Meio Ambiente

Legado do ambientalista Chico Mendes, morto há 30 anos, mantém-se vital para a sobrevivência da Amazônia

Entenda como um seringueiro que se alfabetizou já adulto virou uma referência na preservação da maior floresta tropical do mundo. Sexta-feira, 14 Dezembro

Por João Paulo Vicente

Era uma quinta-feira, dia 22 de dezembro de 1988, e Chico Mendes jogava dominó com dois policiais militares responsáveis por sua segurança na casa onde morava, em Xapuri, no Acre. Conforme anoitecia, Ilzamar, esposa de Chico, avisou que iria colocar a mesa para jantarem. Dali a pouco começaria um dos últimos capítulos da novela Vale Tudo, da TV Globo. Chico jogou uma toalha em cima do ombro e se preparou para tomar banho do lado de fora. Antes, olhou pela fresta da porta e comentou que estava escuro no quintal. Disse que colocaria uma luz no dia seguinte, mas não teria a oportunidade. Assim que saiu, levou um tiro de escopeta que tirou sua vida.

“Mas quem matou o Chico errou o alvo, perdeu o tiro”, diz Gomercindo Rodrigues, amigo do seringueiro acreano que se tornou famoso ao redor do mundo ao propor um modo de explorar a floresta sem destruí-la. “Pensaram que iriam matá-lo, mas na verdade o tornaram imortal”.

Trinta anos depois de ser assassinado, Chico Mendes continua um símbolo maior da luta dos povos extrativistas pelo uso das terras que ocupam há décadas, em específico, e pela preservação da Amazônia, num âmbito geral. Um lugar inusitado para quem nasceu em um seringal ainda antes da metade do século 20 e só aprendeu a ler e escrever depois de adulto. Mas justificado: junto a um vasto grupo de pessoas que trabalharam ao seu lado desde o final da década de 1970, ele idealizou o modelo de reservas extrativistas que traduziu com perfeição a ideia de desenvolvimento sustentável bem antes desse conceito se popularizar.

“As reservas extrativistas foram uma invenção brasileira que não têm comparação com qualquer outro tipo de unidade de conservação no mundo. É a ideia de proteger a floresta de maneira original, não só para a natureza, mas para as populações que vivem ali”, explica Mary Allegretti, antropóloga que se aproximou de Chico no começo da década de 1980.

“Ele é muito relevante pelo que significou o conceito do socioambientalismo, definido a partir daí. Como integrar proteção ao meio ambiente e justiça social”, diz Marina Silva, presidente da Rede Sustentabilidade, que começou na política por influência de Chico. “É incrível como uma pessoa com a simplicidade dele teve a sabedoria para uma visão pioneira que hoje configura a escala macro no mundo”.

Vida pela floresta

Francisco Alves Mendes Filho nasceu em 15 de dezembro de 1944, em uma família de seringueiros. Aos doze anos, ficou encarregado do sustento da casa quando o pai começou a ter dificuldades de locomoção. Era bom na lida com o látex das árvores, tanto que, segundo relatos ouvidos por Gomercindo, no final da adolescência chegou a ser premiado como seringueiro mais produtivo na região onde vivia.

Isso não significa que estivesse satisfeito com as condições de trabalho nos seringais, onde em geral um dono explorava o trabalho de diversas famílias. Elas trocavam a produção por bens de primeira necessidade com o proprietário das terras e acabavam numa espécie de servidão por dívida para com ele. Na prática, uma situação semelhante à escravidão. “O Chico vivenciou isso. Entregava o racha e não recebia nada em troca, ficava devendo o tempo todo”, conta Mary Allegretti.

(Saiba mais: "Diminuição da Amazônia pode afetar clima e abastecimento de água em todo o planeta")

“É incrível como uma pessoa com a simplicidade dele teve a sabedoria para uma visão pioneira que hoje configura a escala macro no mundo.”

por Marina Silva
Ambientalista e política, fundadora do partido Rede Sustentabilidade

A antropóloga viu esse cenário com os próprios olhos quando foi ao Acre pela primeira vez, em 1978, para seu projeto de mestrado. “Eu achava que não existia mais, que era coisa de literatura”, diz. Quando voltou para continuar a pesquisa, três anos depois, conheceu Chico, à época já um líder importante entre os seringueiros. “Ele tinha duas causas pelos quais lutou a vida inteira. Uma era a justiça nas relações de trabalhos nos seringais. A outra era a ideia de que a floresta valia mais em pé do que derrubada”, fala Mary.

A construção dessa luta começara quase duas décadas antes, quando Chico conheceu um homem chamado Euclides Távora. Ex-militar e militante do Partido Comunista Brasileiro, Euclides se refugiou na fronteira com a Bolívia após participar da Intentona Comunista, uma tentativa frustrada de golpe contra Getúlio Vargas, e se envolver numa outra revolução mal-sucedida no país vizinho.

Então com 19 anos, Chico se aproximou de Euclides, que começou a ensiná-lo a ler e escrever. “O Euclides era uma pessoa com boa formação política e foi além da alfabetização. Ensinou Chico a escutar diferentes pontos de vista para chegar a uma conclusão”, conta Mary. No meio desse processo, em 1964, os militares tomaram o poder no Brasil. Era a oportunidade perfeita para colocar em prática a capacidade analítica do pupilo.

Na colocação – como são chamados os pedaços de terra explorados por uma família ou pessoa dentro de um seringal – de Euclides, havia um radinho de pilha onde Chico ouvia, em português, notícias do mundo sobre a situação política brasileira. A Voz da América, um programa produzido nos Estados Unidos, louvava os militares. Emissoras russas, por sua vez, denunciavam o golpe. E a BBC inglesa, por fim, trazia uma terceira opinião nem à direita, nem à esquerda. “Isso fez muito a forma de pensar do Chico”, diz a antropóloga.

Para Mary, outros dois fatores ligados à memória dos seringueiros ajudam a explicar como Chico se tornou um personagem tão influente. Um deles é a história da migração de nordestinos para a Amazônia para produzir borracha para os Aliados durante a 2ª Guerra Mundial, o que criou tanto um senso de heroísmo quanto a identidade de que eles contribuíram com a defesa da democracia nos países livres.

O segundo, num passado mais distante, foi a participação de seringueiros na conquista do território atual do Acre na virada do século 20. Essas histórias convergiam para a ideia de um povo valente, guerreiro, mas que na década de 1970 se via espremido entre a opressão dos donos de seringais tradicionais e a chegada de agricultores do Sul e Sudeste do país que vinham com o objetivo de derrubar a floresta para criar pasto e lavoura.

(Relacionado: "Floresta amazônica já abrigou milhões a mais do que se pensava")

Euclides havia dito a Chico que a situação dos seringueiros só melhoraria com a chegada dos sindicatos na região. Foi o que aconteceu em 1975, quando a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) aportou em Brasileia, distante 234 km da capital Rio Branco e 50 km de Xapuri. Como era alfabetizado, Chico logo se tornou secretário da entidade no local.

Foi nesse ano que Marina Silva começou a ouvir falar a respeito do seringueiro de tendências comunistas. Ela estudava para se tornar freira em um convento em Rio Branco e quando se falava sobre ele era em tom negativo, inclusive com críticas a padres que eram próximos a Chico. “Eu ficava triste porque era aquela história de dizer que quem defendia seringueiros, quem defendia os índios, era comunista, como se fosse uma coisa ruim”, diz Marina, ela própria vindo de uma família que trabalhava em seringais.

Certo dia, na missa, Marina viu o anúncio de um encontro da sindicância rural que teria a presença de Chico e do teólogo Clodovis Boff. “Eu pensei: ‘agora vou entender essa história de Chico Mendes comunista’. Pedi permissão para minha madre superiora para fazer o curso e ela perguntou que curso era esse. Eu disse que era um curso que o padre queria que a gente fizesse. Afinal, o cartaz estava na missa”, conta Marina, com uma risada.

“Quem matou o Chico errou o alvo, perdeu o tiro: pensaram que iriam matá-lo, mas na verdade o tornaram imortal.”

por Gomercindo Rodrigues
Amigo

Os dois se deram bem e Chico começou a enviar informativos sobre a luta dos seringueiros. Marina se viu numa contradição: ela havia escolhido praticar a fé em recolhimento, mas via à frente a opção de transformar essa mesma fé em compromisso real em defesa da justiça. Logo ela abandonaria o convento para militar com Chico. Ambos participaram da fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Partido dos Trabalhadores (PT) no Acre.

Chico, inclusive, foi candidato a alguns cargos públicos pelo PT, sem sucesso. Antes, foi vereador em Xapuri pelo então PMDB no fim da década de 1970. Havia, no entanto, um certo conflito entre o modo de fazer política no campo na região com aquele praticado no restante do Brasil. “A luta tradicional do movimento camponês era pela demarcação de terras em lotes. E os seringueiros queriam o usufruto do seringal, que é de acordo com os estrado da seringa, de forma não linear. Também tinha um estranhamento da proximidade com ambientalistas, que vinham de uma luta diferente”, explica Marina.

De qualquer forma, uma das atividades pelas quais Chico ficou mais conhecido não tinha grandes lastros partidários. Eram os empates, em que um grande grupo de pessoas, incluindo crianças e idosos, se juntavam para ir até uma região que estava sendo desmatada para dialogar com os operadores de motosserra e convencê-los a parar.

“Muitos eram ex-seringueiros que precisavam trabalhar. Eles conheciam a realidade, então virava um diálogo e muitas vezes paravam”, conta Gomercindo, hoje advogado. Guma, como era conhecido na época, trabalhava como agrônomo no Acre desde 1983 e se aproximou de Chico em 1986 para auxiliar na organização das cooperativas do Projeto Seringal, criado no começo daquela década e cujo eixo de alfabetização de adultos era responsabilidade de Mary Allegretti.

(Leia: "Bolsonaro prometeu explorar os recursos da Amazônia – mas ele pode fazer isso?")

Marina também participou de vários empates. Sobre um dos mais famosos, numa área do Frigorífico Bordon, ela lembra o momento em que o grupo se aproximou de onde ocorria o desmatamento:

“Quando chegamos ao local, havia uma proteção da Polícia Militar para que os peões derrubassem as árvores. Chegamos e os policiais vieram na nossa direção para impedir a entrada. Então o Chico Mendes deu sinal para cantar o Hino Nacional. Todo mundo deu as mãos e cantou. Aí os soldados pararam e ficaram esperando. Quando terminou, eles começaram a caminhar de novo, e aí o Chico falou para dar as mãos e rezar um Pai Nosso. Pegamos na mão dos PMs, que tiveram que parar de novo, e aí pronto, não tinha mais o que fazer, já tínhamos entrado. Era tudo muito pacífico”.

A Bordon desistiu da área e vendeu a fazenda. A colocação do seringueiro que ficava dentro das terras foi preservada. Posteriormente, quando foi criada a Reserva Extrativista Chico Mendes na região, uma imprecisão nas imagens de satélites usadas para a demarcação fez com que a área ficasse fora da reserva. Ainda assim, a floresta ficou de pé. Até o ano passado, quando os novos donos da fazenda voltaram a investir na justiça para expulsar os seringueiros.

Calmo da cabeça e inquieto dos pés

Chico era um homem tranquilo. Era raro perder o controle e se irritar. Na verdade, chegava a ser difícil perceber quando estava nervoso. Em cima do palanque, nas incursões pela política, essa personalidade impediu que se apresentasse como orador apaixonado. Pelo contrário, apostava em conversas pessoais mais afáveis.

“Ele era muito despojado e disponível, tinha uma capacidade de interação grande com pessoas de fora da Amazônia e que não fossem trabalhadores, como jornalistas, pesquisadores e até militares”, conta Mary. Uma consequência disso é que sobrava pouco tempo de lazer e para a família.

Ângela Mendes, filha do primeiro casamento, conta que passou a conviver com o pai na adolescência. “Eu nasci no seringal, mas fiquei doente e fui morar com uma tia na capital para me tratar quando tinha três anos”, diz. A tia acabou responsável por sua criação, mas na juventude ela passou a ir visitá-lo em Xapuri. “Mas como não tinha muita comunicação era comum eu ir lá e ele estar para outro lugar”.

“Nós tivemos oportunidade de partilhar momentos especiais”, conta Ângela. “De eu chegar na casa e ele estar lendo um livro e dizer que quando terminar ia deixar guardadinho para eu ler e nós conversarmos sobre. Ou acordar de manhã e me chamar junto com meus irmãos na cama, para começar o dia numa brincadeira de família”.

Além de Ângela, Chico teve dois filhos com Ilzamar, a segunda esposa, Sandino e Elenira. Os nomes eram uma homenagem a Augusto César Sandino, nicaraguense que liderou uma revolta contra a presença militar dos Estados Unidos na Nicarágua no fim da década de 1920, e Helenira Resende, militante do Partido Comunista do Brasil desaparecida durante a Guerrilha do Araguaia.

Fora de casa, o que Chico mais fazia na vida era andar. De 1981 até o dia de sua morte, foi diretor do Sindicato dos Trabalhadores Rurais em Xapuri. Também articulou a criação da Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS, hoje Conselho Nacional das Populações Extrativistas), em 1985, assim como fundou ao lado de Mary Allegretti o Instituto de Estudos Amazônicos. No dia a dia, todo esse trabalho exigia horas a pé no meio da floresta para visitar a colocação dos seus companheiros de luta - em geral, dormia na casa deles após uma reunião.

Enquanto fortalecia sua base, o nome de Chico começava a ganhar projeção internacional. Ao longo de 1987, visitou o Banco Interamericano do Desenvolvimento (BID) para denunciar como a construção sem planejamento da BR 364, financiada pelo BID, degradava a floresta amazônica.

“Ele era muito despojado e disponível, tinha uma capacidade de interação grande com pessoas de fora da Amazônia e que não fossem trabalhadores, como jornalistas, pesquisadores e até militares.”

por Mary Allegretti
Antropóloga

No mesmo ano, também falou sobre a conservação da Amazônia a congressistas americanos. “Para você ver como ele conseguiu juntar diferentes atores, nessa visita ele impressionou o senador republicano [partido conservador americano, o mesmo do atual presidente Donald Trump] Robert Kasten, que depois do assassinato do Chico escreveu um artigo no New York Times cobrando uma atitude do governo brasileiro”, conta Gomercindo.

Ainda em 1987, Chico recebeu o prêmio Global 500 da ONU.

Mas ele não era uma figura unânime. Para os agricultores e pecuaristas donos de terras, Chico era um vagabundo que atrapalhava o desenvolvimento. Da mesma forma, em Rio Branco e Xapuri muitos o viam como alguém que vivia às custas do sindicato.

(Relacionado: "Desmatamento na Amazônia atinge maior índice desde 2008 – 7,9 mil km²")

A realidade era menos rica. Não havia dinheiro e os poucos recursos que vinham de fora eram paupérrimos. As viagens que Chico fazia eram pagas por quem o convidava - quando sobrava dinheiro, ele usava para pagar as contas do sindicato, que vivia com o telefone cortado. “Era comum ele falar que ia desaparecer para catar castanha. Ainda precisava desse dinheiro para sobreviver. Quando retornou da viagem em que foi receber o prêmio da ONU, ele fez isso. Entrou na floresta para catar castanha por um mês”, diz Mary.

Miguel Scarcello, geógrafo que trabalhava no Instituto de Meio Ambiente do Acre, conta que se aproximou de Chico no final de 1987. “Quando comecei a conviver com ele, percebi que era necessário reforçar a opinião pública a favor dos seringueiros na área urbana”, fala Miguel. Juntos a um grupo de outros ativistas, os dois criaram a SOS Amazônia.

Na época, também organizaram exposições em praças públicas sobre o desmatamento na região. “Foi quando começaram a sair os primeiros dados de desmatamento do INPE [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] e nós usávamos infográficos produzidos pela Folha de São Paulo, entre outros materiais”, diz.

No entanto, por mais que o desmatamento fosse pauta e Chico estivesse em voga fora do país, os grandes jornais do Sudeste ainda não tinham embarcado na sua história. No dia 11 de dezembro de 1988, Chico Mendes deu uma entrevista para o repórter Edilson Martins. No papo, avisou que seria morto antes do fim do ano. Também acertou quem o mataria.

O texto deveria ser publicado no dia 16 no Jornal do Brasil, mas os editores decidiram colocá-lo na gaveta por se tratar de uma visão muito politizada de um personagem desconhecido do Brasil. Dias depois do assassinato, o JB finalmente publicou a entrevista na íntegra, junto a um editorial na primeira página.

Sangue no campo e um sonho de pé

De acordo com dados da ONG britânica Global Witness, o Brasil é o país mais perigoso para ambientalistas do mundo, com o assassinato de 57 ativistas em 2017 - 80% deles atuavam na Amazônia. O país também é letal nas disputas agrárias: foram 71 mortos no campo, de acordo com a Comissão Pastoral da Terra.

É uma violência que não vem de hoje. No Acre, grupos econômicos e políticos poderosos nunca tiveram problemas em resolver disputas à bala, uma realidade que se aproximou de Chico Mendes pela primeira vez em 1980. Naquele ano, o líder do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia, Wilson Pinheiro, foi assassinado.

Era um crime anunciado. Como era um crime anunciado o assassinato de Chico Mendes a partir do começo de1988, conforme os resultados do trabalho dele começavam a mudar a realidade da região. A principal ameaça vinha de Darly Alves, um pecuarista que disputava a propriedade do seringal Cachoeira, ponto de partida da luta de Chico.

A tensão era tamanho que o governo do Acre disponibilizou uma escolta de PMs para ele. Os amigos, por sua vez, insistiam para que aceitasse convites e passasse um tempo fora do estado. Chico negava, dizia que ali estava sua luta e que se fosse para morrer, morreria ao lado dos companheiros.

Marina conta que a última vez em que viu Chico, havia ido a Xapuri fazer uma reunião com ele e dormiu na sua casa, que ficava próxima à rodoviária. Na hora de ir embora, ele disse que a acompanharia até o ônibus. Antes de embarcar, os dois se abraçaram. “Ele falou ‘dessa vez não vai ter jeito, nega véia, os cabras vão me pegar”, relembra. “Eu insisti com ele, perguntei porque ele não ia para o Rio de Janeiro, o Fernando Gabeira e a Lucélia Santos tinham convidado. Mas ele disse que não, ‘meu lugar é aqui’. Vai embora, vai com Deus. E eu fui, meio chorando no ônibus”.

No dia 15 de dezembro, Chico comemorou o aniversário de 44 anos. Cantou parabéns com a mesma toalha que morreria pendurada no ombro. Em seguida viajou para um encontro de seringueiros em Sena Madureira, também no Acre. Na volta (no dia 19 ou 20, de acordo com Gomercindo), parou em Rio Branco para pegar um caminhão que havia sido conseguido com apoio do BNDES para escoar a produção dos extrativistas.

Um dos PMs que fazia sua escolta dirigiu o caminhão até Xapuri, onde Chico deu voltas pela cidade com várias crianças na boleia. Na medida do possível, o clima era bom. Mas Gomercindo notara uma movimentação estranha.

Ao longo de todo aquele ano, sempre havia uma dupla de pistoleiros de olho neles. “Todos os dias eu abria a janela do local onde morava, lá estavam na praça dois pistoleiros. Na frente do Sindicato, também sempre tinha dois sentados. Eles faziam questão de ser notados, ficavam com as armas cutucando a parte de trás da camisa”, conta Gomercindo. “Depois que o Chico viajou… cadê os caras? Comecei a passar por onde sempre estavam, bebendo, jogando sinuca, mas eles sumiram, fiquei preocupado”.

“No dia 22 cheguei por volta das 18h na casa dele. Estava jogando dominó com os dois policiais e me chamou ‘Guma, venha aqui, vamos ganhar desses patos’”, diz. Agoniado, Gomercindo negou o convite. Quando Ilzamar falou da janta, Chico insistiu para que o amigo comesse, mas este disse que ia dar uma volta antes para ver se encontrava os pistoleiros. “Eu peguei a moto e fui dar um baculejo na cidade. Demorei cinco, dez minutos, e quando vinha voltando gritaram ‘Guma, atiraram no Chico!”.

A notícia correu o mundo. Mary, que passaria o natal com a família em Nova York, voou de lá para Miami, depois Caracas, Manaus e Xapuri. “Quando cheguei o seringal inteiro estava na cidade”, conta. “Lula, o Gabeira, todo mundo foi lá”. A imprensa internacional também. Com a repercussão, jornalistas brasileiros caíram em peso para o Acre. “Uma semana depois, ninguém mais falava Chico, todo mundo falava Chico Mendes”, diz ela.

Ângela, que à época tinha 19 anos (Elenira e Sandina tinham 4 e 2, respectivamente), conta que não sabia o peso do nome do pai antes disso. “Foi uma coisa intensa para mim. Tudo que aprendi sobre a história dele não foi com ele, mas com os amigos, os companheiros, foi tecer uma colcha de retalhos”, afirma ela.

Toda atenção sobre o caso garantiu que os responsáveis pelo crime, Darcy Alves e o filho Darci, fossem condenados a 19 anos de prisão em 1990. Os dois fugiram em 1993, foram capturados em 1996 e ficaram presos até 99. Hoje, estão livres.

Além disso, o assassinato também impulsionou a definição legal das Reservas Extrativistas (Resex) em 1990. São áreas da União onde os moradores têm permissão para explorar os recursos da floresta. Na Amazônia, são 1979 Resex e outras 20 Reservas de Desenvolvimento Sustentável, modelo semelhante de unidade de conservação.

“Isso equivale a 23 milhões de hectares, 5% da Amazônia. É um legado muito relevante, alcançado a partir das ideias dele e de outras lideranças e instituições que deram sequência ao trabalho, principalmente o CNS”, explica Mary.

Na verdade, muitos dos atores envolvidos nessa história assumiram cargos relevantes no governo federal. A própria Mary foi secretária de Coordenação da Amazônia no Ministério do Meio Ambiente de 1999 a 2003. Marina, ministra do Meio Ambiente entre 2003 e 2008. O projeto de Chico virou realidade.

“Trinta anos se passaram e mudou muita coisa”, diz Nilson Mendes, primo de Chico que mora até hoje no seringal Cachoeira, de onde tira açaí, borracha e castanha. “Muitas coisas aconteceram, energia, chegou ramal [estrada não pavimentada], as pessoas melhoraram de vida”.

O modelo, no entanto, não é perfeito. Do ponto de vista econômico, a exploração dos recursos da floresta ainda não é rentável o suficiente - é necessário subsídio no preço dos produtos. Essa ajuda de custo, claro, traz um retorno para o país: imagens de satélite demonstram como essas regiões estão mais bem conservadas em relação a áreas desprotegidas.

Além disso, os órgãos responsáveis por gerir essas unidades de conservação - o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), primeiro, e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), hoje - tem expertise na proteção do meio-ambiente, mas não na formulação de políticas socioeconômicas que atendam demandas específicas dos extrativistas.

O ICMBio, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA), foi criado em 2007 e está entre suas atribuições implantar, proteger e fiscalizar Unidades de Conservação (UCs) instituídas pela União, além de fomentar e executar programas de pesquisa, proteção, preservação e conservação da biodiversidade.

Em resumo, para o povo de Chico Mendes, a luta continua. “Essa luta não morre. Pelo contrário, no cenário atual, ela é cada dia mais recorrente”, afirma Ângela, que se envolveu nas atividades da CNS e no Comitê Chico Mendes, uma rede criada para lutar por justiça no campo.

Para a família e amigos de Chico, o final do ano é uma época de comemorar a data do seu aniversário e reforçar a briga que levou ao assassinato. A saudade, claro, também aparece.

“Houve conquistas, mas eu trocaria todas elas pelo Chico vivo”, diz Gomercindo. “Acho que as conquistas teriam sido muito maiores”.

Nota do editor: Esta reportagem foi editada em 17/12/2018. O termo "seringalista" foi substituído por "seringueiro". "Seringalista" refere-se aos donos dos seringais, enquanto "seringueiro" é o nome do trabalhador que executa as atividades de extração nos seringais. Esta última era a ocupação de Chico Mendes.

 

Continuar a Ler