 40 anos sendo negada, inclusive dentro da própria ciência, ou seja, quando se colocou que esse era um organismo vivo com uma série de interconexões e de que uma coisa depende da outra, sobre a teia da vida, tudo isso, passaram-se 40 anos para que só então fosse reconhecida a Teoria de Gaia como tal, então acredito que enquanto o ser humano, essa espécie, né, tão predadora como o Ailton colocou, não sentir diretamente o seu presente ameaçado, não vai entender quais são as consequências.

E aí, falando sobre a linguagem, é algo bastante difícil, né? É um grande desafio fazer essa conexão através das emoções e com que as pessoas, os seres humanos se preocupem com futuras gerações, né? Uma vez eu perguntei para um filósofo se existia sustentabilidade com relação à luz, à filosofia. Ele falou: “Não, não existe.” Assim, o ser humano se preocupa com o que ele tem aqui hoje. É um ser extremamente egoísta e predatório, então existe um pouco desse desafio, e esse desafio é trazer e devolver também pelo amor.

Tem um cientista maravilhoso, muito amigo aí do Ailton, que é o Antonio Nobre, que tem uma entrevista inclusive na National Geographic sobre isso, trazendo de novo como um conhecimento e a comunicação através do amor pode ainda nos reconectar com a importância de termos uma vida muita menos predatória e nos comportarmos talvez como apenas mais uma espécie nesse planeta.

André: É, eu sinto também que tem muita gente que lucra com o fim do mundo, né? Tem muita gente que está lucrando com toda essa devastação, e grande parte desse negacionismo também pode ter um pouco de origem nisso. O que você acha, Ailton? Por que você acha que apesar de estar tão escancarado, por que tanta gente ainda insiste em negar e querer recusar todas essas coisas que estão acontecendo?

Ailton: As pessoas vivem a urgência do dia a dia e não pensam sequer em qual o mundo que seus filhos vão experimentar, quanto mais duas ou três gerações depois. Então, pensar em um mundo a uma década já é um desafio quase que inimaginável quando você pensa na população do planeta, porque, daí, você está pensando em bilhões de pessoas. É como se você imaginasse um experimento, sei lá, uma bacia de água, onde você jogasse um elemento ativo ali naquela bacia de água e ele fosse causar uma cadeia de mudanças que vão ser espalhadas no corpo da água, mas não imediatamente, não simultâneo. Então, vai ter gente morrendo daqui a 20 anos por efeito de algo que podia ter sido corrigido 10 anos atrás.

O exemplo dos 40 anos para entender no campo do debate científico, aceitar a Teoria de Gaia e deixar de tratar isso como uma alucinação de alguns biólogos, de alguns naturalistas é bem representativo disso. Nós já estamos pagando a conta. Todo mundo que não acreditou há 40 anos já morreu ou está pagando a conta. Essa é que é a questão. Pode parecer muito crítica e extremamente negativa, né, no sentido do humano se constituir como uma capacidade ampla de entendimento, mas o que nós estamos constatando é que os humanos não pensam ao mesmo tempo sobre um mesmo problema. Agora, por exemplo, tem uma parte da humanidade que está extremamente ansiosa e insegura com relação a conflitos bélicos, guerras, mas têm outras que estão preocupadas com a bolsa de valores. Têm alguns que estão ganhando muito dinheiro, quer dizer, estão tendo muita vantagem não só econômica, mas política também com essa crise que coincide, uma crise de paradigma, uma crise sanitária, uma crise que a gente poderia chamar de “ambiental”, mas também tem uma crise de gestão do mundo, né? Ninguém iria contestar se a gente dissesse que o mundo está desgovernado, a não ser dois ou três sujeitos que governam o mundo. Então, esses sujeitos estão tendo uma vantagem enorme com os jogos de guerra e com a insegurança ambiental global. A insegurança ambiental global pode ser um elemento de vantagem para um pequeno clube de corporações e alguns bilionários, porque eles não controlam só dinheiro, eles controlam também tecnologias e controlam meios estratégicos de inclusive impedir que a comunicação seja feita de uma maneira unívoca, né, clara. Então, a comunicação entra toda truncada, quebrada.

Nós vivemos agora um tempo em que a informação gera mais desconfiança do que confiança. Quando você recebe uma informação direta sobre um evento que está acontecendo nos oceanos ou nas geleiras do planeta, a primeira reação não é acreditar que aquilo está acontecendo. A primeira reação é duvidar, e depois, dois, três dias depois, checando fontes, pesquisando, comparando, alguém muito esclarecido vai chegar à conclusão: “Ah, sim, aquela informação está correta. Não é fake news”. Então, nós estamos vivendo em um mundo onde a comunicação não é só a emissão, ela é também distribuição, interpretação, leitura, e o mundo não lê a mesma planilha, digamos. O mundo está experimentando uma espécie de abismo cognitivo.

André: Agora chegou o bloco em que a gente explora possíveis soluções e reflete sobre quais os caminhos que a gente deve seguir para reverter o quadro da crise climática e ter um futuro mais justo e sustentável. Paulina, a gente estava falando sobre comunicação, e o Ailton encerrou agora falando sobre comunicação. Você vive bastante disso aí no seu dia a dia. Além de comunicar, a gente precisa também sensibilizar, né? Tocar as mentes e os corações de quem ainda continua negando e menosprezando todos esses problemas que a gente falou. Eu queria perguntar, então, qual você acha que pode ser um caminho, uma melhor maneira de trazer cada vez mais pessoas para esse time, para essa luta?

Paulina: É... Na verdade, a comunicação, do meu ponto de vista, ela pode servir de ponte de aproximação, mas, sem dúvida, ela também é uma fonte hoje de confusão, né, em um momento hiperconectado, em um mundo hiperconectado, em uma sociedade hiperconectada que a gente vive. Eu acho que a gente tem pela frente - é o que eu venho desenvolvendo dentro do podcast ou dentro das entrevistas - é tentar olhar também o receptor dessas mensagens, o receptor dessas informações, e aí, eu falo como uma jornalista independente, né, que eu sou.

A gente tem diversos pontos de partida de quem está ouvindo, e eu tenho voltado muitas casinhas na questão de que eu chamo de uma “comunicação amorosa”, que é você tentar traduzir, aproximar as pessoas sobre o que precisa ser entendido ou compreendido para a situação do momento através da emoção. No áudio, a gente consegue fazer muito sobre isso. A audição foi o primeiro sentido que a gente desenvolveu. Ele tem ainda a questão afetiva muito próxima. A primeira comunicação foi feita pela tradição oral, se mantém culturas também, então acredito que uma comunicação com esse componente, com esse cuidado, com esse pensamento - e não estou falando só de profissionais de comunicação que podem fazer isso, estou falando da comunicação em geral -, cada pessoa que possa se comunicar e tenha essa vontade de se comunicar, que faça sempre pensando nesse interlocutor, em quem vai receber a mensagem, em como vamos poder ser mais amorosos ao passar essas informações para que a gente possa realmente ter um envolvimento emocional, um envolvimento... Eu não gosto de falar em “engajamento”, mas o sentido seria em relação a isso.

André: Total. Ailton, e além de comunicar e sensibilizar, tem algo bastante necessário nos dias de hoje, que é resistir, né? E eu gosto muito de uma fala sua que eu ouvi uma vez dizendo que as comunidades indígenas já resistem há 500 anos, né, e você quer ver como é que agora o homem branco vai conseguir resistir diante de tudo isso que está acontecendo. E no seu livro, Ideias para Adiar o Fim do Mundo, você fala sobre um conceito que eu acho muito interessante que é o de resistir com subjetividade, e eu queria que você contasse para a gente um pouco sobre isso, se você acha que esse pode ser um caminho de resistência para a gente.

Ailton: André, a ideia de resistir ampliando as nossas subjetividades implica também em um exercício de comunicar, porque você não pode se refugiar em uma ideia estética, em uma ideia sensível de poética da vida, de subjetividade que o afasta das necessidades essenciais do humano. Beber água, a água tem que ser limpa, a água tem que ser vida. Comer um alimento que não venha drogado, cheio de veneno, como crescentemente está acontecendo com a base alimentar do planeta, não é só daqui da América do Sul, é do mundo.

Então, se nós imaginamos uma subjetividade, ela deve ter a potência de interagir nesses campos das relações políticas globais, interferir decisivamente para mudar essa dominação, esse poder hegemônico do capital que come a terra, porque ao mesmo tempo que eu imagino os paraquedas coloridos com um dispositivo que amplia a subjetividade imaginária, eu também convoco uma responsabilidade coletiva pela qualidade da água, pela qualidade dos alimentos e pela apropriação imoral que o sistema global corporativo tem feito da gestão da vida no planeta.

A vida no planeta é alguma coisa sagrada, ela não pode ser apropriada por bancos, corporações, sistemas financeiros, governos corruptos. Esse sistema bélico não pode estar acima de uma ética da vida no planeta, então nós temos que desautorizar as lideranças políticas globais que em nome de nossa, digamos, permanência da vida aqui na Terra, se apropriam de um discurso bélico, tocam em frente a destruição do mundo em nosso nome. A gente tem que desautorizar essa gente.

André: Paulina, e seguindo isso que o Ailton estava falando sobre a importância de a gente pensar na gestão da vida na Terra, eu já ouvi você dizendo que a gente chegou em um ponto onde não basta só não desmatar mais, não destruir mais, zerar a emissão de carbono, por exemplo, como a gente tem ouvido muito. A gente precisa também começar a regenerar o que foi destruído, principalmente reflorestar a mata, restaurar o oceano. Eu queria que você contasse para a gente um pouco dessas soluções, o que você tem visto, o que você acha que poderia ser um caminho.

Paulina: Eu tenho visto, eu tenho escutado alguns desses caminhos, mas eu queria ressaltar primeiro a questão de um controle, de uma posição mais forte, de um envolvimento mais forte da sociedade no mundo todo, digo, na fiscalização do poder público, em quem está tomando conta. Se você olhar quem mantém um sistema produtivo que, no caso, está exaurindo o planeta, porque a gente está impondo essas histórias, a gente não tem esse envolvimento, e deveria ter esse envolvimento muito maior da sociedade nesse controle, nesse acompanhamento, nessa cobrança com relação ao poder público, afinal o planeta é de todos, e não só uns mais do que outros estão usando isso e poluindo isso.

Então, uma das soluções passa justamente pelos movimentos coletivos. Isso não vai ser feito por atitudes individuais só, mas, sim, por movimentos coletivos que possam levantar os interesses e as necessidades da nossa manutenção na Terra. Interesses, não, talvez não seja a palavra, mas, sim, da importância da nossa sobrevivência aqui na Terra. Talvez não seja importante para o planeta sobreviver, mas se a gente se entender como ser humano que quer, né... Eu ouvi uma vez uma pesquisadora que disse que a gente tinha que se comportar como uma espécie que quer deixar seus descendentes, e não é o que está acontecendo.

Mas de coisas que eu tenho acompanhado muito, existe um movimento muito grande com relação à regeneração de ambientes, e ele não passa só por reflorestamento, ele passa também pela conservação do que ainda está preservado, do que ainda a gente tem de florestas, nos oceanos, a biodiversidade, a gente está perdendo biodiversidade. Nós estamos matando a biodiversidade, estamos matando as florestas, estamos matando o oceano em uma velocidade muito grande. Então, a regeneração passa também pela conservação, passa também por esses movimentos que conseguem trazer essa proteção de nós mesmos, né? E também, então, reforçando a questão do reflorestamento, a gente tem diversas iniciativas no Brasil e no mundo que estão fazendo um trabalho de reflorestamento.

Recentemente, eu estive na região da Serra da Mantiqueira atrás de plantadores de água, então em uma região completamente exaurida que era de Mata Atlântica, onde foi destruído absolutamente tudo, mas fui atrás de algumas iniciativas de produtores que precisam daquela água, porque senão não têm como fazer, viver, manter a sua produção. Pequenas famílias começaram a reflorestar suas áreas, suas áreas de proteção permanente, e em dois, três anos, voltou a umidade no solo; em outras áreas, em 20 anos, já têm mais de 23 nascentes que reviveram. Então, o reflorestamento pode... É algo que todos nós podemos fazer e ele pode, sim, trazer alguma... Devolver um certo equilíbrio para a gente, né, para a nossa vida.

André: Bom, agora a gente vai para o nosso último bloco. “O que você faz importa” é uma campanha da National Geographic Brasil, que tem como objetivo engajar e conscientizar as pessoas sobre a importância das suas ações. Este é o nosso bloco de encerramento, e a gente vai sempre encerrar trazendo dicas do que podemos fazer na prática. Diante de tudo que a gente ouviu aqui hoje, fica claro que uma pessoa sozinha não vai conseguir resolver todos os problemas, mas a ação precisa começar de algum lugar, e esse não é um pensamento romântico, é um pensamento prático. Ações individuais importam na medida que elas tenham o potencial de nos aproximar da natureza, nos fazer refletir sobre o que estamos consumindo, o que estamos descartando, sobre os impactos de tudo que fazemos, e como isso pode acrescentar no nosso pensamento crítico. Mas é preciso pensar também como pegar as nossas ações individuais e transformar em algo coletivo, que possa se espalhar entre grupos para que virem micro e depois macropolíticas.

Ao longo dos episódios, a gente vai falar sobre várias ações. E para começar, eu queria falar sobre o verbo “engajar”. Talvez você não saiba por onde começar, mas existe já muita gente com projetos importantes super legais, e se interessar por esses projetos, participar, ajudar as pessoas, se engajar na divulgação, na comunicação pode ser uma forma importante de transformar a nossa consciência individual em um movimento coletivo. Além de projetos, você pode se engajar em comunidades, associações para conhecer realidades e necessidades diferentes da sua, colocar os seus privilégios a serviço realmente do mundo e dessa transformação que a gente precisa que aconteça. Então, Paulina, Ailton, a gente vai encerrar agora. Eu queria pedir as considerações finais de vocês, e se vocês quiserem indicar, recomendar alguma ação, algum projeto que vocês acham que seja importante e que as pessoas possam se engajar. Paulina.

Paulina: Bom, eu queria agradecer demais a oportunidade de estar aqui, de contribuir, de poder falar, mas principalmente de poder estar ouvindo e tendo uma troca de ideias com o Ailton, que, como você colocou, André, é uma das vozes mais importantes que a gente tem que ouvir atualmente no Brasil e no mundo. Como mensagem final, e de tanta coisa que eu tenho ouvido, eu, normalmente, né... Não está fácil realmente ver essa realidade de onde a gente chegou, então, normalmente, quando eu vou baixando a guarda assim, eu ligo, e falo, e entrevisto muitos jovens, muitas lideranças jovens, e também lideranças indígenas muito importantes aqui para aprender, para entender, para saber como é que a gente segue, né? E muitas delas, a maioria delas tem ensinado, e eu tenho tentado aprender que é alegria na luta.

É também uma forma de resistência, então trabalhar no coletivo, se engajar, se entender como um indivíduo que, integrando movimentos coletivos, pode conseguir muito mais coisas é muito importante. Trabalhar na regeneração de ambientes, o que quer dizer também trabalhar na proteção de ambientes, é muito importante. Então, eu queria deixar essa mensagem que, junto com tudo isso, como o Ailton já citou, o Davi Kopenawa disse: “Alegria na luta também é resistência.” Obrigada.

André: É isso. Obrigado a você. Ailton, querido.

Ailton: André, Paulina, vamos seguindo, né? Vamos seguindo com aquele sentimento de viver um dia de cada vez. O pensamento de viver um dia de cada vez podia ser representado por uma imagem, Paulina, André. Essa imagem seria: ao nascer do dia, nós recepcionamos um planeta pleno, cheio de todas as ofertas maravilhosas para a gente habitar esse jardim. Ao pôr do Sol, a gente tinha que ser capaz de olhar quanta luz desse planeta a gente consumiu para viver um dia. Um dia de cada vez.

André: Lindo, lindo. Muito obrigado.

André: É isso, pessoal. A gente encerra aqui o primeiro episódio do Nat Geo Podcast. E foi um grande prazer. Eu espero que vocês tenham curtido também. Vale lembrar que no site natgeobrasil.com, você encontra mais informações sobre ciência, viagem, história, meio ambiente. Siga a gente também nas redes sociais: @natgeobrasil e aqui, na sua plataforma de streaming preferida, para saber sobre os novos episódios. Como eu falei no início, este episódio está sendo lançado excepcionalmente em uma sexta, porque hoje é o Dia da Terra, que foi o tema do nosso episódio, mas daqui para frente, os próximos serão lançados às terças-feiras a cada 15 dias. O próximo vai cair no dia 10 de maio. Ah, e pode ficar à vontade para me mandar perguntas, dúvidas, sugestões e o que mais você quiser lá no meu Instagram: @carvalhando. Muito obrigado, até a próxima e lembre-se: O que você faz importa.

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