Arqueólogos solucionam mistério dos “cones de cabeça" do Egito antigo

Durante muito tempo, pesquisadores procuraram entender a função e o significado dos acessórios pontudos retratados na arte egípcia – e a resposta foi finalmente encontrada.

Tuesday, December 24, 2019,
Por Erin Blakemore
Mulheres em uma cena de banquete de 3,3 mil anos atrás são retratadas usando objetos de ...
Mulheres em uma cena de banquete de 3,3 mil anos atrás são retratadas usando objetos de formato cônico sobre suas cabeças. Essas representações eram comuns no Egito antigo, levando a especulações sobre o fato de os cones serem uma simbologia artística, como uma auréola, ou um objeto real com função prática.
Foto de Werner Forman, Universal Images Group/Getty

A arte egípcia antiga está repleta de imagens de pessoas em rituais com cones pontudos em suas cabeças. Homens e mulheres são mostrados com cones de cabeça em vários tipos de representações artísticas, desde papiros até sepulturas, portando os objetos pontudos durante banquetes reais e rituais religiosos. Mulheres usando os cones às vezes também são ilustradas durante o parto, um momento associado a certos deuses.

Por mais de mil anos, esses cones de cabeça foram retratados com frequência na arte egípcia, mas sua função e existência continuavam sendo um mistério. Nenhum arqueólogo jamais encontrou nenhum desses objetos misteriosos, levando alguns estudiosos a acreditar que os cones de cabeça egípcios eram apenas representações simbólicas — assim como as auréolas sobre as cabeças de anjos e santos na iconografia cristã.

Recentemente, um grupo internacional de arqueólogos encontrou a primeira prova material da existência dos elusivos acessórios de cabeça, conforme um novo artigo publicado na revista científica Antiquity.

A descoberta vem dos cemitérios de Amarna, uma cidade egípcia antiga cujos templos foram erguidos por Aquenáton, um faraó que se acredita ser o pai do rei Tutancâmon. A cidade de cerca de 30 mil habitantes foi construída às pressas no século 14 a.C. e foi importante por apenas 15 anos, aproximadamente. A nobreza abastada, que era sepultada em tumbas suntuosas, representava apenas 10% da população, os demais eram pessoas comuns que eram enterradas em covas modestas. Foi nessas covas, que geralmente não contêm muitos itens de valor, que membros do Projeto Amarna, liderado pela Universidade de Cambridge e financiado pela National Geographic Society e outras instituições, encontraram pela primeira vez vestígios de cones de cabeça em 2009.

Ainda que já tenha se passado uma década desde as escavações, Anna Stevens, arqueóloga da Universidade Monash, diretora adjunta do Projeto Amarna e codiretora de pesquisas em cemitérios populares da cidade, se recorda do dia em que o primeiro cone foi encontrado. "Acho que encontrei um daqueles cones de cabeça!", anunciou a colega de equipe, Mary Shepperson. Quando Stevens examinou o local, viu um indício do artefato na parte superior do crânio de um esqueleto feminino.

A cova de uma mulher adulta em Amarna, no Egito, com um objeto de cera de formato cônico colocado sobre a cabeça.
Foto de the Amarna Project, Antiquity Publications Ltd  

"Era algo bastante peculiar que nunca havíamos visto em nenhuma outra cova", afirma Stevens. Mas o objeto pontudo era muito parecido com o curioso adorno de cabeça retratado na arte egípcia, que alguns estudiosos menosprezaram como sendo uma mera decoração artística. Uma outra cova de um adulto, que não pôde ser identificado como homem ou mulher, revelou outro cone de cabeça.

Os estudiosos levaram quase uma década para obter financiamento e concluir uma minuciosa investigação dos cones de cabeça, o que lhes possibilitou testar outra teoria popular sobre os objetos inusitados: que os cones de cabeça seriam amontoados sólidos de banha perfumada que derretiam sobre a cabeça das pessoas e funcionavam como uma espécie de gel de cabelo aromatizado naquela época.

As descobertas de Amarna contradizem a antiga teoria do produto de beleza. Os cones não eram sólidos — eram cascas ocas enroladas em matéria orgânica de cor marrom-escura, que o grupo acredita ser tecido. Ambos os cones de cabeça tinham assinaturas químicas de cera decomposta. O grupo concluiu que eles foram feitos com cera de abelhas, a única cera biológica que, conhecidamente, era utilizada pelos antigos egípcios. Além disso, nenhum vestígio de cera foi encontrado no cabelo do esqueleto mais bem preservado.

Dada a associação artística dos objetos ao parto, e o fato de que ao menos um dos espécimes era uma mulher adulta, o grupo sugere que os cones têm alguma relação com a fertilidade. Porém, o fato de terem sido encontrados em um cemitério popular dificulta a interpretação do verdadeiro significado.

Na iconografia egípcia, as pessoas representadas utilizando os cones de cabeça eram, em sua maioria, da nobreza, apesar que algumas poderiam ser servas, diz Nicola Harrington, arqueóloga da Universidade de Sydney. As tumbas de Amarna têm menos ilustrações que outros locais de sepultamento, mas diversas imagens mostram pessoas utilizando os cones enquanto se preparam para funerais e oferendas. "Basicamente, [os cones] eram utilizados na presença do divino", ela afirma.

Antigo cemitério de Amarna, no Egito, onde as covas com cones de cabeça foram descobertas.
Foto de the Amarna Project, Antiquity Publications Ltd  

Harrington tem sua própria teoria sobre a identidade das mulheres que portavam os cones: talvez elas fossem dançarinas. Ambos os espécimes tinham fraturas na coluna, e um tinha uma doença articular degenerativa. Ainda que problemas ósseos possam ser atribuídos à rotina desgastante e aos trabalhos intensos dos antigos egípcios que não faziam parte da nobreza, Harrington salienta que fraturas de estresse e de compressão são frequentes entre profissionais da dança. Talvez os cones "destacassem [as dançarinas] como membros de uma comunidade que servia aos deuses", diz ela. Isso poderia explicar o porquê de essas pessoas estarem enterradas com os cones, sugere Harrington, apesar de suas "covas simples".

Porém, sem outras evidências arqueológicas não é possível saber como os cones eram de fato utilizados — ou se o uso era mais amplo. Infelizmente, diz Stevens, talvez nunca consigamos saber. "Nos primórdios da egiptologia, os trabalhos eram feitos às pressas, de forma um pouco descuidada", ela conta. Espera-se que as técnicas arqueológicas atuais mais meticulosas protejam e identifiquem cones de cabeça em futuras escavações, mas a presença deles em covas anteriores pode ter sido completamente ignorada.

Mas ainda que esses dois cones tenham sido os únicos restantes até hoje, a descoberta acidental tem o seu valor. Os arqueólogos têm bastante conhecimento sobre a nobreza do Egito antigo com base em registros administrativos e tumbas com pinturas elaboradas, mas a escassez de registros escritos e artísticos dos antigos egípcios que não faziam parte da nobreza torna a vida desses muito mais misteriosa para os pesquisadores modernos. Essa falta de informações sobre a vida da maior parte da população egípcia da época torna essa descoberta ainda mais valiosa — além de ser um lembrete das milhões de histórias enterradas ainda não contadas.

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