Ouriça albina sobrevivente de incêndio é símbolo da resiliência do Cerrado

Durante os incêndios que devastaram o Parque Estadual do Juquery, na Grande São Paulo, uma improvável sobrevivente chamou atenção: uma fêmea de ouriço-cacheiro albino.

A fêmea de ouriço-cacheiro Coendou spinous albina foi encontrada em uma das poucas árvores que sobrevirem ao incêndio que consumiu cerca de 60% da área do Parque Estadual do Juquery, na Grande São Paulo, em agosto de 2021.

Foto de Fernando Faciole
Por Gabi Di Bella
fotografias de Fernando Faciole
Publicado 25 de mai. de 2022 18:09 BRT, Atualizado 3 de jun. de 2022 17:59 BRT

Era agosto de 2021 quando as chamas tomaram conta do Parque Estadual do Juquery, em Franco da Rocha, o último trecho significativo de Cerrado preservado na Grande São Paulo. O incêndio teve como faísca a queda de um balão sobre uma árvore de eucalipto. Naquela tarde de domingo, o tempo seco, os mais de 30 dias sem chuva e o vento forte ajudaram a alastrar rapidamente as chamas. “O balão caiu no lugar errado na hora errada”, contou à reportagem Adriano Candeias de Almeida, 35 anos, geógrafo e administrador do parque à época. “Devido ao cenário de estiagem, tudo queimou muito rápido; ficamos com uma horrível sensação de impotência.”

Começava ali uma jornada de combate às chamas que uniu cerca de mil pessoas – entre bombeiros, guardas civis, funcionários do parque, biólogos, voluntários e 15 caminhões pipa. “Um homem apareceu aqui com um fusca azul cheio de baldes com água”, diz Adriano. “Falei para ele: ‘Com o balde você não pode chegar perto do fogo, mas a sua água eu quero, peguei a bomba e usamos tudo que ele trouxe.’”

E foi, em meio a este cenário de luta contra o fogo que, durante uma varredura em busca de carcaças de animais, foi encontrada uma pequena bola branca de pelos em uma das poucas árvores que não foram queimadas. 

Era uma pequena fêmea de ouriço-cacheiro, Coendou spinosus, ainda filhote, albina, que milagrosamente conseguiu escapar do fogo. “Eu vi a pequena bola na árvore e, de primeira, não consegui identificar o que era”, conta o biólogo e fotógrafo Fernando Faciole, que acompanhou e registrou o trabalho como voluntário e cujas fotos ilustram esta reportagem. “Depois de constatarmos que era um filhote, ainda fizemos uma busca pela mãe, pois com essa idade ele ainda deveria estar acompanhado, mas não a encontramos.”

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Com 2 mil hectares, o Parque Estadual do Juquery preserva o último fragmento de Cerrado da região Metropolitana de São Paulo.

O animal recomeçou a vida no Centro de Manejo de Animais Silvestres (Cemacas). A pequena bolinha branca, pesando 322 g, com fuligem nos olhos e narinas e pequenas lesões no pulmão passou aos cuidados da veterinária Melissa Prósperi Peixoto, que atua no Cemacas há 12 anos.

“Nos primeiros dias, eu a levava para casa, porque ela precisava de atendimento 24 horas. Rapidamente aceitou ser alimentada. Demos leite de cabra com gema de ovo e creme de leite. Depois começamos a ofertar folhas”, conta Melissa. Ela ficava na caixa de transporte, e o contato humano era evitado na medida do possível. “Nós não sabemos se o animal vai voltar para o seu habitat ou não. Então temos que manter uma distância para eles não se acostumarem com a gente.”

A tratadora viveu o desafio de trabalhar empiricamente, pois há pouco estudos sobre seus hábitos ou preferências. “Há poucas informações, seguimos o que sabemos sobre o ouriço preto e vamos testando se as coisas funcionam, seguimos isso e vem dando certo”, explica Melissa.

Após sete dias dormindo na casa de Melissa, a ouriça passou aos cuidados do berçário do Cemacas, coordenado por Elisete Maialu Giacomin de Lima, engenheira florestal e analista de meio ambiente. “Identificamos que era uma fêmea, uma ouriça albina pelas características da pele e do focinho rosado, dos olhos vermelhos e dos espinhos brancos, que agora ganharam um tom mais cinza”, diz Elisete. A pequena órfã passou a ter duas mães, que demoraram a escolher o nome da cria.

[Relacionado: Como agricultores do país mais pobre do mundo plantaram 200 milhões de árvores]

O incêndio de agosto de 2021 no Parque Estadual do Juquery mobilizou uma equipe de quase mil pessoas – entre bombeiros, guardas civis, funcionários do parque, biólogos, voluntários – e 15 caminhões pipa.

À esquerda: No alto:

Avião joga água para tentar controlar incêndio no Parque Estadual de Juquery em agosto de 2021.

À direita: Acima:

Patrulha canina ajudou a procurar por carcaças de animais após o incêndio no Juquery.

fotografias de Fernando Faciole

“Ela ficou um bom tempo sem nome, até conseguirmos definir se era fêmea ou macho, ficou Ipê, porque ela é do cerrado e amarelinha”, conta Elisete. “Minha filha queria que fosse Frozen!”, ri Melissa. Cuidada com carinho, Ipê engordou e cresceu – está com 1,5 kg. Devido à fragilidade por ser albina e aos efeitos do fogo, Ipê tem dificuldades para enxergar, o que não permite seu retorno à natureza. Agora ela depende de cuidados e deve viver em algum de santuário para animais.

A ecologia do fogo e os perigos do incêndio

Ipê, obviamente, arrebata corações, mas a experiente pesquisadora do bioma Cerrado, Giselda Durigan, engenheira florestal e pesquisadora do Instituto de Pesquisas Ambientais da Universidade de São Paulo, lembra que precisamos sempre pensar fora da perspectiva antropocêntrica (visão humana), compreendendo a ordem natural das coisas. Inclusive em relação ao fogo, um elemento importante para a sobrevivência do próprio Cerrado.

Após anos de estudos e coletas de dados, Durigan afirma ter certeza de que o fogo é essencial no ciclo de renovação de diversas espécies do Cerrado, mas faz ressalvas. “Quando não existiam humanos aqui, um raio caía e pegava fogo em uma determinada área; logo vinha uma chuva e apagava”, explica Duringan. “A fauna entrava nos buracos, ou se deslocava para áreas vizinhas, esperava o fogo passar e tudo continuava normalmente. Só que hoje está tudo fragmentado. Então, se você queimar o Juquery inteiro, para onde a fauna daquelas áreas abertas vai fugir?”

À esquerda: No alto:

O biólogo Danilo Garzillo atende um lagarto sobrevivente.

À direita: Acima:

Ouriço-cacheiro encontrado no incêndio é atendido por veterinários.

fotografias de Fernando Faciole

O Parque Estadual do Juquery é praticamente uma ilha, onde se observa a transição entre o Cerrado e a Mata Atlântica em meio à urbanidade. “Mais importante do que ter essas áreas protegidas é ter conexão entre elas”, explica Adriano, o ex-admnistrador do parque. “A longo prazo, há empobrecimento genético, os animais ficam mais frágeis, as árvores não conseguem trocar sementes, então nós temos que pensar também nesses corredores ecológicos.”

Apesar de entender que também é importante respeitar a seleção natural, Adriano conta que encontrar Ipê lhe deu esperança. “Quando a vi, me deu um alívio, pensei que é por isso que lutamos.”

No Cerrado, há uma diferença importante entre fogo e incêndio. “O fogo que ocorre de forma natural ou o controlado, realizado de forma prescrita, na época de chuva, é bom, mas o incêndio sem controle é um problema”, diz ele. “Este tipo de incêndio que temos que correr para apagar tem um impacto não só na fauna e na flora, mas na saúde e na qualidade de vida de quem vive no entorno.”

A pesquisadora Giselda Durigan alerta que o manejo do fogo nas áreas de Cerrado evita incêndios sem controle na época errada. “Temos que queimar um pedaço a cada ano. Queimando a biomassa agora, quando o fogo vier ele não consegue se expandir onde não há capim seco”, explica Giselda.

A médica veterinária Luciana Guimarães Santana, à esquerda, responsável pela operação de resgate de animais, e Douglas Paschoaleti, membros do Grupo de Resgate de Animais em Desastres, carregam a caixa com a ouriça resgatada.

À esquerda: No alto:

Quando filhote, a ouriça albina foi alimentada com leite de cabra, gemas de ovos e creme de leite.

À direita: Acima:

Pouco mais de um mês depois de ser resgatada, a ouriça já se alimentava de folhas.

fotografias de Fernando Faciole

O ouriço-cacheiro Coendou spinosus é uma espécie arborícola e pode ser encontrada no Sudeste e Sul do Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai.

Mas ela também avisa que a população precisa compreender que no período que o Cerrado está se recuperando das cinzas não se deve plantar árvores exóticas ou transformar a área em plantação de soja, por exemplo. “O fogo não destrói o Cerrado, ele passa e tudo que está lá rebrota e floresce, aliás com muito mais vigor do que antes, faz parte dos processos ecológicos”, diz ela. “Na hora que você fala que o fogo destruiu o Cerrado, as pessoas vêm desesperadas querendo plantar mudas porque acham que tudo acabou, e isso não é verdade.” 

Mudanças e recuperação

A reportagem visitou o parque cerca de seis meses após o incêndio, e foi fácil constatar a recuperação do bioma. Os campos estavam verdes e um observador mais distraído nem notaria os sinais, ainda presentes, do incêndio. O mesmo não se pode falar dos trechos de Mata Atlântica, que talvez nem se recuperem. O atual administrador do parque, o geógrafo Chico Honda, que assumiu o cargo em dezembro de 2021, agora enfrenta o desafio de manter a reserva protegida. Ele destaca que são realizados atividades e passeios na área. “O Cerrado é um grande produtor de água, aqui temos 60 nascentes, boa parte delas abastece a capital, as pessoas precisam conhecer para respeitar”, explica Chico.

O estreitamento de laços com a população do entorno é um trabalho considerado muito importante pelos administradores. Para Adriano, ex-administrador, é necessária uma mudança de base que coloque a educação ambiental no mesmo patamar das classes de português e matemática. “Hoje vários médicos estão receitando banho de floresta para quem tem síndrome do pânico, por exemplo”, diz ele.

À esquerda: No alto:

Parque Estadual do Juquery logo após o incêndio de agosto de 2021.

À direita: Acima:

A mesma área seis meses depois dá claro sinais de recuperação.

fotografias de Fernando Faciole

Chico Honda, administrador do parque estadual, se prepara para a temporada de incêndios de 2022 – de abril a setembro.

Mas enquanto essa mudança de mentalidade não vem, Chico Honda se prepara para a próxima época de seca – de abril a setembro em São Paulo –, quando podem ocorrer incêndios piores, inclusive por causa do lançamento de balões, que apesar de ilegal e perigoso, segue sendo praticado por moradores da região. Adriano agora administra, como gerente, 28 unidades de conservação no estado. Ele espera, sem otimismo, que esta temporada não seja tão ruim. “Depois de tudo que passamos”, diz ele, “no mesmo dia que conseguimos apagar o fogo a guarda municipal deteve pessoas do outro lado da rua do parque lançando mais um balão.”

Quem também espera por uma temporada tranquila de seca é Ipê. A visitamos em um fim de tarde chuvoso em seu recinto no Cemacas. Tímida (ou talvez com medo do cheiro de alguém desconhecido), ela saiu de sua toca atrás das nozes que Elisete trazia para alimentá-la. Com delicadeza, pegou e roeu rapidamente uma a uma. “Os frutos secos são o que ela mais gosta, depois que descobri isso eu mesma compro e trago para ela”, conta Elisete.

Em poucos minutos, Ipê comeu e voltou para a toca – não deu muita atenção aos novos visitantes, afinal, ainda não era um momento muito ativo para o animal de hábitos noturnos. “Se, ao longo da evolução, tivesse alguém se esforçando para que todos os bichos fofinhos sobrevivessem, as espécies não teriam evoluído. Pensando friamente, a gente não poderia ter essa compaixão pelos fraquinhos pobrezinhos”, reflete a pesquisadora Giselda. “Mas, mesmo assim, ainda bem que eu não vi, porque, se eu visse, ia querer trazer para casa.”

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