Como a ginástica se tornou um dos mais populares esportes olímpicos

As raízes remontam à Grécia antiga, mas a ascensão da ginástica moderna foi desencadeada pelo nacionalismo — das Guerras Napoleônicas à era soviética.

Publicado 23 de jul. de 2021 12:00 BRT
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A ginástica é um importante esporte olímpico desde a fundação dos jogos modernos. Os atletas competem em provas como salto, argolas e barras paralelas. Na imagem, ginasta dinamarquesa crava a saída de cavalo com alças durante as Olimpíadas de Londres de 1908.

Foto de Photograph via Topical Press Agency/Getty Images

Homens nus se exercitam em praças ao ar livre. Guarda-costas musculosos na posse de Abraham Lincoln. Pequenas adolescentes saltam do chão em uma sequência estonteante de cambalhotas e piruetas. Essas imagens não estão desconectadas: todas formam a história da ginástica.

Com o domínio de atletas como Simone Biles e Kohei Uchimura, o esporte se tornou um dos mais apreciados dos Jogos Olímpicos. Nem sempre incluiu barras assimétricas ou a barra de equilíbrio — as primeiras versões incluíam façanhas como escalada em corda e dança com maças ou clavas. Contudo, durante sua evolução da antiga tradição grega ao esporte olímpico moderno, a ginástica sempre esteve inerentemente ligada ao conceito de orgulho e identidade nacional.

Atletas da Grécia Antiga normalmente praticavam suas habilidades de ginástica todos nus. Esses primeiros ginastas treinavam para a guerra.

Foto de Courtesy of H.M. Herget, National Geographic Creative

A origem da ginástica

Desanimado com a derrota de seu país para Napoleão, o ex-soldado prussiano Friedrich Ludwig Jahn inventou uma forma de ginástica denominada Turnen que ele acreditava que restauraria a força de seus compatriotas.

Foto de Lithograph via Austrian National Library/Interfoto/Alamy

O esporte teve origem na Grécia Antiga, onde os jovens eram submetidos a intensos treinos físicos e mentais para a guerra. A palavra “ginástica” deriva da palavra grega gymnos, que significa “nu”, — termo apropriado, pois os jovens treinavam nus, realizando exercícios de solo, levantando pesos e competindo em corridas uns com os outros.

Para os gregos, exercícios físicos e aprendizado caminhavam juntos. De acordo com R. Scott Kretchmar, historiador do esporte, os ginásios onde os jovens gregos treinavam serviam como “academias de estudos e descobertas” — centros comunitários onde os jovens eram instruídos sobre artes físicas e intelectuais. No século 4 a.C., o filósofo grego Aristóteles escreveu que “é necessário que a disciplina do corpo preceda à da alma”.

Mas a ginástica, como conhecida atualmente, é proveniente de outra fonte do intelectualismo e debates intensos: a Europa dos séculos 18 e 19. Na Europa, assim como na Grécia antiga, o preparo físico era considerado parte integrante da cidadania e do patriotismo. As populares sociedades de ginástica da época combinavam as três vertentes.

O ex-soldado prussiano Friedrich Ludwig Jahn — que posteriormente ficaria conhecido como o “pai da ginástica” — adotou os conceitos de educação e orgulho nacional presentes na época do Iluminismo. Após a invasão da Prússia pela França, Jahn encarou a derrota dos alemães como uma humilhação nacional. Para animar seus compatriotas e unir os jovens, ele se dedicou à área de preparação física. Jahn criou um sistema de ginástica denominado Turnen e inventou novos aparelhos para seus alunos, como as barras paralelas, a barra fixa, a barra de equilíbrio e o cavalo.

Jahn inventou exercícios de resistência — incluindo o cavalo e a barra de equilíbrio — praticados por seus seguidores nos festivais de Turnen em todo o país. Na imagem, mulheres da Hannoversche Musterturnschule em Hannover se apresentam nesse festival em Colônia, em 1928.

Foto de Robert Sennecke, Berliner Illustrirte Zeitung via Getty Images

Como o nacionalismo promoveu o advento da ginástica

No início do século 19, os seguidores de Jahn, conhecidos como turners, reuniam-se para praticar movimentos semelhantes à ginástica moderna em cidades de toda a Alemanha. Testavam suas habilidades em barras de equilíbrio e cavalos com alças, escalavam escadas, penduravam-se em argolas e praticavam salto em distância e outras modalidades, juntamente com exibições de calistenia em massa.

Nos festivais de Turnen, os atletas trocavam ideias, competiam na ginástica e discutiam política. E, ao longo dos anos, suas ideias sobre filosofia, educação e preparo físico foram levadas aos Estados Unidos, onde as academias de ginástica se tornaram importantes centros comunitários.

Os turners também se transformaram em uma força política nos Estados Unidos. Muitos deixaram seu país natal porque se opunham às monarquias alemãs e ansiavam por liberdade. Como resultado, alguns turners se tornaram abolicionistas ferrenhos e apoiadores de Abraham Lincoln, na época, presidente dos Estados Unidos. O presidente foi protegido por duas companhias de turners em sua primeira posse, e turners até mesmo formaram seus próprios regimentos no Exército da União, na Guerra Civil dos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, outro grupo europeu que reverenciava o preparo físico surgiu em Praga em meados do século 19. Assim como os turners, o movimento Sokol era formado por nacionalistas que consideravam que a calistenia coordenada em massa poderia unir o povo tcheco. O movimento Sokol tornou-se a organização mais popular na Tchecoslováquia, com exercícios que incluíam barras paralelas, barra fixa e séries de solo.

Ginástica nas Olimpíadas

A romena Nadia Comăneci se tornou a primeira ginasta a receber a nota máxima 10 durante os Jogos Olímpicos de 1976. Na foto, a atleta de 14 anos salta com o pé bastante alto durante uma série de solo naquele ano.

Foto de Photograph via Bettmann/Getty Images

Com visibilidade impulsionada pelos turners e pelos sokols, a ginástica se popularizou. Em 1881, o interesse internacional pelo esporte havia crescido o suficiente para que a Federação Internacional de Ginástica fosse criada.

Nos primeiros Jogos Olímpicos modernos em 1896, a ginástica estava no topo da lista de esportes a serem obrigatoriamente incluídos do fundador das Olimpíadas Pierre de Coubertin. Setenta e um competidores do sexo masculino participaram de oito modalidades de ginástica, incluindo escalada em corda. De maneira não surpreendente, a Alemanha conquistou grande parte das medalhas, ganhando cinco ouros, três pratas e dois bronzes. A Grécia ficou em segundo lugar com seis medalhas, seguida pela Suíça, com três.

Nos anos seguintes, a ginástica se transformou em um esporte definido com pontuação e provas padronizadas. É dividida em duas modalidades: a ginástica artística, que inclui salto, barras assimétricas, barra de equilíbrio, cavalo com alças, argolas, barras paralelas, barra fixa e solo; e a ginástica rítmica, que inclui aparelhos como aros, bolas e fitas. Em 1928, as mulheres competiram na ginástica olímpica pela primeira vez.

Hoje, Simone Biles, dos Estados Unidos, é a ginasta mais condecorada da história. Seus feitos impressionantes inspiram admiração e orgulho nacional — incluindo sua atuação durante os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, onde ganhou quatro medalhas de ouro e uma de bronze.

Foto de Elsa, Getty Images

Rivalidades da guerra fria

Em meados do século 20, entretanto, a ginástica olímpica estava em declínio, e os organizadores sugeriram reduzir a extensão do esporte e até mesmo eliminar a competição por equipes. Com o acirramento da Guerra Fria, a União Soviética percebeu uma oportunidade em um esporte aparentemente pouco explorado. Como não havia competidores ocidentais fortes, os soviéticos acreditaram que poderiam prevalecer e começaram a investir na ginástica.

Quando o público internacional percebeu que um grupo de superastros atletas treinava atrás da Cortina de Ferro, atletas como Nadia Comăneci, romena que surpreendeu o mundo ao ganhar a primeira nota máxima concedida a uma ginasta em 1976, começaram a ficar sob os holofotes. Em seu auge, o Bloco Oriental ganhou 99% de todas as medalhas olímpicas em ginástica artística feminina, despertando uma nova onda de competição nacionalista que fizeram com que os países ocidentais começassem a investir no esporte.

As Olimpíadas foram palco para rivalidades da Guerra Fria em mais de um aspecto. Em 1980, os Estados Unidos e 65 outras nações boicotaram os Jogos Olímpicos de Verão para protestar contra a invasão do Afeganistão pela União Soviética. A União Soviética retaliou com seu próprio boicote em 1984, oferecendo aos Estados Unidos uma oportunidade para suas equipes olímpicas de ginástica. Naquele ano, os Estados Unidos conquistaram sua primeira medalha de ouro olímpica com sua equipe masculina de ginástica, a primeira medalha de ouro no individual geral com Mary Lou Retton e diversas outras medalhas de ouro na ginástica.

Desde então, os Estados Unidos e as antigas nações soviéticas persistem em sua rivalidade. A Rússia lidera o ranking de ginástica, conquistando 182 medalhas até o momento; os Estados Unidos estão atrás com 114.

Escândalos

A ginástica estimulava a união nacional e celebrava a perfeição física, mas a um custo terrível para os atletas. A disciplina pela qual o esporte é elogiado adota métodos abusivos de treino, e o esporte tem sido criticado por favorecer atletas extremamente jovens.

E também envolve escândalos. Rumores de dopagem com o apoio do governo há muito tempo atormentam a União Soviética e a Rússia, e os atletas russos estão atualmente proibidos de usar o nome, a bandeira e o hino de seu país em todos os esportes olímpicos até 2022 devido a casos comprovados de descumprimento das regras de dopagem.

Em 2016, Larry Nassar, o médico da equipe da Federação de Ginástica dos Estados Unidos, o órgão regulador de ginastas norte-americanos, foi acusado de abuso sexual infantil. Nos meses seguintes, um escândalo revelou os bastidores da ginástica, expondo uma cultura de abuso e subjugação verbais, emocionais, físicas e sexuais. Mais de 150 ginastas testemunharam na audiência de condenação de Nassar, que foi sentenciado a 60 anos de reclusão em prisão federal em 2017.

Legado

A ginástica não faz mais parte de um movimento político mais amplo que defende o nacionalismo e a união social. Mas sua popularidade — e seu papel no orgulho nacional — se perpetua. Afinal, esse é o objetivo das Olimpíadas, escreveu David Clay Large, membro sênior do Centro de Estudos Europeus da Universidade da Califórnia em Berkeley, para a revista Foreign Policy.

“Essas supostas celebrações de união mundial são bem-sucedidas porque atendem justamente o que desejam transcender: o instinto mundial mais rudimentar de tribalismo”, escreve ele. “As animosidades ideológicas da época da Guerra Fria podem ter sido atenuadas, mas o nacionalismo certamente não foi.”

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