A vida segue em Chernobyl, 35 anos após o pior acidente nuclear do mundo

Embora tenha havido evacuações em massa após a catástrofe radioativa, Chernobyl nunca ficou totalmente desabitada.

Por Jennifer Kingsley
Fotos de Pierpaolo Mittica, Parallelozero
Publicado 30 de abr. de 2021 07:00 BRT
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Jatos de areia podem ser usados para remover partículas radioativas da superfície de metais a fim de descontaminá-los e prepará-los para revenda. O salário é bom, mas os riscos são altos, devido à poeira radioativa que paira constantemente pela oficina.

Foto de Pierpaolo Mittica

Todos os anos, em 25 de abril, durante a noite, pessoas se reúnem em torno de um anjo fixado no topo de um pedestal de pedra na cidade de Chernobyl, no norte da Ucrânia. O corpo do anjo é todo feito de aço — principalmente vergalhões, que formam uma silhueta nítida contra o céu — e leva uma longa trombeta aos lábios. Essa escultura representa o terceiro anjo do Livro do Apocalipse. De acordo com a Bíblia, quando essa trombeta soou, uma grande estrela caiu do céu, as águas tornaram-se amargas e muitos morreram.

No aniversário do pior desastre em uma usina nuclear da história, pessoas se reúnem no centro da cidade de Chernobyl para o evento que homenageia aqueles que perderam suas vidas.

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Ex-moradores da zona de exclusão visitam os túmulos de seus familiares e amigos falecidos em Chernobyl.

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Os encontros afloram muitas emoções, especialmente durante o segundo trimestre de cada ano, quando as pessoas retornam a Chernobyl para marcar o aniversário do desastre.

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Essa parábola se tornou um símbolo para o desastre nuclear de Chernobyl, que começou à 1:24 da manhã do dia 26 de abril de 1986, quando uma explosão atingiu o reator número quatro da Usina Nuclear de Chernobyl, a apenas 17 quilômetros da cidade. Embora tenha havido evacuações em massa após o acidente, a área imediata nunca ficou totalmente desabitada, e nem poderia ficar. Uma catástrofe radioativa dessa magnitude é perigosa demais para ser abandonada. Até hoje, mais de sete mil pessoas vivem e trabalham dentro e ao redor da usina, e um número muito menor voltou para as aldeias vizinhas, apesar dos riscos.

Na noite do aniversário do desastre, um grupo formado por moradores, trabalhadores e alguns visitantes de fora da cidade se reúne para celebrar um evento tão complexo e com tantos impactos duradouros que ainda é difícil compreender mesmo após 35 anos. As pessoas reunidas seguram velas finas de cera de abelha que pingam nas palmas de suas mãos, ouvem canções e poemas interpretados por alguns dos sobreviventes, e o ar fica carregado de emoção. Yuriy Tatarchuk, ex-chefe adjunto do Departamento de Informações da Zona de Exclusão de Chernobyl, chama isso de “uma combinação de tristeza e contentamento. É como o Dia da Vitória em qualquer guerra — as pessoas choram e sorriem ao mesmo tempo”. Mesmo aqui, tão perto do epicentro do pior desastre de uma usina nuclear da história, há um senso de comunidade, até mesmo uma sensação de estar em casa.

Desde 2016, uma nova unidade de contenção com teto arredondado cobre o que sobrou do reator número quatro na Usina Nuclear de Chernobyl, sendo visível das ruínas do Hotel Polissya, na cidade abandonada de Pripyat.

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Em 1986, segundos antes de o reator número quatro explodir, a temperatura dentro do núcleo do reator atingiu 4,6 mil graus Celsius (a superfície do sol atinge 5,5 mil). A força da explosão, equivalente a 66 toneladas de TNT, destruiu o telhado do prédio de 20 andares do reator, arrasou completamente tudo que estava dentro do núcleo e ejetou pelo menos 28 toneladas de detritos altamente radioativos nas imediações. Também deu início a um incêndio radioativo que durou quase duas semanas e lançou uma enorme nuvem de gases e aerossóis radioativos na atmosfera, que viajou com o vento para o norte e o oeste. Dezenas de substâncias radioativas caíram na terra, frequentemente carregadas pela chuva.

A precipitação radioativa incluiu iodo-131, césio-137 e plutônio-239, dos quais nenhum ocorre naturalmente e todos são extremamente perigosos para humanos e outros animais. Cada substância possui seu próprio cronograma de decomposição, chamado de “meia-vida”, que é o tempo que leva para reduzir a radioatividade pela metade. Para o iodo-131, que se acumula rapidamente na glândula tireoide, causando câncer de tireoide, essa meia-vida é de oito dias. Para o césio-137, que permanece no solo e produz raios gama com milhares de vezes mais energia do que os raios do sol, a meia-vida é de cerca de 30 anos. O plutônio-239, extremamente radiotóxico quando inalado, possui uma meia-vida de 24 mil anos. Embora o padrão principal de precipitação radioativa — que é manchado e imprevisível — tenha sido estabelecido logo após o acidente, as partículas radioativas permanecem em movimento até hoje, mudando com o vento e fluindo pela água.

A cidade de Pripyat foi construída para os trabalhadores da usina nuclear. Seus 50 mil habitantes começaram a evacuação 36 horas após o acidente.

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Pripyat continua sendo uma cidade fantasma até hoje, cheia de pequenos detalhes do cotidiano, como essas caixas de correio em um prédio abandonado.

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Vladimir Verbitskiy morou neste apartamento de Pripyat com seus pais antes de a cidade ser evacuada em 1986. Ele voltou para trabalhar como liquidador e depois como guia turístico.

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Enquanto as partículas radioativas eram levadas para longe, o esforço de limpeza se concentrou na Zona de Exclusão de Chernobyl, formada em um raio de 30 quilômetros do marco zero. As evacuações da zona tiveram início 36 horas após o acidente, começando pelos 50 mil habitantes de Pripyat, uma cidade a apenas três quilômetros de distância da usina nuclear e construída para abrigar os trabalhadores da usina e suas famílias. Pripyat, com seus prédios de apartamentos, playgrounds e monumentos públicos, continua sendo uma cidade fantasma até hoje.

Ao pé da estátua do anjo, há uma grande laje de concreto no formato da extensão ucraniana da zona de exclusão. Durante o memorial, ela brilha em cor laranja sob a luz de inúmeras pequenas lanternas. Uma longa fileira de placas de sinalização se estende para longe do anjo em uma via arborizada. Cada uma das mais de 100 placas carrega o nome de uma aldeia ucraniana que foi evacuada.

Mas, enquanto milhares de pessoas eram evacuadas de casas para as quais nunca voltariam, outros milhares de pessoas estavam chegando. A maioria tinha sido enviada para trabalhar na descontaminação, outras vieram pela ciência e outras ainda desafiaram as ordens de evacuação e voltaram para suas aldeias o mais rápido possível.

Cada uma dessas placas carrega o nome de uma cidade ucraniana que foi abandonada após o acidente. No aniversário do desastre, ex-moradores da zona de exclusão voltam para celebrar a tragédia.

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Ex-liquidadores e moradores aguardam para participar das cerimônias de aniversário.

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O esforço de limpeza foi oficialmente chamado de “A Liquidação das Consequências do Acidente de Chernobyl” e os trabalhadores foram chamados de liquidadores. Eles tinham um trabalho impossível. As partículas radioativas são invisíveis e não têm sabor nem cheiro, mas nos locais de maior intensidade elas contaminam tudo, desde tijolos até o gado e folhas no chão. Essas partículas não podem ser destruídas; tudo o que os liquidadores podiam fazer era enterrá-las ou tentar selá-las de alguma forma. Alguns trabalharam ao redor das aldeias destruindo plantações, derrubando florestas e até mesmo cobrindo a própria camada superior da terra.

Em torno da usina nuclear, alguns trabalhos — como levantar escombros altamente radioativos ou despejar concreto para selar o reator — eram tão perigosos que os homens podiam absorver doses letais de radiação em questão de minutos. Estimativas para a quantidade de liquidadores variam muito porque não há registro oficial de todos os que participaram, mas o número está na casa dos milhares, provavelmente acima de meio milhão. Eles vieram de toda a antiga União Soviética, e a maioria eram jovens na época. Talvez 10% ainda estejam vivos hoje. Trinta e uma pessoas morreram como resultado direto do acidente, de acordo com a contagem oficial de mortos do governo soviético.  

Evgeniy Valentey é especialista em TI há 10 anos, mas o desastre nunca saiu de sua mente: “penso nas pessoas realmente vitimadas no processo de liquidação. Na União Soviética, o método era encobrir tudo com vidas humanas”.

Vida em uma cidade abandonada

Elena Buntova, juntamente com outros cientistas, respondeu ao chamado de Chernobyl por um motivo completamente diferente dos liquidadores. Como doutora em biologia, ela foi à cidade após o acidente para estudar os efeitos da radiação na vida selvagem. E nunca foi embora.

“Nos primeiros anos após o acidente, os melhores cientistas de toda a União Soviética vieram trabalhar em Chernobyl, então foi muito interessante cooperar com eles”, relata Buntova. Foi a oportunidade de uma vida, e também onde ela conheceu o marido, Sergei Lapiha. Ele cresceu perto de Chernobyl, e eles se conheceram em um café dentro da zona de exclusão.

Sergei Lapiha (à direita) e sua esposa Elena Buntova fazem uma pausa para o café na sala de estar com o amigo deles, Valeriy Pasternak. Todos eles trabalharam por anos na zona de exclusão.

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Lapiha trabalhou como fotógrafo no local conhecido como Abrigo de Objetos — a unidade de contenção que serve como um sarcófago para sepultar os restos do reator número quatro. Ao longo dos anos, ele fez um registro fotográfico das instalações, incluindo um notório objeto dentro do prédio do reator, chamado Pata de Elefante. É uma placa escura e vítrea de lava radioativa derretida que fluiu para o corredor após o derretimento, antes de se solidificar no lugar como uma estalagmite do tamanho de um humano. A placa é tão radioativa que passar cinco minutos próximo a ela, sem proteção, seria uma sentença de morte.

Por causa da idade e de sua ligação com o local, Buntova e Lapiha fazem parte de um pequeno grupo de reassentados que têm permissão do governo ucraniano para viver na zona de exclusão em tempo integral. Eles admitem que viver em Chernobyl é arriscado e problemático, especialmente porque crianças são proibidas. Cada um deles teve filhos antes de se conhecerem, mas como qualquer pessoa com menos de 18 anos é mais suscetível à radiação ionizante, seus filhos nunca puderam entrar na zona, assim como seus netos atualmente. Mesmo assim, eles moram aqui há mais de 30 anos e, agora que estão com mais de 60 anos e aposentados, não planejam ir a lugar nenhum. Quando questionada sobre o motivo, Lapiha pensa por um minuto antes de responder: “simplesmente estou feliz em Chernobyl”.

O interior de sua pequena casa de tijolos é aconchegante. Pessoas como eles ocuparam casas abandonadas ao longo dos anos e as reformaram. Há diversas casas para escolher. A cidade de Chernobyl costumava ter uma população de 14 mil habitantes. Na sala de estar, eles têm plantas perto da janela, algumas cadeiras confortáveis, uma TV e um aquário brilhante cheio de peixes agitados. No quintal, mantêm colmeias de abelhas e cuidam de quatro cachorros, todos resgatados de dentro da zona de exclusão. Como Elena monitorava a vida selvagem como cientista no Centro de Ecologia de Chernobyl, ela sabe muito bem o quanto eles podem estar contaminados. Baloo nasceu de um cruzamento com lobo e é o mais jovem dos cães do casal. Enquanto Lapiha agarra o rosto do enorme cachorro e brinca com ele, dizendo “lobo esperto, cachorro esperto”, ele não parece muito preocupado.

Maria Semenyuk tinha 78 anos quando esta foto foi tirada em 2015. Ela morreu no ano seguinte em Paryshev, onde viveu toda a sua vida, e foi enterrada no cemitério local.

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Algumas pessoas reassentaram-se na aldeia de Kupovate, uma das muitas pequenas comunidades na zona de exclusão ucraniana.

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O morador desta casa em Kupovate morreu em 2015. Não é incomum ver lugares como este, onde todos os objetos da vida de uma pessoa foram deixados para trás.

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Em Chernobyl, um homem aguarda o início de uma apresentação na Casa da Cultura. Concertos, recitais e conferências ajudam a entreter a pequena população.

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Muitos dos reassentados que morreram nos últimos anos queriam ser enterrados nas aldeias onde nasceram. A zona de exclusão possui diversos cemitérios; como este em Opachici.

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Poucas pessoas vivem dentro da zona de exclusão em tempo integral. Aqueles que ignoraram a ordem de evacuação e voltaram para seus vilarejos após o acidente estão agora com cerca de 70 ou 80 anos, e muitos morreram nos últimos cinco anos. Os que permanecem dependem dos alimentos que plantam e da floresta ao redor, incluindo grandes e abundantes cogumelos que são particularmente bons para absorver o césio-137, que emite radiação beta e gama. Alguns habitantes assam esses cogumelos dentro de casa em fornos a lenha. As árvores que queimam como combustível também podem ser radioativas, de modo que a fumaça causa novas pequenas precipitações nas proximidades. A radiação é uma companhia constante aqui. Nos locais habitados, os níveis são geralmente baixos. Em outros, são perigosamente altos. Mas sem um dosímetro ou contador Geiger, que muitas pessoas não possuem — e às vezes nem fazem questão de possuir — a medição é impossível.

Quem permanece na zona de exclusão

Das cerca de sete mil pessoas que entram e saem da zona de exclusão para trabalhar, mais de quatro mil fazem turnos de 15 dias por mês ou quatro dias por semana — horários planejados para minimizar a exposição à radiação ionizante. São seguranças, bombeiros, cientistas ou aqueles que mantêm a infraestrutura dessa comunidade única. Como Chernobyl não é sua residência permanente, eles ocupam alguns dos quartos e apartamentos que foram evacuados em 1986. Ao entardecer, a o ritmo da cidade é bastante tranquilo. Algumas pessoas leem ou assistem a filmes. Nos dias quentes, podem quebrar as normas de segurança contra radiação e dar um mergulho no rio.

Para entrar na cidade de Pripyat, cada visitante deve passar por um posto de controle e apresentar as licenças necessárias. Os guardas na entrada trabalham em turnos de 12 horas.

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Equipe na sala de controle do reator número dois em um dia normal de trabalho. Embora os reatores um, dois e três não produzam mais eletricidade, eles só poderão ser desativados em 2065.

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Cerca de 100 cientistas trabalham nos laboratórios científicos de Chernobyl para monitorar a contaminação e estudar os efeitos da radiação no meio ambiente. Após o acidente, especialistas nucleares de toda a antiga União Soviética foram a Chernobyl pesquisar as consequências do desastre.

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O restante dos trabalhadores chega de trem todos os dias para realizar suas funções na usina nuclear. Embora ela não produza mais eletricidade, a desativação dos três reatores restantes vai demorar pelo menos até 2065, e há uma divisão inteira dentro do Instituto de Problemas de Segurança de Usinas Nucleares dedicada à contenção do reator número quatro. Em 2016, a usina recebeu uma nova unidade de contenção, que parece um barracão Quonset e deve durar 100 anos, embora os materiais dentro dela continuem radioativos por milênios.

A zona de exclusão está menos radioativa do que já foi, mas Chernobyl possui a capacidade de distorcer o tempo. Trinta e cinco anos é muito tempo para uma vida humana, e também é significativo para materiais como o césio-137 e o estrôncio-90, com meia-vida de cerca de 30 anos; mas é quase nada para os materiais radioativos que levarão milênios para se decompor. De que serve uma unidade de contenção que dura um século quando ela nos protege de algo com meia-vida de 24 mil anos? Também existem novas ameaças, como incêndios florestais que queimam árvores radioativas e podem criar novas zonas de risco.

De acordo com Bruno Chareyron, Diretor de Laboratório da Comissão de Pesquisa e Informação Independentes sobre a Radioatividade, a humanidade não possui atualmente as soluções técnicas ou os meios financeiros para lidar com um desastre como esse. Resumindo, embora milhares de pessoas ainda trabalhem no local todos os dias, “a catástrofe nuclear de Chernobyl não é administrável de forma alguma”.

A academia local na cidade de Chernobyl oferece uma oportunidade para atividades físicas e de recreação, como uma partida de tênis de mesa depois do trabalho.

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Até mesmo Chernobyl possui cafeterias e lugares para relaxar com os amigos. “Passar todo o tempo em um lugar abandonado é muito deprimente”, relata Yuriy Tatarchuk, que trabalhou por mais de 20 anos na zona de exclusão.

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Diversos trabalhadores permanecem no local em tempo parcial, 15 dias por mês ou quatro dias por semana. Enquanto estão aqui, eles moram nos antigos apartamentos e dormitórios e obtêm o que precisam nas lojas locais.

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Durante sua aposentadoria, Sergei Lapiha trabalha como voluntário para manter a igreja ortodoxa local. Suas paredes externas são firmes e brancas, com arcos em azul brilhante e duas cúpulas douradas no telhado. Comparada com os prédios abandonados e os escombros que a cercam, a igreja parece nova.

Antes da reunião anual em torno do anjo de aço, uma missa noturna é realizada na noite de 25 de abril. Após a missa, os participantes saem e tocam o sino da memória, pendurado em seu próprio arco no canto do cemitério. Eles dão uma badalada para cada ano desde o acidente, então este ano foram 35 badaladas.

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