'Vilas brancas' da Andaluzia foram forjadas por epidemias passadas

Uma viagem por rotas do sul da Espanha mostra como as velhas tradições voltam à vida, já que existe uma curiosa relação entre a pandemia e o pitoresco aspecto dos 'pueblos blancos' da Andaluzia.

Por Jen Rose Smith
Publicado 18 de mar. de 2022 10:44 BRT
Village of Comares

Pueblos blancos como Camares, na foto, cobrem muitas colinas na Andaluzia, no sul da Espanha. Quando uma série de epidemias varreu a região entre os séculos 16 e 19, as casas foram branqueadas com cal hidratada para proteger contra doenças.

Foto de The Studio Under The Wall, Alamy Stock Photo

Vila brancas oscilam nas colinas espalhadas pelo interior da Andaluzia, na Espanha. Esses pueblos blancos, no entanto, oferecem mais do que a bela arquitetura. Eles foram construídos para defender as comunidades contra os invasores durante séculos de conflito.

Hoje, esses conflitos são parte do passado, mas a comunidade permanece: um pueblo blanco chamado Algar recentemente começou uma campanha para que a tradição local das charlas al fresco (ou 'conversas ao ar livre') seja reconhecida como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco.

Essa honra reconhece a importância de crenças, costumes e habilidades como a dança, a preparação de alimentos e o artesanato intrínseco a culturas e lugares específicos.

“Todos trazemos cadeiras para a rua e nos juntamos a nossos amigos e vizinhos. Isso acontece desde tempos imemoriais", diz o prefeito de Algar, José Carlos Sánchez, que nasceu e cresceu nesta comunidade andaluz de apenas 1.442 pessoas. “É uma coisa especial, ver pessoas velhas e jovens sentadas na rua juntas.”

Escondido no vale das montanhas da Serrania de Ronda, o pueblo blanco de Ubrique é uma das 19 aldeias brancas espalhadas pelo sul da Espanha.

Foto de M. Ramirez, Alamy Stock Photo

Esse bate-papo prolongado e comunitário tem o poder de superar as divisões sociais e políticas e unir a comunidade para compartilhar notícias, comenta o prefeito, que fez o pedido à Unesco no verão passado. Quando a pandemia permitiu, os moradores vestiram suas máscaras e retomaram as conversas na rua.

Ainda assim, cada vez menos pessoas estão se juntando à socialização na rua à noite, mais atraídas pelas plataformas online, diz Sánchez. Uma viagem pelos pueblos blancos da Andaluzia não só revela uma terra uma vez presa entre reinos medievais em guerra, mas também um modo de vida ameaçado pelas mudanças rápidas das normas sociais.

A história das vilas brancas da Andaluzia

Algar é um dos 19 pueblos blancos nesta região mais ao sul da Espanha. No final da Idade Média, essas cidades formaram uma fronteira disputada.

Ao norte estavam os reis cristãos, ansiosos por reconquistar a Península Ibérica. Eles enfrentaram o Reino Nacérida de Granada, um emirado mouro governado desde o magnífico Palácio da Alhambra.

[Granada, uma antiga cidade de sultões, é uma maravilha do século 21]

O emirado se rendeu às forças cristãs em 1492, mas os mouros de língua árabe deixaram seu legado arquitetônico gravado na paisagem.

Foi provavelmente na era islâmica que as vilas da Andaluzia começaram a adquirir a tonalidade branca, explica Eduardo Mosquera Adell, que estuda arquitetura histórica na Universidade de Sevilha, na Espanha, e observa que o estudioso árabe-andaluz do século 14 Ibn Khaldun descreveu um método para fazer pintura branca a partir da cal hidratada.

Calçadas de pedras decoram as ruas de Frigiliana, um pueblo blanco conhecido pela sua história moura.

Foto de imageBROKER, Alamy Stock Photo

A cal ajudava a manter as casas frias durante o verão andaluz, diz Mosquera, e, com o tempo, a cor também passou a ser associada à higiene.

Quando uma série de epidemias de doenças como a cólera e a febre amarela varreu a região entre os séculos 16 e 19, as casas foram pintadas com cal e a decisão pode, de fato, ter realmente ajudado: há estudos que mostram que a cal mata as bactérias que causam a cólera.

Resistindo ano após ano às doenças, algumas vilas da Andaluzia lentamente adotaram permanentemente o branco puro, que ainda brilha sob o sol do sul da Espanha durante todo o ano.

O que há para ver na rota dos pueblos blancos

Hoje, as aldeias brancas da Andaluzia também são motivo de orgulho cultural. A produção tradicional da cal andaluz recebeu o reconhecimento da Unesco em 2011, e o Museu de Cal de Morón, ao sudoeste de Sevilha, mostra aos visitantes o processo de produção artesanal.

A Igreja de Nossa Senhora da Encarnação, uma das mais famosas da Andaluzia, e o castelo árabe do século XII dominam o horizonte de Olvera.

Foto de Diego Grandi / Alamy Stock Photo

“Esse tipo de reconhecimento pode conscientizar as pessoas sobre o patrimônio compartilhado da comunidade”, reflete a antropóloga Gema Carrera Díaz, diretora do Atlas do Patrimônio Imaterial Andaluz.

Embora a pintura industrial tenha suplantado em grande parte a cal na Andaluzia, Carrera diz que a designação da Unesco ajudou a estimular um reavivamento. “É muito importante do ponto de vista educacional.”

Para ver o quão espetaculares as aldeias brancas podem ser, vale a pena alugar um carro e ir para as colinas. Ligados por um emaranhado de estreitas estradas de montanha, os pueblos blancos da Andaluzia convidam a viagens de lazer que revelam os modos tradicionais de vida que perseveraram aqui.

[Milhares de pessoas vivem nessas antigas cavernas na Espanha]

Inicie a viagem no canto nordeste da região dos pueblos blancos, onde filas de oliveiras de folhas prateadas se estendem para além da aldeia montanhosa de Olvera. De lá, uma curta viagem leva a Setenil de las Bodegas, onde as casas históricas foram construídas diretamente em uma série de falésias.

Dezenas de restaurantes se instalaram nas cavernas de Setenil de las Bodegas, na Espanha.

Foto de agefotostock, Alamy Stock Photo

A paisagem se torna selvagem à medida que a estrada ruma para sudoeste, no Parque Natural Sierra de Grazalema, em direção a Zahara de la Sierra, uma pequena vila que aproveita ao máximo o seu espetacular cenário no topo de um promontório rochoso.

É preciso ziguezaguear sobre a alta passagem do Puerto de las Palomas para chegar a Grazalema, uma vila pastoril famosa pelos queijos envelhecidos de ovelha e roupas de lã.

Quando os picos das montanhas dão lugar a fazendas encostadas na face do morro, você terá chegado a Algar, o belo pueblo blanco onde as charlas al fresco ainda animam as noites de verão.

O futuro das conversas ao ar livre em Algar (e na Andaluzia)

Esses bate-papos coletivos ao ar livre não são exclusivos de Algar, adverte Carrera. “É uma tradição que você vê em muitas partes da Andaluzia e em todo o Mediterrâneo”, comenta. “Os verões são muito quentes, então as pessoas sempre saíam para se refrescar, e as culturas aqui valorizavam muito a socialização.”

Essa integração ao ar livre diminuiu à medida que os carros tomaram conta das ruas da cidade, lamenta Carrera, observando que o ar condicionado e a tecnologia moderna também contribuíram para a mudança dos padrões sociais.

Mas, quando se trata de preservar o patrimônio, continua Carrera, os costumes não precisam ser singulares para serem dignos de reconhecimento. É mais significativo que eles sejam representativos, como neste caso.

Para uma aldeia como Algar, o processo de solicitação de reconhecimento da Unesco pode ajudar a sustentar um modo de vida tradicional. Pode desencadear conversas sobre valores compartilhados e sobre quais são os costumes que devem ser protegidos nos anos seguintes.

“Especialmente em um momento como este, em uma pandemia, quando tanta coisa está mudando e tantas relações sociais estão se transformando, isso pode ter um efeito importante nessa comunidade”, diz Carrera. “As pessoas começam a se orgulhar de uma prática que, então, ganha um novo valor.”

A campanha do prefeito da Algar pelo reconhecimento da Unesco não significa apenas olhar para trás. Sánchez também espera que o esforço traga energia renovada para uma cidade tranquila, sobre a qual poucos estrangeiros, e até mesmo poucos espanhóis de cidades próximas, estão familiarizados.

Ele quer que a aldeia seja conhecida pela sua hospitalidade, adiciona Sánchez, insistindo que os viajantes são bem-vindos a participar.

Por enquanto, o pedido à Unesco continua pendente. O processo de reconhecimento pode levar anos. No Algar, porém, Sánchez já viu resultados.

“Depois que lancei a campanha da Unesco, vi um carro parar numa noite de verão e dois estranhos saíram com um par de cadeiras de praia”, diz ele, rindo da anedota.

O prefeito ficou entusiasmado que dois forasteiros ouviram sobre a tradição e vieram participar.

“Venha a Algar para um bate-papo no próximo verão”, disse Sánchez. “Você pode até trazer uma cadeira de praia.”

Com sede em Vermont, Estados Unidos, a escritora de viagens Jen Rose Smith cobre aventuras ao ar livre, lugares remotos e culinária tradicional para a CNN, o Washington Post, o Outside e outros. Siga-a no Instagram.

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