Os bastidores de um encontro com um crocodilo

Um santuário marinho cheio de vida, incluindo um crocodilo curioso. Um fotógrafo tem apenas segundos para decidir: intervir ou tirar uma foto?

Por David Doubilet, Jennifer Hayes
Publicado 27 de jun. de 2018 10:20 BRT, Atualizado 5 de nov. de 2020 03:22 BRT
Foto de David Doubilet

David Doubilet: O Parque Nacional Jardines de la Reina é um santuário marinho formado por um colar de chaves, ilhotas de mangue e recifes de cerca de 100 km no sul de Cuba. Em um trabalho anterior com minha esposa e parceira de fotografias, Jennifer Hayes, nós documentamos recifes de corais saudáveis cheios de peixes e tubarões e mangues patrulhados por crocodilos. Nós sabíamos que o tempo, o aumento do turismo e a mudança climática poderiam alterar o parque nacional de 1368 quilômetros quadrados – então, 15 anos depois, voltamos para ver como estava o local.

Estávamos em um canal de mangue fotografando Cassiopeia, também conhecida como água-viva invertida. Jennifer, de costas para mim, estava focada em um espécime acima dela. No canto do meu visor, eu vi um grande crocodilo americano passeando pelo rio. Quando comecei a tirar fotos dele, percebi que o crocodilo ia passar diretamente entre Jennifer e eu.

Comecei a fazer sons altos através de meu regulador e me mover na direção de Jen, disparei várias fotos com flash para avisá-la de que tínhamos companhia. Ela rapidamente percebeu meu sinal e se virou para ver nosso visitante.

Jennifer Hayes: Eu me vi cara-a-focinho com um crocodilo-americano. Ao mesmo tempo surpresa e feliz, eu o cumprimentei através do meu regulador.

DD: Ela me deu um sinal de que estava tudo bem e  falou alto “Olááá, bonitão!” enquanto se curvava para tirar seu retrato (mostrado acima). Fiquei maravilhado com a maneira como ela tratava o crocodilo com respeito, curiosidade calma e completa alegria. Ela se acomodou para capturar o momento sem pensar duas vezes.

JH: Não me senti ameaçada. Por vários dias eu observei esses crocodilos passeando, investigando as coisas do mangue, perseguindo os peixes por diversão e dormindo perto de nós. Muitos deles nadavam com mergulhadores diariamente. Eu me sentia familiarizada com seu comportamento – e eu tinha uma grande capa subaquática SEACAM que poderia servir de escudo se fosse preciso.

Mas eu quero deixar claro: Eu estava confortável com aquela espécie de crocodilo naquele lugar em particular, naquele momento em particular. Eu não me sentiria confortável com uma espécie mais agressiva, como um crocodilo-do-Nilo ou um crocodilo-marinho em outro ambiente.

DD: Quando as pessoas veem a imagem do crocodilo atrás da Jennifer, as reações incluem admiração, surpresa e horror. Mas depois e algumas fotos, o crocodilo, nem um pouco impressionado conosco, seguiu seu caminho e foi fazer coisas de crocodilo. Nós continuamos na nossa busca por águas-vivas.

JH: Muitas pessoas perguntam se eu não fiquei brava pelo David ter tirado a foto ao invés de tentar me “salvar”. Esta é minha resposta: Eu ficaria triste se ele não tivesse tirado as fotos. Eu era uma visitante no ambiente daquela criatura e ele ficou interessado em investigar. É isso que eu espero de um trabalho – Não sinto medo, mas sim alegria em ver uma criatura tão antiga.

DD: Sempre existe um risco no nosso trabalho. Jennifer e eu já desistimos de muitos mergulhos com animais agressivos – para a nossa segurança e para a deles. Mas esse encontro reforçou a boa notícia que nós vivenciamos no Jardines de la Reina. O crocodilo é uma espécie indicadora, um símbolo de um ecossistema marinho saudável que consegue suportar superpredadores (diferentemente de áreas degradadas e com muita pesca em outros lugares do Caribe).

Essa reserva é um sucesso de conservação porque ela é ativamente patrulhada e protegida. A diminuição de restrições de viagens vai acabar trazendo mais turistas – então, é muito importante manter um equilíbrio entre ecoturismo, exploração e conservação. Isso será possível se os visitantes adotarem a mesma filosofia que nós temos com o crocodilo curioso e todas as outras criaturas marinhas. Nós entramos no oceano sob os termos deles, não nos nossos.

A bióloga marinha Jennifer Hayes e o fotógrafo David Doubilet são colaboradores premiados. Doubilet é embaixador da Rolex e participante na nova parceria formada entre Rolex e National Geographic. Seu lema, “Comprometido com um Planeta Perpétuo”, reflete sua missão: promover conservação e exploração dos oceanos da Terra, polos e montanhas.

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