Múmias mais antigas do mundo entram em lista de patrimônios da Unesco

No deserto chileno, restos humanos artisticamente preservados são um símbolo de orgulho local, mas as mudanças climáticas ameaçam a existência desses artefatos.

Por Mark Johanson
Publicado 3 de nov. de 2021 12:32 BRT
As múmias produzidas pelos povos chinchorro, descobertas no início do século 20 no deserto do Atacama, ...

As múmias produzidas pelos povos chinchorro, descobertas no início do século 20 no deserto do Atacama, no atual território do Chile, e sítios arqueológicos associados foram recentemente incluídos à lista de Patrimônios Mundiais da Unesco. Um novo museu está sendo construído para guardar esses restos mortais e outros achados arqueológicos.

Foto de Martha Saxton, National Geographic Image Collection

Em 1917, o arqueólogo alemão Max Uhle estava pesquisando a costa do deserto mais seco do mundo quando encontrou uma coleção peculiar de restos humanos. Escavando o solo cor de cáqui, ele descobriu corpos deformados com varas e juncos, suas cabeças decoradas com perucas elaboradas e máscaras suntuosas de argila vermelha e preta. 

“Muitos cadáveres apresentam modificações corporais que foram realizadas após a morte, como a substituição da cabeça pela de outro cadáver, rachaduras remendadas no crânio e braços ou pernas de palha que substituem os membros originais”, escreveu Uhle. 

Esses humanos primitivos, descobertos no deserto do Atacama, perto da cidade de Arica, no Chile, viriam a ser conhecidos como múmias chinchorro. Os corpos de alguns dos primeiros caçadores-coletores — mais especificamente de populações que percorriam as costas do norte do Chile e do sul do Peru entre sete mil e 1,5 mil anos a.C. — seriam escavados, registrados e, posteriormente, esquecidos pelos 50 anos seguintes.

O Museu Arqueológico San Miguel de Azapa, na cidade de Arica, no Chile, pesquisa e trabalha na preservação das múmias chinchorro. A instalação atual do museu exibe apenas uma pequena parcela dos vestígios antigos; um novo museu arqueológico está em construção nas proximidades.

Foto de Ivan Alvarado, Reuters/Alamy

Esses povos indígenas, há muito desaparecidos, ganharam o centro das atenções. A Unesco incluiu as múmias e o assentamento chinchorro, no território atual do Chile, na lista de Patrimônios Mundiais, em julho de 2021. Um museu de última geração que terá o objetivo de preservar as múmias e exibi-las está em obras na cidade de Arica, uma pequena capital costeira conhecida pelo surf. As mudanças climáticas estão ameaçando a preservação das múmias; a dedicação e o trabalho de preservação — que poderão render frutos turísticos — podem ter iniciado na hora certa.

Por que as múmias mais antigas do mundo estão no Chile?

Diversos povos, da África à Ásia, mumificavam seus falecidos como parte de sua cultura por milhares de anos. As múmias chinchorro, porém, são as múmias produzidas intencionalmente por humanos mais antigas já encontradas — cerca de dois mil anos antes de os antigos egípcios começarem a envolver os faraós com bandagens. Essas múmias permaneceram sob monitoramento porque não foram enterradas em pirâmides enormes e não estavam relacionadas a sociedades construtoras de impérios com grandes ambições. Em vez disso, os chinchorros envolviam todos os membros da sociedade — não apenas a elite — em mortalhas de junco antes de humildemente enterrá-los em covas pouco profundas na terra árida.

“A maioria dos lugares que conhecemos que são Patrimônios Mundiais tendem a ser grandes sítios arqueológicos, como Machu Picchu”, observa Bernardo Arriaza, antropólogo da Universidade de Tarapacá que liderou a proposta da Unesco. “Os caçadores-coletores ficaram menos visíveis, e os sítios arqueológicos em si não chamam tanta atenção por não serem monumentais, então estão subrepresentados.”

O rio Camarones corta o deserto do Atacama, no Chile. Essa região árida é onde as primeiras múmias chinchorro foram desenterradas, no início do século 20.

Foto de De Agostini, Getty Images

Os chinchorros começaram a mumificar seus mortos há cerca de sete mil anos, nas proximidades de Caleta Camarones. A pequena vila de pescadores, a aproximadamente 99 quilômetros ao sul de Arica, é um ponto verde em meio à paisagem monocromática do Atacama. Cercada pelo vale onde o rio Camarones deságua no Oceano Pacífico, a cidade possui um vasto panorama de areia dourada, restaurantes de empanadas e túmulos chinchorros.

Ao longo de um trecho de estrada de 32 quilômetros que entra no Vale Camarones, os viajantes podem avistar a representação mais emblemática da cultura na área: seis estátuas contemporâneas monumentais do povo chinchorro, algumas medindo até cinco metros de altura. Elas foram construídas para chamar atenção para as múmias, que eram passadas despercebidas, ainda enterradas sob a terra marrom.

Foi nessa região que os chinchorros desenvolveram suas primeiras técnicas de mumificação, por volta de 5.050 a.C. Os então residentes do Atacama basicamente esfolavam os cadáveres, removendo músculos e órgãos antes de remodelá-los com varas, juncos e argila. Arriaza explica que o objetivo era dar volume aos esqueletos antes que os artesãos os costurassem usando pele humana ou de leão-marinho.

À esquerda: No alto:

Múmia de um menino deitada em uma esteira funerária de junco.

À direita: Acima:

O povo chinchorro usava máscaras de argila e pedaços de madeira para remodelar e decorar suas múmias.

Foto de Martha Saxton, National Geographic Image Collection

O antropólogo teoriza que os valores de arsênico natural no rio Camarones, cem vezes maior que os níveis de segurança modernos, podem ter causado o envenenamento acidental e a preservação de bebês durante a gestação, o que explica rituais cerimoniais dos chinchorro envolvendo os mortos. Grande parte das primeiras múmias são bebês e fetos. Ao transformar cadáveres apodrecidos em objetos ornamentais, eles poderiam se tornar “mestres dos mortos”, explica Arriaza, projetando uma sensação de imortalidade no falecido e permanecendo no luto muito depois de sua morte.

Onde encontrar as múmias

Para ver as múmias mais de perto, basta ir ao Museu Arqueológico de San Miguel de Azapa e ao pequeno Museu de Sítio Colón 10 em Arica, no trecho norte do Deserto do Atacama. A agradável cidade atrai surfistas com praias de areias escuras, amantes de história com os campos de batalha da Guerra do Pacífico e excursionistas para os parques repletos de vulcões nas partes mais altas da cidade.

Arica também é a cidade onde os chinchorros mais modernos e que viveram mais recentemente foram encontrados no início da década de 1980. A maioria foi desenterrada da colina do Morro de Arica, com 140 metros de altura. O Morro de Arica é uma imponente rocha cor de ferrugem com vista para o Oceano Pacífico. As múmias descobertas no local — 48 das quais podem ser vistas sob um piso de vidro no Museu de Sítio Colón 10 — eram tipicamente envoltas em pasta de cinza e manganês preto ou ocre vermelho, o que ajudou a preservá-las.

Um casal contempla a vista do Oceano Pacífico no Morro de Arica. Muitas múmias chinchorro foram descobertas em locais próximos ao afloramento rochoso.

Foto de Oliver Bolch, Anzenberger/Redux

A maior coleção do mundo de múmias chinchorro encontra-se nas proximidades do museu Azapa, que funciona desde 1967. As figuras, algumas tão pequenas e estilizadas que parecem bonecas de pano góticas, estão em exposição dentro de suportes brancos que lembram caixões tampados com vidro. Parecem até mesmo espantalhos de Halloween: torsos cheios de gravetos e juncos e rostos obscurecidos por máscaras assustadoras.

Existem cerca de 300 múmias na coleção Azapa, mas 90% não estão em exposição e ficam armazenadas em um depósito sem ar-condicionado ou controle de umidade. O novo museu em construção, avaliado em 20 bilhões de pesos chilenos (cerca de US$ 24,7 milhões), está programado para ser inaugurado em um terreno anexo até 2024. Ele terá cinco mil metros quadrados e manterá as múmias em níveis ideias de umidade, entre 40% e 60%.

Por que as mudanças climáticas ameaçam as múmias?

O clima seco do Atacama ajudou a preservar as múmias chinchorro por milhares de anos, mas algumas se deterioraram rapidamente na última década e ficaram com a pele derretida como uma gosma escura. De acordo com cientistas de Harvard, as mudanças climáticas estão fazendo com que microrganismos ataquem o colágeno das múmias.

As correntes mais fortes do fenômeno El Niño estão por trás do aumento de umidade na região, o que significa que as múmias estão em risco, seja conservadas no museu ou enterradas no deserto. Ao sul de Caleta Camarones, os residentes costumam avistar fragmentos de fibras, ossos e outros restos das múmias chinchorro despencando pelas colinas amarronzadas. Jannina Campos, arqueóloga dos sítios dos chinchorros, afirma: “toda vez que chove, o deserto fica cheio de ossos. Os moradores da região diziam que esse fenômeno só ocorria uma vez a cada 100 anos, mas, por causa das mudanças climáticas, precipitações estão acontecendo com mais frequência e cada vez mais fortes.

Em vez de remover os restos do local toda vez que chove, Campos simplesmente registra as múmias, anota suas coordenadas e as enterra de volta no solo hiperárido. “No momento em que esse material cultural é retirado de seu local, ele começa a se deteriorar”, diz ela, acrescentando que, até que o novo museu seja construído, não há espaço para armazená-lo.

“Um novo museu com condições ambientais equilibradas terá um efeito tremendo na preservação das múmias”, diz Mariela Santos, responsável pela curadoria e pelos museus da Universidade de Tarapacá. Ela espera que o novo museu e o reconhecimento da Unesco ajudem a transformar as regiões mais setentrionais de Arica e Parinacota, no Chile, em um novo centro de turismo cultural.

Nicolás del Valle, coordenador do programa de cultura para o Chile da Unesco, conta que os desenvolvimentos recentes são o início de um processo muito maior no Chile para valorizar a cultura chinchorro. “Há muito trabalho a ser feito”, explica ele, lembrando que, para expandir o conhecimento da cultura chinchorro pelo mundo, as pessoas que vivem na pátria ancestral desse povo precisam valorizar e compartilhar essa história.

Os residentes que moram ao lado dos sítios em Arica ainda se lembram de brincar com os crânios de chinchorros que encontravam em seus quintais nas décadas de 1960 e 1970. Agora, as pessoas têm um senso de propriedade. Existem restaurantes e hotéis com o tema chinchorro. Artistas como romancistas (Patricio Barrios), músicos (Grupo Raíces) e artistas plásticos (Paola Pimentel) se inspiram nas múmias chinchorro. E as pessoas que antes roubavam os túmulos sem ter conhecimento agora são os primeiros a relatar esse tipo de violação.

“Com o tempo, as pessoas pararam de considerar que os chinchorros eram apenas objetos de estudo científico e começaram a criar laços afetivos com os primeiros habitantes do deserto do Atacama”, diz Arriaza. “A comunidade se sente fortalecida; que essa é a própria herança e parte de sua identidade.” 

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