Como interpretar o passado a partir de objetos arqueológicos

Arqueólogo discorre sobre as técnicas e processos utilizados para compreender como viviam os antigos habitantes da Amazônia.

Por Rafael Stabile
Publicado 8 de jul. de 2021 17:04 BRT, Atualizado 9 de jul. de 2021 17:43 BRT

Urnas funerárias, pingentes, vasos, dentes e crânios humanos. Objetos arqueológicos, por sua natureza recôndita, levam nossa imaginação a muitos lugares no passado e às pessoas que os projetaram e construíram. As peças não contam suas histórias sozinhas. As respostas sobre o passado não estão simplesmente inscritas sobre esses materiais – elas exigem um esforço que envolve a aplicação de diferentes técnicas e conhecimentos.

Objetos recuperados em escavações arqueológicas foram confeccionados a partir de materiais diferentes, com ampla variedade de propriedades físico-químicas. Orgânicos (ossos, dentes, couros, madeira) ou inorgânicos (metais, rochas, vidro, cerâmica, etc.), as condições para a preservação desses objetos dependem do ambiente ao qual estiveram expostos ao longo de décadas ou milênios. Assim como do espaço radicalmente novo – em umidade e temperatura – ao qual são expostos logo após serem escavados. Arqueólogos trabalham imediatamente para a sua estabilização e análise. As atividades de conservação representam parte fundamental da pesquisa arqueológica.

Potes, panelas e urnas funerárias produzidas a partir de barro cozido estão entre os achados mais profícuos da arqueologia amazônica, e são tão importantes quanto os remanescentes de corpos humanos, as ferramentas líticas e as evidências menos tangíveis em um sítio, como microvestígios botânicos e alimentares. No Amapá, os sítios arqueológicos representativos do passado indígena são, em muitos casos, identificados através da distribuição de fragmentos de antigas vasilhas cerâmicas espalhados na superfície de um terreno. Enquanto alguns sítios a céu aberto podem ser interpretados como local de implantação de áreas de habitação, outras áreas parecem ter sido destinadas exclusivamente ao sepultamento humano ou à condução de cerimonias e rituais. Abrigos rochosos e cavernas são exemplos de tais espaços, e estão conectados ao universo do sagrado.

Os vasos e urnas cerâmicas apresentadas nesta seção carregam marcas de atividades diversas, como o preparo de alimentos ou o invólucro de corpos. Tais objetos são testemunhos do esforço laboral e dos pactos sociais – políticos e religiosos – que mantiveram seres humanos ancestrais unidos em sociedades pretéritas.

Considerando a variedade de materiais e o status de preservação de uma coleção, diferentes técnicas de análise podem ser empregadas para seu estudo. De modo geral, análises macroscópicas são comuns a todos os tipos de material. Mas é inegável a importância cada vez maior das técnicas moleculares (por exemplo, análises de DNA antigo e isotópicas) em discussões sobre dieta, migrações, história de determinadas doenças e economia. Embora menos acessíveis, haja vista a necessidade de equipamentos específicos e custos elevados, pesquisas baseadas na extração de DNA antigo devem trazer luz ao processo de ocupação e movimentações de povos indígenas na região da foz do rio Amazonas e Guianas.     

Sejam quais forem os vestígios e técnicas disponíveis para sua investigação, o estudo de coleções arqueológicas é orientado por uma ou mais perguntas, por uma ou mais hipóteses. Todo o processo é dirigido rumo a uma direção: elucidar questões sobre o modo de vida de populações do passado.

Rafael Stabile é mestre em Arqueologia pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo e desde 2017 é arqueólogo Núcleo de Pesquisa Arqueológica do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá, atuando nas áreas de arqueologia pré-colonial e bioarqueologia, especialmente no âmbito de projetos de licenciamento ambiental e patrimonial.

Nota do editor: Este artigo contém imagens de remanescentes humanos de nativos americanos, relacionados a ocupação pré-colonial da região da foz do rio Amazonas. A publicação dessas imagens é resultado do esforço de valorização do passado indígena por uma narrativa fotográfica que preza a ética na relação com a ciência. A reprodução das fotos fora do contexto deste artigo não está autorizada.

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