Como interpretar o passado a partir de objetos arqueológicos
Arqueólogo discorre sobre as técnicas e processos utilizados para compreender como viviam os antigos habitantes da Amazônia.

Fêmur esquerdo de uma criança com idade estimada entre três meses e um ano encontrado no sítio Curiaú-Mirim-I. Remanescentes de corpos juvenis correspondem a um terço de todos os esqueletos já exumados no sítio.
Acervo Núcleo de Pesquisa Arqueológica/Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá
Fêmur esquerdo de uma criança com idade estimada entre três meses e um ano encontrado no sítio Curiaú-Mirim-I. Remanescentes de corpos juvenis correspondem a um terço de todos os esqueletos já exumados no sítio.
Acervo Núcleo de Pesquisa Arqueológica/Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá

Maxila esquerda e ossos frontal e nasais compõe a face de um indivíduo sepultado no sítio arqueológico Curiaú Mirim–1, no Amapá. Sinais ósseos localizados no crânio e nos ossos da pelve, se preservados, auxiliam a aferição do sexo biológico em esqueletos humanos, neste caso, feminino. Pelo menos 20 pessoas foram sepultadas na mesma área.
Acervo Núcleo de Pesquisa Arqueológica/Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá
Maxila esquerda e ossos frontal e nasais compõe a face de um indivíduo sepultado no sítio arqueológico Curiaú Mirim–1, no Amapá. Sinais ósseos localizados no crânio e nos ossos da pelve, se preservados, auxiliam a aferição do sexo biológico em esqueletos humanos, neste caso, feminino. Pelo menos 20 pessoas foram sepultadas na mesma área.
Acervo Núcleo de Pesquisa Arqueológica/Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá

Fêmur direito com evidências fratura e proceso de cicatrização de um indivíduo adulto, biologicamente feminino e com idade estimada entre 26 e 34 anos. Na mesma urna, recuperada do sítio Curiaú-Mirim I, foram registrados ossos de uma criança entre dois e cinco anos. Os sepultamentos registrados nesse sítio consistem em grandes estruturas funerárias com a deposição de vários individuos – as diversas crianças identificadas aparecem, geralmente, sepultadas junto de adultos, dividindo o mesmo invólucro cerâmico.
Acervo Núcleo de Pesquisa Arqueológica/Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá
Fêmur direito com evidências fratura e proceso de cicatrização de um indivíduo adulto, biologicamente feminino e com idade estimada entre 26 e 34 anos. Na mesma urna, recuperada do sítio Curiaú-Mirim I, foram registrados ossos de uma criança entre dois e cinco anos. Os sepultamentos registrados nesse sítio consistem em grandes estruturas funerárias com a deposição de vários individuos – as diversas crianças identificadas aparecem, geralmente, sepultadas junto de adultos, dividindo o mesmo invólucro cerâmico.
Acervo Núcleo de Pesquisa Arqueológica/Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá

Extremidade distal de um úmero esquerdo de um indivíduo adulto, de sexo biológico desconhecido e idade estimada entre 23 e 39 anos. Apresenta tintura vermelha, assim como a maioria dos ossos depositados na urna funeraria da câmara C (Estrutura 1059). A mesma urna também continha ossos de uma criança, de até um ano e quatro meses, e grande conjunto de dentes humanos e de fauna perfurados, todos cobertos com a mesma tintura vermelha presente no fragmento de úmero.
Acervo Núcleo de Pesquisa Arqueológica/Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá
Extremidade distal de um úmero esquerdo de um indivíduo adulto, de sexo biológico desconhecido e idade estimada entre 23 e 39 anos. Apresenta tintura vermelha, assim como a maioria dos ossos depositados na urna funeraria da câmara C (Estrutura 1059). A mesma urna também continha ossos de uma criança, de até um ano e quatro meses, e grande conjunto de dentes humanos e de fauna perfurados, todos cobertos com a mesma tintura vermelha presente no fragmento de úmero.
Acervo Núcleo de Pesquisa Arqueológica/Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá

Dentes de fauna carnívora com perfurações na raiz recuperados no sítio arqueológico Curiaú Mirim–I. Os dentes, bastante parecidos aos caninos superior (à direita) e inferior (à esquerda) da onça-pintada, são parte de um conjunto composto por mais de 20 dentes humanos e quatro de fauna carnívora perfurados na raíz – todos são parte do mobiliário funerário depositado dentro de uma urna com dois indivíduos, um jovem adulto e uma criança próxima do primeiro ano de vida.
Acervo Núcleo de Pesquisa Arqueológica/Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá
Dentes de fauna carnívora com perfurações na raiz recuperados no sítio arqueológico Curiaú Mirim–I. Os dentes, bastante parecidos aos caninos superior (à direita) e inferior (à esquerda) da onça-pintada, são parte de um conjunto composto por mais de 20 dentes humanos e quatro de fauna carnívora perfurados na raíz – todos são parte do mobiliário funerário depositado dentro de uma urna com dois indivíduos, um jovem adulto e uma criança próxima do primeiro ano de vida.
Acervo Núcleo de Pesquisa Arqueológica/Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá

Dentes humanos com perfuração na raiz recuperados no sítio arqueológico Curiaú Mirim-I, na zona estuarina do Amazonas no Amapá, próxima a Macapá. Da esquerda para a direita: pré-molar inferior; incisivo central superior; pré-molar superior e pré-molar superior. Note-se machas de tintura vermelha sobre as raízes e coroas. A mesma pintura vermelha vistas sobre raízes e coroas também foi identificada em ossos de indivíduos sepultados junto aos adornos. Fontes etnohistóricas apontam para a ampla utilização de colares e brincos confeccionados a partir de dentes de animais e seres humanos.
Acervo Núcleo de Pesquisa Arqueológica/Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá
Dentes humanos com perfuração na raiz recuperados no sítio arqueológico Curiaú Mirim-I, na zona estuarina do Amazonas no Amapá, próxima a Macapá. Da esquerda para a direita: pré-molar inferior; incisivo central superior; pré-molar superior e pré-molar superior. Note-se machas de tintura vermelha sobre as raízes e coroas. A mesma pintura vermelha vistas sobre raízes e coroas também foi identificada em ossos de indivíduos sepultados junto aos adornos. Fontes etnohistóricas apontam para a ampla utilização de colares e brincos confeccionados a partir de dentes de animais e seres humanos.
Acervo Núcleo de Pesquisa Arqueológica/Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá
Urnas funerárias, pingentes, vasos, dentes e crânios humanos. Objetos arqueológicos, por sua natureza recôndita, levam nossa imaginação a muitos lugares no passado e às pessoas que os projetaram e construíram. As peças não contam suas histórias sozinhas. As respostas sobre o passado não estão simplesmente inscritas sobre esses materiais – elas exigem um esforço que envolve a aplicação de diferentes técnicas e conhecimentos.
Objetos recuperados em escavações arqueológicas foram confeccionados a partir de materiais diferentes, com ampla variedade de propriedades físico-químicas. Orgânicos (ossos, dentes, couros, madeira) ou inorgânicos (metais, rochas, vidro, cerâmica, etc.), as condições para a preservação desses objetos dependem do ambiente ao qual estiveram expostos ao longo de décadas ou milênios. Assim como do espaço radicalmente novo – em umidade e temperatura – ao qual são expostos logo após serem escavados. Arqueólogos trabalham imediatamente para a sua estabilização e análise. As atividades de conservação representam parte fundamental da pesquisa arqueológica.
Potes, panelas e urnas funerárias produzidas a partir de barro cozido estão entre os achados mais profícuos da arqueologia amazônica, e são tão importantes quanto os remanescentes de corpos humanos, as ferramentas líticas e as evidências menos tangíveis em um sítio, como microvestígios botânicos e alimentares. No Amapá, os sítios arqueológicos representativos do passado indígena são, em muitos casos, identificados através da distribuição de fragmentos de antigas vasilhas cerâmicas espalhados na superfície de um terreno. Enquanto alguns sítios a céu aberto podem ser interpretados como local de implantação de áreas de habitação, outras áreas parecem ter sido destinadas exclusivamente ao sepultamento humano ou à condução de cerimonias e rituais. Abrigos rochosos e cavernas são exemplos de tais espaços, e estão conectados ao universo do sagrado.
Os vasos e urnas cerâmicas apresentadas nesta seção carregam marcas de atividades diversas, como o preparo de alimentos ou o invólucro de corpos. Tais objetos são testemunhos do esforço laboral e dos pactos sociais – políticos e religiosos – que mantiveram seres humanos ancestrais unidos em sociedades pretéritas.
Considerando a variedade de materiais e o status de preservação de uma coleção, diferentes técnicas de análise podem ser empregadas para seu estudo. De modo geral, análises macroscópicas são comuns a todos os tipos de material. Mas é inegável a importância cada vez maior das técnicas moleculares (por exemplo, análises de DNA antigo e isotópicas) em discussões sobre dieta, migrações, história de determinadas doenças e economia. Embora menos acessíveis, haja vista a necessidade de equipamentos específicos e custos elevados, pesquisas baseadas na extração de DNA antigo devem trazer luz ao processo de ocupação e movimentações de povos indígenas na região da foz do rio Amazonas e Guianas.
Sejam quais forem os vestígios e técnicas disponíveis para sua investigação, o estudo de coleções arqueológicas é orientado por uma ou mais perguntas, por uma ou mais hipóteses. Todo o processo é dirigido rumo a uma direção: elucidar questões sobre o modo de vida de populações do passado.
Rafael Stabile é mestre em Arqueologia pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo e desde 2017 é arqueólogo Núcleo de Pesquisa Arqueológica do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá, atuando nas áreas de arqueologia pré-colonial e bioarqueologia, especialmente no âmbito de projetos de licenciamento ambiental e patrimonial.
Nota do editor: Este artigo contém imagens de remanescentes humanos de nativos americanos, relacionados a ocupação pré-colonial da região da foz do rio Amazonas. A publicação dessas imagens é resultado do esforço de valorização do passado indígena por uma narrativa fotográfica que preza a ética na relação com a ciência. A reprodução das fotos fora do contexto deste artigo não está autorizada.



