Ave extremamente rara entra para a arca de animais ameaçados

A 13.000ª imagem da Arca de Fotos da National Geographic é o maçarico-bico-de-colher, uma ave limícola criticamente ameaçada, conhecida por sua migração espetacular.

Por Christine Dell'Amore
Publicado 29 de jul. de 2022 12:44 BRT
Um maçarico-bico-de-colher persegue um grilo no Slimbridge Wetland Center, na Inglaterra.

Um maçarico-bico-de-colher persegue um grilo no Slimbridge Wetland Center, na Inglaterra.

Foto de Joël Sartore National Geographic Photo Ark (268220)

Em seu aniversário de 60 anos, em 16 de junho, o fotógrafo Joel Sartore comemorou com outro marco: fotografar a 13.000ª espécie na Arca de Fotos da National Geographic.

Ele capturou fotos e vídeos do maçarico-bico-de-colher. Criticamente ameaçado, trata-se de uma ave costeira da Europa e da Ásia com um curioso bico em forma de colher. O fotografado em questão encontra-se no Slimbridge Wetland Center, na Inglaterra.

Os cuidadores das aves passaram mais de um mês treinando os animais para andar em um quadro negro cobrindo-o com areia (para imitar seu habitat natural) e alimentando-os com grilos bebês.

Sartore fotografou as aves com o tradicional fundo da Arca de Fotos, em preto ou branco, o que coloca todas as espécies em pé de igualdade, por assim dizer.

“A maioria dos animais com os quais compartilhamos o planeta não são tigres, gorilas, ursos polares ou girafas”, diz Sartore. “São coisas pequenas como as toupeiras-nariz-de-estrela, vermes, salamandras e tartarugas. São animais que fazem o mundo girar e, com esse processo de retrato, damos a todas as espécies uma voz igual.”

Criaturas grandes e pequenas são o foco da Arca de Fotos, que visa destacar as 35,5 mil espécies de plantas e animais que estão prestes a desaparecer para sempre

O maçarico-bico-de-colher é a segunda ave a servir como marco da Arca de Fotos – o primeiro foi o condor-da-califórnia, a milésima espécie a ser fotografada. A 12.000ª, anunciada em novembro de 2021, foi a cobra-árabe.

Devido às atividades humanas, em particular à caça, perda de habitat e mudanças climáticas, a população de maçarico-bico-de-colher diminuiu 90%, e apenas cerca de 100 a 150 casais reprodutores permanecem na natureza, diz Jonathan Slaght, diretor de conservação do Programa Russo da Sociedade de Conservação da Vida Selvagem.

“Os maçaricos-bico-de-colher são os canários da mina de carvão do Leste Asiático: se sucumbirem à extinção, muitos outros provavelmente também o farão”, disse Slaght à National Geographic, por e-mail.

Uma ave sob ameaça 

Essas aves mudam de cor de acordo com a estação. No inverno, elas são principalmente brancas com manchas marrons. Durante a época de reprodução ativa, ficam com um visual mais chamativo: a cabeça e tórax ficam “vermelho tijolo, como se tivessem sido mantidos de cabeça para baixo e mergulhados em tinta”, detalha Slaght.

A razão para o bico incomum é desconhecida, mas o cientista David Sibley observou os pássaros usando seus bicos como para mover neve ou lama e depois se alimentar de vermes, camarões ou outros pequenos invertebrados que surgissem.

Essas aves do tamanho de um pardal realizam uma migração impressionante, reproduzindo-se no Ártico russo, depois migrando para o sul, ao longo da costa da Eurásia, e invernando no sudeste da Ásia. Eles fazem paradas para descanso em zonas entremarés ao longo da costa da Ásia, particularmente no Mar Amarelo.

Esta jornada tornou-se muito mais difícil, pois entre 50 a 80% das zonas húmidas costeiras foram perdidas nesta região durante os últimos 50 anos para o desenvolvimento humano, barragens de rios, geração de energia e espécies de gramíneas invasoras, explica Slaght. “Isso concentra mais pássaros em menos habitat, muitas vezes com recursos alimentares degradados.”

Além do mais, metade da população global passa o inverno nos lodaçais do sul de Mianmar, onde caçadores de subsistência os capturam em redes e os vendem como alimento em mercados de beira de estrada por menos de um dólar.

Com o Ártico em rápido aquecimento, as mudanças de estações e temperaturas estão interferindo nos ciclos de vida das espécies. Um exemplo disso é que primaveras mais curtas estão dando às aves menos tempo para se reproduzir.

Mas há grandes esforços em andamento para aumentar os números da ave. A força-tarefa maçarico-bico-de-colher coordena o trabalho de pesquisadores, cientistas cidadãos e observadores em toda a extensão da espécie para maximizar seu impacto na conservação, de acordo com Slaght. 

Em 2020, a Rússia anunciou a criação do Parque Natural do Sandpiper, em Chukotka, uma reserva de 15 mil quilômetros quadrados que abriga a maior população conhecida de aves reprodutoras, embora nenhuma ação tenha sido tomada desde então. 

Além disso, o Slimbridge Wetland Centre, a única instalação do mundo a abrigar maçaricos-bico-colher em cativeiro, avançou na forma de incubar e criar filhotes desta ave e lançou um programa experimental de reprodução em cativeiro.

“Este pássaro tem a sorte de ser tão fofo, porque isso realmente chamou muita atenção para tentar salvá-lo”, comenta Sartore. 

Corrida contra o tempo

Sartore havia inicialmente estabelecido a meta de catalogar 15 mil espécies quando lançou o Arca de Fotos em 2006, mas agora pretende listar 20 mil nos próximos 10 a 15 anos. “Gostaria de ter começado há 20 anos”, conta.

As próximas viagens fotográficas o levarão à Áustria e à República Tcheca para fotografar peixes e mamíferos de água doce, como a doninha-siberiana. Depois, ao estado americano de Minnesota para clicar primatas e, por último, em Ontário, no Canadá, para carneiros-de-dall. 

O que motiva Sartore, diz ele, é o conhecimento de que muitos animais são extintos todos os dias. “Muitas dessas espécies vão e vêm antes mesmo de conhecê-las.”

A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho do explorador Joel Sartore. Saiba mais sobre o apoio da Sociedade aos Exploradores que destacam e protegem espécies críticas.

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