Por que está cada vez mais difícil encontrar conchas do mar no litoral?

Na praia, tire somente fotos, deixe apenas pegadas e castelos de areia. Os moluscos já têm problemas suficientes.

O nascer do Sol ilumina um búzio na praia de Sanibel Island, no sudoeste da Flórida, Estados, Unidos, onde é proibida a coleta de moluscos.

Foto de Martin Shields Getty Images
Por Cynthia Barnett
Publicado 13 de jul. de 2022 16:42 BRT

Em 1973, quando Melissa Greene estava na 6ª série, seus pais compraram o primeiro condomínio em um novo empreendimento à beira-mar da Flórida, Estados Unidos, em Hutchinson Island.

A primeira vez que ela e seus irmãos correram para a costa selvagem, ficaram chocados pelo contraste com suas viagens anteriores às praias de Daytona, um espetáculo lotado de carros e cruzeiros. Em Hutchinson, a grande atração eram as conchas.

Cada maré deixava uma fileira de conchas e búzios, concha noz-moscada e de tulipa, concha olho de tubarão enormes e cauris salpicados de marrom do tamanho da mão de Greene. Na praia, uma floresta de troncos captura ainda mais conchas, junto com estrelas-do-mar, caranguejos e caixas de ovos marinhos de todos os tipos.

Greene e sua família em breve marcarão meio século de propriedade em Ocean Village, agora uma comunidade de 1.200 casas. Hoje, no mesmo trecho de praia, ela raramente encontra as grandes conchas intactas que eram comuns em sua infância.

“É uma diferença surpreendente”, diz ela. Embora uma grande tempestade ainda possa levar para a faixa de areia a vida marinha e os seixos, “o que você não vê mais são as pilhas profundas de conchas inteiras e enormes que víamos por anos”.

Entre os objetos naturais mais reverenciados ao longo da história humana, as conchas do mar são uma mostra da surpresa e da maravilha de uma viagem à praia – e das profundas mudanças acontecendo em nossos litorais.

Desde o molusco abalone na costa oeste até conchas e búzios na costa leste, alguns dos maiores e mais conhecidos moluscos marinhos – os animais arquitetos que extraem carbonato de cálcio na água do mar para construir suas conchas – diminuíram sob a pressão da pesca. Eles também são prejudicados pelo aumento da temperatura do oceano e pela acidificação das águas, e por outros tipos de poluição e escoamento da terra. E eles podem ser deslocados pela severa erosão causada por enseadas e molhes – um problema persistente na Ilha Hutchinson – bem como pelos esforços para reparar praias erodidas restaurando a areia perdida.

(Leia sobre como os souvenires de conchas estão destruindo animais marinhos protegidos.)

Mas os moluscos marinhos, que sobreviveram às mudanças da Terra por 500 milhões de anos, são modelos de resiliência e também confirmam nossa capacidade de reparar o que está errado, comenta George Buckley, do Boston Malacology Club. Antes da aprovação da Lei da Água Limpa, em 1972, quando ele era o presidente do clube, Buckley assistiu como os amados moluscos e conchas foram extirpados pela poluição industrial e de esgoto nas Ilhas do Porto de Boston. Hoje, “os moluscos se repovoaram”, destaca. “Você encontra moluscos e conchas.”

Pescadores (e turistas) versus moluscos

Nas praias com números recordes de turismo, mais pessoas podem significar menos conchas. “Não é tanto a coleta individual, mas as muitas ramificações do turismo massivo”, explica o paleobiólogo Michal Kowalewski, do Museu de História Natural da Flórida. “Turismo de massa significa mais barcos, mais manutenção de praias, mais máquinas, e tudo contribui para mudanças da costa.”

Com os suburbanos obcecados por gramados verdes, muitos banhistas desenvolveram uma preferência pela areia imaculadamente cuidada. Este tipo de praia pode requerer maquinário pesado para varrer a areia com dentes afiados. Enquanto as máquinas limpam a areia, peneiram o plástico, bitucas de cigarro e outros detritos humanos, elas também recolhem vida marinha, conchas e troncos.

A Flórida limita o equipamento mecanizado de limpeza de praia durante a época de nidificação para tartarugas marinhas em perigo de extinção. Mas moluscos marinhos e outros invertebrados não atraem a mesma preocupação – ou investimento para pesquisa – que animais como tartarugas marinhas. Os ecologistas descobriram que a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza – o indicador oficial para o impressionante declínio de animais em andamento em todo o mundo – subestima severamente a perda de invertebrados, que representam cerca de 97% de todas as criaturas.

O financiamento de pesquisas para espécies comercialmente importantes significa que os cientistas têm mais conhecimento sobre os moluscos que comemos. Búzios canalizados, búzios nodosos, antigamente onipresentes nas praias desde Cape Cod a Cabo Canaveral, tornaram-se rapidamente pescarias multimilionárias antes que pudessem ser regulamentadas. Pesquisadores descobriram que búzios fêmeas estão sendo colhidos antes de terem a chance de se reproduzir.

O mesmo vale para as conchas-cavalo, as maiores do Hemisfério Norte. Sua estrutura em forma de fuso podem crescer até 60 cm; por sua enormidade, os legisladores da Flórida nomearam esta espécie a concha do estado em 1969. No entanto, os tamanhos documentados em fotos históricas da praia não são mais vistos. Pesquisadores descobriram que um século de colheita não regulamentada os colocou em risco de extinção.

Mais ao sul, as conchas-rainhas, rosadas e brilhantes, do tamanho de uma bola de futebol, são tão evocativas de Florida Keys que as pessoas nascidas nas ilhas são chamadas de "conchas". Mas a população desta espécie sofreu uma queda em meados do século 20 e nunca se recuperou, apesar de que a Flórida proibiu a pesca comercial de conchas desde 1975 e todo tipo de colheita desde 1986. 

A perda desta população agora se espalhou para as Bahamas e o Caribe. Pesquisadores alertam que o número de rebanhos de búzios das Bahamas – que exporta grande parte da carne de búzios consumida nos Estados Unidos –  agora está abaixo do mínimo que os animais precisam para se reproduzir.

As conchas, descartadas depois que o molusco é removido para cozinhar, sujam uma praia nas Bahamas, onde a espécie é um prato favorito e também um produto de exportação importante.

Foto de Nathan Derrick Getty Images

Lições do passado

Devido à falta de dados antes de meados do século 20, quantificar o status de dezenas de milhares de outros moluscos no mar é um grande desafio. Susan Kidwell, paleontóloga da Universidade de Chicago, foi pioneira no uso de estudos comparativos entre espécies vivas e mortas para analisar populações de conchas do passado, descobertas em sedimentos oceânicos, com espécies de conchas que vivem hoje. Em áreas de impacto humano, como em despejos de esgoto, dragagem do fundo do mar ou mudanças significativas pelo uso da terra, as populações atuais diminuem. Em alguns casos, desapareceram.

Kidwell vinculou o colapso de um vasto ecossistema marinho, que uma vez prosperou na plataforma continental do sul da Califórnia, por exemplo, à introdução de gado pelos colonos espanhóis. Registros fósseis no fundo do mar mostram que poucos sedimentos fluíram das pradarias costeiras da região antes da década de 1770. Um século de pastoreio desmedido transformou esse ecossistema, enviando megatons de sedimentos dos rios para o mar. Braquiópodes e vieiras que viveram nesta plataforma por 4 mil anos não toleraram o lodo e morreram. As amêijoas da lama tomaram seu lugar.

As pesquisas comparativas também estão começando a mostrar como o aquecimento das temperaturas oceânicas pode ser desastroso para os moluscos marinhos nativos. Uma equipe liderada por Paolo G. Albano, na Estação Zoológica Anton Dohrn, na Itália, descobriu uma perda de quase 90% de populações nativas nas águas rasas de Israel, no Mar Mediterrâneo, uma das partes de aquecimento mais rápido dos oceanos globais.

Estes estudos podem ser “como escrever obituários”, diz Kidwell. Mas eles também podem oferecer compreensão sobre recuperação e resiliência. Kowalewski e colegas realizaram este tipo de pesquisa nos prados de ervas marinhas do Big Bend, no norte do Golfo da Flórida, um dos ecossistemas costeiros menos perturbados dos Estados Unidos. Após coletar e analisar mais de 50 mil conchas, eles descobriram que as populações de moluscos que vivem hoje nos prados de Big Bend se parecem muito com as que viveram nos séculos anteriores.

Kowalewski espera replicar a pesquisa em uma das regiões onde a Flórida está perdendo ervas marinhas. Se os peixes-boi estão morrendo, é lógico que outros animais que dependem das gramíneas também estejam em perigo, ele aponta.

Pelo amor das conchas

Na Ilha Sanibel, na costa sudoeste da Flórida, os moluscos cavam, borbulham e deslizam pela areia molhada em um colorido desfile de conchas. Vinte e cinco anos atrás, Sanibel se tornou a primeira cidade dos EUA a proibir o “descascamento vivo”, a prática de coletar e matar moluscos para obter suas conchas. 

O diretor de ciências e curador do Museu Nacional Shell Sanibel’s Bailey-Matthews, José H. Leal, reconhece que pode parecer até estranha esta medida para proteger os moluscos, dado o aquecimento dos oceanos e outras “realidades cruas das mudanças no mundo”. Mas ajudar os turistas a apreciar os animais dentro da concha tanto quanto o exterior é um passo crucial para ajudá-los a entender o que está acontecendo no mar, diz Leal. “Mesmo no nível subliminar, se as pessoas entenderem a complexidade desses animais e sua importância, também perceberão a necessidade de proteger os ecossistemas oceânicos.”

Os parques estaduais de Delaware estão entre um número crescente de parques que buscam baixar o impacto do chamado beachcombing (tradução livre para pegar objetos na praia): pedindo aos visitantes que também deixem as conchas vazias em paz. No Delaware Seashore State Park, há placas que aconselham os visitantes a “deixar as conchas onde estão ou tirar uma foto de uma criatura marinha na areia. Afinal, o objetivo de curtir a natureza é mesmo por seu estado natural.”

A iniciativa lançada durante pandemia, quando as pessoas desciam às praias em números recordes para escapar do confinamento, se baseia na ética de “não deixar rastros”, na qual Delaware trabalha há décadas, diz o diretor de parques estaduais Ray Bivens, que começou com a agência como um naturalista. Quando as conchas se acumulam na praia, são reutilizadas pelos caranguejos-eremitas, fornecem habitat para outros animais e servem de camuflagem para pequenos ovos e filhotes de pássaros.

“A maioria das pessoas realmente quer fazer o correto”, diz Bivens. “Esses valores ecológicos fazem sentido, mesmo que as pessoas tenham passado a vida inteira pegando conchas da praia.”

Resistir ao desejo de recolher essas espécies também significa que outro visitante, talvez uma criança, experimente a maravilha de encontrar uma concha.

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