
O que aconteceu com os filhos de Cleópatra e Marco Antônio?
Emblema de Cleópatra Selene, a única filha de Cleópatra e Marco Antônio. Ela foi aprisionada após a morte de seus pais, mas acabou se tornando rainha anos depois.
Em agosto de 29 a.C., Otávio, o filho adotivo de Júlio César, realizou um opulento cortejo triunfal na cidade de Roma. O jovem de 33 anos era o vencedor supremo de uma longa luta pelo controle do Império Romano e, para comemorar sua vitória, o novo Imperador promoveu um desfile de três dias em celebração à sua vitória sobre Marco Antônio e Cleópatra e à anexação do Egito.
Durante o triunfo, Otávio fez duas crianças do fatídico casal desfilarem pelas ruas de Roma como espólios vivos de guerra: os gêmeos de dez anos, Cleópatra Selene e Alexandre Hélio.
Otávio queria ter exibido a própria rainha egípcia derrotada para os milhares de romanos que se aglomeravam nas ruas. Os historiadores Suetônio, que escreveu no final do século I e início do século II, e Cássio Dio, que escreveu no século II e início do século III, relataram que, quando Otávio descobriu que Cleópatra havia se suicidado, ele se apressou em mandar chamar encantadores de serpentes para extrair o veneno da áspide que a havia picado.
O triunvirato foi privado do prazer de desfilar com a própria Cleópatra acorrentada, mas ainda assim usou os filhos vivos dela para enviar uma mensagem de poder.
Sob o calor escaldante do verão romano, os servos carregavam uma efígie de Cleópatra em um leito. Atrás, marchavam os filhos gêmeos da rainha. Otávio recebeu um arco do triunfo no Fórum Romano para marcar a ocasião. Os últimos vestígios da República estavam se dissipando.
Mas essa marcha ignominiosa não foi o fim de Alexandre Hélio e Cleópatra Selene, nem o declínio do legado de sua mãe. Em vez disso, os gêmeos deram continuidade à linhagem ptolemaica e sobreviveram como cativos na casa da ex-esposa de seu pai.
Pesquisas contemporâneas sobre suas vidas revelam como os reféns reais mantidos pelos romanos desempenharam papéis cruciais na política implacável do final da República Romana. Também mostram como o legado e a memória de Cleópatra perduram até hoje, em grande parte devido à vida notável e à resiliência de sua filha.
Na época da morte da rainha Cleópatra, os Ptolomeus já governavam há quase três séculos. O primeiro Ptolomeu foi um dos generais de Alexandre. Em 332 a.C., Alexandre, o Grande, derrotou os persas, tomando o Egito para a Macedônia e seu vasto império.
Após a morte de Alexandre, em 323 a.C., seus generais governaram essas terras em nome de seus herdeiros. Ptolomeu I viu uma oportunidade e assumiu o título de rei do Egito em 305 a.C., estabelecendo a dinastia ptolemaica até que Roma anexou o reino como uma província.
Em 51 a.C., Cleópatra, então com 18 anos, herdou o trono após a morte de seu pai, que a havia nomeado sua herdeira. As tradições ptolemaicas de casamento incestuoso ditavam que ela se casasse com seus irmãos e governasse com eles.
Primeiro, ela se casou com Ptolomeu XIII, que tinha 10 anos quando se casou com Cleópatra, e mais tarde casou-se com Ptolomeu XIV, de apenas 12 anos. Apesar de seus casamentos com os irmãos mais novos, a rainha não teve filhos com eles. Todos os seus quatro filhos foram gerados por Júlio César ou Marco Antônio.
César foi apresentado a Cleópatra durante sua campanha militar em Alexandria. O biógrafo Plutarco, escrevendo no início do século II d.C., relatou que ela foi levada escondida para se encontrar com César dentro de um saco de dormir.
Uma tradução incorreta de Plutarco no século XVIII transformou o saco em um tapete enrolado, imagem que se consolidou na memória cultural por meio de artistas como Jean-Léon Gérôme. Um ano depois, Cleópatra deu à luz um filho chamado Cesarião, que mais tarde se tornaria Ptolomeu XV ao co-governar com sua mãe.
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Estas estátuas de calcário retratam os filhos gêmeos de Cleópatra e Marco Antônio.
Estas estátuas de calcário retratam os filhos gêmeos de Cleópatra e Marco Antônio.
Ela, Cesarião e seu irmão-marido, Ptolomeu XIV, estavam em Roma durante o quádruplo triunfo de Júlio César em 46 a.C. Eles se hospedaram em sua villa do outro lado do rio Tibre enquanto, como observa Apiano, o suntuoso triunfo prosseguia com ouro, coroas, doações e cativos.
Plutarco relata que um bebê chamado Juba II, filho do rei da Numídia, foi levado na procissão triunfal, enquanto a irmã rebelde de Cleópatra, Arsinoe IV, também desfilava pelas ruas como um troféu de César. Cleópatra sabia que aquele não era o destino que desejava para si.
Após a morte de César nos Idos de Março, Cleópatra continuou a governar o Egito. Enquanto isso, seu futuro parceiro, Marco Antônio, consolidava o trio político conhecido como o Segundo Triunvirato (um pacto político firmado entre Otávio, Antônio e um apoiador de César chamado Lépido) ao se casar com a jovem irmã de Otávio, Otávia, em 40 a.C.
Otávia não foi a primeira esposa de Marco Antônio; o político casou-se quatro vezes ao todo. Contudo, Antônio não era um homem apegado à monogamia. Em 41 a.C., ele conheceu Cleópatra em Tarso, na atual Turquia. Pouco tempo depois, passou o inverno em Alexandria com a rainha, uma mudança que mais tarde se provaria definitiva.
Cleópatra se torna mãe
Não muito tempo após a chegada de Antônio ao Egito, Cleópatra deu à luz os gêmeos Alexandre Hélio, batizado em homenagem ao Sol, e Cleópatra Selene, batizada em homenagem à Lua. Embora pouco se saiba sobre os primeiros anos de vida das crianças, em 2012 a egiptóloga Giuseppina Capriotti identificou uma estátua de arenito do Templo de Hator, em Dendera, como uma representação dos gêmeos. A escultura tem cerca de dez metros de altura e possui estrelas gravadas.
Uma serpente envolve as crianças: uma delas usava uma auréola feita para parecer o Sol e a outra, a Lua. Uma terceira criança com Antônio chegou em 36 a.C., chamada Ptolomeu Filadelfo. Pouco sabemos sobre a vida cotidiana dos filhos, exceto que levavam uma vida tradicional e privilegiada no palácio de Alexandria. Cleópatra Selene, seus irmãos e Antilo, seu meio-irmão e herdeiro de Antônio, receberam uma educação em artes liberais e desenvolveram um forte vínculo com Cleópatra e Marco Antônio.
As heranças proclamadas por Cleópatra e Marco Antônio para seus filhos causaram surpresa e indignação em Roma. Como Antônio poderia redistribuir terras romanas para seus filhos ilegítimos como se o sistema republicano de governança não existisse mais? Ainda assim, em 34 a.C., Cleópatra e Antônio celebraram uma cerimônia, mais tarde apelidada de Doações de Alexandria, para dividir o império oriental entre seus filhos e Cesarião — uma cerimônia presunçosa que loteou o Mediterrâneo oriental e partes do norte da África.
Dois anos após a infame cerimônia chegar aos ouvidos de Roma, Antônio divorciou-se formalmente de Otávia. Essa foi uma declaração definitiva de que as tensões entre Marco Antônio e Otávio haviam se transformado em inimizade aberta.
A antipatia entre eles culminou na batalha naval na costa oeste da Grécia, em Aço (Actium), em 31 a.C. Embora Antônio e Cleópatra tivessem mais navios, perderam o confronto naval decisivo. Vendo a batalha perdida, Cleópatra fugiu com sua frota real, seguida por Antônio, que abandonou seus marinheiros.
Após a perda devastadora do casal, Antônio famosamente lançou-se sobre a própria espada; já a rainha Cleópatra escolheu a picada mortal de uma áspide (cobra venenosa). Dizia-se que o casal preferia morrer a ser levado por Otávio como troféus vivos. Seus filhos não teriam direito a tal escolha.
O destino dos filhos de Cleópatra e Marco Antônio
Depois de assegurar o controle do Império Romano, Otávio agiu rapidamente para neutralizar o que considerava ameaças, incluindo os filhos de Cleópatra.
Enquanto Alexandria caía, Cleópatra deu ouro a Cesarião e o enviou para a Índia pelo caminho da Etiópia. Ele nunca chegou ao destino; em vez disso, foi localizado pelas forças de Otávio e assassinado. Enquanto isso, Antilo, um filho de Marco Antônio, foi traído por seu tutor, arrastado de um templo e morto.
Na esteira da morte dos pais, os gêmeos, junto com o irmão mais novo, Ptolomeu, foram enviados para viver em Roma. Os romanos frequentemente mantinham os filhos daqueles que conquistavam como reféns, mas os filhos de Cleópatra também deveriam desempenhar papéis centrais no espetáculo da vitória romana que Otávio desejava para seu triunfo.
O Egito foi anexado como província romana e Otávio preparou-se para exibir os gêmeos em seu já mencionado triplo triunfo no ano seguinte. Notavelmente, o historiador Cássio Dio não menciona o jovem Ptolomeu Filadelfo caminhando no triunfo, o que provavelmente indica que ele morreu antes do desfile ritual. Após o cortejo de Otávio, os gêmeos foram morar com Otávia, irmã do imperador e, talvez de forma humilhante, ex-esposa de Antônio.
Os gêmeos eram mantidos sob vigilância por Otávio ao permanecerem na casa de sua irmã. Ao longo de seu reinado, Otávio — que mais tarde seria conhecido como Augusto — retratava-se como um pai dedicado que cuidava de sua família e de seu país.
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Para além da encenação paterna, essa era uma forma de demonstrar ao público como ele havia concedido clemência aos filhos de Marco Antônio (que eram meio-romanos), ao mesmo tempo em que os mantinha sob rigorosa vigilância. Alexandre Hélio provavelmente morreu jovem, na década seguinte à sua chegada a Roma; mas Cleópatra Selene, criada por seus inimigos, seguiu um caminho diferente.
Selene atingiu a maioridade no movimentado lar de Otávia, ao lado de seu meio-irmão, Iulo Antônio. Os relatos antigos destacam sua beleza e inteligência. Ela deu continuidade à sua educação entre as crianças da casa de Otávia. De médicos particulares a bonecas e roupas finas, ela foi criada como uma mulher romana.
No livro “Cleopatra's Daughter: from Roman prisoner to African queen” ("A Filha de Cleópatra: de prisioneira romana a rainha africana", em tradução livre), a historiadora Jane Draycott reconstrói como teria sido a vida de Cleópatra Selene. A autora reavalia as evidências literárias sobre a filha de Cleópatra e introduz novas evidências artísticas e arqueológicas. De moedas a altares reexaminados dedicados a Selene, Draycott demonstra que foi Selene quem reformulou a dinastia ptolemaica, e a memória de sua mãe, para que ela perdurasse no norte da África romano.
Ela também conheceu seu futuro marido na casa de Otávia. Durante a República mais antiga, reféns de elite frequentemente ficavam alojados com aristocratas romanos. Mas César e, posteriormente, Augusto levaram essa prática a novos patamares. A historiadora do mundo antigo Elinor Grace Cosgrave escreveu recentemente sobre a jactância de Júlio César em suas Guerras Gálicas ao se vangloriar de ter tomado centenas de reféns.
Os reféns, frequentemente jovens, serviam como garantias vivas para assegurar a submissão de reinos estrangeiros; eles criavam símbolos visíveis da hegemonia romana e enfatizavam os efeitos "civilizadores" da cultura romana sobre seus inimigos estrangeiros.
Entre os reféns na casa de Otávia estava Juba II, o bebê que outrora havia desfilado no triunfo de César. Como Draycott observa em seu livro, ele "era uma pessoa que descreveríamos hoje como um negro africano".
Assim como Selene, Juba II foi tomado como refém e criado como prisioneiro na casa de Júlio César após ser exibido no triunfo deste sobre seu pai, o rei Juba I da Numídia (hoje, a Numídia abrange partes da Argélia, Líbia e Tunísia, no norte da África). Após a morte de César, Juba II acabou indo morar na casa de Otávia também, tornando-se um renomado estudioso de geografia e história africana.
Otávia organizou o casamento de Cleópatra Selene e Juba em 25 a.C. Como uma espécie de presente de casamento com condições atreladas, Augusto permitiu que eles se tornassem “reis-clientes” — monarcas fantoches ostensivamente autorizados a governar sob o olhar atento de Roma.
A dupla reinou sobre o oeste da Numídia e a Mauritânia, mudando-se para Iol Cesareia, na atual Argélia. Juntos, eles reconstruíram a cidade e impregnaram o reino com influências e iconografias gregas e egípcias por meio de rituais, retratados em moedas, esculturas e construções urbanas.
Nos anos seguintes à sua mudança para a Mauritânia para se tornar rainha, Cleópatra Selene II manteve a linhagem e a memória ptolemaica. Como aponta Draycott, suas moedas mauritanas a retratavam — assim como sua mãe fizera — como uma rainha helenística no estilo de seu penteado e diadema.
O diadema era a faixa de cabeça tradicional dos reis helenísticos e de certas rainhas poderosas. Tratava-se de um pano branco, dado um nó na parte posterior, com fitas pendentes. Assim como sua mãe, Selene escolheu usar o diadema e o fez ao lado de seu marido em uma demonstração que sinalizava igualdade de poder entre eles.
Selene e Juba nomearam seu filho como Ptolomeu da Mauritânia, estendendo a linhagem ptolemaica até bem dentro do início do Império Romano. Dessa forma, Selene enfatizou as identidades africanas, helenísticas e egípcias conectadas à sua mãe, mantendo vivo o legado de Cleópatra.
As histórias em torno dos suicídios trágicos de Cleópatra e Marco Antônio deixaram uma marca indelével na história de Roma e na cultura popular, mas seus legados não terminaram com a morte. A resiliência de Cleópatra Selene II — diante da guerra, em meio às visões caluniosas dos romanos sobre sua mãe e enquanto era mantida como refém — permitiu que os Ptolomeus sobrevivessem por décadas após a picada daquela cobra fatal.
Sarah E. Bond é Professora Associada (titular da cátedra Erling B. Holtsmark) de Estudos Clássicos no Departamento de História da Universidade de Iowa. Ela escreve regularmente sobre história antiga e arqueologia e é autora de "Strike: Labor, Unions, and Resistance in the Roman Empire" e "Trade and Taboo".
