
Em busca do local de um dos grandes milagres do Cristianismo
O painel "Anunciação", de 1430, é do pintor italiano Fra Angelico. A obra é uma das diversas representações de Maria durante o Renascimento e atualmente está no Museo della Basilica di Santa Maria delle Grazie, na cidade de San Giovanni Valdarno, Itália.
Exatamente nove meses antes do Natal, os cristãos celebram a Anunciação, em honra ao dia em que acreditam que um anjo apareceu a uma virgem chamada Maria e anunciou que ela estava milagrosamente grávida de Jesus. Estudiosos bíblicos datam esses eventos por volta de 6 a.C.
A Anunciação mostra aos cristãos “que o nascimento de Jesus faz parte do plano divino e que ele é humano, nascido de uma mulher, mas também divino”, afirma Joan E. Taylor, professora emérita do King’s College London, na Inglaterra, e autora do livro “Boy Jesus: Growing up Judean in Turbulent Times” (em tradução livre: “Menino Jesus: Crescendo Judeu em Tempos Turbulentos”).
Apesar da importância da Anunciação na fé cristã, os primeiros textos cristãos fornecem “poucos detalhes concretos sobre o local onde o evento ocorreu”, afirma James D. Tabor, professor aposentado de estudos religiosos/origens cristãs da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, nos Estados Unidos, e autor de "A Maria Perdida: Redescobrindo a Mãe de Jesus".
No entanto, gerações de peregrinos visitam há muito tempo dois locais diferentes em Nazaré, cidade ao norte onde hoje é Israel, onde acreditam que a Anunciação aconteceu: uma gruta onde Maria supostamente viveu e um poço que ela provavelmente usou.
Arqueólogos bíblicos, por sua vez, examinaram esses locais na esperança de encontrar evidências que datem da época da Anunciação, abrindo a possibilidade de que Maria tenha estado lá.
Essas escavações proporcionaram aos pesquisadores uma compreensão mais profunda da Nazaré antiga, de como os primeiros cristãos veneravam Maria e das experiências religiosas dos peregrinos — ainda que não tenham fornecido uma resposta definitiva sobre o local onde a Anunciação teria ocorrido.
(Sobre História, leia também: Assassinato, motim, escravidão: o "pior naufrágio do mundo" foi mais sangrento do que pensávamos)

Acima, a reprodução do quadro "A Virgem em Oração" do pintor italiano Giovanni Battista Salvi da Sassoferrato. A obra atualmente está exposta na National Gallery em Londres, Inglaterra.
Os locais da Anunciação segundo o Evangelho de Lucas
Quatro evangelhos compõem o Novo Testamento, mas a história da anunciação de Maria está presente apenas em um deles: o Evangelho de Lucas, que os estudiosos acreditam ter sido escrito no final do século 1 d.C. Isso significa várias décadas depois da suposta ocorrência da anunciação.
De acordo com o evangelho, “o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré”, onde visitou Maria e anunciou seu destino divino.
Localizada no norte de Israel, perto do Mar da Galileia, Nazaré ainda existe hoje – é uma das maiores cidades árabes palestinas do país – mas sua história remonta à antiguidade, quando os evangelhos a identificaram como a cidade natal de Jesus. Na época, Nazaré estava sob o controle do Império Romano.
“A vila [antiga] ficava nas encostas mais baixas, a oeste e acima do uádi [ou vale]”, conta a arqueóloga Yardenna Alexandre, da Autoridade de Antiguidades de Israel. “As casas foram construídas sobre o leito rochoso bastante inclinado.”
Enquanto a Nazaré de hoje abriga cerca de 80 mil pessoas, a vila antiga era “uma pequena vila agrícola com casas modestas”, diz Tabor; um lugar onde “as famílias viviam próximas umas das outras, e a vida diária girava em torno das tarefas domésticas, da agricultura e de recursos comunitários, como poços e nascentes”.
À medida que sua religião se espalhava, os primeiros cristãos começaram a fazer peregrinações a locais sagrados da região, incluindo Nazaré. Essas peregrinações os levavam a lugares associados a Jesus, sua família e seu ministério, para nutrir sua espiritualidade e transcender o mundo material. Eles oravam, recebiam bênçãos, deixavam oferendas e levavam para casa lembranças e objetos religiosos.
Taylor afirma que essas peregrinações a Nazaré “começaram de fato no século 4” e incluíam a gruta e o poço que ainda hoje são associados a Maria.
Mas não há como saber exatamente por que esses dois locais se tornaram venerados, afirma o arqueólogo Kenneth Dark, autor de Arqueologia da Nazaré de Jesus e professor do St. Edmund’s College, da Universidade de Cambridge. “Simplesmente não sabemos o que foi dito a esses primeiros peregrinos e por quem.”
(Você pode se interessar: Os 4 dados sobre Maria, a mãe de Jesus segundo o cristianismo)
A Igreja da Anunciação de Nazaré fica no topo de uma gruta associada a Maria
Uma das peregrinas era Egéria, uma mulher espanhola cuja carta sobre suas viagens à Terra Santa menciona sua visita a Nazaré por volta de 383 d.C. Ela escreveu que acreditava que Maria havia vivido em “uma grande e esplêndida gruta”, sobre a qual um altar havia sido erguido.
Esse altar provavelmente fazia parte de uma sucessão de estruturas religiosas construídas no que os peregrinos acreditavam ser o local da Anunciação. Igrejas foram construídas e destruídas durante os períodos bizantino e das Cruzadas, antes que outras fossem erguidas e ampliadas nos séculos subsequentes.
Em 1954, o antigo prédio da igreja foi demolido para dar lugar à Igreja da Anunciação, que permanece de pé até hoje. A demolição da antiga igreja proporcionou aos pesquisadores a rara oportunidade de escavar seus alicerces.
De 1955 a 1966, Bellarmino Bagatti, um arqueólogo italiano e padre franciscano, descobriu cavernas, fossos e túneis que os antigos nazarenos teriam usado para armazenamento, oficinas e até mesmo residências. Essas descobertas apenas reforçaram a crença dos peregrinos de que Maria vivia na caverna ou em suas proximidades.
Dark afirma que instalações semelhantes em outros sítios próximos foram usadas como esconderijos durante a Revolta Judaica por volta de 70 d.C., quando os judeus da Judeia se rebelaram contra a Roma Imperial em busca de independência.
Como as cavernas precisavam ter existido antes da revolta, Dark diz que a cronologia coincide com a história da anunciação. "Não há nada arqueologicamente refutável sobre a Caverna da Anunciação ser a caverna bíblica", diz ele, embora também não haja nada que possa ser comprovado.
As escavações também confirmaram que peregrinos cristãos viajavam para a caverna desde pelo menos o final do período romano, quando Egéria visitou Nazaré. Dark afirma haver evidências de uma "igreja ricamente decorada" que data do século 5 sob os alicerces da Igreja da Anunciação. Escavações também revelaram lâmpadas sob o piso de mosaico do edifício, sugerindo que peregrinos visitavam a gruta muito antes da construção do final do período romano.
(Conteúdo relacionado: Quem foi a verdadeira Virgem Maria, a mãe de Jesus no cristianismo?)

A Basílica da Anunciação em Nazaré, onde hoje é Israel. Ela é um local de peregrinação cristã, construída sobre a gruta que se acredita ter sido a casa de infância da Virgem Maria.
A anunciação ocorreu em um poço público?
A menos de um quilômetro e meio da Igreja da Anunciação fica a Igreja Ortodoxa Grega de São Gabriel. Ela está localizada perto do poço onde, segundo outra versão da história da anunciação, o anjo contatou Maria pela primeira vez.
Essa história aparece no Protoevangelho de Tiago, um evangelho apócrifo do século 2 que foi popular, influente e traduzido para pelo menos nove idiomas. O texto se concentra no nascimento, na vida e na virgindade perpétua de Maria.
De acordo com o texto, Maria “pegou o cântaro e saiu para enchê-lo de água” antes de ouvir uma voz: “Salve, você que recebeu a graça; o Senhor está com você; bendita é você entre as mulheres!”. Alarmada, Maria voltou para casa, onde foi recebida por um anjo que anunciou que ela daria à luz Jesus.
“Não há “nada [no texto] sobre ela estar em Nazaré”, destaca Taylor. No entanto, no século 4, o poço já estava associado à vila, e os peregrinos atribuíam o local da história da anunciação do Protoevangelho a um lugar chamado “Poço de Maria”. Entre 1997 e 1998, Alexandre e sua equipe escavaram o Poço de Maria. Entre as descobertas, estavam moedas com as efígies do Rei Herodes e de Cláudio, e uma lâmpada que sugere que os habitantes de Nazaré eram judeus.
O trabalho deles também comprovou que o poço era usado na época da anunciação, já que “seus vestígios do final do período helenístico e do início do período romano indicam que a nascente abastecia a vila nesses períodos”, explica Alexandre.
Tabor acrescenta que o poço “teria sido um ponto de encontro diário onde as mulheres vinham buscar água. Em uma pequena vila como Nazaré, esse teria sido um dos principais espaços comunitários”.
Nossa compreensão mais profunda do mundo de Maria
Especialistas afirmam que, de uma perspectiva histórica e arqueológica, um local não é necessariamente mais ou menos provável que o outro. Ambos apresentam evidências de atividade durante o período em que a Anunciação teria ocorrido. E alguns estudiosos acreditam que tentar determinar a localização exata do evento é focar na questão errada.
“A arqueologia não pode confirmar que a anunciação ocorreu, nem pode verificar os aspectos sobrenaturais da história”, explica Tabor. “O que ela pode fazer é reconstruir o contexto histórico em que a tradição surgiu.”